Mediante revisão bibliográfica e análise das construções em que o verbo pegar aparece nos corpora de língua falada, sob o enfoque sociofuncional, pode-se considerar que o este verbo está passando por um processo de gramaticalização chegando mesmo ao nível do discurso, com desbotamento semântico e um acréscimo de valorização pragmática, fato este constatado a partir da verificação dos contextos com o verbo serem em sua maioria de sentenças de alta transitividade. Estar uma sentença com alta transitividade, de acordo com Hopper e Thompson (1980), significa que há uma tendência muito forte na fala desses informantes de formular seu discurso com informações salientes ou com conteúdo mais preciso, enquanto que nas sentenças de plano de fundo estão as informações de natureza complementar e mais periféricas.
Constatou-se que a transitividade e seus traços sintático-semânticos, propostos por Hopper e Thompson, colaboram para a compreensão do processo de gramaticalização, posto que a presença de alguns traços ou mesmo a sua ausência contribui para que a sentença seja tanto de figura/fundo quanto se se trata de um verbo com suas características semânticas mantidas, ou se sofreu desbotamento de seus traços semânticos prototípicos que o caracterizam como um verbo, categorizando-se como um sequenciador intensificador/ focalizador, ou seja, discursivizando-se.
Em relação às variáveis independentes linguísticas, todos os traços sintático- semânticos que contribuem para a alta transitividade (como dois ou mais participantes, verbo de ação, aspecto acabado e pontuado, sentença afirmativa, modo real, sujeito agentivo e intencional, objeto individuado e afetado) aparecem nos corpora em maior quantidade do que os traços que contribuem para a baixa transitividade. Isso indica que há uma propensão maior de usos de sentenças com alto teor transitivo, ou seja, que possuem plano de figura, trazendo informatividade ao interlocutor. São informações cujo conteúdo é mais saliente e seus eventos mais dinâmicos, com ações acabadas e pontuadas no tempo.
As variáveis independentes sociais evidenciaram que: quanto ao cruzamento entre a variável tempo real e alta e baixa transitividade, pegar aparece em mais construções de alta transitividade nos inquéritos da década de 1990, o que mostra que há uma mudança em progresso quanto ao seu uso, em relação aos falantes da década de 1970. Além de não terem aparecido, em quatro inquéritos NURC/70, nenhuma ocorrência de pegar, seus contextos são mais frequentes em sentenças de baixa transitividade. A correlação entre escolaridade e alta
e baixa transitividade mostra que há um movimento ascendente quanto aos usos de alta transitividade, pois a frequência aumenta entre falantes do Ensino Médio para o Fundamental e entre os falantes do Nível Superior, isto é, está havendo uma mudança quanto ao uso de plano de figura vindo de baixo para cima, do nível básico ao superior. Já o cruzamento entre as variáveis independentes gênero e faixa etária/ tempo aparente, em nada variaram quanto ao uso de sentenças de alta e baixa transitividade, não tendo relevância, apenas que, quanto ao gênero, ambos os sexos e em todas as faixas etárias utilizam, com mais frequência, a alta transitividade.
A relação que se buscou fazer entre transitividade e gramaticalização mostrou que em todos os contextos de baixa transitividade as sentenças são mais abstratas ou com nuances de abstração. Porém, isso não se aplica aos usos de sentenças de alta transitividade, por esta abarcar tanto sentenças com o verbo pegar com seu sentido mais concreto quanto menos concretos.
Outro fator observado em relação ao processo de gramaticalização por que passa o pegar é que há dois momentos marcados pelos princípios de persistência, de
decategorização (HOPPER, 1991), indo à discursivização. Segundo o princípio da persistência, pegar aparece em sentenças com nuances de abstração ainda com resquícios do
seu sentido mais elementar, de “pegar com as mãos”, “agarrar”, “grudar” (cf. BORBA et al., 1990, CARVALHO, 1955, HOUAISS, 2001, MICHAELIS, 1998, dentre outros dicionários). No processo de decategorização, pegar apresenta-se, nos dados coletados dos corpora, perdas significativas de propriedades sintáticas da categoria plena de verbo, e assume atributos característicos de categorias secundárias, como quando passa a ser um sequenciador intensificador/ focalizador, ou mesmo quando passa a assumir as características número- pessoais e modo-temporais do V2, em CFFs.
Percebe-se que o verbo pegar com sua plurissignificação é um verbo que está em processo de gramaticalização atestado nesta polissemia, e a transitividade ajuda a entender quais são os traços sintático-semânticos mais presentes nas construções em que pegar aparece, pelo menos nas encontradas nos corpora, indo do sentido mais concreto ao menos concreto, de orações coordenadas a CFFS, sequenciadores intensificadores/ focalizadores a frases-feitas, estas duas últimas mais cristalizadas. A perda de transitividade de pegar em CFFs e em sequenciadores intensificadores dá-se pelo verbo em si não subcategorizar argumentos e sua análise somente poder ser feita a partir do olhar voltado para o V2, verbo principal da oração, no caso das CFFs, e de sua forma estar tão cristalizada, com perdas significativas de sentido.
O continuum de gramaticalização/discursivização do verbo pegar apresenta-se desta forma:
pegar sentido pleno mais concreto > pegar sentido pleno menos concreto > pegar em CFFs como V1 > pegar como sequenciador intensificador/ focalizador > pegar em frases-feitas/ discursivizadas18.
18 Como é muito tênue a linha que separa as frases-feitas das discursivizadas, não se pode estabelecer ao certo quem está mais gramaticalizada das duas, por isso estão no mesmo continuum.
REFERÊNCIAS
ABRAÇADO, Jussara, RONCARATI, Cláudia (Orgs.). Português Brasileiro: contato lingüístico, heterogeneidade e história. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.
BELINE, Ronald. A variação lingüística in FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à
Lingüística. São Paulo: Contexto, 2002.
BORBA, Francisco da Silva (Coord.) et al Dicionário Gramatical de verbos do português
contemporâneo do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1990.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolingüística na sala de aula. São Paulo: Parábola, 2004.
CALVET, Louis Jean. Sociolingüística: uma introdução crítica. Tradução Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2002.
CARVALHO, José Mesquita de. Dicionário Prático da Língua Nacional. Porto Alegre: Livraria do Globo S.A., 1955, p. 865.
CASTILHO, Ataliba Teixeira de. A gramaticalização. Estudos lingüísticos e literários. n. 19. Salvador: UFBA, 1997.
CASTILHO, Ataliba Teixeira de. A língua falada no ensino de português. São Paulo: Contexto, 1998.
CEGALLA, D. P. Novíssima gramática da Língua Portuguesa. 2 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.
CEZARIO, Maria Maura; VOTRE, Sebastião. Sociolingüística. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (Orgs.). Manual de lingüística. São Paulo: Contexto, 2008. p. 141-153.
CHAGAS, Paulo. A mudança lingüística. In: FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à
CUNHA, C. e CINTRA, L. Nova Gramática do Português. Rio de janeiro: Nova fronteira, 1985.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Instituto Antonio Houaiss de lexicografia e
Banco de Dados da Língua Portuguesa. S/C Ltda. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
FARACO, Carlos Alberto. Lingüística Histórica: uma introdução à história das línguas. São Paulo: Parábola, 2005.
FARACO, Carlos Alberto. Por uma Pedagogia da Variação Lingüística. In: CORREA, Djane Antonucci (Org.). A Relevância Social da Lingüística: Linguagem, teoria e ensino. São Paulo: Parábola; Paraná: UEPG, 2007. p. 21-43.
FERREIRA, M. Aprender e praticar gramática: teoria, sínteses das unidades, atividades práticas, exercícios de vestibulares. 2° grau. São Paulo: FTD, 1992.
FREITAG, Raquel Meister Ko. Gramaticalização e variação de acho (que) e parece (que)
na fala de Florianópolis. Tese de Doutorado. Pós-graduação em Lingüística. Universidade
Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2003. Disponível em:
<http://www.tede.ufsc.br/teses/PLLG0275.pdf>. Acesso em: 23 nov 2008.
FURTADO DA CUNHA, Maria Angélica; SOUZA, Maria Medianeira de. Transitividade e
seus contextos de uso. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.
FURTADO DA CUNHA, Angélica. Funcionalismo. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo.
Manual de lingüística. São Paulo: Contexto, 2008, p. 157-173.
GONÇALVES, Sebastião Carlos Leite, LIMA-HERNANDES, Maria Célia, CASSEB- GALVÃO, Vânia Cristina, CARVALHO, Cristina dos Santos. Tratado Geral sobre
Gramaticalização. In: GONÇALVES, Sebastião C. L. et al Estudo de caso. In: ____(Org.).
Introdução à Gramaticalização: princípios e métodos. São Paulo: Parábola, 2007. p. 15-65.
GONÇALVES, Sebastião C. L. et al Estudo de caso. In: GONÇALVES, Sebastião C. L.; LIMA-HERNANDES, Maria Célia; CASSEB-GALVÃO, Vânia Cristina (Org.). Introdução
à Gramaticalização: princípios e métodos. São Paulo: Parábola, 2007. p. 91-156.
HOPPER, Paul; THOMPSON, Sandra. Transitivity in grammar and discourse. Language. v. 56, p. 251-299, 1980.
HOPPER, Paul J. On some principles of grammaticalization. In: TRAUGOTT, Elizabeth Closs; HEINE, B. (Eds.). Approaches to grammaticalization. Philadelphia: John Benjamins, v. 1, p. 17-35, 1991.
HOPPER, Paul J.; TRAUGOTT, Elizabeth Closs. Grammaticalization. Cambridge: CUP, 1993.
MEILLET, Antonie. L’évolution des formes grammaticales. In: Linguistique historique et
linguistique générale. Paris: Libraire Ancienne Honoré Champion. 1948. p. 130-148.
MICHAELIS: Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998, p. 1581.
MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.) Introdução à sociolingüística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2003, 2007.
MOLLICA, Maria Cecília. Fundamentação teórica: conceituação e delimitação. In:
MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.) Introdução à sociolingüística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2007. p. 09-14.
MOLLICA, Maria Cecília. Relevância das variáveis não lingüísticas. In: MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.) Introdução à sociolingüística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2007. p. 27-31.
MONTEIRO, José Lemos. Para compreender Labov. Petrópolis/Rio de Janeiro: Vozes, 2000.
MOTTA, Jacyra, ROLLEMBERG, Vera (Orgs.). A Linguagem falada culta na cidade de
Salvador: materiais para seu estudo. v. 1. Diálogos entre informantes e documentador.
Salvador: Instituto de Letras da UFBA, 1994.
MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Orgs.). Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras. v. 1 e 2. São Paulo: Cortez, 2001.
NARO, Anthony Julius. O dinamismo das línguas. In: MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.) Introdução à sociolingüística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2007. p. 43-50.
NEVES, M. H. M. Gramática de Usos do Português. São Paulo: Editora Unesp, 2000. NEVES, Maria Helena de Moura. O Funcionalismo em Lingüística. In: ______. A Gramática
Funcional. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
PAIVA, Maria da Conceição de. A variação gênero/sexo. In: MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Org.). Introdução à sociolingüística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.
PAIVA, Maria da Conceição. A variável gênero/sexo. In: MOLLICA, Maria Cecília;
BRAGA, Maria Luiza (Org.) Introdução à sociolingüística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2007.
PASCHOALIN, M. A. Gramática: teoria e exercícios. São Paulo: FTD, 1989.
PEZATTI, Erotilde Goreti. O Funcionalismo em Lingüística. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à lingüística: Fundamentos epistemológicos. Vol. 3. São Paulo: Cortez, 2004.
ROCHA LIMA, C. H. da. Gramática normativa da língua portuguesa: prefácio de Serafimda Silva Neto, 37 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.
RODRIGUES, A. "Eu fui e fiz esta tese". As construções do tipo foi e fez no Português do Brasil. Tese de Doutoramento. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2006a. RODRIGUES, Angélica T. Carmo. CFFs: as construções do tipo foi fez no português do Brasil. Alfa, São Paulo, 50 (1) p. 39-58, 2006b.
RODRIGUES, Angélica T. Carmo. Focalização no Português do Brasil: o caso das CFFs. 56º.
Seminário do Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo. São José do Rio
Preto, 16-18 de Julho, 2008.
RODRIGUES, Angélica T. Carmo. Grammaticalization of ir (go) and pegar (take)
through foi fez constructions in Brazilian Portuguese. Inédito.
SILVA, Giselle Machline de Oliveira & SCHERRE, Maria Marta Pereira (org.).
Padrões sociolingüísticos: análise de fenômenos variáveis do português falado na
cidade do Rio de Janeiro. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro: Departamento de Lingüística e Filologia, UFRJ, 1998.
SIGILIANO, N. O telefone tocô eu peguei e:: quem tá falano - A polissemia do verbo pegar. Dissertação de Mestrado. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 2008. SILVA, G.M.; PAIVA. M. A. Visão de conjunto das variáveis sociais. In: SILVA, G. SCHERRE, M. M. Padrões Sociolingüísticos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996. p. 359-0.
SWANDER, A.; SANTOS, K. F. dos. A transitividade segundo a tradição gramatical e o funcionalismo. In: VII JORNADA CIENTÍFICA DA UNIVERSO & V ENCONTRO
ANUAL COM A INICIAÇÃO CIENTÍFICA. Anais. São Gonçalo: Universo Gráfica, 2004a. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/soletras/7/02.htm> Acesso em: 20 jun. 2007. SWANDER, A. Uma nova perspectiva para o ensino da transitividade. In: I CONGRESSO INTERNACIONAL DE FILOLOGIA E LINGÜÍSTICA. Anais, v. 1. Rio de Janeiro: CIFEFIL, 2004b. Disponível em:
<http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno04-18.html> Acesso em: 18 jun. 2007. TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolingüística. 8 ed. São Paulo: Ática, 2007. TAVARES, Maria Alice. Se eu fosse você, pegaria e...: construções do tipo
[IR/CHEGAR/PEGAR (E) V2] na escrita? In: MOURA, Denilda. (Org.). Os desafios da
língua: pesquisas em língua falada e escrita. Maceió: EDUFAL, 2008. p. 443-446.
TRAUGOTT, Elizabeth Closs; HEINE, Bernd. Approaches to grammaticalization. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins. v.1 e 2, 1991.
VOTRE, Sebastião Josué. A relevância da variável escolaridade. Cap. 6. In: MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (org.). Introdução à sociolingüística: o tratamento da
variação. São Paulo: Contexto, 2003.
VOTRE, Sebastião Josué. Relevância da variável escolaridade. In: MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.) Introdução à sociolingüística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2007. p. 51-57.
WEINREICH, Uriel; LABOV, William & HERZOG, Marvin I. Fundamentos empíricos
para uma teoria da mudança lingüística. Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Parábola,