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SPECIAL RANDOM VARIABLES

5.5 NORMAL RANDOM VARIABLES

PARTE D - SÍNTESE INTEGRATIVA

A metodologia que rein vindicámos neste trabalho exige um momento final em que a dissecação da análise de conteúdo até agora efectuada seja de novo reunida numa visão holística. Trata-se de reaver a visão globalizante das histórias de vida nas suas regularidades ontológica, deontológica, ascética e teleológica. Qual o percurso mais característico dos nossos entrevistados? Faremos uma resenha totalizadora das análises efectuadas, procurando distanciarmo-nos um pouco das heterogeneidades e contradições naturais observadas nos testemunhos recolhidos.

Finalmente, procederemos a uma auto-crítica de todo o nosso projecto, levantando insuficiências e possíveis pontos fortes. De facto, existem pistas a explorar, dados que merecem novos estudos. Ao mesmo tempo que isto fazemos, lançamos algumas reflexões sobre a construção de uma tipologia de histórias de vida de heroinómanos que permita, noutros estudos, a circunscrição de certas vivências a determinados agrupamentos de trajectórias.

I. Para uma história de vida de consumidor de heroína

Reformularemos, numa perspectiva generalista, os dados até aqui analisados:

i. a iniciação dos consumos: não detectámos nos dados nenhuma motivação desviante que impelisse os indivíduos para as drogas. Os consumos foram contextualizados em grupos informais em que o uso do haxixe e mesmo da heroína obedeceriam a princípios lúdicos.

ii. no desenvolvimento da carreira de consumidor, o reconhecimento em si mesmo do estatuto de dependência é um processo difícil e moroso (vimos exemplos de sujeitos que só admitiram ser toxicodependentes quando foram presos ou internados para tratamento). Esta prossecução dos consumos com negação da dependência permite aos sujeitos desenvolverem a ingestão do produto sem problemas morais.

iii. comparativamente a outras drogas, a heroína é descrita em termos muito mais absolutos. A vivência da dependência da heroína que decorre de um modo mais ou menos

conflituoso em todos os nossos entrevistados tem, certamente, um papel importante na uniformização desse tipo de dados.

iv. outro aspecto importante é o papel da aprendizagem subcultural na aquisição de competências para lidar com o produto (saber dar - fumar; saber injectar...) e com a própria ressaca (conhecimentos farmacológicos e conhecimentos sobre actividades rentáveis...). Também aqui as decisões que se tomam no sentido de uma maior especialização desviante implicam adaptações cognitivas: apelar ao nível deontológico

"são os amigos"; apelar ao nível ascético da incontinência "nessa altura não sabia o que fazia"; procurar socorro no nível ontológico p. e. "foi a droga que me obrigou a isso" ;

por fim, resta ainda a possibilidade da negação da gravidade do que se fez.

v. em termos de desenvolvimento da carreira sublinhámos a importância do tipo de contacto estabelecido nos dispositivos concretos da família e do trabalho. Não raras vezes, a revelação de um membro da família ou de um empregado como toxicodependente aumenta a permissividade a nível dos comportamentos. A contenção que muitos dos nossos entrevistados observavam, na expectativa de serem castigados pela família ou de perderem o emprego, deixa de ser necessária - o aumento dos consumos, o desrespeito cada vez maior das regras de convivência são os sinais de uma incontinência que se tende a instalar.

vi. uma subcategoria que está um pouco relacionada com o que se acaba de dizer é gestão da imagem de si. Nem todos os entrevistados, em função da maneira como se vêem a si próprios, aceitam todas as alternativas que a carreira de consumidor de heroína apresenta - vimos casos de mulheres que recusam a prostituição; vimos entrevistados que cultivavam uma certa distância do mundo do tráfico ou dos bairros - "eu não compro na

rua".

vii. pontos de inflexão: normalmente, a retirada total ou parcial da actividade de consumidor é originada por algum motivo interno à própria vivência de consumidor. A importância da família também foi referida mas não é, na maior parte dos casos, preponderante. No que diz respeito a actividades mais especializadas, como o tráfico, ou

é um episódio desmesurado de consumo (normalmente a cocaína) ou o aparecimento de mais polícia na zona que motivam diversos indivíduos a processos de afastamento.

O contacto com os dispositivos médico-sanitários fornece ensejo para essa retirada se observar mas, em muitos outros casos, este é apenas mais um obstáculo a ultrapassar na sua vontade de prosseguir com os consumos (obstáculo esse que, inclusive, fornece dados para facilitar essa intenção).

No que diz respeito aos dispositivos jurídico-penais, as actividades de consumo e especialmente de tráfico impõem uma adaptação cognitiva que passa pela indiferença em relação os tribunais e às acções da polícia. A incontinência domina aqui, em relação com a intemperança, que não é verbalizada mas entrevista nessa indiferença no fazer. A prisão, quando consumada, desencadeia reflexões teleológicas em oposição aos serviços penitenciários: "lá há mais droga do que cá fora", pelo que é considerada injusta a detenção.

O nível teleológico é importante nos momentos de retirada da carreira ou mesmo da paragem dos consumos - uma interrogação sobre si mesmo, o sentido do que se faz surge então a uma outra luz.

Em suma: as dimensões ontológicas e deontológicas são as dominantes nas fases iniciais do percurso de consumidor; à medida que se desenvolve passam a predominar conteúdos deontológicos e ascéticos; os teleológicos são os mais relevantes nas fases mais terminais dessa carreira.

2 - Auto-crítica

As ilações que aqui retirámos não são generalizáveis à toxicodependência em abstracto. A amostra utilizada, recordêmo-lo, é a que acedeu a uma instituição médico- sanitária. Muitos outros consumidores não tiveram essa iniciativa, certamente por características próprias e por se depararem com outro tipo de entraves e obstáculos: muitos deixam a heroína por si mesmos; muitos outros degradam-se a níveis indizíveis - andam pelos bairros "aos filtros"; dormem ao relento ou em casa abandonadas. Pelo menos estes dois tipos de casos não são abarcáveis neste estudo.

Uma outra crítica, agora metodológica, prende-se com o facto de não termos utilizado tipologias de histórias de vida. A diversidade dos dados recolhidos podia compreender-se em função de classes de trajectórias. Não o fizemos porque queríamos ter uma visão generalista e exploratória. Agora, no fim do nosso trabalho, aventamos duas hipóteses a utilizar em futuras investigações:

- a utilização de uma tipologia segundo a altura da iniciação, de acordo com Artiaga & Romani (1985). Estes autores acharam diferenças nas histórias de vida conforme os consumos se tenham iniciado num contexto de mercado de tráfico artesanal ou num mercado já generalizado;

- uma outra tipologia poderia ser construída a partir do grau de envolvimento com o "mundo da droga" (grau de envolvimento com os bairros; com os esquemas desviantes etc..)

Alguns dados aqui recolhidos - como o deixar de usar filtros ou o injectar sem aquecer o caldo - merecem ser objecto de estudos mais específicos. A própria epidemiologia interessar-se-ia, certamente, por estes fenómenos. Sublinhamos também a passagem gradual do haxixe para a heroína, em fases iniciais, o que contradiz a ideia do uso do haxixe ser incompatível com o consumo de heroína O estudo dessa transição traria consigo a possibilidade de um conhecimento mais realista dos processos grupais postos em jogo na iniciação do percurso heroinómano.