socioculturelle et violences conjugales
3. La violence conjugale dans son approche pluridisciplinaire :
Antes de avançarmos neste capítulo, ressalto que é importante fortalecermos as iniciativas de alguns indígenas, que enfatizam seu próprio protagonismo na produção de informações acerca dos povos indígenas por meio da escrita, de produções audiovisuais e de outras formas de apresentar nossas histórias e modos de viver. Isso certamente irá oportunizar novos olhares, contextos e reflexões e, quem sabe, também novas formas de fazer antropologia.
Acerca do que foi e do que será dito, talvez seja bom lembrar o que diz Vanessa Watts-Powless (2017), indígena canadense do povo Anishnaabe, sobre aquilo que chama de Lugar-Pensamento. Sua concepção de terra parte dos relatos sobre os
98 primórdios da humanidade, quando a Mulher-Céu34 caiu sobre as costas de uma
tartaruga, não apenas tornando-se capaz de criar terra, mas também se convertendo no próprio território. Para a autora, Lugar-Pensamento é uma extensão da condição da Mulher-Céu, de seu desejo e de sua comunicação com as águas e com os animais – de sua agência. Através dessa comunicação, ela é capaz de se tornar a base sobre a qual todas as futuras sociedades serão construídas – a Terra. Nas palavras de Watts-Powless:
Tornando-se terra ou território, ela se torna o designador de como todos os seres vivos irão se organizar sobre ela. Onde as águas fluem e se acumulam, onde montanhas surgem e formam vales, todos se tornam demarcações de quem residirá onde, como irão viver e determinam como se comportarão uns em relação aos outros. Cientistas se referem a isso como ecossistemas ou habitat. Entretanto, se aceitarmos a ideia de que todos os seres vivos possuem um espírito, então isso se estende para além de complexas estruturas dentro de um ecossistema. Significa que seres não humanos escolhem como irão residir, interagir e estabelecer relações com outros não humanos. Então, todos os elementos da natureza possuem agência e essa capacidade não é limitada por ações inatas ou relações causais (WATTS-POWLESS, 2017, p. 05).
A proposta defendida por Vanessa Watts-Powless (2017) é bem sugestiva e reflexiva, além de dialogar com aquilo em que acredito. Seguindo a cosmologia de seu povo, a autora mostra que a terra – ela própria dotada de agência – é o princípio organizador de todos os seres vivos, determinando o lugar de residência de cada espécie ou sociedade e também suas formas de vida e de convivência com as demais. Watts- Powless (2017) nos instiga, ainda, a pensar que todos os existentes do cosmos possuem espíritos. Desse modo, o caráter de suas interações transborda as estruturas complexas, mas mecânicas, dos ecossistemas tais como pensados pela ciência.
Dessa forma, entende-se que ecossistemas e habitats são melhor percebidos como campos de socialidades tecidas por agências, perpassados por estruturas éticas e acordos interespecíficos que implicam capacidade de entender, interpretar e construir relações. Os seres não-humanos são agentes dessas socialidades e influenciam diretamente a maneira como os humanos se organizam em seus ambientes.
Partindo dessa perspectiva, o problema que proponho discutir me parece relevante, pois envolve assuntos que geram preocupação não somente aos povos
34 Na história de criação haudenosaunee, a Mulher-Céu ficou curiosa e caiu do céu por um buraco e foi trazida com segurança até a terra por diferentes pássaros que a pousaram nas costas de uma tartaruga. Com a ajuda de outros animais eles foram capazes de criar o território e o princípio da humanidade.
99 indígenas, mas a toda humanidade. Nesse sentido, a partir de sua pesquisa junto aos Nambiquara, Anna Maria Costa considerou o seguinte:
Para os índios Nambiquara, as súbitas e indesejáveis intempéries da natureza são praticadas por entidades espirituais, habitantes das águas, montanhas campos, matas e, algumas delas, como dizem os índios, “[...] moram em todo lugar, no espaço. Como o vento que está em toda parte”. Esses seres trazem elementos individualizadores e identificadores e difundem sua existência materializando-se em ações perversas aos vivos, aos mortos e, até mesmo, aos espíritos benévolos que povoam o espaço Nambiquara. Assim, no universo Nambiquara, os humanos encontram-se em relação direta com os seres inumanos – ancestrais ou da natureza – e este último, de índoles distintas: do bem e do mal. O papel intermediador do Wanintesu (pajé) entre o visível e o invisível, por conseguinte, interfere na constante luta pela sua sobrevivência e dos demais Nambiquara (COSTA, 2009, p. 275).
Na cosmologia apurinã, vê-se que Tsura, ao criar o cosmos e os seres vivos, pretendia que todos convivessem harmoniosamente, respeitando uns aos outros. Assim foi por algum tempo. Hoje, porém, interesses distintos parecem colocar humanos e não- humanos em lados opostos, o que resulta no surgimento de conflitos e mortes entre eles. Algo parecido é dito entre os Yanomami; nas palavras de Davi Kopenawa, uma das principais lideranças desse povo:
Omama era o único a conhecer os xapiri e os deu ao seu filho porque, se morresse sem ter ensinado suas palavras, jamais teria havido xamã na floresta. Por isso fez de seu filho o primeiro xamã. Deixou-lhe o caminho dos xapiri antes de desaparecer. Disse a ele estas palavras: [...] com estes espíritos, você protegerá os humanos e seus filhos, por mais numerosos que sejam. Não deixe que os seres maléficos e as onças venham devorá-los. Impeçam as cobras e escorpiões de picá-los. Afaste deles as fumaças de epidemias xawara. Proteja também a floresta. Não deixe que se transforme em caos. Impeçam as águas do rio de afundá-las e a chuva de inundá-la sem trégua. Afaste o tempo encoberto e a escuridão. Segure o céu para que não desabe. Não deixe os raios caírem na terra e acalme a gritaria dos trovões! Impeça o ser tatu canastra Wakari de cortar as raízes das árvores e o ser do vendaval Yariporari de vir flechá-la e derrubá-las (KOPENAWA & ALBERT, 2015, p. 85-86).
Segundo Davi Kopenawa (2015), essas foram as palavras que Omama, o demiurgo do povo Yanomami, deu ao seu filho. Por isso, até hoje os xamãs continuam a defender seu povo e a floresta. Tanto para os Apurinã como para os Yanomami – e, acredito, para muitos outros povos – os seres divinos ou espirituais também protegem os brancos – apesar de serem outra gente – e todas as terras, até as mais distantes.
100 No entanto, as preocupações e discussões sobre a mudança climática e sobre o aquecimento global vêm crescendo nos últimos tempos. Tais processos têm recebido a atenção de autoridades, cientistas e ativistas, que – dentro daquilo que vem sendo entendido como antropoceno – os tratam como acidentes ecológicos, catástrofes ambientais, fenômenos previsíveis ou imprevisíveis. O fato é que, independentemente das nomenclaturas que esses acontecimentos recebem, eles continuam a ocorrer, acarretando impactos imensuráveis sobre a vida no planeta, muitos dos quais são irreversíveis.
Muitas vezes, o aquecimento global é explicado como uma consequência do excesso de gases de efeito estufa na atmosfera, ocasionado pela queima de combustíveis fósseis, e dos usos inadequados do meio ambiente, como os desmatamentos e as queimadas. Isso leva ao aparecimento mais frequente de terremotos e furações, assim como ao degelo das camadas polares e de altitude, aumento do nível dos oceanos, alteração dos regimes de chuvas em várias regiões e desertificação em outras, extinção de espécies e perda de biodiversidade.
Ao tratar das consequências nocivas da alteração climática, Francisco Sarmento chama a atenção para o contexto brasileiro:
No Brasil houve nos últimos anos tragédias envolvendo deslizamento de terras e alagamentos na região sul-sudeste e falta de água em outros momentos; no nordeste há aumentos das grandes secas e desertificação do semiárido; a Amazônia, região úmida e com chuvas constantes e periódicas, viu nas últimas décadas as secas de seus inúmeros e grandes rios. Estes acontecimentos acontecem sempre envolvendo danos às populações onde acontecem, com perdas materiais e humanas (SARMENTO, 2017a, p. 02).
Esses eventos estão acontecendo em grande escala e têm ganhado destaque em muitas conferências mundiais que são articuladas e realizadas com o propósito de atenuar a depredação ambiental, como a ECO 92 e a RIO+20. Infelizmente, entretanto, os encaminhamentos propostos nesses e em outros encontros análogos costumam ficar apenas no papel, e poucas medidas são efetivamente tomadas para evitar a destruição do meio ambiente.
Para Vanessa Watts-Powless (2017), a discussão em torno das mudanças climáticas é bem maior que o sentido expresso pelo termo. Ela também envolve – em padrões sistemicamente ligados que podem gerar repetidos e devastadores colapsos do sistema – questões como a enorme carga de produtos químicos tóxicos; a mineração; o
101 esgotamento de lagos e rios sob e sobre o solo; a simplificação de ecossistemas; grandes genocídios de pessoas e outros seres etc.
De acordo com a autora, as doenças causadas à Mulher-Terra e à Mulher-Céu têm origem no processo colonizador, responsável pelas transformações nos costumes e culturas dos povos indígenas. Nessa perspectiva, a colonização não é um ataque apenas às pessoas e aos territórios. Mais que isso, é um ataque consumado através de uma ignorante e proposital deturpação das cosmologias indígenas, interpretadas pela introjeção de divisores epistemológico-ontológicos estrangeiros. Esse ataque mira, portanto, a conexão entre as pessoas e seus territórios: ele mira mundos.