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J USTIFICATION ÉCONOMIQUE / STRATÉGIQUE

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1 P RÉSENTATION DU PROJET

2.1 J USTIFICATION ÉCONOMIQUE / STRATÉGIQUE

produção madeireira de pinho e outras madeiras das florestas latifoliadas com destino à Argentina e ao Uruguai. Mesmo assim, esse transporte fluvial de toras e madeira serrada sofria várias limitações de ordem natural, como a dependência das cheias e os riscos das corredeiras.

Figura 2 – Trabalhadores desdobrando madeira com serra manual. Data desconhecida.

Fonte: GLESSINGER, Egon. A integração da madeira. Anuário Brasileiro de Economia Florestal. Ano 9, n.9. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Pinho, 1957.

movido a força hidráulica, feito para atender um raio de vizinhança de poucos quilômetros, até pelas dificuldades de transporte da madeira serrada. Outro fato que chamava a atenção no trabalho das serrarias era o fato desse tipo de trabalho ser feito em quase a sua totalidade por homens ou mesmo garotos menores de 14 anos. Em Santa Catarina, por exemplo, de um total de 1.527 operários ocupados nesse tipo de indústria em 1920, apenas 6 eram do sexo feminino.139

Esse tipo de “serraria” (como a da Figura 3), hoje em dia extinto, continuou existindo por muitas décadas, embora cada vez mais a indústria madeireira sulina tenha ao longo do século XX se aperfeiçoado tecnicamente e aumentado consideravelmente a sua escala de produção. A função social desse tipo de serraria no sul do Brasil era semelhante a do moinho de cereais, pois as colônias geralmente necessitavam de alguém que tivesse tempo e capacidade técnica para instalar moinhos e assim moer os cereais produzidos e também para produzir madeiras serradas. Não raro os donos de moinhos eram os mesmos das serrarias e muitas vezes o moinho e a serraria ficavam lado a lado.140

Esse modelo de serraria para atender necessidades locais, aliado aos métodos manuais já descritos de desdobrar as toras, feito com baixa tecnologia e pouco emprego de mão-de-obra era provavelmente o modelo predominante de extrair madeira no Brasil até o século XX. Isso explica por que o Brasil era ainda grande importador de madeiras no início do século XX, embora fosse um país riquíssimo em florestas.

139 BRASIL. Ministério da Agricultura, Industria e Commercio. Directoria Geral de Estatística. Recenseamento do Brazil: realizado em 1 de Setembro de 1920. Vol 5. 1ª parte. Industria. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1927. p.269. Disponível em: < http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 10 out 2010.

140 CARVALHO, op. cit. GOULARTI FILHO, Alcides. A Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande na formação econômica regional em Santa Catarina. Geosul. Florianópolis, v. 24, n. 48, jul./dez. 2009. p.110.

Tabela 5 - Valor das importações e exportações de madeira no Brasil em mil réis (1908-1912). Importações Exportações 1908 3.860:577$ 1.409:342$ 1909 3.080:344$ 884:908$ 1910 3.672:593$ 1.223:231$ 1911 4.784:381$ 1.275:602$ 1912 5.621:008$ 1.611:537$

Fonte: BRASIL. Ministério da Agricultura, Industria e Commercio. Directoria Geral de Estatística. Annuario Estatístico do Brazil. 1º Ano (1908-1912). Vol 2. Economia e Finanças. Rio de Janeiro: Typographia da Estatística, 1917. p. 109, 114. Disponível em: < http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 10 out 2010.

Como pode ser observado na Tabela 5, o Brasil importava muito mais madeira do que exportava. De acordo com essa mesma fonte, a maior parte da madeira importada vinha dos EUA, cerca de 61% (considerando o valor em mil réis), em segundo lugar a Suécia (10%), e o restante dividido em proporções bem menores entre Alemanha, Rússia, Grã-Bretanha, Paraguai e outros países.141 Por outro lado, as exportações brasileiras de madeira eram mais bem distribuídas entre Alemanha, Argentina, EUA, Paraguai, Uruguai e outros países. (Tabela 6)

141 Para calcular essas porcentagens tomei como base o ano de 1912. BRASIL, 1917, op. cit. p. 123.

Tabela 6 - Exportações brasileiras de madeira por países de destino (1910-1912), em mil réis. 1910 1911 1912 Total 1.223:231$ 1.275:602$ 1.611:537$ Alemanha 134:901$ 238:905$ 169:511$ Argentina 395:504$ 204:717$ 202:137$ Estados Unidos 152:341$ 116:896$ 337:729$ Paraguai 117:568$ 341:749$ 257:489$ Uruguai 238:126$ 136:946$ 153:700$ Outros países 184:791$ 236:389$ 490:971$

Fonte: BRASIL, 1917, op. cit. p.122.

Entre os principais Estados exportadores de madeira para fora do país, já se destacava nessa época o Paraná, com mais de 50% das exportações do país em 1910 e 1911 e ligeiramente abaixo disso em 1912. (Tabela 7)

Também é notável na Tabela 7 que os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul nem apareciam no registro como entre os grandes exportadores, o que indica o pioneirismo do Paraná na indústria madeireira destinada a venda de madeira para além dos usos locais da mesma. No entanto, a principal atividade econômica no Paraná dessa época era a exploração da erva-mate, que rendia muito mais do que a madeira. Em comparação, o valor da exportação da erva-mate nesse Estado em 1912 foi de 26.809:622$, cerca de 40 vezes mais do que o valor da exportação de madeira.142

Foi no planalto do Paraná, em meio aos bosques de araucária da região de Curitiba que começou o desenvolvimento da indústria madeireira nacional e a virada na situação do país de importador de madeira para grande exportador de madeira. Foi no Paraná também onde pela primeira vez a economia madeireira baseada na exploração da araucária ganhou fôlego a ponto de contribuir para a devastação das florestas com araucária. Não por acaso a araucária é conhecida até hoje também como pinheiro do Paraná, pois esse Estado não só tinha as maiores reservas nativas dessa espécie, como também foi o primeiro a explorar intensivamente a floresta com araucária para fins madeireiros.

Tabela 7 - Exportações de madeira por Estados de procedência (1910- 1912), em mil réis. 1910 1911 1912 Total 1.223:231$ 1.275:602$ 1.611:537$ Bahia 210:768$ 123:539$ 174:527$ Espírito Santo 107:561$ 231:119$ 155:470$ Paraná 745:650$ 642:191$ 598:477$ Rio de Janeiro 18:650$ 22:077$ 84:829$ Outros Estados 140:602$ 256:676$ 598: 234$

Fonte: BRASIL, 1917, op. cit. p.122.

O grande impulso na produção madeireira paranaense destinada à exportação para fora do Estado se deu após a construção da ferrovia Paranaguá – Curitiba (1885), embora já existissem anteriormente a esse período alguns estabelecimentos industriais razoavelmente bem aparelhados, como a Companhia Florestal Paranaense, de Antonio Rebouças, fundada em 1869. A estrada de ferro reduziu o preço do frete a um terço em relação à Estrada de rodagem da Graciosa. Além disso, a Assembléia Provincial isentou de todos os impostos a exportação de madeiras da província. A ferrovia e os estímulos do governo tornaram a produção de pinho viável na concorrência com os pinheiros norte-americanos e bálticos. Por muitos anos essas serrarias ficaram limitadas à região do primeiro planalto paranaense, na região de Curitiba, e o Brasil continuou como grande importador de madeira até a época da I Guerra Mundial.143

Romário Martins (1874-1948), intelectual e político paranaense atento às questões florestais, e que se tornou com o passar dos anos severo crítico da maneira descontrolada com que as serrarias estavam cortando as matas de araucária, apresentava uma opinião bastante favorável à expansão da modesta atividade madeireira no início do século XX. Durante o 2° Congresso Nacional de Agricultura, realizado no Rio de Janeiro em 1908, Martins fez um discurso de defesa do pinho brasileiro, das suas excelentes qualidades como madeira, e criticou o governo por incentivar o uso de pinhos estrangeiros, e também cobrou

143 COSTA, Odah Regina Guimarães. Ação empresarial do Barão do Serro Azul: subsídios para o estudo da industrialização no Paraná. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura e do Esporte, 1981. p.45. LAVALLE, op. cit. p.46.

deste um maior apoio à produção madeireira paranaense. Entre os dados de comercialização de madeira que apresentou, relativos ao ano de 1906, verifica-se que o Paraná havia exportado para outros Estados e para Montevidéu e Buenos Aires, apenas 240 mil tábuas de pinho. Sobre essa produção fez o seguinte comentário:

Bem se vê que isto não é ainda um coefficiente de producção na altura da capacidade que o povo paranaense tem revelado para o trabalho, nem tão pouco do immenso stock florestal do Paraná. Convêm dizer que taes madeiras foram preparadas em 73 serrarias, montadas em varios pontos do Estado, representando uma somma consideravel de sacrificios e de capitaes, merecedores de toda a consideração.144

Essa defesa da produção madeireira e exaltação da classe madeireira contrastam com as posições que passou a sustentar décadas mais tarde, revelando também a rapidez desse processo de exploração das matas.

Quanto ao número de serrarias no Paraná e na região da araucária como um todo, estas aumentaram rapidamente nas primeiras duas décadas do século XX e também ampliaram gradativamente a sua capacidade de produção. Em 1907 existiam 197 serrarias e carpintarias no Brasil, utilizando uma força de trabalho de 3.766 operários, enquanto em 1920 esses números saltam para 999 serrarias e 10.433 operários.145

O recenseamento industrial de 1920 também nos mostra a distribuição das indústrias de madeiras (incluindo portanto não só as serrarias) por Estado, bem como o valor da produção destas, o que demonstra já que desde aquela década começava a se destacar no cenário nacional a indústria madeireira da região da araucária sobre as demais regiões do país. Os únicos Estados que tinham uma indústria madeireira comparável eram o Distrito Federal e São Paulo. O Distrito Federal era beneficiado pela presença de um grande mercado consumidor, pois na época o Rio de Janeiro era a maior cidade do país. Já o Estado de São Paulo também tinha uma população bastante grande

144 MARTINS, Romario. O Pinho do Paraná e as suas necessidades. Curitiba: Tipografia da Livraria Econômica, 1909. p.11.

145 BRASIL, 1927, op. cit. p.XV e XXII. Considerando todas as indústrias de madeiras, que envolvia serrarias, tanoarias e fábricas de barricas, oficinas de torneiro em madeira, fabricação de caixas e caixões, fabricação de fôrmas para tamancos e mais uma série de outras pequenas indústrias pouco representativas, o número era de 1.207 estabelecimentos de indústrias de madeiras em 1920.

(e portanto uma demanda alta por produtos madeireiros) e além disso tinha pequenas áreas de floresta com araucária nativas que foram intensamente exploradas.

estabelecimentos empregado motriz – HP

operários produção anual (réis) operários por estabelecimento Distrito Federal 95 15.617:724$ 7582 1444 21.350:505$ 15 São Paulo 183 13.052:622$ 4071 2089 21.176:916$ 11 Paraná 232 14.416:634$ 4899 3139 22.079:187$ 14 Santa Catarina 246 16.969:946$ 4340 1527 10.420:581$ 6 Rio Grande do Sul 365 17.167:022$ 5605 2054 16.898:136$ 6 Demais Estados 86 20.053:407$ 4148 1908 22.113:587$ 22 Brasil (Total) 1.207 97.277:355$ 30645 12161 114.038:912$ 10

Fonte: BRASIL, 1927, op. cit. p.450.

Nota: A categoria indústrias de madeiras envolve serrarias, tanoarias e fábricas de barricas, oficinas de torneiro em madeira, fabricação de caixas e caixões, fabricação de fôrmas para tamancos e mais uma série de outras pequenas indústrias pouco representativas.

tomar cuidado com o fato de que as indústrias madeireiras não se localizavam apenas na região da araucária, pois os Estados do Sul do país também tinham extensas áreas florestais e de colonização em regiões onde a mata nativa eram ou a Floresta Ombrófila Densa (no litoral do Paraná e Santa Catarina), ou a Floresta Estacional Decidual e Semidecidual (nos vales do oeste dos Estados e na borda sul do planalto sul - brasileiro). (ver Mapa 5) Assim, por exemplo, apesar de a maior parte das indústrias madeireiras (e da produção total) do Paraná estar localizada na região da araucária, em Santa Catarina a situação era completamente diferente, até porque os principais centros de povoamento do Estado estavam (e ainda estão) concentrados no litoral e no vale do Itajaí, onde predomina a Floresta Ombrófila Densa. De fato, Santa Catarina ainda estava iniciando a exploração madeireira na região da araucária, pois o Estado não teve, como foi o caso do Paraná, uma ferrovia que viabilizasse o escoamento da produção. O ramal de São Francisco da ferrovia São Paulo – Rio Grande apenas foi concluído em 1917. Outro fato que chama a atenção nas indústrias de madeiras de Santa Catarina e no Rio Grande do Sul é o baixo número médio de operários por estabelecimento (Tabela 8), o que indica o caráter artesanal das centenas de engenhos de serra que existiam no interior desses Estados, e que na quase totalidade apenas servia para abastecer as necessidades locais de madeira serrada. Em contraste, o Paraná já tinha indústrias maiores, o que fica evidente não só pelo número médio de operários, mas também pelo valor total da produção do Estado, e que estavam voltadas para a exploração de uma commodity, um produto que poderia render grandes lucros ao empresário que investe capital nesse tipo de indústria.

Para entender melhor essa predominância do Paraná na indústria madeireira da região da araucária no início do século XX, citamos dados de 1919 do Centro dos Industriais da Madeira do Paraná, uma espécie de sindicato madeireiro, cuja existência por si só atesta a organização dos empresários naquele Estado.

Tabela 9 – Capacidade de produção mensal de pinho nos 3 Estados do Sul do Brasil – 1919. Número de serrarias Capacidade de produção mensal (m³) Paraná 174 42.480 Santa Catarina 52 11.800

Rio Grande do Sul (estimativa)

Não informado 23.600*

Fonte: BPEPR. Centro dos Industriaes de Madeira do Paraná. Relatório apresentado em sessão ordinária do Conselho Director em 31 de março de 1919 por Ennio Marques director em exercicio. Curitiba: Livraria Mundial. p.7 * O autor dessa estimativa, Ênio Marques, admite que para o Rio Grande do Sul não tem dados suficientes. Esse dado parece não estar muito longe da realidade. Ver WENTZ, op. cit. p.23.

Nota: Optamos por converter a medida apresentada em pés na fonte para metros cúbicos. Tendo em vista isso, nossos números ficaram ligeiramente diferentes do que foi apresentado no documento. Lembrando que 1 pé (foot board measure), medida de volume de madeira comumente usada nos EUA é igual a 0,002360 m³.

Os dados da Tabela 9, quando comparados com a Tabela 8 mostram que a maior parte das serrarias do Paraná estava localizada na região da araucária, enquanto em Santa Catarina, predominavam os pequenos engenhos de serra nas colônias do litoral, como Blumenau, Brusque, Dona Francisca (Joinville), no entorno de Florianópolis e também nas colônias do Sul do Estado, como Criciúma, Urussanga, Araranguá etc. Já o Rio Grande do Sul estava numa situação intermediária entre o Paraná e Santa Catarina, pois ao mesmo tempo em que já tinha em 1920 uma indústria madeireira mais desenvolvida na região da araucária (como em Passo Fundo), também tinha centenas de pequenos engenhos de serra nas colônias dos vales dos rios do Sinos, Jacuí e na Serra. No Rio Grande do Sul, a região pioneira da exploração madeireira da araucária foi o norte do Estado, na região de Passo Fundo. O que viabilizou a indústria madeireira nessa região foi a construção da ferrovia Santa Maria – Passo Fundo, na verdade um trecho da ferrovia São Paulo – Rio Grande, que alcançou essa última cidade no ano de

1898. Segundo Liliane Wentz, a primeira serraria da região data de 1902.146

Para esclarecer melhor esse quadro mais artesanal e local da indústria madeireira em Santa Catarina e a situação diferenciada principalmente do Paraná nesse sentido, apresentamos dados mais detalhados sobre a produção dessas indústrias em 1920. (Tabela 10)

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