169 os perigos que dela advêm. Barack Obama representa o vigor e a esperança numa nova era, uma luz ao fundo de um túnel parco de confiança na governação, mas animado pela força da união de um povo em torno de um sonho suportado no amor, nos afetos, na solidariedade que da família sobressaem, e que esta, por sua vez, difunde e solidifica.
Assistimos a uma transformação incontornável na sociedade americana, que tem vindo a alterar uma tradição de séculos que imprimiu à instituição familiar uma prática sustentada numa estrutura nuclear patriarcal liderada por um chefe de família omnipotente, controlador e responsável pelo seu núcleo familiar, a nível do seu sustento e bem-estar. Apesar de todas as alterações ocorridas, a família continua a constituir o grupo social mais valorizado na sociedade americana em que o divórcio não traduz a renúncia a um novo matrimónio, mas, somente, a separação dos cônjuges. Uma vez que este trabalho sedia os seus propósitos de estudo, sobretudo no universo da família americana a partir dos finais de 1970, a fim de melhor conhecer as realidades familiares das obras em estudo, torna-se pertinente apresentar mais algumas perspetivas que coadjuvem a sustentação das opções feitas. A temática das transformações sociais e das relações familiares contemporâneas tem sido objeto de debates públicos, de reflexões académicas, de estudos variados, nomeadamente nos Estados Unidos em que cidadãos e poder político se alinham na defesa da importância da família em todos os aspetos da vida quotidiana. Por conseguinte, torna-se pertinente explicitar a valorização que se continua a dar à família enquanto unidade grupal, apesar do elevado número de divórcios que ocorre anualmente, acrescentando a esta perspetiva, a pertinência do papel dos indivíduos que a compõem.
A diversidade de abordagens sobre esta matéria obrigou a uma ponderação que nos levou ao pensamento de Talcott Parsons sobre a família americana, que seguiremos mais de perto. Este pensador definiu uma teoria sobre a família americana, numa abordagem tendenciosamente estrutural e funcional. A família americana é considerada um subsistema de relações interdependentes que, por sua vez, se relaciona com outros subsistemas e com o sistema social.
O conceito da diferenciação de Herbert Spencer (1820-1903) está subjacente ao pensamento de Talcott Parsons (1902-1979) que defende que a família passou a partilhar a responsabilidade financeira que lhe era atribuída com os serviços sociais, os hospitais, as escolas, os mass media, entre outros. Estes serviços passaram a assumir funções anteriormente atribuídas à família.
170 Ao invés de uma desumanização vaticinada, a família americana, no ponto de vista de Talcott Parsons, torna-se mais livre, aperfeiçoando-se nas funções de alicerce emocional individual, continuando a exercer um importante papel na sociedade. Para Parsons, uma escala macro da família retira-lhe funções, enquanto no plano micro, a família garante a socialização primária das crianças, incutindo-lhes a cultura inerente ao meio social em que nascem e crescem, promovendo equilíbrios individuais e de sistema. Enquanto subsistema da sociedade em que se insere, a família assegura a transmissão de valores, passados em primeiro lugar pelos progenitores.
Ainda segundo Parsons, no que respeita a educação dos jovens, este pensador evidencia a preparação para a autonomia dos jovens, suportada numa menor ligação aos progenitores uma vez que a mulher deixou de ser apenas mãe e passou, também a ingressar no mercado de trabalho, embora não se tenha mostrado menos dedicada à família. Parsons afirma que, “(…) our general view, that this process of reinforcement of the nuclear family coincided with a very large increase in the participation of married women in the labor force. (Parsons, 1970:214) A responsabilidade pela educação dos filhos mantém-se nos pais americanos que procuram preparar os filhos para uma vida adulta autónoma, sem pressões parentais orientadoras de uma modelização que pode constranger a sua identidade individual e os seus comportamentos. Andrée Michel dá-nos mais um contributo para a compreensão da conceção e performance da família americana em relação à educação dos jovens, que nos parece relevante, razão por que o citamos. Nas palavras de Michel, há diversos aspetos que
(…) caracterizam a educação dada aos jovens pais americanos. Primeiramente, a família americana esforça-se por preparar o jovem para a sua autonomia e para as responsabilidades, intervindo o menos possível na vida deste, evitando que esteja demasiado ligado aos modelos parentais do comportamento. (…) Deste modo, os pais contribuem, também para “a estabilização da personalidade adulta. (Michel, 1983:76-77)
À família cabe o papel de transmissão e sedimentação de valores, de regras, de papéis com vista à inserção social, enquanto principal agente de transmissão de valores e regras comportamentais aos filhos de tenra idade, o que lhes facilita a integração social e a realização pessoal.
171 A família tradicional americana assenta, sobretudo, numa conceção de família nuclear ou conjugal, mais isolada de um parentesco ampliado, que está suportada no casamento, cujos papéis estão definidos, sendo o papel masculino, o de breadwinner e o feminino adulto, de dona de casa e mãe, assegurando os afetos, pressupostos fundamentis para a formação da personalidade dos descendentes enquanto crianças. Todavia, os novos ventos de mudança têm vaticinado a alteração destes papéis, passando mais para o open marriage, para um maior flexibilização e companheirismo, o que tem tido, sobretudo, o apoio das mulheres.
A família, na atualidade, continua a desempenhar desempenha um papel importante na economia e na organização da sociedade. Embora à família tradicional esteja subjacente a perda das suas funções habituais, o seu papel microssociológico garante a socialização da criança e o estabelecimento de equilíbrios emocionais. Assim, “a importância da família conjugal moderna resulta (…) das suas duas funções microssociológicas: a socialização da criança e a estabilidade da personalidade do adulto.” (op.cit.,96) Esta socialização decorre da cultura em que se inserem os cidadãos e está sujeita às transformações que se operarem na sociedade que a comporta. Partindo do pressuposto de Loveless, de que,
(…) the family is a social institution which both affects its external environment and is affected by the conditions of the society within which exists. (…). The influence of the “global culture” is causing rapid cultural changes in the family, with consequences on individuals and families all over the world. (Loveless, 2007:316)
Pensamos que, embora a cultura global afete as famílias e os indivíduos, isso não significa que o desmembramento da família seja uma conclusão. As opiniões dividem-se entre o declínio ou queda da família e a sua transformação. Um processo de inovação e metamorfose tem tendência a considerar o passado aniquilado ou em desmembramento, mas, no entanto, verifica-se uma coabitação entre velho e novo, subsistindo ambos. David Popenoe, em Disturbing the Nest – Family Change and Decline in Modern Societies, refere que:
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The sociological thesis that the family is not in decline is of relatively recent origin, and has been put forth intensity only in the last few decades. Family decline is one of the oldest ideas in the so call sciences, (…). Contradictions between the views of today’s sociologists and those of the past, and between sociological and popular opinion, give rise to some interesting questions. (...)
“Family” and “decline” have multiple meanings, and trying to define “the family” has long posed a difficult task: scholars have never been able to agree on a single definition. (Popenoe, 2012:4)
As afirmações de Popenoe parecem-nos plausíveis, na medida em que cogitamos uma constatação de que a mudança pode seguir diferentes direções, não sendo, portanto, sempre pacífica a escolha da transformação correta, o que justifica vozes dissonantes evidenciando os seus pontos de vista. No caso concreto da família, embora com tipologias diferentes, com papéis diversos dos tradicionais, afigura-se-nos que a sua sobrevivência é possível. Popenoe configura um declínio da família como se pode constatar pelas suas palavras.
The family as an institution is losing power to other institutional groups in society.(…). The family is weakening in the sense that individual family groups are decreasing in size and becoming more unstable, with a shorter life span, and people are members of such groups for a smaller percentage of their life course.
Finally, family decline is occurring in the sense that familism as a cultural value is weakening in favor of such values as self-fulfillment and egalitarianism. (op.cit., 8-9)
Embora reconheçamos a evidência de um declínio, parece-nos que o seu desaparecimento definitivo não se coloca. O declínio que se observa constitui pertença de um determinado modelo de família que se vem transformando em alternativas de continuidade. À semelhança de Popenoe, Fields, no artigo “America’s Families and Living Arrangements - Population Characteristics”, apresenta uma análise sobre as transformações da sociedade americana no que respeita a instituição familiar, recuando um pouco até à década de 1970, o que nos auxilia na compreensão deste fenómeno de mudança. Segundo o autor, “Since 1970, the composition of households and families and the marital status and living arrangements of
173 adults in the United States both experienced marked changes.”89
Na obra de Istvan Mészáros, Para Além do Capital, é referido que, no caso concreto das famílias nucleares, segundo o relatório sobre a vida das crianças do Departamento de Census americano, em 1991, nos Estados Unidos da América, pouco mais de metade das crianças integrava famílias nucleares, o que indicia uma situação de mudança significativa em relação à tradição da família nuclear.
Em consequência destas transformações, a sociedade americana tem-se deparado com uma diversificação, não só ao nível da estrutura familiar, mas também no que se relaciona com os papéis desempenhados no seio das famílias. A diversidade de modelos de famílias, segundo Fields, “depend on population growth, shifts in the age composition, and the decisions individuals make about their living arragements.” (Ibidem) Do mesmo modo, outros fatores contribuem para esta nova situação como a opção de coabitação, divórcio, nascimentos e óbitos, vindo a alterar o papel tradicional da família nuclear e tradicional.
Parafraseando Fields, podemos dizer que o crescimento do número de famílias diminuiu significativamente na década de 1990. As famílias sem um chefe eram cada vez mais vulgares no ano 2000, em contraste com a década de 1970.
In 2000, the number of U.S. households reached 105 million (see Table 1), up from 63 million in 1970. The growth rate in the number of households has been slowing since the 1970s, from 1.7 million per year between 1970 and 1980, to 1.3 million per year during the 1980s and to 1.1 million per year in the 1990s, the same as it had been during the 1960s.” (Ibidem) (artigo que tem como fonte o U.S. Census Bureau, Population Division, Fertility & Family Statistics Branch, de 2004) (Ibidem)
Continuando com as declarações do autor, referimos outras informações que esclarecem sobre uma diversificação de agrupamentos familiares mais acentuada, e evidenciam a diminuição das percentagens de casais unidos pelo casamento, em 2000, tendo aumentado a percentagem de casais sem filhos.
89Fields e Lynne M. Casper. “America’s Families and Living Arrangements - Population
Characteristics”.Disponível em:
<http://www.census.gov/population/www/cps/cpsdef.html> Consultado em 27 ab 2008. (artigo que tem como fonte o U.S. Census Bureau, Population Division, Fertility & Family Statistics Branch, de 2004). Consultado em 10 out 2014.
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Traditionally, family households have accounted for a large majority of all households — 81 percent of households in 1970 were family households, but by 2000, family households made up only 69 percent of all households. (...) divides family and nonfamily households into various categories: married couples with and without children, other family households, men and women living alone, and other nonfamily households. The most noticeable trend is the decline in the proportion of married-couple households with own children, from 40 percent of all households in 1970 to 24 percent in 2000. In contrast, the proportion of households that were made up of married couples without children remained relatively stable over the period — 29 percent in 2000 and 30 percent in 1970. (Ibidem)
A informação de Fields, a partir de uma fonte fidedigna como o US Census Bureau, permite constatar, de forma mais concreta, o panorama familiar americano desde a década de 1970 até ao ano 2000, hiato temporal que engloba as décadas em que cobrem o nosso período de análise da instituição familiar americana. A percentagem dos grupos familiares atípicos e dos cidadãos de quotidianos solitários, de uma maneira geral, sofreu um aumento no ano 2000, segundo Fields.
The third family household component — families whose householder has no spouse present, but with other relatives, including children — increased from 11 percent of all households in 1970 to 16 percent in 2000. The top three segments of the graph in Figure 1 represent all nonfamily household types. The figure shows that the majority of the increase in nonfamily households was due to the growth in one-person households, people living alone. For example, the proportion of households containing one person increased by 9 percentage points between 1970 and 2000 (from 17 percent to 26 percent) compared with other nonfamily households, which increased by 4 percentage points (from 2 percent to 6 percent) during the same period. Women living alone represented 67 percent of one-person households in 1970. By 2000, men were closing this gap, but women living alone still represented more than half (58 percent) of oneperson households. (Ibidem)
Como constatamos, são múltiplas as situações, o que mostra a complexidade do fenómeno de transformação que assiste à instituição familiar nos Estados Unidos. Os lares
175 ficaram cada vez mais reduzidos, em número, desde a década de 1970 até 2000, como confirma Fields: “Households have decreased in size (…). Between 1970 and 2000 the average number of people per houselhold declined from 3.14 to 2.62 percent.” (Ibidem)
O crescimento das famílias monoparentais em 2000, atingiu 12 milhões, nos Estados Unidos. Além disso, “Over one-half of young men lived with their parents in 2000.” (Ibidem) e “twenty-eight percent of women had more education than their partners in unmarried- partner houselholds in 2000.” (Ibidem)
Os dados publicados no artigo foram obtidos a partir do Current Population Survey (CPS): “Most of the estimates in this report come from data obtained in March 2000 by the Current Population Survey (CPS). The Census Bureau conducts the CPS every month, although these data are collected only in March.” (Ibidem), o que nos permite inferir da respeitabilidade das informações apresentadas.
A necessidade de uma enunciação mais detalhada sobre o fenómeno de mudança na família americana, remete-nos para o facto, como temos referido, da instituição familiar se revestir de particular importância nos Estados Unidos, como justifica Fields, “The families are often the first and the last source of support for individuals.” (Ibidem) Apesar de um pouco exaustiva, entendemos que esta abordagem é importante visto apresentar um panorama familiar alargado que de alguma forma fundamenta a situação de metamorfose da instituição familiar americana desde os anos 1970. De acordo com os dados apresentados, podemos estar perante uma revolução doméstica, familiar, mas também social que teve início a partir do regresso dos soldados da Segunda Guerra Mundial aos Estados Unidos, que se repercutiu nas décadas seguintes, num vaivém de tentativas de retorno às origens da estrutura tradicional e nuclear, todavia, sem a garantia de um regresso fiel e efetivo, à semelhança da irreversibilidade do tempo. De facto, alicerçada na estrutura familiar, a sociedade americana não se observa indiferente à mudança, enfrentando desafios para a sua sobrevivência.
Sobretudo, a partir da década de 1970, emergem novos modelos de família: a coabitação, a união de facto, a recusa do casamento, a igualdade dos cônjuges, as famílias naturais. Nos anos 1980, os comportamentos mais individualizados e narcisistas remetem a família para um lugar de menor relevo. Uma onda de individualismo sem precedentes emerge, apesar das tentativas de Reagan para repor os valores tradicionais. O fim do século passado trouxe consigo a crise da família nuclear e tradicional.
176 Na década de 1980, o Partido Republicano subiu ao poder convicto de que conseguiria solucionar os problemas do país, em comunhão com o povo americano, numa estratégia política sustentada na família, no trabalho, na boa vizinhança, na paz e na liberdade. Na Convenção Nacional do Partido Republicano, em 17 de Julho de 1980, Reagan afirmou : “I am very proud of our party tonight. (…) a party ready to build a new consensus with all those across the land who share a community of values embodied in these words: family, work, neighborhood, peace and freedom.” 90
Nas palavras de Reagan, durante a Convenção, estes propósitos estão explícitos de forma muito clara: “We need rebirth of the American tradition of leadership at every level of government and in private life as well.” (Ibidem). Ainda no mesmo discurso apelava à união da grande ‘família’ americana para que, no seu conjunto, incutisse aos mais novos a importância de preservar e defender os valores integrantes da família tradicional, orgulho do povo americano: “Let us make a commitment (…) to teach our children the values and the virtues handed down to us by our families; to have the courage to defend those values and the willingness to sacrifice for them.” (Ibidem)
Reagan foi uma figura de charneira, o dirigente de uma política conservadora que procurou colocar a instituição familiar e o trabalho no topo da sua lista de prioridades. “It is time to put America back to work; to make our cities and towns resound with the confident voices of men and women of all races, nationalities and faiths bringing home to their families a decent paycheck they can cash for honest money.” (Ibidem)
Chamava para si a responsabilidade de assegurar a paz e a segurança do povo americano ameaçado por países estrangeiros, porque, no seu ponto de vista, os americanos jamais se identificariam como um povo beligerante. Para Reagan, uma das mais importantes missões e obrigações do país, implicava a defesa intransigente da liberdade no mundo. Por conseguinte, a intervenção americana no estrangeiro faria todo o sentido sempre que a liberdade, a paz e a democracia estivessem em causa. Para o Presidente, os Estados Unidos continuavam a ser o país das oportunidades, o berço que acolhia os seus imigrantes e lhes dava a possibilidade de viverem em liberdade e, por isso, nele se devia confiar. Por fim, apelava à oração e solicitava a benção para os Estados Unidos, seguindo a tradição secular da
90
Reagan, Ronald. “Reagan Address Accepting the Presidential Nomination at the Republican National
Convention in Detroit”. (July 17, 1980). Disponível em:
177 crença em Deus: “I'll confess that I've been a little afraid to suggest what I'm going to suggest- -I'm more afraid not to--that we begin our crusade joined together in a moment of silent prayer. God bless America.” (Ibidem)
Durante o seu mandato procurou cumprir as promessas feitas durante a Convenção do Partido Republicano, em 1980, reafirmadas em 1984, na Convenção Nacional Republicana, que teve lugar em Dallas, a 23 de Agosto, enaltecendo o seu país, que recebia a tocha olímpica, símbolo da paz, da grandeza e da união dos povos: “And all along the way, that torch became a celebration of America. And we all became participants in the celebration.” (Ibidem) e acrescentava: “Sunday morning, a robed church choir sang "God Bless America" as the torch went by.” (Ibidem). Por fim concluía, afirmando que: “In this springtime of hope, some lights seem eternal; America's is. Thank you, God bless you, and God bless America.” (Ibidem)
Os discursos deste estadista, dos quais deixamos alguns testemunhos exemplificam como foram delineados os destinos do povo americano durante a época referida e como a sociedade americana e, em especial a família, teve que enfrentar mais um revés, uma vez que não podia sucumbir num retrógrado regresso ao passado e urgia solucionar problemas que a conjuntura sócio económica e política apresentavam. Durante os seus mendatos, o poder político considerou o ideal da família nuclear tradicional como o principal suporte da