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Esquema elaborado pela autora da pesquisa com base em Barthes (2011), Todorov (2006, 2011) e Eco (2011).

Iniciando a análise pelo nível das Funções, proposto pela visão integrativa de Barthes (2011), os índices são as unidades narrativas predominantes na animação, pelas próprias características da serialidade – fragmentação e descontinuidade – que exigem a repetição contínua de recursos imagéticos e verbais capazes de trabalhar junto aos interlocutores o reconhecimento da narrativa. Doug Funnie é uma série com tipologia rendada, ou seja, com episódios autônomos cuja exibição não exige uma ordem lógica ou cronológica, assim os

índices têm papel fundamental na construção do universo narrativo para vincular cada um dos

episódios ao conjunto que origina a série.

Os índices são facilmente identificados na fisionomia dos personagens. Como explica Eco (2011), um personagem quando bem realizado como objeto estético possui não apenas características físicas, mas também aspectos intelectuais e morais. Ao analisar os seres fictícios da série – que para Todorov (2006, 2011) estão no nível da história – é possível descrever esta fisionomia20:

                                                                                                               

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É preciso considerar que a análise da fisionomia dos personagens da série está contextualizada em uma produção animada direcionada ao telespectador infantil, desta forma, as características intelectuais e morais são adequadas à compreensão destes interlocutores, não abrangendo a profundidade apresentada em narrativas mais complexas.

Doug Funnie, personagem protagonista, tem características visuais singulares como os traços do rosto que indicam um nariz grande, o modo de vestir-se nada contemporâneo e incomum em sua faixa etária – camiseta e colete – e os poucos fios de cabelo. No entanto, são as características comportamentais, repetidas a cada episódio da série – como a timidez, a dificuldade de se socializar, seus conflitos internos e, sobretudo, sua maneira de enredar a imaginação aos acontecimentos reais – que compõem a essência do personagem.

Em O tênis de Doug, o personagem acredita que ao comprar um novo par de calçados, mais sofisticados, será visto pelos amigos de maneira diferente, como um bom atleta. Logo, a aquisição de um tênis da moda está associada ao bom desempenho no basquete e, consequentemente, ao reconhecimento do grupo. Em um dos fragmentos do episódio, Doug conversa com Costelinha sobre o tênis velho “Eu odeio dizer adeus. Não que eu ache que não seja bom, mas acontece que eu não posso mais ser visto com ele”, este diálogo mostra como o personagem se importa com a percepção dos amigos a seu respeito, sinalizando a necessidade de aceitação social.

Outra particularidade de Doug Funnie é sua capacidade inventiva para entrelaçar, nos fatos narrados, realidade21 e imaginação. No episódio Doug cai no rock, ao fingir tocar uma guitarra, o protagonista imagina-se em um show como vocalista da banda The Beets, cantando

Mingau matador, na plateia estão os colegas que costumam zombar dele na escola e Patti

Maionese – por quem Doug mantem uma paixão secreta – todos o admiram e estão entusiasmados com sua música, os fãs imaginários carregam uma faixa com a frase “Nós amamos Doug”. Em O tênis de Doug, o personagem imagina seu velho tênis ganhando vida e sofrendo com a separação, na cena da animação os sapatos choram e conversam com Doug “Não fomos bons para você? [...] Você acredita nisso, ele nos trocou por um tênis da moda esquerdinha”. O mundo imaginário criado pelo protagonista expressa suas angústias e seus desejos. No primeiro episódio, Doug por meio de seu imaginário realiza o desejo de ser popular, um tema recorrente na série, uma vez que a popularidade está associada ao reconhecimento do grupo e à aceitação social. Na segunda situação, Doug usa a fantasia para resolver um conflito, idealizando um diálogo com o velho par de tênis para explicar o real motivo da compra de um calçado mais sofisticado.

Esta dinâmica psicológica do protagonista – considerada pela perspectiva da produção e do consumo de documentos audiovisuais como redonda por apresentar atributos físicos, psicológicos, sociais, ideológicos e morais – contribui também para a atmosfera da narrativa                                                                                                                

visto que a temática da série se desenvolve a partir das relações que Doug estabelece com os demais personagens. A fisionomia de Doug Funnie e a atmosfera da narrativa – unidades indiciais de natureza integrativa – permitem ao telespectador infantil estabelecer uma continuidade entre os episódios autônomos.

Costelinha, cachorro de estimação de Doug Funnie, é também um personagem principal se considerada sua relevância para o desenho animado. A representação visual deste personagem é bastante comum, o que o diferencia são suas habilidades e seus traços de personalidade inspirados na mimese do comportamento humano. Costelinha está plenamente inserido na esfera de ação da narrativa, é capaz de compreender os conflitos de Doug e participar ativamente de todos os acontecimentos da história, expressando por meio da dinâmica visual diferentes sentimentos – alegria, tristeza, raiva, surpresa, indignação. Contudo, o personagem não pode ser considerado como redondo, a ausência da fala impossibilita o interlocutor de compreendê-lo plenamente.

Roger Klotz é o antagonista da série. A dinâmica psicológica deste personagem é típica dos vilões: amoral, age somente em benefício próprio, elabora planos de conspiração, cria intrigas, seu atributo principal é a maldade. No aspecto visual, Roger se destaca pela cor verde da pele, cabelo laranja e trajes que reforçam a tipificação do vilão. Roger aproxima-se do personagem-caricatura, por isso é considerado plano. Seu animal de estimação é o gato Fedido, de pelos pink, personagem secundário e plano, cuja ações são espelhadas em Roger.

Skeeter Valentine é o melhor amigo de Doug Funnie. Em alguns episódios tem papel principal, como em Doug cai no rock, em outros, sua participação é menos relevante para a narrativa, podendo ser classificado como secundário, como acontece em O tênis de Doug. A fisionomia do personagem é menos inteligível, em algumas de suas ações é possível identificar uma certa moralidade como quando, por exemplo, Skeeter defende Doug diante do grupo, no entanto, o personagem não atinge a mesma profundidade psicológica de Doug. Visualmente, Skeeter se distingue pela pele esverdeada, nariz avantajado e trajes modernos.

Patti Maionese é a garota mais popular da escola de Bluffington. Entre seus atributos estão a beleza e a inteligência. Patti é a paixão secreta de Doug. Pela importância que tem para a narrativa, a personagem é classificada como secundária.

Tomando-se por base o esquema narrativo de Vilches (1984), a série Doug Funnie é classificada como fixa com variação de temas; nesta concepção, os índices podem também se constituírem em elementos invariáveis do desenho animado, embora com temas diferenciados a cada episódio, é perceptível a repetição na construção da atmosfera narrativa e na fisionomia dos personagens, esta estrutura comum aos episódios – que Barthes (2011) chama

de “sistema implícito de unidades e regras” – é resultado das unidades indiciais presentes na narrativa.

Nos episódios de estudo, além da variação temática, outros elementos variáveis foram inseridos no nível da história. Em O tênis de Doug, o personagens Sky Davis e a vendedora da loja Tênis & Tênis, assim como o cenário do shopping Trevo de Quatro Folhas, são novidades na série. No episódio Doug cai no rock, os personagens da banda fictícia The Beets e o locutor da rádio K-Bluf, além do cenário da rádio, são elementos surpresa.

A temática de Doug Funnie se desenvolve a partir da rede de relações estabelecida entre o personagem protagonista e os demais personagens da série. Neste sentido, é apropriado tipificar estas relações com base no modelo predicados de base, adaptado por Todorov (2011). Considerando as três formas de relacionamento definidas nesta matriz – desejo,

comunicação e participação – e seus respectivos predicados opostos e variações, é possível

indicar que:

Tabela 2 – Tipificação das relações em Doug Funnie PREDICADOS

DE BASE

SIGNIFICAÇÃO VARIAÇÕES

Doug Funnie

Costelinha Comunicação Confidencialidade Compreensão

Participação Ajuda Apoio

Roger Participação Impedimento Amoralidade

Skeeter Comunicação Confidencialidade Amizade

Companheirismo

Participação Ajuda Apoio

Patti Maionese

Desejo Amor Amor platônico

Amizade

Tabela elaborada pela autora da pesquisa, segundo a matriz Predicados de base, adaptada por Todorov (2011).

Ainda no nível da história, no que tange às ações, a série Doug Funnie encaixa-se no

modelo triádico. Os episódios autônomos, narrados do início o fim, sem intervenção de outras

histórias, são fragmentos – ou encadeamentos – da série. Cada episódio é norteado por três tipos de ações – 1) tentativa, 2) pretensão e 3) perigo – centralizadas inicialmente no personagem protagonista. A partir de tentativas e pretensões de Doug Funnie, os demais personagens são envolvidos no universo narrativo e a trama se desenvolve, como demonstrado nos esquemas a seguir.

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