No dia do acidente a equipe do eletricista Sr “C” de 24 anos, casado, com um filho de 1 ano, trocava cabos dentro de um condomínio residencial. A cruzeta de madeira que suportava os cabos da linha primária da rede elétrica energizada, situada na parte superior de um poste, quebrou, ocasionando a queda de um desses (cabo de linha primária) sobre a perna de um trabalhador de manutenção da rede (equipe contratada – terceira). A tarefa da equipe era trocar a antiga linha secundária, que se encontrava desenergizada, por fiação nova, mais segura. A fiação secundária é apoiada pouco abaixo da rede primária, no mesmo poste. O eletricista sofreu choque e, posteriormente, teve a perna amputada. A quebra da cruzeta e a queda do cabo ocorreram quando colegas da equipe do eletricista esticavam, no meio das árvores, os cabos novos da rede secundária.
4.3.1.2 Contexto da tarefa e a preparação do serviço
A intervenção da equipe da contratada inicia com o pedido de serviço emitido pela contratante. Definida a seção em que será feita a troca da fiação, a contratante envia um supervisor para a área com a finalidade de avaliar a viabilidade do serviço. No caso do acidente, não foi registrada a ida de um supervisor a campo e nem análise de possível fragilidade nas cruzetas instaladas nos postes da rede primária que segundo relatos e documentos estavam sem manutenção há mais de 25 anos.
A autorização de intervenção nas redes convencionais é precedida de desligamento da linha secundária, mas é mantida a energização da linha primária a fim de minimizar interrupções de fornecimento e impactos para consumidores e usuários do sistema.
Uma vez recebida a ordem de serviço, a equipe da contratada realiza um diagnóstico de segurança da situação por meio de Análise Preliminar de Perigos e Riscos (APPR) e deve indicar as medidas preventivas cabíveis, tais como: equipamentos a desenergizar, sinalização, aterramento, uso de equipamentos de proteção individual, as tarefas e papéis de cada integrante da equipe, etc. As práticas habituais da contratada não incluíam na APPR a observação de eventuais desgastes nas cruzetas de madeira e nem eventual risco associado a trabalho nas proximidades de linha primária energizada.
Conforme as Normas Regulamentadoras44 nº 6 e 35 da Portaria 3214/78, a tarefa de
eletricistas realizadas acima de 2 metros de altura exige uso de cintos de segurança tipo paraquedista de duplo talabarte e fixação em linha de vida ou no próprio poste para proteção contra quedas. O equipamento de trabalho também inclui detectores de tensão a serem usados em aferição da (des) energização da linha a ser trocada. Tendo em vista os controles de tempos em que a linha secundária permanece desligada as tarefas são programadas pela concessionária com duração pré-definida, podendo ocorrer pressões de tempo principalmente quando o planejamento preliminar não considera variabilidades como a presença de árvores entre os postes, pois em caso de atrasos a contratada é punida com multas.
As falas a seguir revelam a visão de eletricista de empresa contratada sobre diferenças entre seu trabalho e o do pessoal da contratante:
Eles são tudo capacitado, né?! Tudo calmo, tudo sossegado. Ali a gente não, ali a gente já tem aquele peso que tem que né, de fazer! A gente tem o
44 Acessar o site do MTE - http://portal.mte.gov.br/legislacao/normas-regulamentadoras-1.htm - acesso dia
encarregado, tem o técnico de segurança tudo olhando, tudo em cima. A gente fica meio ...
É, que aí tem certo horário pra terminar o serviço, entendeu?! Aí, dizendo, o desligamento começa a uma hora. Três horas tem que desligar. Aí falta muita coisa ainda, aí vira aquela correria, entendeu?
Perguntado sobre o que acontece em caso de não cumprimento de metas, o trabalhador responde:
Aí depende. Se passar muito tempo, essas coisas, recebe multa, essas coisas, entendeu?! Que aí, é muita reclamação ...
A tarefa de troca da rede secundária
A empresa concessionária responsável pela distribuição de energia contrata terceiras para a realização de atividades de manutenção em linhas secundárias e instalação de novas linhas. Em tese, essas contratadas devem atuar apenas em sistemas sem energia. No entanto, em vários locais, no sistema brasileiro de distribuição de eletricidade para residências, as linhas primárias estão instaladas em cruzetas situadas na parte mais alta dos postes, enquanto as secundárias passam cerca de 1 metro abaixo e linhas telefônicas cerca de 1 metro abaixo.
A Figura 13 mostra a Rede de Distribuição Aérea Convencional cujas linhas secundárias consistem em 4 fios separados por pequena distância e sem proteção contra choques de contato.
Embora as intervenções de manutenção nos postes sejam conduzidas por eletricistas, esse trabalho se dá na proximidade da linha primária energizada e a atividade a ser realizada é formalmente enquadrada como construção civil. Nas redes convencionais não há manutenção programada para a troca das cruzetas, e é comum a presença de estruturas degradadas ainda em funcionamento, o que fragiliza o sistema uma vez que em caso de quebra por desgaste ou deterioração da madeira poderá ocorrer a queda de cabos da linha primária energizados.
A descrição do trabalho habitual mostra que o serviço de manutenção realizado pelo pessoal de terceiras é considerado uma atividade de construção civil, sem considerar o risco de choque elétrico.
Nas exigências contratuais não estão incluídos requisitos de experiência e competências para o reconhecimento e antecipação de riscos presentes na exposição a risco de choque elétrico de integrantes das equipes. Merecem destaque também ao que tangem a contratante: (1) Não acompanha a montagem das equipes terceiras admitindo que fossem formadas por operadores que nunca trabalharam juntos antes. (2) Não acompanha os controles
de horas extras e pagamento por PLR. (3) Contratante e contratada deixam de informar meios e medidas para limitar a exposição ao risco e as empresas foram autuadas pelo MTE, por isso. (4) Contrato sem definição de requisitos de segurança seja no tocante a respeito a exigências de normas legais seja no tocante a segurança na ação, ou seja, aquela mais importante no lidar com riscos emergentes geralmente associados a variabilidades seja em componentes do sistema e ou do ambiente em que está inserido, seja em interações desses componentes entre si e ou com aspectos do ambiente etc. (5) Contratante não realiza auditoria e controle das terceiras (gestão das terceiras);
Além disso, no Estado de São Paulo, enquanto os trabalhadores da concessionária são representados por sindicato de eletricitários, os empregados das contratadas são representados por sindicatos da construção civil. Historicamente a categoria dos eletricitários é mais bem estruturada, enquanto salários e direitos costumam ser menores na construção civil. Essa divisão dificulta o estabelecimento de relações de cooperação entre os trabalhadores, fato evidenciado quando há equipes novas trabalhando.
O acidentado, Sr. “C”, tinha 24 anos e já atuava 1 ano e meio em empresas do setor elétrico, onde participava de curso de eletricista, determinado na legislação brasileira. No dia do acidente trabalhava na contratada há apenas doze (12) dias e, embora já tivesse realizado a mesma tarefa em empregos anteriores, atuava pela primeira vez com a nova equipe.
A tarefa atribuída à equipe da contratada era a troca de rede secundária de distribuição aérea convencional, mais antiga e desprotegida, por rede de distribuição aérea isolada reconhecida como de tecnologia melhor e mais segura, uma vez que nela os cabos são entrelaçados, envoltos em proteção contra contatos e choque e facilitando economia de carga elétrica (Figura 13).
Figura 13: Linhas primária e secundária em redes de distribuição convencional (lado esquerdo) e isolada (lado direito da figura).
A equipe encarregada para a troca de redes era composta por três eletricistas, dois ajudantes e um motorista de caminhão munck que interagem em campo. Apenas os eletricistas trabalham em postes para retirarem o conjunto de cabos da linha secundária convencional para poderem instalar o novo cabo único com a fiação. Uma vez no campo, o ajudante e o motorista atuam no solo auxiliando os eletricistas.
A substituição dos cabos da rede é efetuada em seções que geralmente são de quatro postes situados a distâncias aproximadas de 35 metros. Antes de elevar o novo cabo, os ajudantes estendem a fiação no chão ao longo do trecho dos quatro postes. Em seguida, é necessário que o primeiro eletricista fixe o cabo no primeiro poste, a cerca de 5 m de altura. Conforme ilustrado na Figura 14 os outros eletricistas posicionam-se no 2º e 4º postes da seção. O processo de esticar o cabo consiste em realizar a tarefa no alto do poste e a fiação é primeiro, fixada ou “encabeçada” em um poste. Em seguida, com ajuda de catraca é puxada ou esticada no espaço de mais de 100 metros a partir da extremidade já fixada. No trecho onde ocorreu o acidente, havia duas árvores entre os postes, (Figura 14), o que dificultava a visualização, a comunicação e a coordenação da tarefa entre os integrantes da equipe.
Figura 14: Esquema da seção com posições dos trabalhadores e equipamentos no momento do acidente.
Fonte: desenvolvida pelo autor.
A presença de árvores entre postes é variabilidade relativamente comum nessa atividade. Uma das estratégias usadas pelas equipes nessas situações consiste em usar o braço mecânico do caminhão munck para levantar a fiação. A operação desse dispositivo é comandada por um dos ajudantes exigindo movimentos lentos e cuidadosos, além de ajuda de colegas indicando a altura e a localização desejada para os cabos. Em seguida, essa fiação
deve ser tensionada com o uso da catraca até o ponto considerado ideal, cujo reconhecimento é baseado em inspeção visual e experiência dos eletricistas.
Esse último aspecto ilustra a importância para a segurança no trabalho da atividade do operador que geralmente não são valorizados ou incompreendidos a partir da chamada abordagem tradicional de segurança. Isso diz respeito a estreita relação entre o saber fazer com perfeição, o domínio dos modos operatórios e as competências a serem mobilizadas, por exemplo, para coordenação de atividade realizada por pessoas situadas a mais de cem metros de distância, em cima de postes em situação que pode ser afetada por ações de colegas agindo no solo para minimizar interferências da presença de árvores na área da intervenção.
São muitas as questões que poderiam suscitadas de modo a mostrar que a gestão de segurança no trabalho com eletricidade deve ir além das importantíssimas barreiras técnicas preconizadas na legislação vigente. A título de exemplo citamos: como saber o quanto tracionar o cabo com o uso da catraca?; como reconhecer a partir da visualização que o cabo alcançou a tensão adequada?; como coordenar operações realizadas em cima dos postes com aquelas realizadas por colegas no chão quando as condições de iluminação e de suporte à comunicação não são as melhores?; como reconhecer as implicações dessa situação diferente da prescrita para a segurança?; quais as margens de manobra para mudanças na tarefa preconizada, por exemplo, interrompendo-a?; de quem seria a autonomia para eventual decisão de que a nova situação poderia ser caracterizada como de risco iminente exigindo acionamento de direito de recusa?; como contratante e contratada lidam com esse tipo de questões quando das decisões de terceirizar e de assumir tais atividades?; como lidam com a formação de novos operadores, eletricistas ou trabalhadores de construção civil?; como consideram o desenvolvimento de competências – como as acima citadas - requeridas para a atividade?; a inadequação de treinamentos de segurança desenhados com inspiração em informação de conteúdos de normas vigentes é flagrante.
A comparação da descrição da sequência de passos prevista para a instalação do novo cabo com aspectos citados nas falas do trabalhador evidencia novos aspectos de distância entre o prescrito e as condições reais de trabalho. Numa das falas o trabalhador destaca a presença de supervisor e de técnico de segurança associando-as com incômodo aparentemente do sentir-se sob vigilância. A exploração do trabalho real revela que esses colegas são responsáveis pela atuação em outras tarefas que explicam sua ausência no local exatamente no momento em que a equipe precisa lidar com a variabilidade detectada na área, que não fora apontada em APPR. Se em condições ideais a segurança dependia de algum modo da colaboração desses colegas, naquele momento ela não pode ocorrer.
As falas seguintes destacam tanto a percepção do trabalhador em relação à existência de aumentos de pressão de tempo na sua atividade quando a mesma não está concluída e aproxima-se o final de jornada como o conhecimento de implicações negativas para a empresa em caso de não cumprimento dos prazos estabelecidos. A análise organizacional de acidentes põe zoom nessa questão. Como se dá historicamente na empresa em questão a gestão dos conflitos entre segurança e produtividade?
A fala do operador ajuda a esclarecer como, historicamente, são resolvidos esses tipos de conflitos naquele sistema “Aí falta muita coisa ainda, aí vira aquela correria, entendeu?”; ou seja, de seu ponto de vista, o que importa é concluir a tarefa. Acelerar modos operatórios, por exemplo, no uso da catraca no tracionamento do cabo ou na elevação desse cabo por cima das árvores desconsiderando possíveis implicações para a segurança. Aparentemente, não há que se preocupar com o fato de que assumir a correria, ou seja, acelerar a ação possa aumentar a chance de gestos que ultrapassam limites entre tensão adequada e excesso de tensão no cabo. E nem com a existência de situações em que cuja solução possa exigir, por exemplo, dos operadores encarregados do tracionamento, competências não facilmente reconhecidas e ou explicitadas ou ainda competências não adquiridas por trabalhadores novos na atividade. Seria necessário reconhecer que a pressão de tempo pode afetar emoções dos operadores e que tais emoções podem afetar os modos operatórios requeridos e mobilizados na situação?
Existe a necessidade de maior investigação para verificar como são as formas de intensificação de trabalho. Como as empresas utilizam horas extras, prêmios, trabalho intra e inter jornada ou outras estratégias cujo esclarecimento necessita de análise mais aprofundada. Mas nota-se em vários pontos da análise que existe um conflito de metas – pagamento por PLR mensal, horas extras excedentes, trabalhadores alojados, terceiros que não tem autonomia para pedir desligamento do RA e contrato estabelece prazo final de entrega do serviço com multa em caso contrário. Tempo de desligamento varia com local e clientela da intervenção.