Diante do que já foi discutido, os Mendonça, indígenas migrantes da Paraíba, buscam sua sobrevivência no lugar-refúgio - “Amarelão” no Rio Grande do Norte a partir da
primeira metade do século XIX. Outros deslocamentos se sucederam, pelo menos até o início do século XX, conforme aponta a história oral.
Os documentos e bibliografia sobre este grupo familiar são raros, encontrando-se algumas referências em Lima (1990), que menciona a chegada deles no “Amarelão”, vindos do “Brejo” da Paraíba, fato que ocorreu na primeira metade do século XIX. Segundo o referido autor, deu-se também no mesmo período a migração de um casal de índios “domesticados”57, saídos de São Gonçalo58
. ( cf. ANEXO J). O autor resume:
Há mais de um século, veio do Brejo paraibano, Ignácio Barbosa, casado com Izabel Maria da Conceição e fixou-se no lugar Amarelão. Mais ou menos na mesma época, chegava de São Gonçalo, Antonio José de Mendonça (índio domesticado) com sua mulher. (LIMA, 1990, p.20. Grifos da pesquisadora).
O estudioso ainda afirma que “a descendência dos casais se entrelaçou (endogamia), dando origem aos Mendonça do Amarelão e que se agrupavam em uma aldeia” (1990,p.20). Percebe-se que o autor indica a chegada ao “Amarelão” do casal Barbosa e outro Mendonça, sendo, portanto, estas duas famílias que se entrelaçaram e deram origem à família extensa, prevalecendo, no entanto, o nome Mendonça para a sua identificação.
A história oral do grupo, por sua vez, corrobora as migrações do Brejo paraibano, mais especificamente vindos de Bananeiras59
(cf. ANEXO J), de onde grande parte dos Mendonça lembra que seus antecessores partiram para o “Amarelão”, sem, no entanto, esclarecer os motivos do deslocamento, apenas se referindo a uma possível situação de dificuldade, como informa o Sr. Honório: “....eu acho que é porque tava ruim lá para eles....”60. Mas, a história
57
“Índios domesticados” é uma variante semântica para indicar o índio destribalizado e vilado que também recebia o nome de “caboclo”. (LOPES, 2005, p.442).
58
Omunicípio de São Gonçalo do Amarantes (RN) está localizado ao norte da capital, Natal. Segundo Medeiros Filho, “era o local onde existia a aldeia de São Paulo da Ribeira do Potengi, à margem direita do rio homônimo. Os documentos da época relatam sobre registros de rebeliões contra os colonos e fugas indígenas do local” (MEDEIROS FILHO,1997, p.155).
59
Situada na região norte da Paraíba, integrada na micro-região do Brejo Paraibano e daí, fazendo parte do Pio norte do Borborema, contando com pouco mais de vinte e cinco mil habitantes. Superfície: 284 Km2, distando cento e quarenta km de João Pessoa; altitude em 552 m acima do nível do mar. Relevo: serras altas. Limites: Norte- Dona Inês e Cacimba; Sul – Borborema e Pirituba; leste – Belém; Oeste- Solânea. O clima de Bananeiras é temperado (RODRIGUEZ,2002).
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oral não se referencia à cidade de São Gonçalo como outra localidade de onde possivelmente teriam migrado, conforme aponta Lima (1990).
É importante lembrar que, além da questão de terras, outras inúmeras razões podem ter ocasionado esses deslocamentos, considerando-se os períodos de secas que assolaram a Paraíba, além da fome e das epidemias que vitimaram a população, inclusive do Brejo61.
Outros dados colhidos, a partir da história oral do grupo, informam que as migrações continuaram até início do século XX, fatos estes que marcaram a memória de seus atores, revelando um forte elo com o antigo lugar na Paraíba, e o estabelecimento no “Amarelão” há mais de cento e cinqüenta anos.
O Sr. José Honório (66 anos), morador do “Amarelão”, afirma que seus avós paternos são da família Barbosa (tronco familiar) e os maternos, em especial, da família dos Brejeiros (família composta a partir dos Barbosa)62. Ele afirma também que os Mendonça, antes mesmo de chegarem a se estabelecer no “Amarelão”, já viviam na Paraíba:
Esse pessoal, que veio de fora, de Brejo de Bananeiras, já foi uma família de Mendonça que veio de lá, mas era pequena e trouxeram esse nome prá’qui. [referindo-se ao nome da família e do Amarelão]. Já lutaram prá tirar o nome de Amarelão e queriam passar sabe pr’á qui nome? Rocinha! Mas, não tiraram não!63
Percebe-se, inicialmente, na declaração do Sr. José Honório, a alusão feita ao lugar que deu origem às migrações dos Mendonça na Paraíba, bem como ao fato de, por motivos não esclarecidos por ele, terem migrado “há mais de cento e cinqüenta anos atrás para o Amarelão”, conforme ele próprio afirmou.
Ainda em sua fala, o Sr. Honório demonstra uma forte ligação e pertencimento ao “Amarelão”, pois, como lembrou e comentou depois mais detalhadamente, houve fazendeiros
61
Depois da seca de 1845-1846 que assolou a Paraíba, ocorreu no Brejo alguns anos depois, a epidemia de
cólera-morbus, que dizimou grande parte da população: “O Brejo, sobretudo transformou-se em campo aberto à
invasão destruidora, que foi deixado em sua passagem, vilas e povoações ....abandonadas” (ALMEIDA,1957, p. 125-126). Segundo os registros da época, a peste causou em pouco mais de um mês mais de trinta mil mortes na Paraíba. Em Brejo de Areia houve 3.308 baixas em menos de dois meses. Em 1862 a cólera vitima 1.792 pessoas em Brejo de Bananeiras (ALMEIDA, 1957).
62
A família extensa Mendonça é composta por vários grupos familiares: Barbosa; Tinga, Brejeiros, Genésio, Mandu (Balbino), Vitoriano, Caetano, Biano, Eleodório, mas todos fazem referência à família extensa Mendonça. (cf. detalhes na seção 4).
63
Entrevista concedida por Sr. José Honório sobre as origens dos Mendonça. Gravada e transcrita por Jussara Galhardo em junho de 2006.(V. ANEXO AP).
locais que desejavam mudar o nome do lugar, o que foi repudiado pelo grupo, que não aceitou tal desfeita. Os fatos relatados pelo narrador também compõem o corpus da memória coletiva, impulsionando a família extensa Mendonça a permanecer unida, pelos seus fortes laços de parentesco e pela ligação com o lugar de origem.
A Sra. Francisca do Nascimento Justino, oitenta e dois anos, comenta:
Os pais de meus avós [paternos] vieram do Brejo da Paraíba. Minha mãe não era daqui não, era brejeira, mas casou-se aqui. Ela veio do Brejo de Bananeira da Paraíba”. Quando eu era pequena eu ouvia falar muito sobre que o povo daqui vinha do povo índio. Os meus avós falava de ‘cabôca pega a casco de cavalo’. Aqui tem uma parte com índio. 64
Também, nesta fala, destacam-se momentos da família que migrou da Paraíba, tanto com relação a seus antepassados mais distantes - as gerações muito antigas (“os pais de meus avós”), que remontam à segunda metade do século XIX -, como também, no tocante às migrações mais recentes, como no caso da mãe da Sra. Francisca (no início do século XX).
Estes depoimentos levam a crer que essas migrações ocorreram a partir de meados do século XIX65,com prosseguimento até início do século seguinte, marcando a memória coletiva do grupo, e que, conforme esta senhora narra, foram esses migrantes indígenas que formaram a família Mendonça: “O povo daqui vem do povo índio” 66.
Por outro lado, numa localidade chamada “Serrote de São Bento” (distante apenas cinco quilômetros a oeste do “Amarelão”), abrigam-se poucos Mendonça no lugar, por ser o reduto dos Batista. Estes se reportam a uma outra origem familiar, embora tenham se estabelecido na região também por meio de migrações, que se iniciaram a partir dos Conrado – geração mais antiga dos Batista -, por volta da primeira metade do século XIX (cf. ANEXO J).
Segundo aponta a história oral, os Conrado teriam migrado de Araruna – localidade do Agreste paraibano, ao norte de Bananeiras -, há mais de cem anos, estabelecendo-se no
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Entrevista concedida pela Sra. Francisca Justino sobre as origens dos Mendonça gravada e transcrita pela autora em junho de 2006 (Grifos da pesquisadora).
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Algumas das razões dessas migrações podem ter sido causadas pelos períodos de secas na Paraíba que aconteceram nos períodos de 1692,1711,1723-27,1736-37,1746-47,1777-78,1791-93,1803-04,1824-25,1845- 46,1877-79,1888-89 e 1898 (ALMEIDA,1957, p.125).
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Entrevista concedida pela Sra. Francisca Justino sobre as origens dos Mendonça gravada e transcrita pela autora em junho de 2006 (Grifos da pesquisadora).
“Serrote de São Bento”, onde deram origem à família dos Batista. Alguns deles se uniram aos Mendonça (cf. seção 4).
Embora tenham laços de parentesco com os Mendonça, os Batista, por sua vez, se consideram pertencer a uma outra família e alguns chegam a não simpatizar com aqueles. Há discórdias, sobretudo, por motivo da morte de um Batista ocorrida há mais de quatro décadas atrás, quando se envolveram as duas famílias em brigas, o que resultou na morte do sanfoneiro Vicente Batista.
Além desse aspecto já apontado, no que se refere às origens ( algo que eles comentam discretamente), os Batista dizem pertencer a uma linha ancestral “melhor” proveniente dos Conrado Batista, que, conforme eles apontam, eram os “índios brancos”, enquanto os Mendonça têm uma linhagem que vem dos “índios escuros”.
De fato, o fenótipo dos Batistas apresenta a cor da epiderme mais clara e alguns têm cabelos também claros. Ainda segundo os Batista, na voz do Sr. Luís e da Sra. Marina (pai e filha), é por este motivo que eles herdaram “certas qualidades”, como por exemplo, são “mais civilizados”, “mais educados”, enquanto os Mendonça são “brabos e grosseiros”.
O Sr.Luís, ao falar com uma de suas bisnetas, afirma: “Essa aqui tem o sangue do velho Tapuia”.67
Isso traduz uma memória conectada aos antecessores indígenas, referindo-se à categoria Tapuia, que, semanticamente, está ligada aos índios migrantes do Agreste paraibano, mais precisamente, de “Araruna”.
Ainda com relação às migrações dos Mendonça, há indicações também feitas por Cascudo, em sua publicação “História de um Homem” (1991), quando ele fala sobre o político João Câmara, referenciando uma importante descrição sobre os Mendonça, embora breve e que remonta à primeira metade do século XIX (por volta de 1840). Escreve Cascudo:
Pelos trilhos, dez quilômetros além, estendia-se o Amarelão onde os Mendonça moravam há mais de um século em regime tribal, mestiços de tupís, fugidos dos aldeiamentos que se tornaram vilas (...)(CASCUDO, 1991, p. 37). Grifos da pesquisadora.
67
Entrevista concedida pelo Sr. Luís Batista sobre as origens da família de mesmo nome. Gravada e transcrita por Jussara Galhardo em junho de 2006.
Cascudo, ao se referir aos Mendonça, utiliza a expressão “fugidos dos aldeiamentos que se tornaram vilas”, o que indica a sobrevivência do grupo “indígena-mestiço”68, em meio a um momento crítico de expulsões dos territórios tradicionais, bem como de deslocamentos dos povoados, onde se implantaram as vilas de índios e onde os indígenas eram chamados de “caboclos” (LOPES,2005).
Entre os Mendonça, que vivem no “Assentamento Santa Terezinha”– local conquistado por este grupo desde 1994, junto ao MST – há também relatos sobre antepassados que se deslocaram da Paraíba e que deram origem à família: “Meu avô por parte de pai é dos ‘tronco véio’ e veio do “Brejo de Bananeiras”. Era cabôco véio brabo escondido nessas mata, fugindo. Era índio, entendeu?!”.69
Percebe-se, na descrição do narrador, que, ao utilizar o termo “tronco véio”, ele faz uma menção ao avô, que era “cabôco brabo nas matas” e “era índio”, fazendo uma ligação entre os antecessores indígenas e os Mendonça da atualidade, numa relação de parentesco muito próxima, bem como presente na memória social do grupo.
A fala dele também expressa a “brabeza” do avô, quanto a ser arredio, estando essa noção de “brabeza” ligada ao fato de ele preferir se esconder em algum lugar na mata, em algum refúgio (OLIVEIRA, 2004).
Ainda conforme ele indicou em seu discurso, seu avô partira da Paraíba, no início do século passado, o que confirma terem as migrações dos Mendonça continuado até, pelo menos, o início do século XX, tal como a história oral informa. Quase um século de migrações vindas do estado vizinho, mais especificamente de Bananeiras, marcou, assim, a sobrevivência desta família que procurou um lugar-refúgio no Rio Grande do Norte, possivelmente por meio da estrada de Cuité que se ligava a esse Estado70.
As informações coincidentes, que formam o inventário da memória coletiva, falam dos antecessores indígenas e a chegada destes ao lugar de origem da família extensa – o “Amarelão”. Os discursos, não sendo apenas meros relatos factuais, operam como instrumentos utilizados para o fortalecimento da identidade coletiva e sua conexão com seus antecessores indígenas.
68
A idéia de “mestiço” nesta passagem do texto do autor está semanticamente elaborada em contraposição à idéia de “índio puro”.
69
Entrevista concedida por Sr. José Raimundo Silva sobre as origens dos Mendonça. Gravada e transcrita pela autora em junho de 2006 (Grifos da pesquisadora).
70
No Brejo havia uma estrada que atravessava o sertão de Bruxaxá, na direção do interior. Seguindo os rumos dos antigos caminhos indígenas, a estrada de Cuité penetrava o Rio Grande do Norte (ALMEIDA,1957).
Conforme Pollak anuncia: “A memória ao definir o que é comum a um grupo e o que o diferencia dos outros, fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as fronteiras sócio-culturais” (1989, p.1).
A relação contextual lança mão de lembranças pretéritas, não como coisas, que não existem mais, mas como algo que mantém uma relação ativa com o presente, unindo os “tronco véio” às “pontas de galho”71. A memória, assim, torna-se importante para o
fortalecimento da identidade coletiva. Este par de categorias faz referência a ancestrais comuns (sejam reais ou imaginários) e aponta para uma continuidade entre as gerações e famílias (ARRUTI, 2004).
A história oral também se refere a certos lugares da memória que estão associados às lembranças dos primeiros habitantes do lugar. Os Mendonça referem-se “aos Tapuia que viviam nas cavernas, nas pedras”; “a caverna dos Tapuia” (nas proximidades do “Amarelão”); a “Pedra das Letras” (cf.ANEXO L), uma rocha com antigas inscrições “feita pelos antigos habitantes daqui, os índios”72. De acordo com os relatos, as “letras” são
representações simbólicas que se inscrevem na paisagem do lugar, fazendo uma conexão com os antepassados indígenas, que ali viveram. Segundo declaração do Sr. Raimundo Barbosa, ex-Presidente da Associação Comunitária do AST: “Eram nas cavernas, onde viviam os ‘Tapuia’.Tem uma caverna, onde vivia os índios lá”73
.
Estes depoimentos indicam que os lugares da memória social têm um poder que, estando fixo nas pedras, nas cavernas, nas ruínas, comemorações e rituais, são capazes de instigar um determinado grupo a se diferenciar de outros por seu inventário específico, como também de abrir espaços para que os grupos oprimidos possam fortalecer suas identidades através da recuperação de sua memória social. (HALBWACHS apud SANTOS, 2003).
Portanto, os lugares da memória, referenciados por seus atores, são instrumentos simbólicos que reforçam as relações sociais do grupo e o sentimento de pertença ao lugar de origem. Ao mesmo tempo, a memória, ao apontar para os migrantes indígenas, determina as fronteiras culturais nas relações intersocietárias e demarca seus antigos laços de parentescos.
71
“Pontas de galho”, é uma referência utilizada pelas gerações mais novas ao fazerem conexão com os “tronco véio”, ou seja, seus antecessores. Esse termo é utilizado pelos Mendonça (João Câmara),os Eleotério (Canguaretama), os Caboclo de Açu (Açu) e a Comunidade de Bangüê (Açu), entre outros grupos rurais do Estado.
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Entrevista concedida pela Sra. Ivoneide Campos sobre os lugares da memória social. Gravada e transcrita pela autora, em junho de 2006.
73
Entrevista concedida pelo Sr. José Barbosa sobre os lugares da memória social no “Amarelão”. Gravada e transcrita pela autora, em junho de 2002.
A memória social também indica a existência de um antigo ritual que inspirou o nome do lugar em que vivem, demonstrando uma forte conexão com seus antecessores, como será visto no próximo item.
3.3 DANDO NOME AO LUGAR: “ACORDAR O SOL” – ANTIGO RITUAL INDÍGENA