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WORKING ASSUMPTIONS

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CHAPTER 2 WORKING ASSUMPTIONS

Agroecológicos no Vale do Rio Doce (MG)

Eugênio Martins de Sá Resende1, Mariana Mafra Alves2 e Rodrigo Pimenta Giacomini3

1. Introdução

O Centro Agroecológico Tamanduá (CAT)4 iniciou suas atividades em

1994 com a recuperação de áreas degradadas por meio de um ensaio de leguminosas no município de Capitão Andrade, onde não atua mais. Com a aprovação de um projeto pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente, em 1995, a entidade conduziu pela primeira vez uma experiência-piloto para recupe- rar áreas com a implantação de sistemas agroflorestais (SAFs) no município de Periquito, comunidade de Ilha Funda. Em 1996, iniciaram-se experiênci- as em outros três assentamentos e duas comunidades, além de Ilha Funda, todas por meio de um projeto de três anos financiado pelo Projeto De- monstrativo Tipo A do Ministério do Meio Ambiente (PDA/MMA).

A partir do acúmulo de conhecimento com essas experiências, criou-se, em 2001, o Grupo de Agricultores, Experimentadores e Monitores de Siste- mas Agroecológicos (Grupo AEMSAS)5 com o objetivo central de planejar,

experimentar, monitorar, avaliar e difundir sistemas agroecológicos no Vale do Rio Doce, tendo em vista a conservação e a recuperação ambiental, a segurança alimentar das famílias e a geração de emprego e renda com a venda dos produtos. Entre os princípios gerais da experimentação estão: obter material orgânico e produção com máxima densidade e diversidade, além de atingir máxima adaptação de plantas e dos sistemas aos locais.

Formado por agricultores e apoiado por técnicos, o grupo constituiu um espaço de construção coletiva do conhecimento, promovendo a refle- xão e a análise crítica das ações e criando momentos ricos de debates e aprendizados.

As experiências do grupo se iniciaram em cinco municípios da região do Vale do Rio Doce de Minas Gerais (Governador Valadares, Periquito, Sobrália, Tumiritinga e São José da Safira). Nesses municípios, foram en- volvidos quatro comunidades de pequenos agricultores familiares e quatro assentamentos de reforma agrária: em Periquito, a comunidade de Ilha Funda; em Governador Valadares, a comunidade de Desidérios e os assentamentos Joaquim Nicolau e Barro Azul; em Sobrália, as comunidades de Santa

Terezinha e Caixa Larga de Cima; em São José da Safira, o assentamento Formosa Urupuca; e em Tumiritinga, o assentamento Cachoeirinha. Foram definidas inicialmente nove famílias. Porém, no decorrer do processo, ou- tras seis se juntaram ao grupo. Importante ressaltar que hoje o número de famílias que realizam experimentos é maior, embora muitas não façam par- te diretamente do Grupo AEMSAS.

Além do CAT e das 15 famílias envolvidas diretamente no Grupo AEMSAS, tiveram papel fundamental o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sobrália (STR Sobrália) e a Associação Comunitária dos Pequenos Produtores do Assentamento Barro Azul (ACOPPRABA), cuja atuação foi importante para a mobilização local. Outras entidades também contribuíram nas trocas de experiências, como o Centro de Tecnologias Alternativas (CTA-ZM) e a Asso- ciação Regional, ambos da Zona da Mata, a Embrapa/RJ e a Associação Regional Mucuri de Cooperação dos Pequenos Agricultores (ARMICOOPA), no Vale do Mucuri, entre outras.

2. O contexto da experiência

Na região do Vale do Rio Doce, a atividade econômica que sustentava e ainda sustenta a população é a agricultura de subsistência, não havendo atividade mercantil de grande relevância (ESPINDOLA, 2005).

Entre os fatores determinantes da grande degradação ambiental na região estão a extração da ipecacuanha (poaia)6 e a crença, nos séculos

passados (ESPINDOLA, 2005), de que a mata escondia fabulosas riquezas minerais em ouro e pedras. Mais recentemente, foi a fabricação de carvão a partir da mata nativa, associada à estrada de ferro. Nos tempos atuais é a pecuária extensiva de leite e corte.

Como conseqüências, citamos a devastação da cobertura vegetal e a degradação dos solos por intensos processos erosivos formadores de voçorocas e pela alta incidência de formigas, o que dificultou muito a im- plantação dos experimentos.7

A situação era bem difícil, os recursos (financeiros e naturais) eram limitados para os trabalhos e para a produção, mas, como disse um agricul- tor, “quando se chega ao fundo do poço tem que se pensar em subir”. A idéia do uso de sistemas agroflorestais (SAFs) surgiu tendo em vista a pos- sibilidade da recuperar essas áreas e de alavancar a produção, mas se depa- rava com certa fragilidade técnica devido ao grau avançado de degradação das áreas. Questionou-se também o considerável tempo do retorno finan- ceiro/produtivo, assim como a alta concentração de mão-de-obra que os experimentos exigem. Portanto, a experimentação implicava os riscos de não conseguir o resultado desejado e de não obter um retorno para a mão-de-obra investida. Daí a razão por que esses trabalhos tiveram de ser incentivados e subsidiados. Foi o que fez o CAT, com a captação de recursos junto a diversos financiadores, como o Misereor/KZE e o Serviço Alemão de Cooperação Técnica e Social (Sactes/DED), ambos da Alemanha, o Fundo Nacional do Meio Ambien- te (FNMA), o Projeto PDA, Projeto Farma e Cáritas Brasileira.

3. O desenvolvimento da experiência

Quando o Grupo AEMSAS foi criado, o que mudou foram as pessoas e locais envolvidos nos experimentos realizados. No início, muitas pessoas manifesta- ram o interesse em participar do grupo. Porém, ao longo do tempo, observou- se que várias delas entraram apenas para conseguir mudas frutíferas para os seus quintais, sem participar das atividades e discussões.

Em setembro de 2001, foram criadas as primeiras janelas8, com

314m². Para que se produzissem di- ferentes aprendizados, foram defi- nidas situações diversas, como áre- as de baixada, de encosta, morros mais declivosos, morros menos declivosos, além de diferentes de- senhos (em curva de nível, circu- lar, xadrez, em linha) e espécies para os experimentos. Ainda na- quele ano, alguns agricultores rea-

Situação dos solos na região do Vale do Rio Doce e implantação de um experimento.

Fotos: Ar

quivo CA

lizaram visitas para conhecer unidades de SAFs na Bahia, o que fez com que ficassem ainda mais animados a criar e experimentar novas práticas.

Desde o início, decidiu-se priorizar a utilização de sementes nos experimentos em vez de mudas, de modo que houvesse uma melhor adaptação aos diferentes locais. A utilização de sementes de árvores nativas ocorreu em todos os experimentos e com isso as trocas de se- mentes entre os experimentadores eram constantes durante as ativida- des e encontros do grupo.

Com o passar do tempo, o grupo percebeu que não estava trabalhando apenas com experimentos adensados (SAFs), mas com sistemas agro- ecológicos mais amplos. A partir dessa percepção, decidiram se denominar como um grupo agroecológico e não apenas agroflorestal. Nesse momento, novas pessoas entraram no grupo, e começou-se a discutir formas de divul- gação da experiência por meio de cartilhas, folder e vídeos.

No final de 2002, ocorreu o II Seminário do AEMSAS na comunidade de Santa Terezinha, em Sobrália. Definiu-se nesse seminário a estratégia de divulgação do grupo, por meio de oficinas regionais sobre Agroecologia, de um vídeo sobre a experiência e folder falando do grupo e de SAFs.

Com a definição em 2002 de que o AEMSAS não era um grupo só volta- do para SAFs, e com o acúmulo do grupo na discussão sobre Agroecologia, identificou-se a pouca experimentação com animais na linha agroecológica. Em 2003, durante o III Seminário do AEMSAS, no assentamento Barro Azul, planejou-se a criação do projeto Experimentação e Difusão de Sistemas Agroecológicos, do Programa Mutirão Pela Segurança Alimentar e Nutricional (Prosan), para a compra de cabras com o objetivo de iniciar experiências com criação animal agroecológica. Nesse mesmo ano, aconteceu o I Encon- tro do AEMSAS sobre criação animal em Santa Terezinha, onde já havia ex- periências com criação de bovinos usando homeopatia.

O projeto para a experimentação com cabras foi aprovado e iniciado em 2005, quando foram definidas as cinco famílias do grupo que recebe- riam um lote de quatro cabras e um bode cada uma. Além das cabras, cons- tava no projeto a compra de arame para cercas e cochos para alimentação. Dessas cinco famílias, duas já possuíam certa experiência com cabras, o que ajudou muito nas visitas de troca de experiências entre elas. Ficou estabe- lecido no grupo que as famílias que receberam os primeiros lotes de ani- mais teriam o compromisso de repassar para outras famílias a mesma quan- tidade de animais (quatro fêmeas e um macho).

A perspectiva metodológica adotada foi a da formação na ação, em que a construção coletiva do conhecimento se dá por meio de processos contí- nuos de ação-reflexão-ação, partindo sempre do saber dos agricultores. As decisões a serem tomadas nas áreas de experimentação também são discu- tidas em conjunto com os agricultores do AEMSAS e técnicos do CAT. Isso faz com que se reflita e se critique construtivamente as ações, criando mo- mentos ricos de debates e aprendizados.

Os encontros e atividades/mutirões do grupo são realizados sempre nas comunidades/assentamentos, onde estão situados os experimentos, o que contribui para a divulgação e a ampliação dos sistemas agroecológicos locais. Na maioria das vezes, as intervenções necessárias são feitas consi- derando o desenvolvimento do sistema, as chuvas, a época do ano e a garantia da máxima participação do grupo, o que muitas vezes não é fácil. Além disso, foram promovidas várias visitas e trocas de experiências junto a diversos experimentos na Zona da Mata de Minas Gerais, na Bahia e no Espírito Santo, sempre na perspectiva de trazer críticas para a realidade do Rio Doce e não para copiar o que era observado.

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