Moniz Barreto, considerado o pioneiro na aplicação da crítica literária de raiz científica, lançada por Taine, fez também uma breve, mas pertinente alusão a Júlio Dinis100, em 1889. Sublinhou a intervenção do
autor de As Pupilas no campo da ‘regeneração’ do romance português, mencionando que até então apenas se haviam desenvolvido o romance de aventuras e o romance histórico. As fragilidades de ambos deixaram caminho aberto para o surgimento do romance de costumes, que, na esteira do Positivismo, designa por romance de análise.
“Quadrinhos de género bem feitos” quanto a retratos e a mecanismos de sentimentos representados, negando a Dinis a capacidade de análise que a abordagem da influência do meio requer, o estudo das personagens, dos seus actos e ideias. Considera a psicologia dinisiana “fragmentária e destituída de prova”; derivando dos hábitos de
99 Idem, p. 117. A propósito da paisagem dinisiana, Reis Dâmaso confirma o mesmo
carácter genérico, esfumado, que Eça havia igualmente referido.
100 Literatura Portuguesa no século XIX, 2ª ed., Lisboa, [s.d.], pp. 58-59; o art.º. foi
reflexão próprios de um homem “interior”, em vez da capacidade analítica que acompanha um verdadeiro psicólogo»101. Essa vai Bruno encontrá-la
pela primeira vez em Eça de Queirós.
Abrimos um pequeno parêntesis para acrescentar que a actividade da crítica literária, enquanto esforço global, quase de escola, poderíamos acrescentar, começou a desenvolver-se com o Romantismo, tendo conhecido um florescimento durante o período que o Realismo e o Naturalismo vêm inaugurar. Por certo que já se haviam manifestado esforços individuais102, todavia insuficientemente representativos para
constituir um movimento. A partir do momento em que estão criadas as condições para que assim suceda, surge então uma série de nomes, alguns dos quais já aqui referidos, tais como Andrade Ferreira, Pinheiro Chagas, até Luciano Cordeiro, Moniz Barreto e Sampaio Bruno. O desejo de explicar a obra de arte em moldes científicos , à luz de doutrinas como o Determinismo e o Positivismo, tiveram certamente influência na formação de nova mentalidade crítica emergente.
Decorridos que foram vinte anos sobre a morte do romancista, foi publicado um longo texto na Revista Ilustrada com o título «Júlio Dinis». Algumas das conclusões a que o seu autor chegou parecem-nos um pouco insólitas, tendo em conta o tipo de argumentação apresentada. Que não foi realista, nem tão pouco paisagista ou, ainda, que não existe uma única descrição de paisagem em As Pupilas, são algumas das afirmações feitas de forma precipitada.103
Contra semelhante injustiça levantou-se Egas Moniz no estudo monumental que fez sobre o autor de As Pupilas. Não é possível aceitar
101 Moniz Barreto, Op. Cit., p. 104.
102 Pensamos concretamente em Lopes de Mendonça, considerado por Prado Coelho, o
único representante da crítica digno de realce no período anterior ao Realismo, cf. «Um crítico do Romantismo», In A Letra e o Leitor, 2ª ed., Lisboa, 1977, p. 95.
103 Fernandes Costa, «Júlio Dinis», Revista Ilustrada, nºs. 35 e 36, Setembro de 1891, pp.
que Dinis não tenha sido um escritor realista, tomando como ponto de partida o 'ter fugido' às descrições no romance. Elas estão lá e as adaptações cinematográficas realizadas posteriormente assim o comprovam, tal como veremos.
As descrições existem tanto no cenário de As Pupilas, quanto na apresentação dos seus caracteres. Constituíram material aproveitado e devidamente trabalhado nas adaptações diversas que se fizeram da obra dinisiana. Entre elas, as versões cinematográficas ocupam um lugar de destaque compreensível. O talento descritivo do ficcionista não parece portanto poder ser posto em causa. A descrição esteve sempre presente na nova concepção estética que preconizou para o romance e a esta fórmula não escapou nenhuma das suas obras de ficção.
É certo que o grau de descrição varia, tornando-se recorrente em romances como, por exemplo, Uma Família, um texto predominantemente de observação e de análise de caracteres. Mesmo em As Pupilas, o romancista não deixa de retratar - através da descrição - cenas como o idílio de infância, o episódio da desfolhada que tem lugar num terreiro a céu aberto, ou, ainda, a apresentação da figura de João Semana cavalgando sob um sol escaldante, para apenas referir um reduzido número de situações que, desde logo, invalidam a opinião algo insólita anteriormente mencionada.
Também a imortalização da figura de João Semana, que, por exemplo, Roque Gameiro fez na forma de aguarela, releva do evidente pressuposto de que aquele artista terá por certo trabalhado sobre indicações fornecidas a partir da descrição que o romancista fez daquela figura singular da sua ficção. A intensidade plástica deste trabalho terá inclusivamente inspirado a realização do painel de azulejos da autoria de
Jorge Colaço104, que se encontra na Escola de Medicina de Lisboa, uma
merecida 'homenagem' ao velho médico de aldeia que As Pupilas imortalizavam.
Tudo leva a crer que a referida aguarela serviu de ponto de partida para a recriação daquela personagem nos diversos filmes de As Pupilas, realizados a partir do romance homónimo de Júlio Dinis. Assim o confirma também Egas Moniz, num tom algo amargo, que não esconde a decepção causada pela representação que seguramente considerou adulterada: «Indumentária e cenário do Minho, como os fantasiou o nosso primoroso aguarelista Roque Gameiro, na edição monumental de Leipzig.»105
Foi apenas de passagem que Teófilo Braga, defensor da nova orientação crítica que veicula o espírito positivista, se referiu a Júlio Dinis. A propósito da influência que identificou em alguns editores do Porto sobre determinados escritores, a quem faziam escrever de forma compulsiva, vemos implícita a censura à alegada postura que reconheceu como sendo a de Júlio Dinis. É por isso que o autor de As Modernas
Ideias na Literatura Portuguesa refere, sem rodeios, o caso de Gomes
Coelho como o “homem de ciência que procura dar seriedade à invenção novelesca segundo o espírito utilitário do Jornal do Porto”106.
Em 1906 surgia na revista Serões107 um longo e curioso artigo da autoria de Antero de Figueiredo, no qual, entre outros assuntos, dava conta de diversas entrevistas realizadas com descendentes de familiares
104 Veja-se a este propósito Albino Forjaz Sampaio, Júlio Dinis, a sua vida e a sua obra,
Lisboa, 1925, [s.p.]
105 Egas Moniz, Op. Cit., vol. I, p. 313.
106 Teófilo Braga, Op. Cit., 1892, I, p. 264; por razões idênticas, invoca também o nome
de Arnaldo Gama. Efectivamente, Cruz Coutinho foi o editor das obras do romancista e era também proprietário do Jornal do Porto, na época em que os romances eram publicados.
107 «Júlio Dinis em Ovar», Serões, Revista Mensal Ilustrada, 2ª série, vol. II, nr. 8, 8 de
e amigos de Júlio Dinis que deram a conhecer certos hábitos do romancista, tais como a preferência em escrever de noite, o absoluto recato de que necessitava, mas também os usos típicos da vida no campo, como as desfolhadas, as romarias e outros momentos da sociabilidade rural, alguns dos quais até presenciados directamente.
Ainda no mesmo ano e no mesmo periódico, são publicados um autógrafo e um inédito do romancista108. A carta fac-similada foi a que
escreveu ao pai, dando conta da sua nomeação para o cargo de demonstrador que ambicionava havia já tempo. Alguns críticos sobrevalorizaram este documento pelo que ele revela de autobiográfico, nomeadamente, acerca das relações entre pai e filho, austeras, mas, ao que se sabe, sempre cordiais. Houve até quem reconhecesse nas relações entre duas personagens de Uma Família, Richard Whitestone e Carlos seu filho, um tipo de relacionamento em tudo semelhante ao que Júlio Dinis teria possivelmente vivido na realidade.
Relativamente ao outro documento que o periódico em causa transcreve - uma carta escrita do Funchal, em fase adiantada da doença - mantém-se o valor autobiográfico, acrescido do interesse literário. A percepção com que ficamos do estado de espírito do romancista é de um profundo desalento e melancolia, o spleen tipicamente dinisiano, já aqui referido de passagem. A carta contém as impressões acerca da Madeira, mais concretamente do Funchal, local onde foi procurar alívio para a tuberculose que o consumia. As mesmas impressões reflectem inegáveis capacidades poéticas, descritivas e de introspecção - «Quero mostrar-lhe
108 «Júlio Dinis, um autógrafo e um inédito do grande romancista», Serões [...], 2ª série,
vol. III, nr. 14, Agosto de 1907, pp. 91 - 104. Deixamos ainda registado relativamente ao ano de 1910 um artigo que refere a representação de As Pupilas no teatro de S. João, no Porto, em 1868, na adaptação de Ernesto Biester, e, no qual se relata o incidente da identificação de Júlio Dinis entre os espectadores, cf. José de São João Novo, «Júlio Dinis no teatro», O Tripeiro, ano III, nr. 88, 1910, pp. 247 - 248.
a Madeira através das individualíssimas impressões que o meu espírito recebe nela», era assim que interpelava o seu destinatário.
Um crítico brasileiro109 assinalou, com bastante propriedade, que o
tom de melancolia profunda do escritor se concentra fundamentalmente na poesia, excessivamente triste e até sombria, mas também nas cartas que escrevia Funchal, em tom familiar, desabafando em desespero de causa quanto ao estado cada vez mais degradado da sua saúde.
Estes são os momentos em que melhor se capta a amplitude da melancolia dinisiana, misto de tédio e de desconforto românticos. Curiosamente, na ficção narrativa, não permaneceu o vestígio mais ténue daquele estado de espírito, a não ser na criação intencional de algumas figuras principais, imbuídas de tristeza profunda. É verdade que nos romances impera um estado de espírito de franco optimismo, como veremos oportunamente
Um “autor medicinal” - foi assim que Alberto de Oliveira se referiu a Júlio Dinis110, ‘o Dickens autêntico’ das letras portuguesas, que soube
sempre despertar interesse num público de mulheres e de gente jovem. Defensor de questões da cultura portuguesa e da arte popular, A. de Oliveira procedeu à reabilitação da obra e do vulto literário que Júlio Dinis foi e que os teóricos do Naturalismo e do Realismo, embora não houvessem certamente maltratado, comentaram com excessivo rigor e alguma condescendência. A propósito do carácter artificial que diversos críticos viram na obra do romancista, a mesma fonte contrapôs:
109 Alceu Amoroso Lima, «Centenário de Júlio Dinis», Revista da Academia Brasileira de
Letras, vol. xxxix, nr. 59, Rio de Janeiro, Janeiro a Junho 1940, pp. 219 e 213 - 221.
110 Cf. «Jacinto e a 'Morgadinha dos Canaviais', In Eça de Queirós, Páginas de Memória,
2ª ed., Lisboa, 1919, cap. vii. A. de Oliveira faz uma curiosa aproximação entre A
Morgadinha dos Canaviais e A Cidade e as Serras, verificando existir entre Henrique de
Souselas e Jacinto de Tormes mais do que simples semelhanças. De acordo com as suas próprias palavras, foi levado a este confronto motivado pelo ‘culto condescendente’ que Eça manifestou por Júlio Dinis, e que ficou célebre através das palavras, já aqui referidas, ”viveu de leve, escreveu de leve e morreu de leve”.
Quando em Portugal se jurava pela fé naturalista, não faltou quem visse em Júlio Dinis artifício e falsidade. Mas a verdade de então por sua vez parece mentira aos olhos de hoje. O que deve apenas dizer-se é que a visão das coisas se transforma conforme a idade dos olhos que as contemplam. Aos vinte anos vê-se e sente-se a vida tal como a retratou Júlio Dinis. Ilusão é o pseudónimo da mocidade, como desilusão o é da velhice. As proezas do coração, como as da imaginação só parecem inverosímeis àqueles em quem já secaram essas duas fontes de vida111.
Um conceituado crítico e estudioso da literatura portuguesa, Fidelino de Figueiredo, classificou Júlio Dinis como um escritor de transição112, alguém que fez a ponte para o Realismo. De entre as
influências que nele confluíram, destacou Soares de Passos e os romancistas ingleses, dos quais teria Júlio Dinis recebido a intenção moralista e a simpatia pela vida simples. Assim, reconheceu no jovem romancista a faculdade de, a partir de episódios da vida comum, conseguir gerar toda uma complexidade de sentimentos. Quem procurar na leitura dos seus romances uma fidelidade fotográfica, encontra ao invés uma ‘formosa falsidade’; por outro lado, a verdade ideal, quer dizer, a verdade artística e a beleza emocional, essas encontramo-las sobejamente em Júlio Dinis.
Se a observação que o autor de As Pupilas praticava em relação à realidade era ‘preconcebida’, se seleccionava para a esfera da observação apenas os aspectos do seu gosto, é neste ponto que Júlio Dinis se afasta do realismo convencional113, aquele que não restringe o
111 A. de Oliveira, Pombos - Correios, Coimbra, 1913, pp. 18-19.
112 É na História da Literatura Romântica (1825-1870), Lisboa, 1913, pp. 246-253, que
Fidelino de Figueiredo vai enquadrar Júlio Dinis; segundo o autor, é romântico o espírito que perpassa a sua obra, bem como determinada postura em relação ao viver campesino.
113 «Júlio Dinis lido hoje», In Torre de Babel, Lisboa, 1925, p. 270, apesar de situada
ligeiramente depois da data charneira que escolhemos, o ano de 1920 e uma vez que se trata de textos provenientes da mesma fonte, optámos por toma-los no seu conjunto.
campo de visão, mas que antes tudo abarca. Este é também o motivo por que, nos seus romances, não há indivíduos 'caracterizadamente maus', muito embora, do nosso ponto de vista, a afirmação não corresponda inteiramente à verdade, pois que são, senão uns devassos e uns corruptos, sem vontade, nem hipótese de regeneração, os fidalgos do Cruzeiro, as figuras mais sinistras que ficcionou e que destoam completamente no ambiente geral criado em Os Fidalgos da Casa
Mourisca?
No que respeita à capacidade de análise da interioridade de alguns protagonistas que Júlio Dinis, de modo inovador, revelou, Fidelino de Figueiredo conclui:
A justeza da análise interna do solitário observador é atestada pela mestria com que nos descreve as meditações vagabundas de Daniel nas
Pupilas, de Carlos e Manuel Quintino na Família Inglesa, o liame de
associações de ideias e o quase imperceptível paralelismo dessa boémia com os cuidados dominantes dos cismadores114.
Para terminar, devemos fazer referência obrigatória a Egas Moniz e à sua extensa obra sobre Júlio Dinis115, já aqui mencionados de
passagem. A mesma representa um esforço memorável na recolha de tanto material informativo, onde também se incluem dados acerca da vida pessoal do ficcionista.
A análise que empreendeu de diversos textos inéditos, este que é considerado o seu principal biógrafo, contribuiu para um melhor
114 Idem, p. 278.
115 Referimo-nos a Júlio Dinis e a sua Obra, Lisboa, 1924. Egas Moniz é responsável por
uma série de prólogos que introduzem obras do ficcionista, como sejam os três volumes de Teatro Inédito, Cartas e Esboços Literários e pela publicação das próprias obras. As palavras introdutórias da obra de Egas Moniz couberam por sua vez a outro médico, Ricardo Jorge, que também se pronunciou sobre Júlio Dinis, embora mais reservadamente na «carta prefácio», Op. Cit., pp. I-XIX. Vale a pena referir ainda a obra de outro médico, Maximiano Lemos, Gomes Coelho e os Médicos, Porto, 1922, que, apesar de menor envergadura, em relação à de Egas Moniz, bastante se assemelha a esta, no que respeita a investigação da personalidade moral do romancista.
conhecimento das circunstâncias em que Júlio Dinis escreveu, bem como das pessoas com quem de perto conviveu e que sobre ele exerceram algum tipo de influência. Algumas delas terão estado precisamente na origem de diversas personagens da sua ficção, segundo a interpretação que fez de factos e de depoimentos tirados senão da vida real do romancista, pelo menos do tempo em que viveu, e que as suas cartas, em determinadas passagens, aliás, corroboram.
O facto de este médico e Nobel ilustre ter trabalhado com textos pertencentes ao espólio de manuscritos, parece-nos de inegável importância, fundamentalmente porque isso facilitou a sua publicação, dando a conhecer parte da obra, designadamente, os textos dramáticos (escritos durante a juventude e que constituirão os três volumes de teatro), um conto que Dinis não chegou a concluir, bem assim como excertos que retirou de dois manuscritos que terão estado na origem de
As Pupilas e de A Morgadinha e nos quais já se sente o espírito que
enforma os romances, ainda que apenas em fase embrionária.
Fazemos nossas as palavras que Egas Moniz proferiu a respeito da matéria nova116 do ficcionista, que bem mereceu ser ‘exumada dos
rascunhos iniciais’. Tratando-se de um valioso indicador do estilo, do método de trabalho e da observação em Júlio Dinis.117, conduziu a um
conhecimento mais profundo da sua obra e da sua escrita, que a todos enriquece.
Os romances de Júlio Dinis são a mais alta expressão do seu talento. Nunca os produziu de afogadilho. No seu valioso espólio literário encontram-se, quer entre os Inéditos já publicados, quer em outros
116 Alguns desses textos manuscritos, tudo leva a crer que, pelo menos, os mais
importantes, encontram-se publicados em Inéditos e Esparsos, Serões da Província, e, ainda, em Cartas e Esboços Literários.
ignorados do público, resumos e duplicações dos seus trabalhos definitivos118.
Por diversos motivos chamou Júlio Dinis a atenção da crítica do seu tempo, de colegas do mesmo ofício e de amigos, mais ou menos íntimos, de uma forma que poderíamos considerar profícua. Daqui resultou uma imagem positiva que deixou claro o mérito alcançado enquanto ficcionista, acentuando-se a novidade que os romances trouxeram, na recusa consciente de modelos convencionais e na simplicidade e coloquialidade de uma escrita, liberta de heranças temáticas e formais do passado.