De acordo com Cunha (2005), os caminhos de Santiago de Compostela têm como antecedentes as viagens de peregrinação pagã efetuadas através dos antigos caminhos romanos, em direção ao “fim da terra”. Em concreto, historicamente, a viagem de Este para Oeste, que termina na Galiza, esteve envolta em misticismo e, constantemente, alimentada por lendas que foram sendo transmitidas de geração em geração, num equilíbrio entre paganismo e cristianismo (Charpentier, 1971; Cunha, 2005). Ora, com certeza, o CPIS não foi exceção. Há relatos de viagens efetuadas na época medieval que não têm bem definido os trajetos até ao início do CPIS (perto da cidade de Viseu), mas que identificam muito bem o restante trajeto seguido até à cidade de Chaves (Tranoy, 1981; Brochado de Almeida & Brochado de Almeida, 2011). Estas lendas surgem não por invenção, mas antes por adaptações de situações reais que, à semelhança de outras tradições pagãs, foram sendo incorporadas e mo- dificadas pela tradição católica, numa época de forte expansão do cristianismo (Charpentier, 1971).
As apropriações efetuadas pela igreja católica são mantidas e fortalecidas por três dimensões que, em simultâneo, acabam por definir todas as suas intervenções. Desde logo, e tendo como referência Rosendahl (2003), uma dimensão económica que se dedica a analisar e potenciar a mercantilização de locais e bens simbólicos; uma dimensão política que, por sua vez, trata de efetivar o controlo, a cristalização e promoção ideológica da religião, atuando com uma componente doutrinadora da sociedade; e, por fim, uma dimensão simbólica que pela sua multiplicidade imprime no espaço, e no tempo, os seus símbolos. Ainda de acordo com a mesma autora, considera-se que a religião molda, inequivocamente, o espaço, conferindo-lhe, sempre, as suas caraterísti- cas e identidades, concebendo-o e demonstrando, claramente, a relação entre identidade religiosa e espaço geográfico (idem). No CPIS há uma apropriação, maioritária, pela religião até porque historicamente esta instituição foi quem geriu as maiores rotas de peregrinação e, este caminho em concreto, é pon- tuado, substancialmente, por oráculos e paróquias, património arquitetónico, ruas e história oral alusivas a Santiago. Contudo, cabe-me salientar que os inte- resses e motivações para o percorrer são múltiplos (Pereiro, 2017). As viagens religiosas, comerciais, espirituais, desportivas, de lazer ou outras, “abren os
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ollos, amplían os horizontes, poñen en contacto com xentes doutras culturas, tradicións, línguas e relixións. E as ideas circulan polos camiños e o intercam- bio é inevitable e frutífero” (Lourido, 2005, p. 37).
Pois, o CPIS, congrega todas as categorias e nuances descritas anteriormen- te – se quisermos, e com base em Pereiro (2017), as motivações são polissémi- cas, são religiosas, turísticas e experiências combinadas - e abre a possibilidade de que, na sua singularidade, surjam produtos e experiências específicas deste caminho. Assim, e dando conta de algumas das suas especificidades, este cam- inho, em território português, atravessa os municípios de Viseu, Castro Daire, Lamego, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar e Chaves, percorrendo cerca de 210 quilómetros. Depois de cruzar a fronteira entre Portugal e a Galiza, o CPIS, desemboca na cidade de Verim para mais a diante se unir ou à Via da Prata ou ao caminho Sanabrês, ficando por percorrer cerca de 187 quilómetros até Santiago de Compostela. Uma das particularidades do CPIS é o facto de ser um caminho de sentido duplo, para Norte segue em direção a Santiago de Compostela e para Sul segue em direção a Fátima. Assim, o CPIS se quisermos caminhar em direção a Fátima é só se- guir as setas azuis. Os executivos autárquicos dos municípios que este caminho atravessa, como entidades gestoras deste caminho, decidiram estabelecer 11 etapas oficiais a percorrer em território português. Esta aposta de definição e promoção do CPIS vem sendo levada a cabo, com maior afinco, desde 2010. De acordo com os municípios, as referências na definição destas etapas foram, claramente, a localização dos albergues e uma distância média de 25 a 30 km por etapa. A grande maioria das etapas permite o acesso a albergues geridos pelos municípios ou em parceria com o terceiro sector. Em geral, na região norte de Portugal, os edifícios que acolhiam escolas primárias em aldeias que hoje não têm crianças vão sendo postas ao serviço da comunidade – para sedes de associações, para alojamento local, etc. Em particular, no CPIS algumas das escolas primárias que deixaram de ter alunos ou se tornaram demasiado espaçosas para tão poucas crianças foram recuperadas, mobiladas e equipa- das, enfim recondicionadas para servirem de albergue a quem faz este cam- inho. O albergue de Almargem é uma antiga escola primária, assim como o de Ribolhos, o de Bertelo e o de Parada de Aguiar (“Descrição Etnográfica do CPIS”, Xerardo Pereiro, inédito). Há, ainda, ao longo do CPIS várias opções de alojamento e restauração com maior e menor requinte. A este propósito – do alojamento oficial e do não oficial – teremos oportunidade de entrar em mais detalhe no apartado seguinte.
Em Portugal, a inexistência de um organismo de tutela3 e de legislação e
3 A formalização da Federação Portuguesa do Caminho de Santiago acontecerá a 17 de maio de 2019, em Vila Pouca de Aguiar, sendo esta autarquia a coordenadora do processo. Um dos objetivos principais da criação desta federação prende-se com a necessidade de uniformi-
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regulamentação específica para estas rotas de peregrinação, produziu algumas disfunções na hora de legitimar e, até, traçar os vários caminhos de Santiago e variantes. Um dos casos mais notáveis e apanágio desta falta de um órgão oficial, tratou-se da marcação do Caminho Português (CP) (Mendes, 2009). O CP foi, em alguns troços, devidamente, marcado por um conjunto de as- sociações de amigos e aficionados pelos caminhos de Santiago, municípios e uma estreita colaboração da Asociación Gallega de Amigos del Camiño de Santiago. No caso do CPIS, a marcação foi (e tem vindo a ser mantida) efe- tuada pelos municípios das regiões que este atravessa, tendo como máximo referencial a obra do Professor Arlindo Cunha de Magalhães (1995). Apesar da organização e esforços encetados pelos municípios do CPIS, este caminho não apresenta, ainda, expressividade nas cifras de caminhos mais percorridos e mencionados à chegada na Oficina de Acolhida ao Peregrino, em Santiago de Compostela. Segundo as estatísticas disponibilizadas pela própria oficina, em 2018, percorreram o CPIS 308 pessoas – um número residual se compararmos com os cerca de 186 mil do Caminho Francês ou, ainda, os cerca de 67 mil do
Caminho Português (https://oficinadelperegrino.com/estadisticas/).
O CPIS reveste-se de caraterísticas únicas e materializa as multimotivações que desperta na hora de pôr pés ao caminho. Alguns exemplos de motivações para empreender este caminho podem estar relacionadas com a espiritualida- de, com a religião, com a cultura, com a curiosidade e com a recomendação por parte de amigos e/ou familiares (Pereiro, 2019). Salientam-se, ainda, as moti- vações biográficas, propostas por Kurrat (2018), a saber: a) revisões na própria vida; b) situações de crise, em busca de possibilidades de superação para me- lhor enfrentar o futuro (ex. a morte de um familiar ou alguém íntimo); c) os que fazem um intervalo nos seus quotidianos profissionais e stressantes, para pensar as prioridades entre a sua vida profissional e pessoal; d) as motivações transitórias, de alguém que está no fim de um ciclo de vida e de passagem para outro ciclo (ex. obra de Hape Kerkeling); e) os que estão cansados da sua vida profissional e querem começar uma nova vida e criam um intervalo para re- construir a sua identidade; f) os que fazem férias no Caminho como forma de um lazer mais introspetivo e intercultural. Neste caso, e à partida, a principal motivação foi, inequivocamente, científica. A motivação científica foi a ímpe- to para produzir uma experiência que, à posteriori, pudesse contribuir para a classificação e conceptualização do vivido pelos utilizadores do CPIS que foram sendo entrevistados. Em simultâneo, e na ótica de MacCannell (1976), ao estudar a essência da experiência turística – e religiosa também neste caso – criamos a possibilidade de nos conhecermos melhor a nós próprios e, também de acordo com Pereiro (2019), as sociedades contemporâneas. Por tudo isto,
zação da estratégia a seguir e da sinalética adotada (https://www.dn.pt/lusa/interior/federa- cao-portuguesa-do-caminho-de-santiago-e-formalizada-a-17-de-maio-10671769.html).
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à medida que foram decorrendo as etapas, a experiência que fui assimilando ao longo da investigação – ou se quisermos o próprio caminho – acabaram por revelar e tocar algumas das motivações já mencionadas em Pereiro (2017; 2019). De forma a captar e compreender a complexidade e multidimensiona- lidade destes fenómenos, e na mesma linha que Pereiro (2019), fiz recurso a uma perspetiva antropológica focada nos significados das práticas e atividades sociais dos envolvidos e do próprio investigador – tendo por base o registado em sede de diário de campo. Parte deste material contido em diário de campo, e com valor elucidativo, será, oportunamente, introduzido e relacionado com aspetos relevantes nos apartados seguintes.