Para Bazerman (2006b), a trajetória de determinado gênero ajuda a entender como este opera na sociedade. Neste intento, entendemos que devemos situar a capa dentro do próprio surgimento das revistas enquanto meio de comunicação de massa.
Mistura de jornalismo e entretenimento, revista é, de acordo com Scalzo (2009, p. 12), “um encontro entre um editor e um leitor, um contato que se estabelece, um fio invisível que une um grupo de pessoas e, nesse sentido, ajuda a construir identidade, ou seja, cria identificações, dá sensação de pertencer a um determinado grupo”, cumprindo,
assim, funções mais complexas do que a simples transmissão de notícias. Segundo a mesma autora, uma dessas funções é educacional. Para Scalzo (2009), a vocação das revistas é mais educativa e de entretenimento do que noticiosa. Elas têm um papel utilitário de complementação da educação e aprofundamento dos assuntos, direcionado, na grande maioria das vezes, a um público-alvo bem definido.
De acordo com Corrêa (2005), a história das revistas no mundo ocidental se inicia sob o sinônimo de variedade. Nesse sentido, o primeiro exemplar versava sobre assuntos variados, mas ligados ao mesmo tema, no caso, teologia. Assim, a primeira revista de que se tem notícia chamava-se Edificantes Discussões Mensais (Erbauliche
Monaths-Unterredungen), originada em 1663, em Hamburgo, Alemanha. Corrêa (2005) aponta que esta era parecida com um livro e surgiu a partir de algumas ideias que foram sendo reproduzidas ao longo do tempo pelo mundo inteiro. Segundo Scalzo (2009), tal publicação só é hoje considerada uma revista por ter tido um público definido, publicar vários artigos, embora fossem sobre o mesmo assunto, e por possuir periodicidade. Com isso, pode-se constatar que a religião está de alguma maneira ligada ao surgimento e à formação das revistas enquanto meio de comunicação de massa.
Em 1741 o mundo das revistas invade os Estados Unidos e “até o fim do século XVIII uma centena de publicações já havia tomado conta do mercado”, isso à medida que o país diminui o analfabetismo e a indústria gráfica se desenvolve. O crescimento do hábito de ler revistas e o consequente aumento das vendas atraiu os anunciantes, diminuindo assim os custos de produção, num ciclo crescente que fez nascer “o negócio das revistas como conhecemos hoje — uma parte da indústria de comunicação de massa” (SCALZO, 2009, p. 21).
No Brasil, por sua vez, a primeira revista de circulação nacional, e de maior sucesso editorial, foi a semanal O Cruzeiro, publicada de 1928 até 1975 pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. O Cruzeiro foi pioneira no fotojornalismo16 e introduziu um novo conceito no design gráfico de suas capas e de seu interior: apresentava imagens que encantavam o leitor, seduzindo o público, como ilustra a imagem a seguir.
16 O fotojornalismo é decorrente do desenvolvimento das técnicas de produção e reprodução de imagens promovidas pelo jornalismo impresso e tem o intuito de imprimir maior objetividade, confiabilidade e veracidade ao que é veiculado. De acordo com Câmara (2008, p. 73), é corrente na área a crença de que a imagem “é cópia fiel dos acontecimentos”. Contudo, salientamos, com a autora, que o fotojornalismo é “um exercício de linguagem e, como tal, impregnado das percepções de seu realizador, de suas ideologias e de suas convicções”.
Figura 1: Capas de O Cruzeiro, primeira revista de circulação nacional. Fonte: http://www.rankbrasil.com.br/Recordes
Ainda no contexto brasileiro, e dotadas de reconhecido sucesso editorial, estão
Veja e Superinteressante. Criada em 1968 para renovar o mercado das revistas semanais (SCALZO, 2009), Veja é, de acordo com Scalzo (2009, p. 31), estruturada nos moldes da norte-americana Time e constitui-se, hoje, na “revista mais vendida e mais lida do Brasil, a única revista semanal do mundo a desfrutar de tal situação”, com uma tiragem de cerca de 1.200.000 exemplares por semana. As revistas semanais de informação apresentam assuntos e fatos que estão em debate na atualidade, circulando massivamente entre leitores menos específicos do que os das revistas femininas, por exemplo. Com essa proposta de tratar das informações de forma detalhada e objetiva, trazendo a notícia atual e contextualizada, privilegiando o fotojornalismo, Veja se dedica a um público adulto de classe média.
Diferente deste aspecto, ou seja, voltada para leitores jovens, de 18 a 39 anos, nasce a Superinteressante (1987). Revista de divulgação científica de caráter amplo, também da Editora Abril, possui periodicidade mensal, com tiragem atual de 400.000 exemplares em média, e um “visual arrojado, textos simples, explicativos e curtos, uso farto de imagens e de modernos recursos gráficos e a valorização de aspectos curiosos dos fatos” (AGUIAR, 2007, p. 03). Este destaque para a curiosidade dos fatos, segundo Aguiar (2007), vem do teor da publicação que inspirou a criação da Super, a revista espanhola Muy Interessante. A autora afirma que a principal diferença entre as duas estaria no desejo de que a brasileira fosse reconhecida pela comunidade científica, como
pretendia seu projeto inicial, e não uma mera revista de curiosidades e temas fantásticos, como se caracterizava a espanhola.
Podemos dizer que o desenvolvimento da produção de revistas levou ao fracionamento do público leitor ao qual se destinam. Ou seja, o leitor ao qual as revistas se referem, conforme Neveu (2006, p. 54), é compreendido através de seus componentes de identidade (mulher, adolescente, aposentado, homossexual, professor etc.) ou um de seus lazeres (jardinagem, decoração, carros etc.), em detrimento de um “jornalismo auxiliar da democracia”. A tendência atual de segmentação do público dá às revistas a capacidade de reafirmar a identidade de grupos de interesses específicos, “funcionando muitas vezes como uma espécie de carteirinha de acesso a eles” (SCALZO, 2009, p. 50). Segundo Neveu (2006), tal prática jornalística leva a uma relação de serviço, servindo ao consumo. Em consequência disso, o texto das revistas vira um “laboratório das lógicas de marketing”, em que os conteúdos devem levar em conta a identificação de temas promissores, o calendário dos acontecimentos que se impõem, a definição do tamanho das matérias etc.
Assim, o trabalho do jornalista é enquadrado em características precisas e fruto de “grande atenção ao aspecto visual do produto final” (NEVEU, 2006, p. 55). Scalzo (2009, p. 67) confia ao “universo de valores e de interesses dos leitores” a definição da tipologia e o corpo do texto, da entrelinha, da largura das colunas, das cores, do tipo de imagem e da forma como tudo isso será disposto na página da revista (ou capa), o
layout, portanto. Defendemos que todas essas escolhas não são feitas em vão, elas são entrelaçadas por ideologias e estão em função de propósitos bem definidos pelos produtores do gênero.