A realidade para esse universo de bandas é clara, o mestre, maestro, professor de música precisa ser polivalente e ministrar várias aulas, aulas essas coletivas, o que proporciona ao aluno de banda uma descoberta múltipla. O pesquisador Marco Antonio Toledo Nascimento (2006) enaltece:
A metodologia do ensino coletivo de instrumentos musicais consiste em ministrar aulas ao mesmo tempo para vários alunos. Essas aulas podem ser de forma homogênea ou heterogênea e é efetuada de maneira multidisciplinar, ou seja, além da prática instrumental, podem ser ministrados outros saberes musicais intitulados academicamente como: teoria musical, percepção musical, história da música, improvisação e composição. (NASCIMENTO, 2006, p.96)
A maestrina Paula Francinete conta que o motivo de trabalhar com aulas coletivas surgiu no momento em que ela se encontrou como única professora de todos os instrumentos. Para desenvolver esse trabalho, bem diferente daquele realizado nos conservatórios com suas aulas individuais e professores específicos, foi necessário uma adaptação e inclusão de um ensino multidisciplinar.
As aulas se davam de acordo com a disponibilidade do aluno, já que uma grande maioria estudava no ensino regular. Os alunos já estavam musicalizados com a teoria musical básica e a flauta doce, então Paula buscou junto a instrumentistas experientes, uma orientação sobre a forma de execução dos vários instrumentos, aprendendo assim como segurar, soprar e tocar. Paula menciona: “esse é o trabalho que o maestro faz quando ele não é habilitado em todos os instrumentos, ele passa uma base para a formação daquele grupo”. Além disso, foi preciso a ajuda de amigos que pertenciam à Banda de Cruzeta para auxiliar na transmissão dos conhecimentos básicos para determinando instrumentos. As capacitações proporcionavam aos alunos ter contato com instrumentistas mais experiente para assim, conseguir vencer suas limitações. Nessas aulas, os músicos falavam de sua rotina de estudo, da importância de tocar todos os dias e do passo a passo dos estudos dessa rotina.
Tempos depois, à maestrina começa a distribuir as músicas que comporiam o primeiro repertório da Filarmônica São Tomé. Entre as primeiras músicas desse repertório estavam o dobrado “Capitão Caçula”. Sabemos que esse tipo de música é característica forte no cenário das bandas desde a Guerra do Paraguai, o toque do bombo no tempo forte incentivando a marcação do pé para começar a marcha. Foi partindo do dobrado que a banda entendeu que existia uma métrica a ser seguida. Esse
ritmo ajudava a tocar, pois mentalmente pensávamos no “um, dois”, mesmo tocando lentamente essa pulsação ficava cravada na mente. É importante frisar que embora os alunos agora fizessem parte da banda, eles não deixaram de frequentar a aula de flauta doce e nesse contato direto com a “flautinha” proporcionava ainda mais segurança na leitura mesmo para aqueles alunos que tinham como clave atual a clave de Fá. Meses se passaram e os ensaios foram se intensificando.
Com o repertório pronto, a Filarmônica São Tomé estreia em sete de dezembro de 2006 (Fotografia 3, p. 36), em uma solenidade da Câmara Municipal de São Tomé, com quarenta e quatro componentes. No momento, o seu repertório estava composto por um dobrado e música popular brasileira.
Fotografia 3 – Estreia da Filarmônica São Tomé em 07/12/2006.
Fonte: Associação de Jovens Ação e Cidadania - AJAC.
Após a primeira apresentação a Filarmônica ganha visibilidade e passa a se apresentar em várias cidades do RN, além de participar de cerimônias do governo e conferências internacionais. O trabalho ganha destaque entre outras bandas e passa a ser referência para os demais municípios.
Entre os anos 2006 e 2014 a Filarmônica São Tomé foi contemplada com outros projetos que possibilitaram a aquisição de novos instrumentos, além da conquista de uma sede própria. O imóvel dispõe de salão de ensaio, banheiros feminino e masculino,
sala de aula, arquivo, cozinha, uma sala de cinema com todo o equipamento de mídia, e uma biblioteca.
Nesse período, os alunos tinham contato com professores e monitores que participavam de festivais e ministrava máster classes em São Tomé e outras cidades do RN. Essas atividades estimularam os componentes da Filarmônica a buscarem uma melhor formação acadêmica. Alguns integrantes ingressaram nos cursos Técnico, Bacharelado e Licenciatura em Música oferecidos pela Escola de Música da UFRN. Alunos de flauta transversal, clarineta, trombone, trompete e percussão entraram nos cursos, embora poucos tenham concluído os estudos. Alguns indivíduos foram aprovados em concurso, a exemplo de um integrante que ingressou na Banda da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais – MG e outro que segue carreira na Banda do Exército em Natal – RN. Da mesma forma, uma aluna da Filarmônica atuou como professora de musicalização em uma escola particular também na cidade de Natal- RN. Esses alunos mais experientes passaram a atuar como monitores, transmitindo conhecimento específicos para os demais componentes da Filarmônica.
Analisando o projeto, percebe-se que ele trouxe muitas oportunidades para os santomeenses e principalmente para os componentes da Filarmônica. Além de conhecimento, surgiu a proposta de trabalho permitindo que eles passassem a ganhar seu dinheiro com o que mais gostavam de fazer. No ano de 2014, após oito anos de um belíssimo trabalho árduo, a maestrina Paula Francinete anuncia sua saída da banda. Esse fato afetou os componentes e principalmente o grupo. Vários integrantes também saíram. Nesse período Paula delegou à sua aluna Raquel Gonçalo da Silva (Fotografia 4, p. 38) a incumbência de, como tecnóloga em clarineta, assumir o seu trabalho à frente da banda. A mesma já atuava na banda de flauta doce desde quando Paula assumiu apena as atividades da Filarmônica. Em entrevista a autora, Raquel relata sua experiência à frente do projeto:
Estive a frente da Banda Filarmônica São Tomé por um período de um ano, um dos primeiros desafios era assumir um trabalho no qual antes era apenas uma aluna. Inverter os papéis foi um dos primeiros obstáculos, exercer o papel de maestrina, desenvolver autonomia frente aos componentes e mostrar que seria necessário separar a relação de colega de banda e me enxergar como “a maestrina” aquela que precisava cobrar, exigir disciplina e dedicação dos alunos. (SILVA, R., 2019. Em entrevista a autora)
Em conversa, Raquel Gonçalo relata as dificuldades durante o período que passou a frente da Filarmônica:
Foi ficando mais difícil dar continuidade diante da falta de recursos financeiros, e mais uma vez o trabalho necessitou ser pausado, na esperança de que logo, logo alguém sentisse saudades do soar da melodia se sensibilizasse e enxergasse que um trabalho com a música não depende apenas do sopro dos componentes, da dedicação nos estudos para montar repertório, necessita também de alguém que assuma o compromisso de apoiar financeiramente e com responsabilidade este projeto. (SILVA, R., 2019. Em entrevista a autora)
E evidência a importância da experiência em sua vida:
Mesmo diante das dificuldades encontradas durante esta caminhada a experiência foi bastante significativa para minha vida, um período de grande aprendizado profissional e também pessoal, algo que carrego comigo até hoje é que “todo esforço com a música sempre pode valer a pena”, basta encontrar interiormente a intenção correta de se fazer música. (SILVA, R., 2019. Em entrevista a autora)
Fotografia 4 – Apresentação da Filarmônica São Tomé com a regência da maestrina Raquel Gonçalo em 2016.