A análise documental é uma técnica de investigação qualitativa que auxilia a descoberta de novas informações sobre a temática, ou ajuda a complementar informações obtidas através de outras técnicas (Sousa & Baptista, 2014).
Para atingir os seus objetivos, o investigador necessita de recolher informações de trabalhos anteriores ao seu, acrescentar-lhes valor, passando o conhecimento que obteve com a sua investigação à comunidade científica. O facto de estudar o que foi ou está a ser produzido na área da investigação é um ato de gestão de informação, necessário para não se investigar o que já tinha sido investigado por outros investigadores, tomando-o como original seu (Carmo & Ferreira, 2008).
A pesquisa e consulta de documentos oficiais ou não oficiais assume, não apenas um papel relevante para o rigor da redação do presente relatório, como também uma preparação para a compreensão dos casos a estudar.
Inquérito por questionário
O inquérito por questionário visa recolher informações sobre os conhecimentos, atitudes, valores, comportamentos, entre outros, da população em estudo. Pode ser tipo aberto, fechado ou misto, conforme as respostas que se esperem das perguntas. Em qualquer dos casos é importante ter em conta o que se pretende avaliar, para que haja rigor na formulação das perguntas (Sousa & Baptista, 2014).
Geralmente considera-se que um processo de inquirição deve começar por uma fase qualitativa, sob forma de entrevistas não-diretivas que ajudam a conhecer previamente o sujeito de estudo, com a intenção de compreender as hipóteses a elaborar no inquérito por questionário (Ghikglione & Matalon, 1993).
Nesta investigação, já havia um conhecimento prévio dos casos a estudar. Tal conhecimento foi obtido pela experiência que a mestranda adquiriu ao longo do seu percurso escolar e da PES, assim como através da análise documental e de contactos previamente estabelecidos no início da investigação, sendo este o ponto de partida para a formulação do inquérito por questionário a aplicar.
Um inquérito quantitativo pode igualmente ser aplicado antes da fase qualitativa, tal como sucedeu na presente investigação. Desta forma, a fase qualitativa veio posteriormente para ajudar a interpretar algum resultado inesperado do inquérito por questionário (Ghikglione & Matalon, 1993).
Tabela 16 - Tabela guia do questionário.
Categorias Questões
Caracterização
Idade Género Naturalidade
Escola de Ensino Regular Escola de Ensino Artístico Tipo de ensino frequentado Ano / grau de frequência
Hábitos musicais
Com que idade iniciaste os teus estudos musicais e onde (conservatório, banda, aulas particulares ou outro)?
Atualmente frequentas algum outro grupo ou escola de carácter artístico (banda, rancho, teatro, expressão plástica ou outro) à parte do conservatório? Se sim, qual ou quais?
Em que local costumas ouvir música? E que músicas costumas ouvir (grupo, artista, compositor ou outro)?
Assinala com (X) apenas uma opção: sempre (S), muitas vezes (MV), algumas vezes (AV), poucas vezes (PV) ou nunca (N), indicando a frequência com que realizas cada uma das afirmações:
Os meus amigos ou colegas influenciam o meu gosto musical. Os meus pais ou outros familiares influenciam o meu gosto musical. Os meus professores influenciam o meu gosto musical.
Ninguém influencia o meu gosto musical. Costumo ouvir música erudita.
Ouço música erudita quando estou com os meus colegas ou amigos. Ouço música erudita quando estou com os meus pais ou outros familiares.
Ouço música erudita na escola ou conservatório com os professores. Ouço música erudita quando estou sozinho.
Costumo ir assistir a concertos de música erudita.
Quando vou assistir a concertos de música erudita quem me acompanha são com os professores ou colegas e é inserido em atividades da escola.
Quando vou assistir a concertos de música erudita, quem me acompanha são os meus amigos ou colegas.
Quando vou assistir a concertos de música erudita, quem me acompanha são os meus pais ou outros familiares.
Conhecimentos de MEOC
Sabes indicar um ou mais períodos da história da música assim como alguns compositores dos mesmos?
Já tocaste ou cantaste peças (a solo, com acompanhamento, em coro, orquestra ou outro) que consideres música erudita contemporânea? Em caso afirmativo, que obra(s) e de que compositor(es)?
Que compositores (portugueses ou estrangeiros) e respetivas obras conheces que consideras serem de música erudita contemporânea?
22 Excertos auditivos
Indica o nome do compositor ou de um possível compositor da obra ou do título.
Já ouviste esta obra ou algo semelhante?
Consideras que se trata de música erudita contemporânea? Já tocaste esta obra ou algo semelhante?
Indica de 1 a 6 se gostas da obra. 1 – não gostei nada e 6 – gostei muito
O inquérito por questionário é um instrumento de recolha de dados utilizado com a finalidade de procurar respostas às três questões de investigação4.
A categoria caracterização contém questões de resposta direta sobre os alunos, entre as quais a idade, o género, o grau, a naturalidade, a escola de ensino regular, a escola de ensino artístico, o tipo de ensino frequentado e o ano e grau de frequência.
Após a caracterização, segue-se uma categoria cujas questões têm por finalidade conhecer os hábitos musicais dos inquiridos. Contém questões de resposta direta, nomeadamente sobre a idade e o local onde o aluno tinha iniciado os seus estudos musicais, grupos de carácter artístico por ele frequentados, o local onde habitualmente ouve música e que música costuma ouvir. Também incluí uma tabela onde os alunos devem indicar a frequência de determinada ocorrência, dando a compreender quem pode influenciar o seu gosto musical, se assistem frequentemente a concertos de música erudita e com quem. O aluno pode escolher uma das seguintes opções: nunca (N), poucas vezes (PV), algumas vezes (AV), muitas vezes (MV) ou sempre (S). Esta caracterização e conhecimento mais profundo dos alunos não é possível obter de outro modo que não seja por questionário, visto que a investigação não tem dimensão suficiente que possibilite uma presença assídua no campo. No entanto, dado que se trata de um estudo de caso, esta caracterização mais intrínseca pode levar a uma melhor identificação e compreensão dos casos em estudo.
Os dados sobre os hábitos dos alunos são importantes para um estudo de caso, no qual o investigador, pelo já referido carácter limitado da investigação, não teria tempo que possibilite uma recolha frequente de dados por observação.
Segue-se um grupo de questões focadas diretamente nos conhecimentos de MEOC do aluno. São colocadas questões de resposta aberta cujo objetivo é encontrar respostas, especialmente, mas não exclusivamente, para a primeira e segunda questões5 de investigação. O aluno é diretamente questionado se já tocou ou cantou
obras que considere MEC. Em caso afirmativo, deve indicar os nomes dos compositores e das respetivas obras. É também questionado sobre que compositores e respetivas obras conhece que considera MEC.
Caso o aluno indique ter tocado, por exemplo, uma obra para orquestra, abre-se a possibilidade de a mesma ter sido interpretada na aula de classe de conjunto, mas sem excluir outras hipóteses, como por exemplo tê-la tocado num grupo de carácter artístico que frequentava fora do conservatório. Por essa razão é importante conhecer os hábitos musicais do aluno fora da escola.
A terminologia “música erudita contemporânea” pode não fazer sentido para um determinado aluno. Tal pode ocorrer, caso o aluno desconheça a divisão temporal das
4 Ver figura 3.
obras musicais. Por esse motivo, os inquiridos são também questionados sobre que períodos da história da música sabem indicar, assim como os respetivos compositores.
O questionário termina com a audição de 22 excertos auditivos. Perante a audição de cada excerto o aluno tem que preencher uma tabela indicando para cada excerto: o nome do compositor ou de um possível compositor da obra ou do título, se já tinha ouvido essa obra ou algo semelhante, se considera tratar-se de música erudita contemporânea, se já tinha tocado essa obra ou algo semelhante e indicar de 1 a 6 o quanto gosta desse excerto.
As análises dos dados recolhidos nessa tabela têm com finalidade responder à segunda questão de investigação, assim como ser uma alavanca para a atividade que se segue, despertando a curiosidade dos alunos.
Na elaboração da tabela, selecionaram-se vários compositores dos séculos XX ou XXI e uma obra de cada um deles6. Fez-se uma seleção diversificada de várias correntes
de música erudita desenvolvidas ao longo do século XX. Como já referido, as obras não foram abordadas aos alunos como sendo MEOC, mas como representativas de determinado movimento artístico.
Depois da seleção dos excertos, os mesmos foram organizados numa única faixa de áudio. Cada um continha cerca de 20 a 30 segundos. Primeiro havia uma voz (a da mestranda) a indicar o número do excerto que se seguia. No final da audição do respetivo excerto, havia cerca de 10 segundos de pausa, tempo para os alunos preencherem a tabela.
Esta última parte do questionário durava cerca de 17 minutos no total. Durante esse tempo, a mestranda não intervinha, controlava questões técnicas relacionadas com os áudios e observava as reações dos alunos através da observação não participante.
Finalizados e entregues os questionários, a mestranda distribuía a lista de obras que tinham sido ouvidas, a qual se encontra no apêndice 3, e abordava os alunos sobre se conheciam alguma das obras da lista ou do seu compositor. Iniciando assim a atividade.
Observação
A observação é uma técnica de recolha de dados que requer a presença do investigador no local (Sousa & Baptista, 2014). Este deve fazer-se acompanhar de um bloco de notas onde se tomam notas de campo, registando os factos observados, hipóteses que tenham surgido, entre outras informações úteis, tomando assim notas
de campo (Carmo & Ferreira, 2008). As notas de campo tomadas no âmbito da presente investigação encontram-se no apêndice D.
Um estudo de caso pode envolver, na sua vertente mais etnográfica, o estudo dos fenómenos ou ocorrências tais como foram “percecionadas” nomeadamente do ponto de vista de quem as viveu. Deste modo, surge a necessidade de o observador registar o que a sua população diz, faz e como reage (Tuckman, 2012).
A observação deve ocorrer em situações de vida real (Tuckman, 2012), neste caso na escola, mais concretamente nas salas de aulas. Os registos devem ser feitos no próprio dia de forma a não se perderem informações relevantes (Carmo & Ferreira, 2008), devem ser evitadas as observações com pressupostos a priori sobre o que se quer estudar e considerar explicações alternativas para o que se observa, em vez de que uma teoria preestabelecida influencie o que se possa crer como importante registar nas notas de campo ou nas próprias conclusões (Tuckman, 2012).
Existem várias formas de observação: observação exterior (o objeto é observado a partir de uma teoria, o que pressupõe uma visão unilateral), observação implicada (o objeto da observação é a relação entre o observador, o observado e o contexto que os envolve), entre outras (Ribeiro, 2003). Pelas limitações da presente investigação, tiveram-se em conta duas características básicas: o observador intervém ou não intervém no que observa?
Na observação não participante, uma situação é observada do “lado de fora” (Sousa & Baptista, 2014). Enquanto os alunos preenchiam os questionários foi possível observar a reação deles perante a audição de determinada obra.
Na observação participante, o investigador interage com quem observa, conseguindo assim acesso às perspetivas da sua população (Sousa & Baptista, 2014). Este tipo de observação não só foi aplicado enquanto decorria a atividade, sendo o investigador nela interveniente, mas também quando, em consequência de se ter deslocado ao local, falava com os professores ou outros intervenientes do meio escolar. Geralmente, para se conseguir uma observação participante consistente, o observador deve passar um longo período de tempo no campo (Ribeiro J. d., 2003), no entanto o presente relatório contém limitações de tempo e custos.
Esta técnica de recolha de dados está presente ao longo de todo o processo da investigação, do primeiro ao último contacto estabelecido com a escola e seus intervenientes, através de contactos com as direções das escolas, Festival DME, professores e alunos. Todas as reações ou comentários dos intervenientes foram observados e tidos em conta na globalização dos dados recolhidos.