III- ARHTROLYSE DU COUDE
3. technique chirurgicale
3.1 VOIES D’ABORD
O Brasil é um país caracteristicamente miscigenado. Essa singularidade é percebida também nos indicadores do quantitativo de estudantes internacionais que têm buscado nossas instituições de ensino universitário, o que implica atenção à pluralização igualitária de horizontes.
Por exemplo, André Martins (2015), do Ministério do Turismo, diz que no ano de 2015 cerca de 115 mil alunos de outros países, com idades entre 18 e 32 anos, se matricularam no sistema educacional brasileiro. Segundo dados do censo da educação universitária compilados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (2017), um total de 15.124 estudantes internacionais ingressaram em cursos universitários no Brasil em 2014. Dois anos depois, houve um aumento de 41,8% nessa cifra totalizando 21.440 matriculados vindos de vários países.
Diante desse quadro, ações de hospitalidade em sua completude pressupõem a preocupação não somente com o acesso concedido a esses estudantes internacionais às nossas universidades, mas também com o devido acolhimento e acompanhamento desses discentes em sua jornada acadêmica. Isso é relevante, uma vez que, sendo provenientes de diferentes nacionalidades, precisam ter assegurado seu direito a transitar e participar das múltiplas práticas sociais em seu entorno acadêmico e na comunidade em que se inserem. Enquanto cidadãos pro tempore, é vital que tais direitos, sua dignidade e seu protagonismo social sejam assegurados. Esse cuidado propiciará, em última instância, o intercâmbio e a construção coletiva de saberes.
Por conseguinte, é a partir dessa percepção e de minha postura enquanto pesquis- a-dor social que nasce meu interesse, o para quê ou os objetivos, para investigar a questão da hospitalidade e seus processos de acesso, acolhimento e acompanhamento dos discentes internacionais que participam em programas de mobilidade acadêmica no lócus desta pesquisa. Tais processos se inserem no cerne de políticas institucionais. Para tanto, esta
investigação será levada a cabo no interior do programa de pós-graduação do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas.
Reitero, portanto, que meu foco de observação e investigação em relação ao programa de internacionalização em tela reside especificamente no contexto acadêmico. Porém, apresentarei ao leitor uma percepção mais ampla do conceito, histórico e contextos dos programas de internacionalização. Ressalto, também, que nesse contexto acadêmico meu interesse não está na questão do uso da língua mas, sim, se o estudante internacional tem o devido acesso, acolhimento e acompanhamento em tais programas.
Revisitando outra cena do filme The Matrix, em uma danceteria, Trinity diz:
É a pergunta que nos motiva, Neo. É a pergunta que trouxe você aqui. A resposta está em algum lugar, Neo.
Está procurando você. E, vai encontrá-lo … se você quiser.
Portanto, conjeturo que isso não será diferente no âmbito desta pesquisa. São perguntas que me movem, me instigam, me orientam e me ajudam a manter o foco e o curso deste trabalho. São perguntas que me inquietam e não me deixam desanimar. As perguntas são matrizes de conhecimento, de teorias que podem beneficiar comunidades inteiras, ou seja, são elas que podem propiciar o que Collier (1994, p. 15) vislumbrou ao dizer que “teorias podem transformar práticas”.
Esmiuçando o ato de perguntar abordado e pensando em termos científicos, faço referência a Resende (2017, p. 41) que sugere preliminarmente que se identifique, se compreenda e se reflita interdisciplinarmente sobre um fenômeno que merece a atenção do pesquis-a-dor social. Isso se harmoniza com as palavras de van Dijk sobre “um problema real, sério e que ameaça a vida ou o bem-estar de muitas pessoas e não [apenas] de descrição de estruturas discursivas”. (1993, p. 252)
Em seguida, o cientista deve aproximar-se do fenômeno a fim de estabelecer uma relação ontológica para que se possa construir uma reflexão epistemológica em torno dele. O passo seguinte, interventivo em sua natureza, é de ordem metodológica. Todo o anterior é
perpassado pelo aspecto ético e moral visando ao bem-estar dos atores sociais envolvidos. Desse modo, é possível alcançar um conhecimento ontológico da realidade produzido por determinada pesquisa e que pode alterar ou transformar o funcionamento de certa prática, conforme preconizado por Andrew Collier.
Assentado nessas premissas, penso que as perguntas em minha pesquisa devem contemplar o caráter epistêmico-metodológico sob um prisma axiológico mas, principalmente, devem primar pela ontologia, ou seja, segundo Resende (2017, p. 42), “devem respeitar a necessária precedência das questões ontológicas em relação às epistemológicas e metodológicas”. Essa precedência, ou foco, coaduna com os objetivos a que me proponho nesta pesquisa conforme tenho delineado. Trocando em miúdos: minhas perguntas de pesquisa estão centradas nos atores envolvidos. Veja:
1. o que revelam as políticas institucionais de internacionalização vigentes no IEL/Unicamp quanto às ações de hospitalidade cujo mote central reside no acesso, acolhimento e acompanhamento socioacadêmico dos discentes internacionais? 2. quais as práticas discursivas se forjam, ecoam e são percebidas nas interações entre os diferentes atores sociais participantes da pesquisa no lócus em tela?
3. quais ações de hospitalidade, mais precisamente o acesso, acolhimento e acompanhamento socioacadêmico dos discentes internacionais, poderiam ser aprimoradas?
Saliento que as duas primeiras perguntas têm um caráter mais analítico-descritivo ao passo que a terceira pretende ser de cunho mais interventivo-prescritivo. Por conseguinte, meu anseio é que as perguntas formuladas acima, cuja característica reside no fato de serem ontológica, axiológica, epistemológica e metodologicamente orientadas, possam guiar esta investigação e direcionar os rumos desta pesquisa visando ao beneficio dos envolvidos. Detalho agora o porquê desta pesquisa ou o que entendo como justificativa para ela.
Historicamente , o Brasil sempre foi considerado um país de contornos 15 internacionais. Nos primórdios de sua formação, foi marcado por um processo migratório colonizador. Em período subsequente, participou do fluxo internacional de migrantes
Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-do-brasil/imigracao-no-brasil. Acessado em 27/12/2017. 15
forçados, i.e. escravizados provenientes do continente africano. Isso registrou negativamente outro período migratório na história nacional. Até meados dos anos 1930, recebeu mais de 4,4 milhões de migrantes que vieram para trabalhar na agricultura e na indústria. Eram, majoritariamente, japoneses, espanhóis, italianos, portugueses e alemães. Desde os seus primórdios, então, o Brasil está na rota do fluxo migratório internacional.
Do ponto de vista da educação, o Brasil também é marcado por contornos internacionais e participa, desde o período colonial, de um processo de mobilidade acadêmica, pois a elite brasileira à época realizava boa parte de seus estudos na Europa. No período imperial, a educação universitária no Brasil começa a ser desenhada e concebida com algumas das marcas dos programas de mobilidade acadêmico-internacionais como os concebemos na atualidade. O período pré e pós guerras mundiais registra uma fase de significativas mudanças na universidade brasileira, cujo objetivo era capacitar profissionais brasileiros com o fito de que esses contribuíssem para o desenvolvimento e a visibilidade internacional do país. No entanto, pesquisadores como Knight e De Wit (1997), Stallivieri (2003), Morosini (2006), Altbach e Knight (2007), Lucchesi (2010), Laus (2012) e outros, concordam que foi somente a partir de 1970 que a internacionalização da educação no Brasil adquiriu novos contornos e proporções, tornando-se cada vez mais consistente e orientada.
Na atualidade, à medida que o desenho e a configuração geopolítica e socioeconômica mundial assumem novos contornos, passamos a presenciar e viver um hiperfronteiriço e diversificado processo de mobilidade acadêmica, os quais constituem um desafio e ao mesmo tempo um problema por causa da intensidade, da velocidade, da complexidade e da fluidez das mudanças no cenário acadêmico internacional. Isso passa a exigir de todos os atores envolvidos nesse processo um esforço de adaptação e partilha de costumes, hábitos, valores, língua, etc. e que nem sempre ocorre de maneira serena.
É precisamente nesse cenário sócio-histórico, hipercomplexo e movediço que as atuais políticas de internacionalização da educação no Brasil são concebidas. Minha compreensão, a ser discutida mais adiante neste texto, é de que tais políticas têm um caráter linguístico embora albergadas sob políticas educacionais e públicas. Objetivam possibilitar a produção, a promoção e a difusão de pesquisas e intervenções acadêmico-científicas em âmbito internacional. Entretanto, no bojo dos programas de internacionalização e mobilidade
acadêmica, tais pesquisas e intervenções deveriam escapar à lógica do imaginário global 16 sendo, em sua natureza, inovadoras e emancipadoras. Assim, poderiam potencializar indistintamente os recursos humanos, promover a paz e a dignidade dos discentes internacionais e contribuir para seu desenvolvimento pessoal, familiar, sociocultural e profissional enquanto cidadãos protagonistas.
Por conseguinte, diante do exposto, a principal hipótese que fundamenta as razões pelas quais esta pesquisa deva ser levada a cabo é de que as políticas de internacionalização envolvendo programas de mobilidade acadêmica lograrão seu objetivo se propiciarem não somente o acesso a tais programas, mas também o devido acolhimento e acompanhamento socioacadêmico dos discentes internacionais que dele participam. Não deve haver no bojo de tais políticas ações de exclusão de qualquer natureza ou extensão. Ademais, visto que todo esse processo é perpassado pela linguagem, suas lentes devem servir de instrumento para indicar as rotas trilhadas por tais políticas e propor outras mais eficazes, se for o caso.
No primeiro diálogo entre Morpheu e Neo, no filme The Matrix, ele pergunta se Neo quer saber o que é a Matrix que tanto o intriga e incomoda. Após o consentimento de Neo, ele diz:
Matrix está em toda parte. Está em nossa volta. Você a vê quando olha pela janela ou quando liga a televisão. Você a sente quando vai trabalhar, quando vai à igreja, quando paga seus impostos.
É o mundo que acredita ser real para que não perceba a verdade.
Se tomo a noção de Matrix conforme definida nesse diálogo, posso com tranquilidade associá-la à concepção de uma matriz mundial contemporânea que nos compele a determinadas posturas e comportamentos, inclusive no bojo dos programas de internacionalização. É nessa matriz que construímos, desmantelamos e refazemos relações que se processam por meio da linguagem.
Nesse sentido, não podemos desconsiderar o tom alertador na fala de Roland Barthes ao dizer que “o poder reside na língua [que] não é reacionária nem progressista; é simplesmente fascista”. (1980, pp. 12, 14) Língua aqui subentendida como uma das vias pela Para uma discussão sobre o imaginário global recomendo a leitura de Vanessa Andreotti, et al. (2017). 16
qual circula o discurso que pode esconder a realidade do mundo, a verdade da Matrix. É nesse ponto cego que podem vir, segundo Blommaert, a “funcionar, ser geridas ou articuladas ações de desigualdade”. (2001, p. 13) E tais ações, segundo postula Ruth Wodak, podem ou não manifestar “tanto relações estruturais de dominação, discriminação, poder e controle opacas, quanto as transparentes”. (1995, p. 204) Tudo isso é propiciado nesse movimento de faz-de- conta e aparente normalidade promovido pela Matrix.
Em conclusão, revozeio Cipriano Luckesi quando ele diz que “o conhecimento tem o poder de transformar a opacidade da realidade em caminhos iluminados, de tal forma que nos permite agir com certeza, segurança e previsão”. (1985, p. 51) Espero que o conhecimento produzido neste caminhar científico ‘transforme a opacidade da realidade [da Matrix] em caminhos [mais] iluminados’ para todos os atores envolvidos nos programas de internacionalização.