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Afora as outras atividades, enquanto esteve na província, José de Alencar tentou por vários meios registrar no papel versões de duas gestas de animais: o “Boi Espácio” e “O Rabicho da Geralda”, cantigas da tradição oral, ou melhor, rimances cantados, ouvidos por ele ainda criança nos arrabaldes de Messejana, no sítio Alagadiço Novo. Agora, homem feito, buscava, nos moradores antigos de outro lugarejo, as histórias dos bois que tanto o encantaram na infância.

Tudo começou quando um octogenário, o Sr. Filipe José Ferreira, mais conhecido como Filipe do Pici, em uma tarde quente, na hora da sesta, entoou o início da melodia do “Boi Espácio”. No meio da toada, a memória do ancião deixou vir à tona a copla que principia a gesta:

Vinde cá, meu boi Espácio, Meu boi preto caraúna; Por seres das pontas liso Sempre vos deitei a unha.

Foi tudo. O velho Filipe, em seguida, como quem não quer nada, engatou uma outra loa, extensa, com direito a prólogo e con- clusão, mas a versalhada não agradou a Alencar tanto quanto os mir- rados versinhos anteriores. Mesmo com paciência de Jó, não houve

meios de “O Boi Espácio” ir além da quadra. De qualquer jeito, o Conselheiro Imperial estava encantado diante daquele homem que sabia histórias antigas do Ceará muito mais do que os figurões que o acompanhavam à missa. Filipe do Pici era natural do Crato, cidade da região do Cariri, região rica, desde o século XVIII, de festas religiosas e manifestações culturais. Casado com uma índia, Filipe morava em Arronches, nome antigo que se dava aos arredores de Porangaba, a meio caminho de quem vinha de Barro Vermelho para Messejana, antiga trilha de tangedores de gado:

Este velho é um livro curioso. Aprendi mais com ele, do que numa bi- blioteca, onde não encontraria as antigualhas que me contou. Mas a sua memória já se obscurecia com a sombra de quase um século que perpassou por ela. Era preciso esperar com paciência os momentos em que desnublava-se, e algumas vezes rastrear-lhe no espírito o fio de uma idéia para desenvolver as outras que se lhe encadeavam (ALENCAR, 1994, p. 34).

Nesse encontro, estão presentes as marcas típicas de uma en- trevista entre um intelectual curioso pelas tradições populares e uma pessoa capaz de transmitir algum saber. O encontro ocorreu por acaso, “fruto da distração nas longas e quentes sestas de Arrouches [sic]” (ALENcAR, 1994, p. 36), em um momento de ócio, numa viagem sem muitos compromissos. A Alencar, não interessava como, quando, onde e com quem Filipe aprendera aqueles versos, o velho era um homem do povo, um “arquivo”, um “livro curioso” da nossa me- mória, e estava ali, frente a frente com ele. A idade avançada ga- rantia-lhe legitimidade, e até a falta de memória reforçava a verdade de suas palavras. Cada verso, cada melodia, cada gesto eram ecos de um tempo longínquo que precisava ser preenchido. O romancista instigava a memória de Filipe do Pici com certa insistência, a ras- trear-lhe a ponta das canções que o idoso desenrolava com sofre- guidão. Se insistia para que o velho lembrasse o restante do “Boi Espácio” era porque acreditava tratar-se de um exemplar poético de raiz, mais próximo dos primórdios de nossa colonização: “Na primi- tiva poesia popular do Ceará, predomina o gênero pastoril como era razão entre populações principalmente dadas à indústria da criação, e derramadas por ubérrimas campinas coalhadas de toda a espécie de gado” (ALENcAR, 1994, p. 20).

A relevância dada ao gênero pastoril se justificava ainda pela especificidade dos costumes dos vaqueiros do Norte, dos seus aboios, dos seus trajes, da sua fala e da sua poesia, principalmente se con- trastada com os criadores europeus. Os vaqueiros também consti- tuíam trabalhadores incrustados no interior, isolados da civilização, por isso suas atividades se ajustavam perfeitamente à idealização romântica. A motivação por uma distinção de nacionalidade subjazia na escolha desse gênero: “Não podia, pois, as nossas rudes bucólicas cearenses se impregnarem da mesma doçura e amenidade das que outrora cantaram Teócrito e Virgílio, e que ainda hoje se reproduzem nos colmos dos pegureiros do Velho Mundo” (ALENcAR, 1994, p. 24).

Essas palavras lembram as do prefácio do livro Sonhos d’oiro (1872), que afirmam que um povo “que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, não podia falar uma língua com igual pro- núncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pêra, o da- masco e a nêspera” (ALENcAR, 1965, p. 498). Havia todo um ideário romântico para explicar o trabalho investigativo empregado naquele registro de poemas populares. E, nesse arcabouço conceitual, os há- bitos dos habitantes e a própria terra dos cearenses se inclinavam para o épico, para a força e para a luta: “A razão da singularidade provém de não revestirem as canções cearenses a forma de idílio. Não se inspiram no sentimento lírico, têm cunho épico. São expan- sões, ou episódios da eterna heróida (sic) do homem em luta com a natureza” (ALENcAR, 1994, p. 20).

Alencar, no fim das contas, vincula o meio físico do Ceará a uma forma poética específica, mais apta a representar as duras cir- cunstâncias de quem nele vive e capaz de dar ao território cearense um conjunto de lendas sobre os primórdios da colonização brasi- leira. O épico estaria para o campo das tradições populares, pelo menos as do ciclo pastoril, como o romance estaria para o Romantismo, tanto por formar um passado heroico comum à nação quanto por favorecer a representação de suas peculiaridades.16

16 “Para os Grimm a epopéia é a forma mais primitiva, bem acabada, da matéria poética: ‘Nela se

exprimem as crenças, as aspirações, os pensamentos da coletividade; a história de um povo, nela se desenvolve como um fluxo regular e sereno. A epopéia é propriamente a poesia popular, porque ela é a poesia de todo um povo’” (ORTIZ, 1992, p. 24).

Os versinhos de “O Boi Espácio” e a conversa com o Sr. Filipe encorajaram o nosso romancista a ir à caça de outro animal famoso: “O Rabicho da Geralda”. Para tanto, concorreu com a ajuda de muitos amigos e parentes espalhados na província: “Já eu possuía três ver- sões, colhidas por amigos em vários pontos da província, quando um parente, o Dr. Barros, que é atualmente juiz de direito do Salgueiro, me fez o favor de enviar a lição por ele obtida no Ouricuri” (ALENcAR, 1994, p. 36). Passados uns meses, encontrando-se já em sua casa no Rio de Janeiro, esquecido dos animais de fama, bate à porta “um jovem patrício” que fora seu companheiro de viagem ao Ceará, agora, estudante na Corte, e que lhe dá uma quinta versão do poema “O Rabicho da Geralda”. Esse patrício, do sertão de Inhamuns, é outro personagem que contribuiu com os propósitos de Alencar. Como se vê, o autor de O Guarani moveu um contingente considerável de pessoas em torno de sua pesquisa, engajando um bom número de cearenses na empreitada. Além da rede de informantes, Alencar elegeu Capistrano de Abreu como seu auxiliar, passando, evidente- mente, algumas tarefas para o rapaz de Maranguape. Suas fontes então se estenderam além de Arronches e além de figuras provindas estritamente do “povo”. Tal procedimento estava em perfeita conso- nância com as atividades do gênero empreendidas pelos primeiros folcloristas. Afinal, a quem perguntar sobre versos populares? “Evidentemente aos velhos habitantes, vistos como os guardiões da memória, mas também ao padre, ao advogado, ao fazendeiro, ao doutor, isto é, às pessoas educadas que estão em contato com as camadas inferiores” (ORTIZ, 1992, p. 42-43).

Em O nosso cancioneiro, há também uma extensa reflexão sobre a Língua Portuguesa falada no Brasil. Novamente, as conclu- sões filológicas de Alencar esteiam-se no impulso nacionalista ro- mântico, a riscar mais uma fronteira entre Brasil e Portugal. O poema “O Rabicho da Geralda” funciona como amostra das nossas peculiaridades linguísticas: “Haverá no cancioneiro português, tão rico aliás, cousa que se pareça com o poemeto do Rabicho da

Geralda, não somente no assunto, como na maneira de o tratar e

expor? Eu não conheço” (ALENcAR, 1994, p. 55). A partir dele, ana- lisa algumas alterações da Língua Portuguesa em solo brasileiro, a começar pelo título do poema “que o sertanejo pronunciaria

Rabicho da Geralda como está escrito; e o alentejano teimaria em

ler Ravicho da Giralda” (ALENcAR, 1994, p. 55). A maneira de falar do sertanejo é valorizada e ganha destaque como índice da nacio- nalidade: “Se um de nossos sertanejos, transportado de repente a Portugal, cantasse a sua lenda cearense no terreiro de alguma das abeogarias do Alentejo, estou convencido que os granjeiros de lá não o entenderiam. Nem ele tampouco aos seus parceiros de ofício” (ALENcAR, 1994, p. 55).

Com a sua análise de “O Rabicho da Geralda”, Alencar foi o primeiro a comentar a poesia sertaneja em terras cearenses. Juvenal Galeno, como procuramos demonstrar no capítulo anterior, pesqui- sava com o fito de compor cantigas autorais. Aliás, O nosso cancio-

neiro é um dos primeiros trabalhos sobre poesia popular no Brasil,

antecedido apenas pelas anotações de Celso de Magalhães.17

Por esse tempo, ou mais precisamente, na segunda metade da década de 1860, o Ceará ganhava as suas primeiras obras de história, como a cronologia contida no Ensaio estatístico (1864) de Senador Pompeu; o livro de Tristão de Alencar Araripe, História da província

do Ceará: desde os tempos primitivos até 1850 (1867) e o volume de

Pedro Théberge, Esboço histórico sobre a Província do Ceará (1869); além das crônicas de João Brígido sobre o Cariri (RAMOS, 2012).

Da mesma maneira que a crônica histórica e a ficção roma- nesca, a edição de um cancioneiro popular integrava o procedimento de construção de um passado, de um tempo histórico comum para cearenses e brasileiros, num movimento centrípeto: das províncias mais periféricas para os grandes centros urbanos. Nesse tocante, vale destacar as palavras de Teófilo Braga a respeito do livro Sobre a

17 Sílvio Romero credita a antecessores seus o início das investigações sobre poesia popular no

Brasil. Depois de Celso de Magalhães, O nosso cancioneiro aparece como segunda referência na lista apresentada por Sílvio Romero: “O pouco que possuimos sobre o assumpto vem a ser: a) A Poesia

Brazileira, artigos publicados por Celso de Magalhães no Trabalho, do Recife; b) O nosso cancioneiro,

artigos de José de Alencar apparecidos no Globo, do Rio de Janeiro; c) algumas paginas da memória

Região e Raças Selvagens do Brazil por Couto de Magalhães, e mais tarde alguns capítulos do Selvagem pelo mesmo; d) algumas indicações no Lyrismo Brazileiro, por José Antonio de Freitas; e)

algumas referencias no Parnazo Portuguez Moderno de Th. Braga; f) alguns pequenos escriptos de Araripe Júnior; g) alguns artigos de Carlos de Koseritz na Gazeta de Porto-Alegre (ROMERO, 1888a, p. 41-42). Considera ainda outros autores, mas que julga não terem tratado do tema com devido cuidado: Varnhagen; J. F. Moutinho; J. A. Ferreira da Costa e Franklin Távora.

poesia popular no Brasil, de Sílvio Romero, transcritas igualmente

por Renato Ortiz:

Vimos como na França e na Inglaterra, o folclore se articula como uma ciência mediana, à sombra das disciplinas legítimas. Ele se dirige aos letrados do interior, e cresce distante dos grandes centros urbanos. Teófilo Braga, quando considera o desenvolvimento do folclore no Brasil, não deixa de captar esta peculiaridade. Ele observa que “a vita- lidade da tradição poética despertou o interesse dos críticos longe da capital, no Maranhão, onde o malogrado Celso de Magalhães começou a sua colheita de romances, em Sergipe, terra natal de Sílvio Romero, que continuou em Pernambuco as suas pesquisas durante o curso aca- dêmico, e no Rio Grande do Sul, onde Carlos Kosertiz coligiu os cantos líricos” (ORTIZ, 1992, p. 68).

Essa peculiaridade do folclore no Brasil mostra que o projeto nacional passava pelos rincões das províncias mais afastadas, verda- deiros “repositórios da memória” e que só ganhava materialidade no trabalho dos “letrados do interior”, como vimos na rede articulada por Alencar para conseguir as versões de “O rabicho da Geralda”. As atividades desses intelectuais provincianos, em última instância, re- presentam os esforços mais concretos para a edição dos cancioneiros populares. As reflexões de Alencar sobre os poemas do ciclo do gado e sua articulação com os intelectuais de diversas regiões do Ceará, assim como os romances Iracema e O sertanejo, preencheram partes significativas de uma identidade histórico-cultural brasileira, ao mesmo tempo em que entrelaçavam a história da província à história geral do país.

A semente lançada por O nosso cancioneiro não tardaria a frutificar, como também não tardariam as críticas dos realistas às suas ideias.

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