RANDOM VARIABLES AND EXPECTATION
Theorem 4.9.3 The Weak Law of Large Numbers
A tradição teórica que perfilhamos, e que demos conta até agora, aconselha-nos desde logo a inverter a interrogação que ao longo do século XX se tem colocado à toxicodependência e aos toxicodependentes: não procuraremos a alteridade mas a semelhança. Não procuraremos, então, descobrir factores etiogénicos, epidemiológicos ou traçarmos as diferenças dos consumidores em relação a uma determinada norma - antes nos interessará saber o modo como os toxicodependentes gerem a dinâmica subjacente à sua vida de consumidores, o que é que consideram factores de auto-controle e descontrole.
1 - Problematização: a vivência das escolhas individuais
Fernandes (1998b), chama a atenção para o facto da clínica poder introduzir um certo enviezamento da realidade que estuda: privilegia o sofrimento e a diferença patológica. Mas será essa a única interrogação possível nesse contexto? Estamos em crer que não - aliás já Macquet (1992); Legrand & Loicq (1991); Ingold et ai (1991) são exemplos disso.
É possível adoptar certas posturas epistemológicas e até metodológicas da Escola de Chicago no trabalho institucional que pretendemos realizar. Tal objectivo cindirá à partida a unicidade da realidade clínica. Pondo os sujeitos a falar de si e dos seus interesses de uma outra maneira, pretendemos adoptar o ponto de vista apreciativo (Matza, 1981) que se centra no ponto de vista do sujeito desviante. Em vez de privilegiarmos o sofrimento, tentaremos realçar a gestão da dependência, tal como fizeram Ingold et ai ( 1991).
A experiência da vida de consumidor será, então, a principal problematização a desvelar neste projecto. Tentaremos não forçar a realidade a qualquer esquema teórico preexistente: nós não sabemos, a priori, o que é essa experiência para ir medi-la com exactidão. Necessitaremos de conceber um projecto que parta principalmente dos dados recolhidos para produzir as suas ilações.(32)
Este fito será indispensável à superação da fase de redução ontológica defendida por Agra ( 1995) como imprescindível à elaboração de uma investigação. O nosso objecto de estudo, uma certa vivência subjectiva da toxicodependência, será despojado de tudo o que sabemos ou julgamos saber sobre o fenómeno. Não utilizaremos um instrumento de recolha de dados que pretenda medir uma determinada dimensão psicológica que achamos pertinente (p. e. a utilização de questionários de quantificação da depressão, ansiedade ou auto-conceito...) Necessitaremos, como vimos, de um procedimento que não aponha um determinado constructo à realidade, mas que permita a construção de teoria a partir de dados recolhidos de modo temático, é certo, mas que também não perca o contexto geral que é a vida do sujeito que pretendemos estudar.
Enfrentamos aqui numa das críticas mais apontadas à Psicologia: a da perda do indivíduo (Legrand, 1993). Este autor defende a criação de um dispositivo que estaria sempre perto do seu objecto. Aliás, a perspectiva biográfica abre-se ao drama humano da vida ou, na formulação de Politzer (cit in Legrand, 1993) da gramática da existência. Ora se a gramática, ensina-nos o Dicionário Enciclopédico de Língua Portuguesa, estuda o sistema de regras da língua, a gramática da existência procurará estudar as regras e os encadeamentos da própria vida humana. Poderemos, pois, pretender descrever a gramática desviante de uma certa população toxicopedendente.
Trata-se de procurar conhecer o drama e as escolhas biográficas que a toxicodependência e o social impõem ao sujeito (veja-se , p. e. Bourgois, 1995) - quais as escolhas, as problematizações, os estados reflexivos que o sujeito alcança na sua carreira de consumidor.
Nota-se que, no ponto anterior (Capítulo II - 2), as investigações etnobiográficas referidas são, grosso modo, de pendor qualitativo, opondo-se a uma certa visão positivista da investigação que considera os dados recolhidos como absolutos e as hipóteses anteriormente formuladas com grande precisão, confirmadas ou falsificadas por esses dados. (33)
As investigações de pendor qualitativo de Adler, do I.R.E.P. e as que chamámos Escola Catalã, não formulam hipóteses específicas que sejam submetidas à prova do real.
O problema é visto genericamente, arriscando-nos nós a dizer, que a formulação do problema se confunde mesmo com a grelha forjada para a análise de conteúdo do material recolhido.
Assim, temos p. e. Romani (1991) a interessar-se pelo papel desempenhado pelos circuitos informais nos processos de reinserção social dos toxicodependentes; Artiaga & Romani (1985) a estudarem os itinerários e estado que alcançam os consumidores que conseguem deixar a heroína; Ingold & Toussirt ( 1997) a estudar as atitudes e as práticas dos utilizadores de drogas face aos riscos de infecção por variadas doenças. Em nenhum destes exemplos vimos uma hipótese formulada a priori mas antes áreas de interesse e exploração. Observemos este exemplo:
"Si de alguna manera, un ex-heroinómano ya no vuelve a ser nunca el sujeto que era, una parte importante de la investigación deberia centrarse en el desarollo de la experiência personal entre el principio dei consumo y la recuperación definitiva. Si el sujeto recuperado vive, en parte, condicionado por su historia heroinómana habrá que conocer su vida con el cabal lo y como habria procedido a recolocar ese conjunto de experiências biográficas." (Artiaga & Romani, 1985, p. 14)
Os autores interessam-se por conhecer uma determinada dimensão biográfica sem, contudo, pretender apor-lhe com antecedência alguma qualidade ou propriedade. Nós faremos o mesmo procurando desvendar através da história de vida temática - ou seja, centrando-nos sobre a vida de consumidor - e ainda cruzada ou acumulada, procurando realçar possíveis regularidades biográficas em diversos indivíduos mas também discrepâncias e contradições.
2 - Breve justificação sobre o título
Vivências de si na toxicodependência remete-nos para a ideia do puro eu:
"On a rédécouvert en fait, comme une absolue novation, ce qui était déjà une vieille intuition aristotélicienne Têtre vivant - et dès lors chacun d'entre nous en tant que vivant - est une être autonome, qui se meut par lui-même, il est une être pour soi." (Legrand,
1993, p. 27)
A ideia de que todo o ser humano pode ser um fim para si mesmo, pode ter uma organização teleológica, é já antiga. Aliás, já Mead o tinha afirmado por outras palavras,
com importantes consequências teóricas na sociologia das desviâncias desde o início do século XX:
"Al afirmar que posée un 'si mismo' Mead quiso decir simplesmente que la persona es un objeto para si mesma. Puede percebirse, tener conceptos, actuar y comunicar consigo misma. De este tipo de comportamiento se desprende que el individuo puede convertirse en el objeto de su propia acción." (Blumer, 1982, p. 46)
A vivência de si na toxicodependência refere-se, pois, a este denominador comum da nossa espécie. Remete ainda à obra de Foucault (1986b) intitulada O cuidado de si, onde este autor pretende dar conta da problematização ética que o cidadão da Grécia antiga impunha a si próprio no que diz respeito a uma série de práticas sexuais. Tal preocupação consubstancializa-se numa arte da existência (Foucault, 1986b) organizada sob a preocupação geral de ser "preciso ter cuidados consigo" (op cit, p. 49). Assim, a vivência de si de que nos iremos ocupar pretende englobar as dimensões próprias dos toxicodependentes, dos cuidados de si mas também os momentos de "anomia pessoal", permitam-nos a expressão, ou ainda, e utilizando um termo de Foucault que explicitaremos mais adiante, de incontinência e, na sua tradução existencial, a intemperança.
É necessário fragmentar a nossa imagem de indivíduo - Ricoeur (1987) sintetiza bem os vários níveis de individuação:
"Em primeiro lugar, indivíduo édito; em seguida um locutor diz que; finalmente, um sujeito responsável diz-se. Segunda pressuposição: em cada um dos estádios que vamos percorrer - individualização, identificação, imputação - progride e perfila-se com exactidão uma notável correlação, a saber entre si mesmo e outrem. Há, evidentemente, o 'outro' desde o início; mas será apenas no decurso do nosso desenvolvimento que esse 'outro' se tornará um 'outrem', à medida que o indivíduo se tornar um ipse. "
(Ricoeur, 1987, p. 67)
O dispositivo analítico que iremos utilizar, como veremos adiante, poderá dar conta desses vários níveis, abrindo-se à complexidade que a vivência da toxicodependência certamente encerra