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Inaugurando ao lançar a figura de um pato em formato de gibi, a Editora Abril, em 1950, abriu suas portas de forma tímida, sob o comando de Victor Civita. Conforme Thomaz Souto Corrêa (2008), vice-presidente executivo e diretor editorial da Abril, a Revista Pato

Donald, que trazia o personagem pela primeira vez ao Brasil, marcou o começo da vida do

grupo empresarial.

Em contraste com esse começo de carreira, quando contava apenas com uma publicação, a Editora Abril, no ano de seu cinquentenário, já estava consolidada como um dos grupos de Comunicação mais influentes da América Latina. Em 1950, quando Civita fundou e batizou a Abril, dando-lhe como logomarca uma árvore, sua inspiração foi a Europa, cuja primavera inicia em abril. Mesma inspiração teve a logomarca, pois, para os europeus, a árvore representa a fertilidade e o verde surge como a cor da esperança e do otimismo.

Dados do site da Editora Abril, disponíveis em 2000, em comemoração ao seu cinquentenário, apontam o empreendedorismo de Victor Civita, homem de raízes italianas, embora nascido em Nova Iorque. Na década de sua criação, quem presenciou o fechamento da Revista Pato Donald jamais imaginaria a potência que viria a se tornar a Abril anos mais tarde, uma vez que o material que chegava ao Brasil precisava, ainda, de uma adaptação de letreiros. Quando lançou a Capricho, em 1952, a editora importava fotonovelas da Itália. Em 1959, a Revista Manequim era ilustrada com imagens, fornecidas por agências estrangeiras. A equipe enxuta da época encarregava-se de escrever as seções, responder as cartas dos leitores, diagramar e organizar os anúncios nas páginas, além de ir à gráfica nas madrugadas para acompanhar o processo de impressão.

Ao final de 1950, a Abril começava a sua escalada de qualidade. Nos anos seguintes, sua equipe seria composta por colaboradores de talento, que mudaram inclusive o mercado de trabalho do Jornalismo, fazendo com que os profissionais não precisassem de vários empregos para manter-se financeiramente. Estimulando a autonomia, Civita inaugurou uma nova Cultura jornalística, inovando o texto a partir de uma linguagem brasileira de qualidade e inserindo trabalho nacional, como Fotografia, edição e produção de conteúdo.

Sem saber que se tornariam referência no meio editorial, Civita lançou os fascículos, levando o conhecimento disponível até então apenas em enciclopédias para as bancas de jornal, o que viabilizou a muitos o acesso ao conhecimento. Simultaneamente, as publicações em formato de Revistas e quadrinhos seguiam. Em 1961, foi lançado o quadrinho do Zé Carioca e, em 1969, chegou às bancas a publicação Recreio, levando mais adiante a proposta de Civita de educar divertindo. A Recreio esteve em circulação por 12 anos e, em 2000, foi relançada com uma proposta editorial mais avançada. Como o tema educação sempre foi importante para a Abril, em 2004 ela adquiriu as editoras Ática e Scipione. Com isso, em 2010 a Abril Educação era líder no mercado brasileiro de livros escolares, tendo 29% de participação nesse segmento. Unindo a tradição de todas as editoras que se fundiram, em 2008 foi lançado o SER, conforme consta no site da editora.

Além da preocupação com a Educação e a Cultura, explicitadas pelas publicações e fascículos, criados pela Abril, Civita posicionou a editora como uma empresa jornalística alerta e presente durante as transformações da sociedade. Com isso, vieram as Revistas

Quatro Rodas e Turismo, que acompanharam o aquecimento da indústria automobilística e do

turismo. Para o público masculino foram criadas a Placar e a Playboy, a Vip e a Men’s

Health. Nos anos 1970 chegou ao mercado a Revista Veja, que até os dias de hoje é uma das

maiores semanárias do país, responsável por algumas das melhores Reportagens publicadas na Imprensa nacional, como indica o site da editora.

O público feminino não escapou à alçada da Abril. A Capricho, sua primeira Revista voltada às leitoras, abandonou as fotonovelas e passou a ser, em 1981, uma publicação para adolescentes. A Manequim, que foi uma das primeiras Revistas de moda da editora é, até os dias de hoje, uma das mais vendidas do país. Por sua vez, a publicação que tinha foco nas donas de casa tornou-se uma liderança de vendas. Reformulada, a Revista Claudia hoje segue no mercado, abordando problemas polêmicos que envolvem o universo feminino. Nas

décadas seguintes surgiriam inúmeros outros títulos, como a Nova, a Elle, a Estilo, a Gloss e, recentemente, a Women's Health.

Para Civita, a política não era o mote de sua empreitada, uma vez que ele a entendia como um fator que atrapalhava. Seu objetivo sempre foi produzir mais Cultura e entretenimento do que propriamente Jornalismo. Mesmo assim, a Abril não se furtou de colocar ao alcance de seus leitores esse tipo de conteúdo. Atualmente tais assuntos circulam na sociedade brasileira através da Veja, mas, em 1966, chegou às bancas a Revista Realidade. Por intermédio dessa publicação, a Abril trouxe à cena conflitos políticos, econômicos e, principalmente, assuntos polêmicos e tabus sociais. Além disso, a Revista foi um marco no fazer jornalístico, tornando-se, como já foi dito, referência para muitas outras Mídias no Brasil.

Além das inovações para o mercado jornalístico, informações do site da Abril indicam que Civita inovou na distribuição das Revistas. Atualmente, a Abril conta com mais de 25 milhões de exemplares vendidos em banca por ano e mais de 4 milhões de assinantes. O caminho galgado para chegar a esses resultados começou em 1950, quando Civita criou redes de pontos de venda ao usar a estratégica de conversação com os jornaleiros, convencendo-os da qualidade do quadrinho Pato Donald e da importância de dar a ele um lugar de destaque nas bancas.

Afora essas questões, Victor Civita desenvolveu a prática de escrever cartas a professores, chefes de estação, farmacêuticos e párocos de cada cidade do interior do Brasil, oferecendo seus produtos e visando a que tais localidades se tornassem polos de venda do material. Foi assim que, em 1961, a Abril criou asas próprias para a sua distribuição, conquistando o que Civita chamava de independência. Conforme dados do site da Abril, esse trabalho formulou a Cultura de mercado editorial brasileiro.

A Editora Abril não disponibiliza em seus arquivos on-line muitas informações sobre uma de suas mais importantes Revistas, a Realidade. No entanto, assim como transformou a Cultura de distribuição de Revistas, a Abril inovou no fazer jornalístico ao circular essa publicação. Em 2000, data da disponibilização dos documentos usados como base para este relato, a Abril contabilizava mais de 50 títulos e aproximadamente 28 milhões de leitores – número que deve ter sofrido alterações até o presente momento. A gráfica criada por Civita imprime mais de 560 milhões de Revistas ao ano, o que não é impedimento para que o grupo invista cada vez mais em Mídias digitais, hoje uma realidade mundial. A Revista Capricho foi

a primeira a ganhar um conteúdo desenvolvido exclusivamente para a Internet e, em 2010, a Abril despontava como a editora brasileira que contava com mais publicações on-line, somando 62 visualizações.

Na obra Comunicação e Poder (1987), de Pedrinho Guareschi, consta ainda que a Editora Abril estabeleceu uma parceria com o grupo americano Time-Life, a fim de responsabilizar-se por suas publicações no Brasil. Quando se aliou à Abril, o referido grupo já era proprietário de grandes Revistas nos Estados Unidos, como a Time e a Life. Em 1970 o grupo atuava em seu país no segmento de impressos, além de comandar estações de Televisão e Rádio. Possuía ainda casa de editorial, fábricas de papel, poços de petróleo e propriedades imobiliárias. Quando, no Brasil, sua ligação deu-se com a Abril, a editora brasileira já atuava também no México e na Argentina, além de ser filiada à Rede Globo.

Conforme Guareschi (1987), pesquisas apresentadas em 1976 apontam que, naquela ocasião, período do fechamento da Realidade, a Abril era detentora de 50% do mercado brasileiro de Revistas editadas em nível global. O que auxiliava nesse diferencial eram as produções exclusivas de Walt Disney. Mas o nascimento da fortuna da editora, de acordo com Guareschi (1987), data de 1942, quando se afiliou ao Grupo Time-Life. Daí em diante a empresa foi ganhando o mercado com as Revistas de esporte, turismo e fotonovela – um campo rentável –, além do que o autor intitula de “publicações pseudoamorosas”, como era o caso da Capricho. Sedimentou ainda mais seu sucesso ao entrar no campo da vaidade feminina, criando Revistas como a Claudia e a Nova, e ao contemplar o mercado do sexo com a Playboy, a partir de injeções financeiras vinda de fora. Dessa maneira, a parceria com o Grupo Time-Life, que mais tarde se associou à Rede Globo, a quem a Abril, hoje, está ligada, estimulou o interesse monetário nas publicações de Massa.