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III- ARHTROLYSE DU COUDE

3. ATTELLES DE POSTURE

Falar de relevância social em uma pesquisa pode parecer, no mínimo, desnecessário e redundante, pois se espera que toda investigação científica seja social e ontologicamente orientada e, por conseguinte, compromissada com a promoção do bem-estar dos atores envolvidos. Seja uma pesquisa sobre o desassoreamento de um rio ou estuário, sobre uma epidemia como a febre amarela ou ebola, sobre o desmatamento, sobre o impacto ambiental na produção de energia por uma usina hidroelétrica ou termoelétrica, sobre o controle de pragas, sobre natalidade ou longevidade, etc.

Não é meu objetivo aqui ocupar-me desses temas. Mas o ponto é: não importa a área que se investigue, espera-se que seu fim e propósito sejam sempre ontológicos; logo, socialmente relevantes. Este é o primeiro ponto que marca a relevância social de minha pesquisa.

Sobre isso, convirjo com Max Horkheimer ao falar sobre o “desejo de/pela verdade”, opacificada pela Matrix, em que “a essência da ciência não se esgota na economia do pensamento e da técnica”. (2002, p. 91) Ou seja, a investigação de problemas sociais advindos da relação linguagem e sociedade constituem em si mesmo um motivo relevante para uma pesquisa linguística socialmente orientada. Tais problemas são acessados por meio

de dados semióticos e textos ora gerados ora coletados no seio das práticas sociais que albergam o fenômeno de interesse. Assim, minha preocupação é o que Bhaskar e Lawson chamaram de “a teoria do ser, a ontologia, como distinta e em última instância contendo a epistemologia, a teoria do conhecimento”. (1998, p. 5)

Em uma perspectiva ontológica, é preciso que a pesquisa prime pela voz dos participantes da pesquisa, dos atores envolvidos em determinada investigação científica. Voz nos termos de Blommaert (2005, p. 4) que a concebe qual recurso “usado como uma maneira em que nos fazemos entender ou não, e valendo-nos do aparato discursivo que temos disponível”. Alinho essa questão da voz a trechos esparsos de um dos poemas mais intrigantes de Cruz e Sousa, simbolista brasileiro.

Tristes perfis, os mais vagos contornos, Bocas murmurejantes de lamento […]

Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

São ilhas de degredo atroz, funéreo, Para onde vão, fatigadas no sonho, Almas que se abismaram no mistério.

Violões que choram — Cruz e Souza (1995, pp. 50-53)

Portanto, pesquisa social relevante e ontologicamente orientada implica ouvir as vozes que oscilam entre aquelas que são ‘veladas, veludosas, voluptuosas, vórtices, vivas, vãs, vulcanizadas, degredadas, atrozes, funéreas, fatigadas ou misteriosas’. Sim, o verbo aqui é ouvir as vozes dos atores envolvidos. E como uma colega da Universidade de Brasília, Viviane Resende, estou convencido de que “é preciso entender de uma vez por todas que nunca se trata de ‘dar voz’ (expressão máxima da soberba acadêmica!), mas sempre de ouvir e de ser capaz de entrar em diálogo aberto, com disposição para aprender” (2017, p. 48) com os participantes de nossas pesquisas. Isso é, de fato, o que Bhaskar e Lawson chamariam de produção de uma teoria do ser.

O segundo ponto que alicerça a relevância social deste estudo pode ser ilustrado no questionamento de Morpheu a Neo em outro momento intrigante do filme The Matrix:

Você já teve um sonho, Neo, em que você estava tão certo de que era real? E se você fosse incapaz de acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o real?

Com alguns ajustes e inserções no texto original com o fito de adaptá-lo ao contexto desta investigação, reproduzo aqui, quase que ipsis litteris, o que declarei outrora, em um trecho pessoal em Sá (2016b), e que se refere a outra cena do filme The Matrix que venho usando como metáfora.

Asseverei à época que concebo o mundo contemporâneo como uma espécie de bricolagem social em que vários elementos, tais como a história, a filosofia, as artes, a tecnologia e tantos outros campos do saber e da atuação humana, se entrelaçam formando o conflituoso tecido social hodierno. Conflituoso, ambíguo, ambivalente, ora real ora imaginário. Vivo em um mundo que, aos meus olhos, pode ser considerado como uma Matrix ilusória: uma fascinante aventura cibernética, repleta de efeitos super especiais dominados por máquinas dotadas de inteligência artificial e que controlam o ser humano. Neste cenário, não passo de um software, um programa de computador, uma mera ilusão, ou melhor dizendo para sintetizar: uma realidade virtual. Como então saber a diferença, ecoando Morpheu na epígrafe acima, entre o sonho e o real? O que é real e irreal no que tange ao enredo e às ideias centrais desta pesquisa, a saber: políticas de internacionalização, educação universitária brasileira, mobilidade acadêmica, hospitalidade, acesso, acolhimento e acompanhamento, crítica e criticidade, etc.?

A palavra Matrix, originalmente mater em latim, é usada para designar os vocábulos mãe, útero, molde de fundição, etc. Para a educadora e filósofa da contemporaneidade Marilena Chauí (2005, pp. 2, 3) “a Matrix tem todos esses sentidos: ela é, ao mesmo tempo, um útero universal onde estão todos os seres humanos cuja vida real é “uterina” e cuja vida imaginária é forjada pelos circuitos de codificadores e decodificadores de cores e sons e pelas redes de guias de entrada e saída de sinais lógicos”. Baudrillard (1981) coaduna com Chauí ao sugerir que o mundo contemporâneo é hiper-real onde modelos e

espectros da realidade não correspondem ao mundo em que estamos socialmente inseridos; em vez disso, tais modelos e espectros dominam e ocupam o lugar do real.

Para o pensador o que está posto é, na verdade, uma era de simulação composta de signos, códigos e modelos que não têm mais sentido, pois o real é substituído por falsificações, por simulacros. Em harmonia com o precedente, ecoo o pensamento de ambos os filósofos, porquanto entendo que estamos, quais estudiosos críticos de linguagem e, por conseguinte, pesquis-a-dores sociais, aprisionados em um sistema que apenas simula a realidade almejada. Isso explica o motivo pelo qual parece que não avançamos quando pensamos nos enredos que demarcam nossas pesquisas.

Como preconiza o filme, precisamos sair desse círculo vicioso, da Matrix que promove irrealidades. Somente assim é possível contribuir ativamente à construção e execução de ações igualitárias socialmente orientadas e que se materializem em uma época de hipermobilidade transacional promovida pelo imaginário global. A partir de um prisma sociológico e filosófico, alinho-me a Vanessa Andreotti (2016, p. 133) ao perceber esse imaginário global como o conjunto de narrativas que se retroalimentam e reforçam a dualidade Norte-Sul. Propaga-se, então, a ideia de que o eixo Norte é desenvolvido, líder, mais avançado em todos os sentidos e superior ao eixo Sul que é, por sua vez, tido como atrasado, inferior e subdesenvolvido social, cultural, educacional e economicamente. Com o constante redesenho sociopolítico e econômico mundial a noção de norte e sul também assume novas configurações além daquelas pensadas apenas sob prismas geográficos.

Por hipermobilidade transacional, refiro-me tanto à natureza do processo de deslocamento global quanto às milhares de pessoas que precisam se desenraizar, ou são desenraizadas, de seu lugar de origem, as quais participam, voluntária ou compulsoriamente, de um movimento sobreposto de deslocamento e cruzamento de fronteiras geopolíticas, culturais, linguísticas, etc. De volta à Matrix, penso que ao tentar fincar os pés no mundo irreal, todos os que participam nesse cenário híbrido, instável e conflituoso precisam receber um trato social inclusivo e igualitário que deve ser uma marca que caracteriza a promoção dos direitos de universalidade e individualidade.

No Brasil, o tecido social é historicamente filamentoso e obliquamente constituído nas vias dessa hipermobilidade transacional. Diante de tal complexidade tecidual, a acomodação sociocultural dos atores desse movimento pode resultar em práticas inclusivas e

amorosas, na perspectiva freireana (2015), ou segregacionistas e perversas, na acepção bourdieuniana (2005).

Para Bourdieu, as relações que subjazem os embates nesse deslocamento são espaciais e de ordem econômica com base em desigualdades travadas em diferentes campos sociais. Esses são um:

espaço multidimensional de posições tal que qualquer posição atual pode ser definida em função de um sistema multidimensional de coordenadas cujos valores correspondem aos valores das diferentes variáveis pertinentes: os agentes distribuem-se assim neles, na sua primeira dimensão, segundo o volume global de capital que possuem e, na segunda dimensão, segundo a composição de seu capital, quer dizer, segundo o peso relativo das diferentes espécies no conjunto das suas posses. (1983, p. 135)

Alinho meu pensamento ao conceito acima ao ponderar acerca desse processo na contemporaneidade. Há neste campo social um embate de ordem primariamente econômica e regulado pela posse, ou conquista, de determinado capital social simbólico como parte de uma Matrix, um aparato outrora multi mas que atualmente se formata pluridimensionalmente. É nessa Matrix que a gênese de ações sociais é constituída e reformatada segundo a bússola do imaginário global. No caso dos que se deslocam nessa época de hipermobilidade transacional, a permanência dentro desse campo social envolve luta pela conquista e posse do capital simbólico correspondente.

Diante do exposto, concebo ser esta pesquisa relevante porque tem como segunda meta o alcance da máxima de Francis Bacon (2007): “Conhecimento é poder”. Independentemente das falhas e críticas posteriores à teoria baconiana, esse filósofo inglês propôs um avanço nos estudos científicos à época na obra de sua autoria Meditationes Sacrae, de 1597, em que destacou que uma vez tendo tido acesso à informação e ao conhecimento, as pessoas poderiam fazer, permitir, concordar e aceitar coisas ou não, e que, indireta ou inconscientemente, são capazes de alterar as relações sociais. É minha percepção que tais informações e conhecimentos se materializam pela linguagem e, mais precisamente, por meio do discurso, em sentido mais amplo.

E, sendo assim, remeto-me a Teun van Dijk quando ele nos lembra que “o discurso controla mentes e mentes controlam ação”. (2015, p. 18) A informação e o conhecimento sobre esse processo pode rompê-lo visando à melhoria de determinadas

práticas. Portanto, entendo que esta pesquisa contribuirá para essa percepção da Matrix, desse círculo, desse sonho do qual se quer acordar, e para a saída dela, caso seja necessário.

Por fim, para apresentar o terceiro e derradeiro ponto que ressalta a relevância desta pesquisa, alio-me à filosofia política abordada na teoria social de Jürgen Habermas que se adere à epistemologia e abordagem desconstrutivista de Derrida (1968), segundo Buckingham, et al (2011).

Para Habermas, determinada sociedade pode avançar somente se for capaz de se organizar, observar sua própria idiossincrasia e tradições e racionalmente criticar e pensar de modo coletivo. Para ele, a história mostrou que a sociedade conseguiu criar o que ele denominou de “esfera pública” (1984; 2003), ou seja, um espaço entre a esfera privada e a estatal. Nessa esfera pública, os agentes sociais atuam de modo crítico e questionam as ações e cultura que o Estado tenta impor. Assim, é pela atuação nesta ‘esfera pública ou espaço intermediário’ que os atores sociais constroem consenso e promovem mudanças visando à promoção de igualdades na sociedade.

O ponto de aderência entre Habermas e Derrida reside justamente na racionalidade crítica do filósofo alemão à abordagem complexa de desconstrução do francês. Para Derrida, todo texto é crivado de aporias que são contradições, hiatos, impasses, paradoxos, pontos cegos, etc. Sua proposta de desconstrução é trazer à luz tais aporias que se escondem na língua. Para tanto, Derrida propõe o conceito da “diferência”, em francês différance; um jogo de palavras nessa língua para diferir, différence, e adiar, deférrer.

Em outras palavras, para esse autor os significados e os sentidos de um texto nunca estão fora dele. Trata-se apenas de uma questão de “diferência”: de adiar e de diferir ou vice-e-versa. E, visto que tais significados e sentidos não são tão objetivos e claros como o pensamento, precisam ser desvelados pela desconstrução que implica questões políticas, históricas e éticas facilmente ocultáveis. É no terceiro espaço, na esfera pública habermasiana, que os atores sociais crítico-racionais devem desconstruir o texto societal e buscar os significados, os sentidos ocultos nele mesmo.

Em suma, advogo pela relevância social desta pesquisa visto que, primeiro, ela é orientada ontologicamente; segundo, visa a uma melhor compreensão e conhecimento dos discursos que circulam na Matrix e como podem gerenciar ações sociais; e, terceiro, como desconstruir criticamente esses discursos, e.g. pela percepção da différance derridiana. Por conseguinte, sobre minha pesquisa corroboro e reproduzo a voz de Carlos Brandão (1981, p. 10):

Quanto mais rigorosos para com a sua ciência, tanto mais os cientistas

conscientes coçavam na cabeça perguntas inquietantes. […] Para o quê serve

o conhecimento social que a minha ciência acumula? Para quem, afinal? Para que usos e em nome de quem, de que poderes sobre mim e sobre aqueles a respeito de quem o que eu conheço, diz alguma coisa?

Como estudioso crítico de linguagem e pesquis-a-dor social, e alinhado ao pensamento acima, acrescento as palavras de Kanavillil Rajagopalan, pensador e pesquisador crítico indiano, para advogar a favor de minha pesquisa ressaltando que ela se encaixa em uma perspectiva socialmente relevante: “Quando me refiro a uma linguística crítica, quero, antes de mais nada, me referir a uma linguística voltada para questões práticas”. (2003, p. 12) No ano seguinte, ele nos alertou dizendo que, como pesquisadores, “[…] não devemos nos afastar das questões práticas só porque a ciência pura soa chique”. (2004, p. 218) Esse é o foco dos estudos críticos de linguagem aos quais me alinho: não pensar apenas na pureza científica de determinada pesquisa, mas em questões sociais, práticas, axiológicas e ontológicas por caminhos transdisciplinares. Assim, trabalharei para que em minha pesquisa ecoe, no final das contas, as palavras abaixo:

Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser Todo verbo é livre para ser direto ou indireto Nenhum predicado será prejudicado Nem tampouco a vírgula, nem a crase, nem a frase e ponto final! Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas … […] Por que é que não se junta Tudo numa coisa só?

Sintaxe à Vontade ― O Teatro Mágico.