socioculturelle et violences conjugales
Chapitre 5 - Violences conjugales dans son approche interculturelle
5. Famille et éducation dans leur contexte migratoire :
A Terra Indígena Boca do Acre (km 45) pertence ao povo Apurinã. Tem uma extensão territorial de 26.240 hectares, devidamente registrada (Decreto nº 263 de 29 de outubro de 1991). Possui uma população estimada em 204 pessoas, situadas nas aldeias Aripuanã e Chaparral. A primeira é uma pequena comunidade, distante da estrada, localizada na beira do rio Acre com apenas 05 famílias. A segunda situa-se às margens direita e esquerda da BR-317, com 42 famílias. É importante salientar que as informações seguintes sobre esta terra também remetem à TI anterior, já que ambas apresentam praticamente os mesmos impactos e modos de vida.
De acordo com as entrevistas realizadas em ambas TIs, há uma área de floresta ainda não manejada pelos indígenas situada nas áreas mais afastadas da estrada, nos fundos das TIs, a leste. Há áreas florestais que são manejadas pelos indígenas, com o
176 fim de extração de alguns produtos não-madeireiros que são usados para construção de utensílios domésticos, para a alimentação e venda no mercado, além daqueles destinados a fins medicinais; e também há extração de produtos madeireiros, usados na construção de habitações.
A floresta secundária corresponde às áreas de capoeiras. Atualmente, a maior parte da área das TIs Apurinã do Km 124 e do Km 45 é composta por capoeiras, denotando, além da sucessão de áreas utilizadas para roçado, o processo de dilapidação da floresta a partir da abertura da estrada. As áreas de capoeira são usadas para lenha, provimento de alimentos, remédio, corantes e materiais de construção sendo, portanto, área de uso indígena. Algumas partes estão sendo enriquecidas com espécies frutíferas, sinalizando o manejo das áreas de capoeira pelos indígenas; não entanto, essa não é uma prática generalizada.
Com relação à área agrícola, os roçados são disseminados em ambas TIs, sendo caso raro uma família indígena que não tenha essa prática – na maioria das casas entrevistadas há roçados, situados em suas cercanias. A prática cultural ali utilizada é da roça de toco, com queimadas para aberturas de parcelas que, após três anos, são postas em repouso para abertura de futuras roças. Ali são feitas culturas temporárias de melancia, jerimum, feijão, milho, abacaxi, arroz e, predominantemente, mandioca e macaxeira (em roçados de tamanho médio a grande).
As poucas casas que não tinham seu próprio roçado pretendiam abri-lo em breve. Além dos cultivos supracitados, há também pequenas culturas permanentes, situadas nos quintais das casas, que abarcam o cultivo de cupuaçu, mamão, acerola, urucum, manga, café e abacate – tudo para autoconsumo das famílias. A TI Apurinã do Km 45 possui uma grande diferença no modo de vida com relação a quem vive no Novo Aripuanã (no rio Acre) e na beira da estrada. No primeiro caso observou-se que o grupo familiar ali residente vive exclusivamente dos roçados e da venda de produtos agrícolas (melancia, cupuaçu, feijão-de-praia, milho e produtos extrativistas como o açaí e a castanha), assim como da caça e da pesca. No segundo, foi observada uma maior dependência na compra de alimentos da cidade, principalmente a carne.
Os indígenas destas duas terras têm moradas diferentes uma da outra. Na TI Apurinã do Km 124 as moradias são esparsas (porém pouco distantes) e são situadas na beira da estrada ou imediatamente nas cercanias da BR, muitas concentradas entre os pastos. No caso da TI Apurinã do Km 45, grande parte das moradias são mais distantes da estrada. Em ambos os casos, os moradores mais próximos da estrada são insatisfeitos
177 com este fato – alguns moravam “mais prá dentro”, mas se mudaram por razões práticas.
Sobre os cursos d’água, os igarapés que atravessam ambas as TIs sofrem intensa pressão das fazendas e da estrada e, por conta disso, seus recursos sofrem grandes impactos – muitos igarapés, antes perenes, secam no verão. Os indígenas utilizam as águas desses para consumo e para realizar seus afazeres domésticos. No entanto, a água é um recurso complicado: no verão os poços secam, trazendo dificuldades às famílias mais afastadas da mata e das capoeiras. Muitas vezes as mulheres precisam se deslocar para casas de vizinhos (cujos igarapés ainda têm água) em busca deste recurso.
4.2.3. Terra Indígena Kamikuã
Foto 14: Mapa da TI Kamikuã (Conécnica/Laghi, 2016).
A Terra Indígena Kamikuã pertence ao povo Apurinã. Possui 89 famílias e uma população total de 459 pessoas, distribuídas nas aldeias Katispero, Centrin, Praia Nova e Kamikuã. A maior parte da população está concentrada em Kamikuã, que funciona como sede de toda área por ter melhor estrutura para atendimentos e eventos públicos. A Terra Indígena tem extensão territorial de 58.520 hectares (Decreto nº 381 de dezembro de 1991).
Em Kamikuã predomina a família Gonçalves, em Katispero a família Pequeno e, em Centrinho, a família Oliveira. A família dos Manduca, que veio de Pauini (AM) há 23 anos, concentra-se mais na baixada da aldeia Kamikuã, na margem do rio Purus. Os Vieira e os Grande, parentelas importantes, estão dispersos por várias aldeias.
178 Nesta TI ocorre casamentos somente entre casais Apurinã. O uso da terra é agrícola, extrativista e pesqueiro. As famílias possuem roçados com mandioca e macaxeira, para o próprio consumo e também para comercialização do excedente. Além desses produtos, também se planta melancia, cará, biribá, banana, jerimum, feijão e milho, o que ajuda a atrair animais de caça. Nos roçados de praia de vazante, planta-se milho, batata, cará, melancia jerimum, inhame e feijão-miúdo.
As mulheres são determinantes nos roçados e nos Sistemas Agroflorestais (SAF’s). A grande maioria das famílias possui áreas para este sistema, que perfazem cerca de 20 hectares do entorno da aldeia Kamikuã. Há uma área de floresta ainda não manejada em áreas mais afastadas da beira do Purus. Existem também áreas manejadas para extração de alguns produtos florestais de uso medicinal, para obtenção de recursos com fins de artesanatos, construção de habitações, etc.
4.2.4. Iquirema/Goiaba75 (área reivindicada)
Foto 15: Área reivindica Iquirema (Conécnica/Laghi, 2016).
A Terra Indígena Iquirema/Goiaba pertence ao povo Jamamadi. Ela conta com uma população de 145 pessoas e 32 famílias, sob a liderança do cacique Pedro Jamamadi. Faz parte de um conjunto de áreas que se encontram em processo de reivindicação para realização de estudos de identificação e delimitação.
Na década de 198076, um seringueiro de apelido “Bebezinho” convidou meu
pai para cortar seringa nessa localidade atualmente denominada de Iquirema. Naquela
75 As áreas de Iquirema/Goiaba, Assentamento do Monte, Valparaíso e Maracajú ainda não tiveram os estudos de identificação e delimitação iniciados. São chamadas pela AMTROPICA, empresa responsável pela elaboração do PBACI, de “ocupações de áreas reivindicadas”.
179 época, só existia a família desse seringueiro. Aproximadamente um ano depois, instalaram-se no local as famílias dos irmãos José e Pedro Jamamadi, que migraram do igarapé Capana, afluente do rio Purus (atualmente TI Capana). Logo depois, chegaram as famílias da matriarca Maria Jamamadi, mãe de Francisco Jamamadi (o “Sinuca”, hoje morador da TI Capana) e a família do senhor Manoel (o “Manelão”, não indígena, negro alto e valente). Anos depois, instalaram-se outras famílias, entre elas as famílias de Luiz Jamamadi e de Augustinho Jamamadi e sua esposa Edite Jamamadi, também vindos do igarapé Capana. Segundo meu pai, esses últimos sempre vinham e voltavam, inclusive meus pais são padrinhos de Edmundo, um dos filhos desse casal. Sobre esse período, meu pai Katãwiry conta:
Assim nós fomos cortar seringa a convite do Bebezinho. Quando chegamos lá no Iquirema, só era mato, era muito farto de caça e de peixe, os igarapés dava todo tipo de ximaky (peixe), peixe bom mesmo..., a gente ia caçar e logo voltava com myyryty (porquinho),
manyty (veado capoeira), soty (veado roxo), kaywana (tatu), kayatê
(paca), tycoty (macaco prego), kynha (capelão), kãbukyry (jacu),
yrenka (mutum).
Ele ainda relata que, quando chegou à Iquirema, as famílias de Paixão Jamamadi e de Nascimento Jamamadi moravam no seringal Goiaba (bem próximo à colocação Água Taldada), de propriedade do seringalista José Rodrigues (o “Zé Crente”). Essas famílias de Jamamadi, assim como outras, cortavam seringa e faziam outros serviços para esse patrão. Quatro anos depois, meu pai convidou mais duas famílias para Iquirema: as famílias do tio Martins Apurinã e sua esposa Humbertina Apurinã e do tio Sebastião Marcos Apurinã (“Tião Moco”) e esposa, a minha tia Santa Apurinã. Esse último casal pertence à parentela dos Vieira e, além disso, são pais de Sabá Apurinã (atual servidor do Polo Base de Saúde Indígena/SESAI, em Boca do Acre).
Eu tinha nove anos de idade naquela época. Me recordo de ajudar meu pai a abrir caminho de estrada, cortar e colher o leite de seringa, fazer as pranchas de
76 O grupo do igarapé “Água Taldada” ou “Toldado” permaneceu por ali até o início dos anos 1980, quando, em uma briga numa festa indígena (tataburá), um índio (“Paixão”, Jamamadi morador do Piquiá) matou outro (Francisco Sicuri), e o grupo então se deslocou para as proximidades da casa do senhor Manoel Goiaba, capataz à época do senhor Antero, “comprador” do seringal Recreio Santo Antônio. Não existia, nesse tempo, o “ramal” que, cinco ou seis anos depois (1986/87), o INCRA abriria para localizar os lotes do Projeto de Assentamento Monte. Para mais informações ver AMTROPICA (2006), PBACI da BR-317.
180 borracha para finalmente vender e comprar o que a floresta não dava. Além disso, cacei e pesquei para dar de comer a meus pais enquanto eles se dedicavam a outras atividades. A maioria das famílias apurinã permaneceu nessa localidade até o início da década de 1990. Atualmente, os moradores possuem pequenos roçados abertos em áreas de capoeira, por conta das agudas restrições territoriais a que estão sujeitos. Plantam macaxeira, milho, cará, batata-doce, feijão, abóbora e banana; os moradores mais antigos têm em seu quintal muitas espécies frutíferas (pupunha, manga, caju, limão, laranja, cupuaçu, entre outras). Alguns moradores das aldeias vendem farinha na cidade de Boca do Acre.
4.2.5. Assentamento do Monte (área reivindicada)