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A teoria do discurso é conseqüência e manifestação da “virada lingüística”, precipitada por críticas ao positivismo, pelo impacto das idéias vindas do estruturalismo e pós-estruturalismo e pelos ataques pós-modernistas à epistemologia dominante na época (MARQUES, 2008). Sua origem tem como base a crítica à ciência social tradicional, o que

significa que ela possui uma fundamentação diferenciada das outras epistemologias e metodologias. Segundo Lincoln e Guba (2007), sua proposta revela uma forma de investigação denominada de construcionismo social e construtivismo.

Essa perspectiva rejeita a noção realista ingênua de que a linguagem representa um meio neutro de refletir ou de descrever o mundo, e atribui ao discurso uma importância central, uma vez que ele é visto como forma de ação no mundo e na realidade socialmente construída.

Em geral, a teoria do discurso constitui uma das diversas vertentes das chamadas epistemologias pós-modernas, embora a definição deste último termo não seja isenta de ambigüidades, como defende Hamlin (2008), uma vez que as idéias básicas dessas abordagens epistemológicas giram em torno das seguintes premissas: nenhuma pessoa ou grupo pode sustentar uma perspectiva neutra ou "descolada" de pontos de vistas específicos; toda compreensão ou explicação alcançada será sempre parcial (assim como falível e transitória); e as identidades não constituem totalidades fechadas e homogêneas.

Nesse sentido, a prática de pressupor ou afirmar a relevância ou validade geral de uma posição é, na melhor das hipóteses, um equívoco metodológico com conseqüências políticas significativas (LAWSON, 1997).

Em razão de sua abrangência, essa teoria se adéqua como fundamento teórico para diferentes abordagens construcionistas sociais no âmbito da análise do discurso (FAIRCLOUGH, 2001; SPINK, 2004;). Por outro lado, os estudos de Ernest Laclau e Chantal Mouffe visam o desenvolvimento teórico, e não contemplam tantas ferramentas práticas para análises textualmente orientadas (JØRGENSEN & PHILLIPS, 2002). Como resultado, pode ser proveitoso completar sua teoria com métodos oriundos de outras abordagens de análise do discurso.

A concepção geral da teoria do discurso reside em expor os fenômenos sociais como eventos nunca conclusivos ou totais. O significado não pode ser fixado de modo tão definitivo, como faz crer a lingüística crítica (FAIRCLOUGH, 2008), e isso abre o caminho para constantes lutas sobre as definições de sociedade, gerando efeitos sociais de contingência e precariedade5 na fixação dos significados, já que não há qualquer previsibilidade ou inexorabilidade social, como garantem Mendonça e Rodrigues (2008).

Sob essa marcação e de acordo com Southwell (2008), a tarefa do analista do discurso consiste em traçar o curso dessas lutas e interlocuções para fixar sentidos - sempre parciais - em níveis específicos de determinada estrutura social. Exemplo disso é representado pelas atuais tecnologias digitais que, ao terem condições de se abrirem para uma multiplicidade de fontes geradoras de inovação, tornam possíveis as apropriações de tecnologia6, ou seja, permitem que um maior número de empresas, comunidades, usuários, e certos setores do estado entrem na arena de significação do software livre, expandindo polissemicamente seus significados.Essas práticas, para Haddon (2005), representam essencialmente novos usos potenciais de uma tecnologia, que já traz, em si, as condições apropriadas para a inovação.

Laclau e Mouffe (2001) desenvolveram sua teoria a partir da desconstrução de outros corpos teóricos como o behaviorismo, funcionalismo estrutural e escolha racional. A análise dos argumentos dessas teorias acabou revelando suas premissas equivocadas, contradições internas e conteúdo ideológico, podendo ser transformados em ferramentas para o pensamento posterior.

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Segundo Mendonça (2008), a precariedade se projeta na medida em que toda a produção de sentido está sempre tendente a ser alterada em função da natureza relacional que envolve a constituição de um sistema discursivo.

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A questão de apropriação da tecnologia é interessante no trabalho de Ferreira e Rocha (2009), uma vez que para estes a redução das tecnologias de informação e comunicação a uma dimensão francamente

performativa, tal como encontramos nas ciências da informação desde seus primórdios, representa somente a

questão de garantir o fluxo seguro e veloz de signos sem que as questões do sentido das mensagens, de sua apropriação, da orientação da arquitetura que permite este fluxo, constituam uma preocupação primeira. Para este projeto, entendemos que as ciências de informação não possibilitam uma compreensão crítica dos processos inovadores com o software livre, e nem apreender seu sentido político.

O método desconstrucionista torna a leitura de Laclau e Mouffe (2001) bastante inacessível, uma vez que pressupõe conhecimento amplo das teorias em que se baseiam (Fenomenologia de Heidegger, Concepção de Jogo de Linguagem de Wittgenstein e Pós- Estruturalismo francês).

Mas para Jørgensen& Phillips (2002), Ernesto Laclau e Chantall Mouffe têm construído sua teoria, combinando e modificando essencialmente duas grandes tradições teóricas, o marxismo e o estruturalismo.

O marxismo fornece um ponto de partida para pensar o social, e o estruturalismo provê uma teoria do significado. Nesse sentido, Laclau e Mouffe (2001) fundem estas tradições em uma teoria pós-estruturalista única que contempla a contingência e o paradoxo como dimensões ontológicas do social.

Para entender a teoria da criação de significado e seu conceito de "discurso", faz- se necessário começar pela lingüística estrutural de Saussure. As críticas pós-estruturalistas à tradição saussuriana podem ser entendidas pelo fato de o signo ser arbitrário e convencional, e o referente não contar para a compreensão e funcionamento dos signos (ARAUJO, 2004), ou seja, entre o significante e o significado não há qualquer relação interior (SAUSSURE, 1988).

Para Araujo (2004), na lingüística de Saussure o que importa é a relação intra- signica, ou seja, o significado é fixado por oposição a outros signos no jogo de regras internas do sistema da langue.

A objeção pós-estruturalista se centrava no pensamento de que o significado não pode ser fixado de forma inequívoca e definitiva. Os pós-estruturalistas concordam que os signos adquirem significados ao serem diferentes uns dos outros, e no uso da linguagem corrente (parole) ao posicionarmos os signos em diferentes relações com outros de modo a adquirirem novos significados (BURUTY, 2008).

Assim, o uso da linguagem é um fenômeno social, ou seja, através das convenções, negociações e conflitos em contextos sociais as estruturas de significado são fixadas e desafiadas.

Nesse aspecto, a criação de significado como processo social ocorre a partir da fixação de sentidos em relações particulares com outros signos. Esse projeto, todavia, é, em última análise, impossível, uma vez que cada fixação concreta de significado é contingente e exige esforço permanente para complementar essa lacuna (LACLAU & MOUFFE, 2000; ŽIŽEK, 2008). Portanto, aqui não se confere uma ênfase unilateral sobre a ação ou estrutura na reprodução e transformação como se fossem mutuamente exclusivas.

Então, o objetivo desse tipo de análise se expressa em mapear os processos pelos quais lutamos para impor os sentidos que queremos que sejam fixados, e identificar como algumas fixações se tornaram tão naturalizadas ao ponto de pensarmos nelas como entidades únicas. Assim, Ernesto Laclau e Chantall Mouffe (2001) apresentam uma definição teórica para discurso:

[a] totalidade estruturada resultante da prática articulatória, nós chamaremos de discurso. As posições diferenciais, na medida em que elas aparecem articuladas dentro de um discurso, nós chamaremos momentos. Em contraste, nós chamaremos elemento qualquer diferença que não é discursivamente articulada. (Laclau e Mouffe 2001: 105; itálico no original)

O efeito de totalidade de uma formação discursiva, no entanto, é meramente contingente, ou seja, trata-se de uma totalidade incompleta e, assim, continuamente sujeita a movimentos de reconfiguração de sentidos. Por essa pauta, um discurso é compreendido como a fixação de sentido no interior de um domínio particular, de modo que os signos de um discurso acabam se tornando momentos, uma vez que são fixadas por meio de suas diferenças com outros significados (posições dos diferenciais) (MENDONÇA, 2008).

Então, um discurso é formado pela fixação parcial de sentido em torno de alguns pontos nodais, conforme lecionam Laclau e Mouffe (2001). Assim, um discurso é estabelecido como uma totalidade na qual cada signo é definido como um momento que se apresenta por intermédio de suas relações com outros signos (SOUTHWELL, 2008).

Isso ocorre pela exclusão de outros significados possíveis, isto é, todas as outras formas possíveis em que os signos poderiam ter sido relacionados com os demais. Portanto, um discurso compreende uma redução de possibilidades, até por ser a tentativa de parar o deslizamento dos signos na relação de uns com os outros como sistema unificado.

As possibilidades que o discurso exclui são denominadas por Laclau e Mouffe com “campo da discursividade” (LACLAU E MOUFFE, 2001, p. 112). O campo de discursividade é um reservatório para o “'excedente de significados”produzido pela prática articulatória, isto é, os significados que cada signo tem, ou teve em outros discursos, mas que são excluídos pelo discurso específico a fim de criar uma unidade de significado.

2.1.2 Lugares do discurso, posições de sujeito e

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