A cisão e multiplicidade de perspectivas a que o Surrealismo deu forma tornam-se mais evidentes se atentarmos na sua fase inicial, na qual existia uma certa unidade quanto ao inimigo e ao posicionamento necessário para o combater. Nos seus primeiros anos de existência, o Surrealismo caracterizou-se pela profunda marginalidade e pela irredutibilidade da oposição ao sistema social e cultural dominante. Perante as produções e manifestações surrealistas, como perante as de qualquer outro movimento de Vanguarda, a sociedade dividiu-se nas duas perspectivas da barricada definidas por Ortega y Gasset em A desumanização da Arte: “uma, mínima, formada por um reduzido número de pessoas, que lhe é favorável; outra, maioritária, inumerável, que lhe é hostil” (Ortega y Gasset, 2003: 62)1
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Caracterização que se pode relacionar com a de Matei Calinescu quando, em As
Os surrealistas encontravam-se nesta altura numa situação “marginal em relação à vida social; marginal em relação à vida política; marginal em relação ao poder instituído” (Castro, 1987: 22), aliás, era essa a sua situa- ção antes mesmo de os seus representantes mais considerados aderirem ao movimento, o que os unia na oposição e no desejo de combater com todas as forças a sociedade que gerara os horrores da recente Primeira Guerra Mundial, na qual alguns deles, como Breton, tinham participado. Esta é a ideia que nos oferecem dois surrealistas tão distintos como André Breton e Antonin Artaud, quando convidados a recordar os primeiros tempos do movimento. Nas suas Entrevistas, Breton afirma:
Os anos de 1924 e 25, que são aqueles em que o surrealismo se formula e organiza, serão sem dúvida, com os de 30 e 31, os que nos encontrarão mais activamente rebeldes a todo o conformismo e resolutamente mais «insociáveis». O mundo onde vivemos parece-nos totalmente alienado; rejeitamos, de comum acordo, os princípios por que se rege. A esse res- peito, nem precisamos de nos consultar: cada recém-chegado vem ter connosco movido pela recusa exasperada destes princípios, pelo des- gosto e a raiva para com tudo o que engendram. O maior rancor reser- vamo-lo aos conceitos a que se convencionou atribuir um valor sagrado: em primeiro lugar, a «família», a «pátria», a «religião», sem exceptuar o «trabalho», nem mesmo a «honra», no sentido mais difundido do termo. Tais bandeiras pareciam-nos encobrir mercadorias sórdidas: ainda tínha- mos demasiado presentes no espírito os sacrifícios humanos que esses deuses haviam exigido e exigiam ainda (Breton, 1994: 99).
Antonin Artaud tem uma perspectiva semelhante da fase em que pertenceu ao grupo:
O Surrealismo nasceu de um desespero e de uma repugnância e nasceu nos bancos da escola. Muito mais que um movimento literário, foi uma revolta moral, foi o grito orgânico do homem, foi em nós o escoicinhar do ser contra toda e qualquer coerção […]. Quando o Surrealismo come- çou, todos nós nos sentíamos agitados por uma fervente revolta contra todas as formas de opressão material ou espiritual: Pai, Pátria, Religião, Família, nada havia que nós não invectivássemos… (1980: 11).
“enquanto uma fase da história da civilização ocidental – um produto do pro- gresso científico e tecnológico, da revolução industrial, das radicais mudanças sociais e económicas produzidas pelo capitalismo – e a Modernidade enquanto um conceito estético” (1999: 49). Esta divisão explica o conflito aberto entre os meios burgueses, representantes do primeiro conceito, e os artistas de Vanguarda que se opõem à civilização por eles representada.O movimento surrealista concentrou-se em torno de um grupo de jovens vivendo em profunda marginalidade, que se colocavam delibera- damente fora do sistema que repudiavam e tentavam derrubar, atacando de modo indiscriminado todos os seus valores, que se tinham mostrado incapazes de solucionar a encruzilhada a que a Modernidade conduzira. Partilhavam perspectivas semelhantes, um modo de vida boémio e margi- nal comum, referências literárias e culturais que validavam, na sua óptica, a continuidade de um projecto que esses grandes vultos tinham legiti- mado. Breton refere-se a essa ambição numa das suas entrevistas:
É fatal que a ambição – depois classificada de prometeica – dos poetas que acabo de citar, no sentido de forçar as portas do mistério e resolutamente avançar, a despeito de todos os interditos, em terra desconhecida, não podia deixar de ser extremamente incómoda para todos os que se instalaram confortavelmente atrás das barreiras existentes, e sabe-se que são legião. Nos dias de hoje, o seu furor recrudesce por não poderem deter a história das ideias, pois que neste, como noutros aspectos, é impossível voltar atrás. Nada conseguirá que a actividade poética, há mais de um século orientada para a recuperação dos poderes originais do espírito, consinta em retomar um lugar subalterno (Breton, 1994: 88).
Não existe, portanto, qualquer conflito de interesses ou cisão de pon- tos de vista, até porque os objectivos são ainda muito abrangentes, enqua- drando-se perfeitamente nas intenções das diferentes personalidades. A conjugação entre a destruição levada a cabo sobre as formas, métodos e escolhas de uma determinada cultura e a criação de um novo universo que o transcendesse e o conduzisse à resolução das suas contradições e ten- dências castradoras é o programa dos Surrealistas quando aparece o Pri-
meiro Manifesto de André Breton, que sanciona “um modo de ver e sentir
que teve sempre de se impor, reflectir, precisar e formular em termos rei- vindicativos nos anos precedentes” (Breton, 1994: 87). Um programa amplo, para o qual não existe ainda uma ortodoxia demasiado evidente e que permite liberdade de movimentos a personalidades como a de Anto- nin Artraud, que no texto referido mostra a sua adesão aos princípios ini- ciais:
Destruição sobre destruição. Onde a poesia ataca as palavras, o incons- ciente ataca as imagens, mas há um espírito ainda mais secreto que se encarrega de proceder à colagem dos fragmentos da estátua. O que se pretende é quebrar o real, desorientar os sentidos, desmoralizar se possí- vel as aparências, tendo porém em vista uma noção de concreto. Do seu obstinado massacre, o Surrealismo esforça-se por extrair alguma coisa.
Quebrado o fantoche, deteriorada a paisagem, torna-se a refazer tudo, mas de modo a provocar a gargalhada ou a fazer ressuscitar o cenário das terríveis imagens que nadam no inconsciente (Artaud, 1980: 14-15). Nada falta a esta observação de Artaud, por comparação com as ideias do Primeiro Manifesto. O papel da poesia e do inconsciente na des- truição de um universo linguístico e na reconstrução das imagens resul- tantes do corte com a noção de real conforme conhecido pela percepção externa são colocados em destaque. Artaud reconhece a necessidade de partir de uma base no Real, da qual se extrai algo que, depois de sujeito a uma deformação recriadora, dará origem a novas imagens existentes no interior do espírito humano. Nada parece separar o modo como Artaud, em 1936, aquando da sua passagem pelo México, recorda o movimento e os objectivos apresentados por Breton doze anos antes, quando a única utopia do surrealismo e o campo predominante do seu trabalho colectivo eram a busca do encontro futuro “destes dois estados, aparentemente tão contraditórios, que são o sonho e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer” (Breton, 1993: 24-25). O que nessa altura os separava irreversivelmente era o modo como desse estado inicial o movimento surrealista evoluíra para muitas outras coisas.
Maurice Nadeau considera esta fase o “período heróico”, resultante do encontro de um grupo de jovens idealistas e revoltados, que partilham um conjunto de crenças e de valores e uma actividade pouco nítida:
Nous avons remarqué avec quel soin jaloux les surréalistes se gardent de donner un dessin net à leur activité. Certes celle-ci n’est pas équivoque : ce sont des révoltés, qui veulent changer non seulement les conditions tra- ditionnelles de la poésie, mais aussi et surtout de la vie. Ils n’ont pas de doctrine, mais certaines valeurs qu’ils brandissent comme des drapeaux : toute-puissance de l’inconscient et de ses manifestations : le rêve, l’écriture automatique, et partant, destruction de la logique et de tout ce qui s’appuie sur elle. Destruction aussi de la religion, de la morale, de la famille, cami- soles de force qui empêchent l’homme de vivre suivant son désir (1947: 96).
Este isolamento face a um inimigo que se pretendia surpreender permitiu ao Surrealismo viver o seu momento de maior euforia, eferves- cência e intervenção polémica. Os conflitos em que se viram envolvidos, do ataque a Anatole France e do escândalo no jantar em homenagem a Saint-Pol-Roux à série de invectivas incendiárias de Artaud, isolaram-nos do resto da sociedade, mas também se revelaram inoperantes tendo em conta os objectivos perseguidos: “Leur idéalisme est pur, mais inopérant ;
ils s’en dépouilleront peu à peu au milieu de crises intérieures graves, de questions de confiance sans cesse posées” (Nadeau, 1947: 97). Facilmente se percebe que este ambiente de concordância entre os surrealistas guarda já as sementes de uma ruptura iminente, agravada com a entrada em cena de uma via que não fora, até ali, considerada mas que motivará as mais graves crises que o movimento conheceu: a via da intervenção social com a aproximação ao Comunismo, que coincidiu com o momento em que o Surrealismo conseguiu afirmar-se no âmbito da cultura, deixando a mar- ginalidade inicial para expandir rapidamente a sua influência além-fron- teiras, num processo que Jules-François Dupuis apelidou, na História
desenvolta do Surrealismo, de “enxameação”. Não deixariam de carregar
consigo, contudo, a aura que Lima de Freitas veicula em As imaginações da
imagem:
Aqueles que, com Breton, sentiam ou pressentiam a extensão do desastre quotidiano, a insolvência dos statu quo e o escândalo das planificações que legislam o subjectivo a partir das pseudobjectividades da lógica prá- tica – artistas, poetas, cabeças e corpos marginais que viviam o drama da dissolução e da luta do «espírito contra a razão», como Crevel intitulou um dos seus textos – não mais deixaram de remexer a ferida, o rasgão doloroso, por onde vislumbravam a polpa vermelha de uma realidade outra, totalizante, indivisa, viva. Assim vejo, nesses homens de destino trágico, blasfematoriamente transidos de orgulho e terror, mais do que vítimas procurando evadir-se dos campos de concentração da sociedade moderna e em busca de inexistentes periferias naturais intactas, sonâm- bulos que dentro do próprio sonho lutavam por acordar, em demanda de um caminho que os levasse ao centro do labirinto, frente ao monstro lendário, não para acabar com a sua agonia milenária, mas para tentar reparar o erro deTeseu (Freitas, 1977: 30).
Manteriam, independentemente do que a realidade deles fez e das contradições que vitimaram o seu espírito inicial e as amizades então cria- das, esse prestígio de, utilizando o termo de Octávio Paz, “filhos do barro” nascidos de um mundo em violenta transformação, da qual resultaram outros movimentos de Vanguarda como o Futurismo, o Dadaismo ou o Expressionismo, e confrontados com a necessidade visceral e instintiva de se oporem irreversivelmente a todas as hipocrisias em que assentava o poder dominante, fossem quais fossem os seus domínios. Vivia-se, nesse dealbar do Surrealismo, o mundo que Lima de Freitas descreve num outro artigo dedicado ao movimento:
A Primeira Guerra Mundial, catástrofe cujo horror ultrapassou de longe o que até aí pudera imaginar-se, fez periclitar a «ordem estabelecida» da
velha Europa, aliás já fortemente abalada por numerosas crises, revolu- ções e guerras, «ordem» que atraía o ódio da maioria dos homens pen- santes, traumatizados por uma hecatombe que fazia duvidar da sobrevi- vência e da própria legitimidade dos antigos valores de Estado, Pátria, Autoridade, Família, Direito, Justiça ou mesmo da simples decência. Se a ciência e a epistemologia dos primeiros anos do século desconjuntaram parte do orgulhoso edifício das certezas de Oitocentos, a carnificina na lama das trincheiras veio pôr em causa outras certezas mais prosaicas e práticas, indispensáveis à manutenção física do contrato social, minando na raiz todos os esteios éticos, todos os preconceitos tácitos, todos os consensos vigentes se não evidentes (Freitas, 1982: 72-73).