A metodologia de intervenção experimental desenvolvida nesta pesquisa foi elaborada pela pesquisadora e composta pelos seguintes instrumentos: observação-participante, desenho, roda de conversa, jogo de trilha e mediação sistematizada. Esses instrumentos e os procedimentos aplicados para o desenvolvimento das atividades planejadas foram fundamentais para seguirmos o princípio de ir à raiz da unidade genética da pesquisa, adotado pela Teoria Histórico-Cultural.
A observação-participante teve como objetivo identificar as necessidades das crianças, a fim de definir o tema da intervenção. Ao final das observações, foi possível identificar que o tema “praia” despontava como sendo uma necessidade cultural das crianças naquele momento. O período de observação e os dados coletados apresentam-se com melhor aprofundamento na seção seguinte.
Com o tema já identificado por meio das observações das necessidades das crianças, uma nova etapa da pesquisa se inicia: a preparação das atividades de intervenção. O tempo de preparação foi de, aproximadamente, um mês. Foram realizadas pesquisas sobre o tema, bem
como o levantamento dos conceitos que seriam discutidos com as crianças. Essa etapa exigiu uma grande reflexão para que as atividades de intervenção fossem, efetivamente, mediadoras das aprendizagens das crianças. A escolha dos mediadores que integrariam as atividades e a metodologia de desenvolvimento exigiram análises que relacionassem os conhecimentos prévios das crianças sobre o assunto; aqueles que eram espontâneos e, portanto, precisavam de intervenção com base científica; aqueles que estavam confusos e necessitavam de apoio instrumental concreto e objetivo, de forma que pudéssemos atuar na Zona de Desenvolvimento Proximal das crianças e, assim, criar condições e situações de ensino que contribuíssem com a transformação das hipóteses iniciais em relação aos conceitos.
Uma das dificuldades encontradas estava no fato de a maioria das crianças não conhecer nenhum tipo de praia, ou seja, havia conceitos sobre o tema que não estavam pautados em suas vivências. Dessa forma, a opção por recursos audiovisuais, tais como, imagens, vídeos, sons, foram adotados, para poder dar-lhes ideia do que seria uma praia.
Essa metodologia de intervenção experimental envolveu atividades que foram organizadas em cinco sessões, com objetivos diferentes do ponto de vista metodológico, mas com um objetivo principal: desenvolver atividades, envolvendo as necessidades presentes na Zona de Desenvolvimento Proximal das crianças, de forma a identificá-los e potencializá-los, por meio de mediadores e mediações sistematizadas.
Os instrumentos metodológicos que utilizamos nas sessões foram: a) observação- participante; b) roda de conversa, com o objetivo de diagnosticar e avaliar o desenvolvimento dos conceitos; c) discussão de vídeos explicativos sobre o conceito científico, com a finalidade de contrapor o conceito científico e espontâneo apresentado pelas crianças; d) demonstração de experiências, de modo a concretizar o conceito científico por meio da experimentação; e) jogo de trilha, contendo perguntas e respostas, a fim de verificar a utilização do conceito científico nas respostas; f) elaboração de desenhos, com o objetivo de analisar se houve ampliação do repertório de ilustrações a partir das mediações realizadas.
É importante ressaltar sobre o papel das mediações sistematizadas nesse processo de desenvolvimento da intervenção experimental. As mediações desempenharam um papel fundamental para se chegar aos resultados obtidos. Estas foram instrumentos utilizados para verificar o conhecimento das crianças, identificando a Zona de Desenvolvimento Proximal, mas foram também procedimentos à medida que o planejamento das mediações e a forma que foram realizadas estavam em consonância com os objetivos almejados em cada situação.
As sessões de intervenção foram realizadas por meio de atividades coletivas e individuais. A ordem de desenvolvimento das atividades nas sessões seguiu a seguinte
sequência: 1) atividades coletivas; 2) atividades individuais. O planejamento seguiu essa ordem, com base em um importante princípio da Teoria Histórico-Cultural, na qual Vigotsky (1995) demonstra, em suas pesquisas, que o desenvolvimento humano ocorre das relações interpsíquicas para as intrapsíquicas. Da mesma forma, a aprendizagem parte do coletivo para o individual.
As atividades seguiram uma sequência lógica, que consistiu em conhecer a concepção das crianças a respeito de alguns conceitos relacionados ao tema e depois, por meio de recursos variados e mediações intencionais, desenvolver o conceito científico. A estrutura das sessões e suas respectivas atividades estão dispostas no Quadro 9, a seguir.
Quadro 9 - Estrutura das sessões
SESSÕES OBJETIVOS ATIVIDADES REGISTROS
Primeira Sessão - Atividade coletiva 30 de outubro de 2018
(50 minutos)
Expressar de forma oral e no coletivo os conhecimentos sobre o
tema.
Estimular a linguagem oral como forma de comunicação e expressão.
Verificar as hipóteses das crianças sobre o tema
praia.
Desenho como coletivo. Roda de conversa sobre o
tema praia e os tipos de praias.
Videogravação. Desenho das crianças realizado em pequenos grupos, em cartolina. Segunda sessão - Atividade coletiva 1º de novembro de 2018 (50 minutos) Compreender como a onda é formada, por meio
de um conhecimento científico.
Apresentação de vídeo “De onde vem a onda?” e
“De onde vem o sal?” Roda de conversa: experiência sobre o sal. Desenho individual sobre
como a onda é formada.
Videogravação. Desenho das crianças
realizado individualmente, em folha sulfite. Terceira sessão - Atividade coletiva 05 de novembro de 2018 (50 minutos) Conhecer as regras do jogo de trilha.
Jogo trilha realizado em
duplas. Videogravação.
Quarta sessão - Atividade individual1 07,08,09,13,20 de
novembro
Verificar a compreensão dos conceitos trabalhados em sala de aula, por meio
do jogo.
Jogo trilha Videogravação.
Quinta sessão - Atividade coletiva
27 de novembro (50 minutos)
Expressar de forma oral e no coletivo os conhecimentos sobre o
tema após acesso aos conceitos científicos
sobre o tema.
História coletiva com tema praia, envolvendo
objetos e imagens utilizados nas sessões
anteriores. Desenho coletivo.
Videogravação. Desenho das crianças realizado em pequenos
grupos, em cartolina.
Fonte: Elaborado pela autora
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Nessas atividades coletivas, as crianças tiveram a possibilidade de expressar suas concepções e confrontá-las com os diferentes conhecimentos advindos dos demais participantes dos grupos em que estavam inseridas. Dessa forma, foi desenvolvido um tipo de organização da sequência didática que possibilitou identificar as necessidades culturais das crianças, assim como atuar na Zona de Desenvolvimento Proximal. A seguir, apresenta-se o processo desenvolvido da metodologia de investigação que elaboramos para esta pesquisa.
Fonte: Elaborado pela autora.
A figura 2 indica que essa organização deve partir da observação, pois as informações obtidas nessa atividade são as bases para a elaboração do planejamento das atividades e mediações e seu desenvolvimento. As setas que aparecem em ambos os sentidos representam o movimento que deve existir dentro desse processo. Esse movimento é importante durante o processo de realização das atividades, pois permite reflexão e adaptação da prática, quando necessário.
Para o desenvolvimento das sessões, foram utilizados os seguintes recursos: cartolinas; sulfite; lápis de escrever; dados para jogos; conchas; areia grossa; areia fina; pedra; sal; televisão para assistir aos vídeos; notebook; câmera fotográfica; celular (gravação de áudios e imagens); tripé para câmera; tripé para celular; cabo HDMI; acesso à Internet; semente de girassol; papel-cartão para confecção das cartelas dos jogos; impressora.
O registro das sessões por meio de vídeo foi um recurso de grande valia, pois as gravações permitiram uma melhor análise das sessões. As imagens possibilitaram a identificação de gestos e detalhes que auxiliaram na análise dos dados.
A seguir, encontra-se uma descrição de cada uma das sessões que foram desenvolvidas, trazendo os objetivos de cada uma delas e os instrumentos e procedimentos metodológicos desenvolvidos.