P
or alguns anos ainda, a cultura popular permaneceria no centro das atividades literárias do Ceará. Uma nova geração de intelectuais, somada ao desenvolvimento gradual da cidade de Fortaleza, daria um novo acento à matéria, conduzindo as questões sobre poesia po- pular e seu registro à arena principal da conflituosa transição do Romantismo ao Realismo. Nesse novo cenário, a presença de um velho e ilustre conterrâneo, o romancista José de Alencar, foi estra- tégica para articular os atores dessa fase final do processo de confi- guração do sistema literário no território cearense.Vindo do Rio de Janeiro, José de Alencar chegou ao mar de Fortaleza em 26 de junho de 1873 a bordo do vapor nacional Guará. Seria a última viagem “aos ares amenos de sua pátria” (O cEARENSE, 1873, p. 2). O romancista desembarcava doente, com problemas no fígado e no pulmão. A viagem? Uma recomendação médica para que o clima seco de sua terra natal o recuperasse. Há treze anos não punha os pés no Ceará, quando viera para disputar o cargo de depu- tado. Depois desses treze anos e dos treze dias da viagem, a re- cepção dos conterrâneos foi aquém do que ele imaginava: às quinze horas de uma tarde de junho, poucos lhe deram as boas-vindas.
Quem desembarcava em Fortaleza naquele tempo não encon- trava cais, era necessário chegar à areia pelas mãos e pelos barcos dos jangadeiros, que aproveitavam a ocasião, em pleno mar, para vender víveres: “Os jangadeiros solicitavam passageiros para terra, vendiam passaros [sic], graúnas, corrupiões, macacos, sauins, ven- diam cocos, rapaduras, bolos de milho, tudo ostentando uma far- tura incrível na terra da seca e da desolação” (ARANHA, 1931, p. 138). Alencar, assim como Graça Aranha em 1881, tomou uma
dessas frágeis jangadas para chegar à praia e seguir viagem até o sítio que o aguardava.
Enfim, a cidade não mudara sua rotina para receber o mais ilustre dos seus filhos. Ninguém saiu da conversa de beira de calçada para ver passar o autor de Iracema, permaneceram lá, refrescando-se com o vento. Fortaleza conservava hábitos interioranos, com cos- tumes rurais e urbanos se misturando a cada esquina: “Geralmente o local que dentro da área urbana não está ocupado por casas ou suas dependências, o é por plantação de árvores frutíferas, hortas ou jar- dins” (POMPEU, 1896, p. 9). Animais eram criados soltos nas ruas ou amarrados nas árvores, banhados nas fontes públicas, abatidos em plena praça. Ao recordar a Fortaleza de 1881, Graça Aranha descreve: “As calçadas cheias de famílias sentadas a tomar o fresco da tarde, o tom plebeu, democrático, da cidade, [...], o sol ardente, as areias brancas, os coqueiros, os cômoros” (ARANHA, 1931, p. 140) – dava-se a impressão, ainda segundo Graça Aranha, “de ter aportado na costa marroquina, sem a arte mulçumana, terra pobre, deserta, de beduínos e ciganos” (ARANHA, 1931, p. 140). Muitas ruas ainda não possuíam calçamento, bastava se afastar um pouco do núcleo central da cidade para encontrar casebres incrustados no meio dos areais, nas dunas, contrastando com o estilo dos casarões do Centro e desafiando o tra- çado em xadrez projetado para a cidade pelo engenheiro Silva Paulet em 1818. De acordo com o romancista d’O Guarani, durante os meses em que esteve na província, perambulou bastante: “Depois disso con- fesso que não lhe escrevi mais porque no Ceará andei como vaga- bundo de um lugar para outro, buscando saúde” – escreveu em carta ao irmão Leonel (ALENcAR apud FILHO, 2008, p. 350).
Apesar do tom provinciano de Fortaleza, ele pôde observar os pequenos avanços que já alcançara a cidade, como as ruas ilumi- nadas a gás, a cargo da “Ceará Gaz Company Limited”; as fachadas do Hotel de França e do Hotel Vitória, os únicos de Fortaleza; as ruas do comércio com lojas de fazenda, de ferragens, de calçado; a li- vraria do português Joaquim José de Oliveira e a do Sr. João Luiz Rangel; os colégios Ateneu Cearense e o da Imaculada Conceição. Havia por ali o Passeio Público e a Biblioteca Pública, que, em 1870, possuía 5.543 volumes, sendo 1.152 de literatura. Fortaleza também já ostentava uma posição de destaque frente ao território cearense,
servindo como referência de socorro para as secas, como a de 1844/45. Outros melhoramentos urbanos como as obras de calça- mento, de abastecimento de água e da construção da Estrada de Ferro de Baturité, também devem ter entusiasmado um pouco o espí- rito do deputado cearense. Aliás, além dos compromissos com a saúde, uma das obrigações do político foi inaugurar um importante trecho da Estrada de Ferro de Baturité, a que ligava a capital à povo- ação de Arronches.
Conta Raimundo de Menezes, em José de Alencar: literato e
político (1977), que a inauguração da nova linha da locomotiva Fortaleza atraiu uma grande massa popular, com direito a duas
bandas de música e a uma merenda logo após a cerimônia religiosa. Alencar foi um dos oradores e um dos acionistas da empresa. O seu discurso mencionou as benfeitorias realizadas na capital da pro- víncia: “Não se esqueceram também os cearenses de dotar a sua Capital com melhoramentos que pareciam impossíveis há vinte anos, e que a tornaram uma das mais belas e aprazíveis cidades do Brasil” (ALENcAR apud MENEZES, 1977, p. 328). O discurso fez previsões auspiciosas para o Ceará e sua gente, destacando a superação da seca e da fome pelo progresso:
Nestes campos, senhores, onde há dois séculos ressoava o búzio do Camarão, o herói legendário de nossa terra, já repercutiu o sibilo da locomotiva que é o hino a civilização em marcha para o deserto. Não esmoreçam, senhores, diante das dificuldades que surgem à vossa co- rajosa iniciativa. Lembrai-vos que a divisa do cearense tem sido e deve ser perseverança. Em poucos anos tereis suprimido a distância, como suprimiste a seca e a fome; e dia virá, não mui remoto, em que a fa- mília cearense se congregue para celebrar a grande festa da indústria nas magníficas planícies da Ibiapaba, a mais fértil região do mundo, a nossa terra de promissão. Conceda-me a Providência, senhores, que ainda uma vez restituído à minha terra natal, eu me associe como hoje ao vosso júbilo patriótico, levantando um brinde: Ao futuro brilhante do Ceará! Ao seu progresso moral e material! (ALENCAR apud MENEZES, 1977, p. 328).
O discurso foi “espetacularmente aplaudido”, mas, sem dú- vida, alguns trechos não passavam de retórica e não condiziam total- mente com o dia a dia dos cearenses. O autor de O Sertanejo já dava por certo, por exemplo, o fim das grandes estiagens, pois, segundo
acreditava, “os açudes, que hoje cobrem toda a área da província” regularizaram os invernos (ALENcAR apud MENEZES, 1977, p. 328). A construção dos lagos artificiais deveu-se à inspiração do velho Senador Alencar, seu pai, um cearense, cujo nome escusava dizer, e que, certa vez, lembrou “que assim como outros povos faziam ce- leiros para o verão, devia o Ceará fazer provisão de água para a seca” (ALENcAR apud MENEZES, 1977, p. 328). José de Alencar, de certo modo, mediu suas palavras pelo bom momento de chuvas regulares pelo qual passava o Ceará, que, desde 1845, não sabia o que era falta d’água: “Os 32 anos de regularidade climática – o que significava pensar em abastança e, principalmente, estabilidade social – faziam pensar que “o que se passou no anno de 1845 era um quadro lugubre apagado pelo atrito de seis lustros” (NEVES, 2000, p. 26). Mas, trans- corridos apenas quatro anos, a terrível seca de 1877 levaria por água abaixo os prognósticos de Alencar, e, de lá para cá, as consequências da falta de chuva ainda não foram solucionadas.
Em seguida, o deputado prosseguiu o seu discurso tocando em outros pontos de interesse da sociedade. No transcorrer da canti- lena, Alencar afirmava que o “mercado de carne africana” jamais “manchou estas plagas”:
No quarto século decorrido depois das calamidades da última grande seca de 1825, quanto não fez este povo laborioso. Faltavam braços, pois nunca, senhores, o mercado de carne africana manchou estas plagas. Os cearenses criaram o trabalho livre em uma época em que não se ousava sequer murmurar a palavra – emancipação. Pelo tra- balho livre obteve o Ceará o que debalde tentaram países mui mais adiantados; obteve a pequena lavoura, que forma sob uma base de- mocrática a importante classe agrícola, o mais sólido fundamento da sociedade (ALENCAR apud MENEZES, 1977, p. 327).
No capítulo anterior, já aludimos à presença de mão de obra escrava no território cearense, todavia, alguns dados estatísticos ajudam a visualizar a situação além do cafezal da família de Juvenal Galeno. Em 1819, por exemplo, o Ceará possuía proporcionalmente um maior número de escravos se comparado ao Rio de Janeiro, a Pernambuco e a Minas Gerais. Enquanto a Corte totalizava 23,4% de população cativa, Pernambuco, 26,3%, e Minas, 26,9%, o Ceará so- mava 27,6% de escravos (RAMOS, 1943, p. 323). Porém, essa popu-
lação decresceu, e, um ano antes do discurso de Alencar, os cativos representavam apenas 4,4% do total dos cearenses (PINHEIRO, 1989/90, p. 204). Uma redução considerável e aparentemente incom- patível com o aumento gradual da produção agrícola verificado a partir de 1850. Isto se deveu à exploração da mão de obra farta e barata dos homens livres do Ceará e também ao comércio interpro- vincial de cativos, intensificado após a proibição do tráfico negreiro (PINHEIRO, 1989/90, p. 205). É preciso dizer que a maioria desses homens livres era pobre, negra, parda ou cabocla, e que também havia pretos livres e homens pardos escravos. Vinham de outras pro- víncias para trabalhar nas fazendas de criação de gado ora como vaqueiros, que ganhavam no sistema de quarta, ora como agregados de família. Na época do “ouro branco”, as lavouras de algodão do Ceará contaram com a presença tanto de cativos quanto de homens livres (FUNES, 2007).
O jornal O Cearense, de 4 de dezembro de 1857, já indicava, com certo ressentimento provinciano, que a solução mais viável para a indústria agrícola no Ceará era realmente utilizar a mão de obra local, uma vez que os benefícios do governo para a introdução de colonos europeus só chegavam às regiões centrais do país.12
O discurso de José de Alencar, embora modernizante, seria suplantado pelo discurso cientificista da geração seguinte que pre- tendia, também com uma promessa progressista, colocar o Ceará “nos trilhos”. Nesse processo, a elite cultural letrada (bacharéis, en- genheiros, profissionais liberais, médicos etc.) contribuiu bastante para a execução de tais propósitos.
E exatamente nesse ano de 1873, Fortaleza viu surgir um grupo literário e filosófico que agregava intelectuais formados sob a influ- ência direta do pensamento materialista/positivista, a saber, a
Academia Francesa do Ceará, que, aliada à Maçonaria, daria um tom
sério e compromissado aos grêmios seguintes até o desbunde da
Padaria Espiritual em 1892.
12 “Para nós não chegão [sic] esses benefícios; é inútil pensarmos nelles. Contemos somente com
nossas forças e dupliquemo-las com a industria. Nós não temos escravatura, ou pouco tivemos” (O CEARENSE, 1857).
Araripe Júnior, Capistrano de Abreu, Xilderico de Faria, Tomás Pompeu, e João Lopes eram bem jovens quando se reuniam na casa de Rocha Lima ou na casa de Tomás Pompeu para debater os princípios filosóficos do Positivismo. Os encontros desses jovens, alguns deles com passagem pela Escola de Recife, baseavam-se na leitura coletiva de Comte, Darwin, Spencer, Litré, Taine, Stuart Mill e outros:
Cada um de nós lia e tomava notas de uma obra de Comte, Darwin, Spencer ou Littré, os autores mais authorisados da epoca, e reunidos expúnhamos o resultado dessa leitura, submettendo-a á critica ou analyse dos demais (POMPEU, 1929, p. 51).
A Questão Religiosa, travada no Ceará nas páginas dos jornais
Fraternidade e Tribuna Católica, servia de combustível ao grupo. A
impetuosa polêmica entre Maçonaria e Clero forçava os meninos da
Academia Francesa a estarem continuamente estudando:
A controvérsia religiosa, que se travara entre o clero e a maçonaria, incitara a imprensa brasileira, apaixonando os animos e atrahindo a mocidade pela seducção das ideias livres. Aqui, no Ceará, apoiados por espíritos amadurecidos, pleiteamos também em prol dos princípios li- beraes, nas columnas da Fraternidade, com ardentia propria dos verdes annos, e uma dedicação que nos obrigava a estudos sérios e continuados (POMPEU, 1929, p. 51).
Essa geração, de fato, foi muito importante para a elevação do debate intelectual local. Agora, não eram somente o esforço e a atu- ação de poucos indivíduos, como ocorrera nos tempos de Juvenal Galeno, que teve de se ausentar, como vimos, de sua terra, para dialogar com outros escritores. O Ceará reunia, dessa vez, mais con- dições em favor de uma vida literária dinâmica, embora, é preciso dizer, o termo “literário” fosse entendido aqui em seu caráter amplo, envolvendo não só obras ficcionais como, sobretudo, textos filosó- ficos e científicos. A Maçonaria, nesse sentido, contribuiu muito, pois ela representava um dos poucos espaços masculinos de socia- lização, além de propagar o ideário iluminista mais progressista. Quase o grupo todo era maçom: Tomás Pompeu, Xilderico de Farias, João Lopes e Araripe Júnior. O espírito associativo, doravante, passou a ser regra entre os literatos cearenses, que precisavam criar
e recriar, a todo instante, ambientes de leitura, publicações, centros de discussão, debates públicos, conferências, redes de correspon- dência, récitas, saraus e tudo o mais que exigem as atividades lite- rárias, uma vez que a maior parte da população não sabia assinar o próprio nome. Para termos uma ideia, em 1872, 88,46% da popu- lação cearense era analfabeta (ABREU, 2009). Diante desse quadro, João Lopes e outros membros da Academia Francesa fundaram uma
Escola Popular, “escola noturna destinada aos pobres e operários”,
como diria Capistrano de Abreu no prefácio à obra de Rocha Lima (ABREU, 1968, p. 77).
Eles formaram um bloco tão atento às correntes científicas da época, com um corpo tão qualificado de intelectuais e, ao mesmo tempo, tão produtivo, que José Veríssimo os julgou anteriores ao
modernismo de Recife e mesmo independente dele.13 De fato, o
Ceará, como iria acontecer no Simbolismo e no Modernismo, acom- panhou de perto as linhas mais atuais da intelligentsia nacional:
Numa terra em que geralmente as correntes de renovação chegam com atraso considerável, é digno de nota o fato de a Academia Francesa do Ceará agitar a bandeira do Positivismo e da crítica tai- niana, chamada crítica genética, precisamente quando essas idéias começavam a penetrar no País (AZEVEDO, 1971, p. 34).
Evidentemente, essa geração não surgira de um dia para o outro. Um dos principais fatores do seu desenvolvimento antecede à ida dos estudantes à Faculdade de Recife e data de reuniões por volta de 1870, também na casa de Rocha Lima, numa agremiação juvenil chamada Fênix Estudantil, ou, principalmente, um pouco antes, em 1863, com a fundação do educandário Ateneu Cearense pelo pro- fessor João de Araújo Costa Mendes. Com esse novo colégio, nos moldes do Colégio Abílio, da Bahia, onde Rui Barbosa fizera as pri- meiras letras, os pais cearenses não precisavam se sacrificar tanto
13 “No Ceará, donde era e onde residia Araripe Júnior, formara-se por aquele tempo um grupo
literário composto dele, de Capistrano de Abreu, do malogrado Rocha Lima, de Domingos Olímpio, de Tomás Pompeu e doutros nomes menos conhecidos, grupo ledor de Spencer, Buckle, Taine e Comte e entusiasta das suas novas idéias. Esse grupo ficou estranho à influência da Escada e precedeu de dez anos a do Recife” (VERÍSSIMO, 1916, p. 334).
para preparar seus filhos às Academias de Ensino Superior, que fi- cavam todas em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia ou Pernambuco (TEÓFILO, 1922). Se quisessem, seus filhos poderiam realizar os pre- paratórios em Fortaleza. O Ateneu agregava os ensinos primário e secundário, e um de seus objetivos era “firmar a juventude em só- lidas bases de instrução literária, a fim de poder, a seu tempo, aplicar-se com proveito aos estudos maiores nas Academias e Seminários do império” (GIRÃO, 1955, p. 52). Ensinava-se Catecismo, Gramática, Francês, Inglês, Geografia, História, Geometria, Filosofia e Retórica, além de música, dança e ginástica:
Além de Capistrano, cursaram o Ateneu Cearense Domingos Olímpio, Rodolfo Teófilo, Raimundo Antônio de Rocha Lima, Paula Nei, Xilderico de Faria, Guilherme Studart, João Lopes Ferreira Filho, Frederico Borges, Tomás Pompeu, Padre João Augusto da Frota, Antônio Cruz Saldanha e outros. Nunca, decerto, um estabeleci- mento de ensino no Ceará grupou, na mesma época, uma tão admi- rável constelação de valores. Na literatura, na historiografia, na ci- ência, na política, todos aquêles viriam ocupar um lugar de acentuado destaque (CÂMARA, 1969, p. 26).
Com exceção de Araripe Júnior, os demais da Academia
Francesa estudaram no Ateneu Cearense, na turma de 1865. Uma vez
por semana, os alunos iam ao morro do Croatá exercitar o corpo, dar cangapés, arriscar saltos mortais, menos Capistrano de Abreu, que preferia ficar encostado, de bruços na areia quente, lendo e relendo algum livro, absorto até que o chamassem de volta ao colégio com o resto da turma. Lá fizeram amizade e dividiram as primeiras leituras. Futuramente, o colégio ainda formaria Clóvis Beviláqua, Farias Brito, Frota Pessoa e Otto de Alencar.
O Ateneu Cearense foi a semente da Academia Francesa, cujo marco primeiro, de acordo com a historiografia local, resume-se ao surgimento do jornal Fraternidade. A primeira circulação desse peri- ódico data de 4 de novembro de 1873. Ora, José de Alencar chega a Fortaleza em 26 de julho e volta ao Rio em 26 de novembro daquele ano, ou seja, ele estava no Ceará quando o jornal nasceu, acompa- nhou um pouco a Querela Religiosa e travou contato, no mínimo, com dois membros da Academia Francesa: Capistrano de Abreu e Araripe Júnior.
A presença do romancista na capital cearense, justamente nesse período, não pode ser subestimada. Pela primeira vez, Alencar contribuía diretamente para o desenvolvimento das atividades lite- rárias locais. Bem diferente fora a viagem anterior, a de 1860, viagem a trabalho, para tentar vaga de deputado. Em 1860, a sua preocu- pação voltava-se às questões políticas, pois não queria conquistar revés semelhante ao da eleição pretérita. A província, por outro lado, a não ser pelos esforços de Juvenal Galeno, cultivava uma vida lite- rária muito acanhada e, por mais que o polígrafo andasse pelas ruas da capital, não topava com nada instigante. Mas, mesmo não sendo o “vagabundo” de 1873, em 1860, perambulara bastante, revendo os campos da infância, de Herodes a Pilatos, como disse em carta a Tomás Pompeu: “Tenho andado de Herodes para Pilatos desde a noite em que estivemos juntos; andei pelo Alagadiço Novo, Mucuripe, Monguba e Maranguape” (ALENcAR, 1860). Porém, nada encontrou ali em que pudesse contribuir como homem de letras.
No entanto, em 1873, a situação era outra. Sua última visita à terra natal não visava a propósitos estritamente políticos ou prá- ticos; sobrava tempo para vadiagens, conversas com amigos e admi- radores. A província também apresentava um ambiente cultural um pouco mais animado. Além disso, Alencar já era um escritor lido e reconhecido por mais gente da terrinha. Os leitores de Fortaleza podiam encontrar seus livros na Livraria Oliveira, exemplares de
Diva, Iracema, Cinco minutos, Guarani, As minas de prata, Lucíola,
as peças Verso e reverso e Asas de um anjo, além das Cartas sobre a
Confederação dos Tamoios. Esses livros, num total de 24 exem-
plares, estavam nas prateleiras, em parte, consignados pelo próprio autor ao livreiro cearense.14
Quem quisesse já podia iniciar-se nas leituras de Alencar e, pela variedade de preços e títulos, por uma ninharia, levaria para casa algum título. E, se o mesmo leitor quisesse entender toda a po- lêmica com Gonçalves de Magalhães, estava lá a Confederação dos
14 “O próprio romancista Alencar, bastante editado pela Garnier, era responsável por algumas
consignações. Em 1870, o escritor era o representante da consignação de umas das suas obras: um exemplar do Rio de Janeiro – Verso e reverso, por $700 réis, e cinco Cartas sobre a Confederação dos Tamoyos, por $800 réis” (SILVA, 2011, p. 86).
Tamoyos por 4$200 réis. Isto demonstra que Alencar mantinha con-
tato com os agentes literários de Fortaleza, no caso, o livreiro Joaquim José de Oliveira. Um ano antes de sua derradeira viagem, em mais uma demonstração da atenção à vida literária de sua pátria, envia uma carta a Juvenal Galeno dando conta das suas impressões de Cenas populares e Liras, dois livrinhos do poeta da Aratanha:
Meu prezado colega. Recebi e cordialmente lhe agradeço os seus dois mimos literários, as Cenas [populares] e a Lira [Cearense]. O primeiro já o devorei; e confesso-lhe que há muito tempo não leio páginas que me causassem tão íntimo prazer. Parecia-me que estava no Ceará, na