1 P RÉSENTATION DU PROJET
1.5 D ESCRIPTIF DU TRAITEMENT
A indústria madeireira na floresta com araucária teve uma importância única na história do país e na exploração dos outros tipos florestais da Mata Atlântica. O argumento defendido aqui será de que Warren Dean cometeu um grave equívoco ao julgar que a Mata Atlântica pode ser adequadamente compreendida a partir do estudo da sua região central. Para efeito de clareza reproduzimos aqui novamente a citação de Dean:
Nesta história, pouca menção terá o extremo norte da floresta, acima dos treze graus sul, ou do segmento montanhoso ao sul dominado por coníferas. Trata-se de limites justificáveis apenas em termos práticos; ars longa, vita brevis. Fontes dispersas e inacessíveis, multiplicidade de jurisdições políticas, distâncias imensas e restrições orçamentárias estenderam o tempo necessário a reunir material para este estudo truncado muito além do normalmente esperado de um único pesquisador sem assistentes. Talvez estas omissões estimulem outros historiadores a pesquisar esse vasto domínio natural de maneira local e minuciosa. Enquanto isso, o leitor não incorrerá em grande erro ao tomar essa região central pelo todo; ela contém mais de sete décimos da área da Mata Atlântica e quase todos os aspectos de sua história de assentamento humano são típicos também na área restante.129
Dean acreditou que a história da exploração da Mata Atlântica contida no atual Sudeste do país é representativa do que aconteceu nas extremidades norte e sul da floresta. Na verdade, uma simples consulta aos Anuários Brasileiros de Economia Florestal e seus quadros estatísticos já demonstra claramente a importância da araucária na
economia madeireira em nível nacional. A expressiva indústria madeireira sulina determinou uma dinâmica de exploração da floresta bem diferente da que ocorreu em outros tipos florestais da Mata Atlântica. Em primeiro lugar, porque a destruição da floresta com araucária envolveu um aproveitamento econômico maior da biomassa em relação a outros tipos florestais da Mata Atlântica, onde a floresta era, a grosso modo, simplesmente o empecilho que era necessário remover para cultivar a terra. Na região da araucária, a floresta não era vista somente como o problema, mas também como a fonte de lucro, de oportunidades de ganhar dinheiro. Em segundo lugar, porque o desenvolvimento tecnológico dessa indústria e as discussões levantadas pelo problema da falta de madeira de araucária para as serrarias colaboraram para o início do reflorestamento comercial massivo no Brasil. De fato, antes da década de 1970, período que coincide com o esgotamento da floresta de araucária para fins madeireiros, o reflorestamento no Brasil era algo muito discutido e debatido, porém muito pouco realizado, como vamos ver. No entanto, a criação do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) num momento crucial para a indústria madeireira sulina, em 1967, e a política de incentivos fiscais ao reflorestamento do governo militar determinaram o início da era dos grandes plantios de pinus e eucalipto no Brasil. Portanto, como veremos, a exploração intensa da floresta com araucária durante décadas ao longo do século XX e a importância econômica e política da indústria madeireira sulina foram fatores determinantes para o Brasil entrar de vez na era do reflorestamento, o que por sua vez trouxe novos tipos de problemas para a floresta com araucária e outros tipos florestais, como a questão das espécies exóticas invasoras.
Outra diferença fundamental em relação à região central da Mata Atlântica é que a região da araucária não teve no período anterior à Revolução Verde qualquer commodity agrícola comparável em importância ao café, ao cacau ou ao açúcar. A commodity do planalto sul - brasileiro foi a própria floresta, ou colocando de forma mais exata, algumas poucas espécies nativas. Entre elas se destacam a Araucaria angustifolia e a Ilex paraguariensis, a erva-mate, que desde meados do século XIX até a década de 1920 teve uma importância econômica e social maior do que a araucária no planalto. A grande diferença entre a extração da erva-mate e o corte de araucária é que a primeira atividade era feita em bases muito mais sustentáveis, menos agressivas a floresta. Na verdade, a exploração da erva e da araucária eram muitas vezes atividades complementares, como foi o caso da companhia Lumber, como veremos mais adiante.
Para entender a história do desmatamento da floresta com araucária e a importância que uma única espécie de árvore (Araucaria angustifolia) teve na história da indústria madeireira do país é fundamental compreender a ecologia do ecossistema. Embora a floresta seja conhecida por essa árvore em particular, esse tipo florestal apresenta uma biodiversidade bastante grande de plantas e animais, sendo que até hoje ainda estão sendo descobertas novas espécies de árvores ainda não descritas.130
Um fato ecológico que rotineiramente chamava a atenção de naturalistas, estudiosos e dos próprios madeireiros era a expressiva presença da Araucaria angustifolia na floresta. Não só por essa ser uma das duas únicas espécies de conífera nativa no país131, e assim fazia desse tipo florestal uma paisagem completamente diferente da paisagem dos ecossistemas vizinhos, mas também pelo grande número de pinheiros por hectare que essa floresta apresentava. Não é à toa que esse tipo florestal recebeu denominações que remetem a essa única espécie: floresta com araucária, floresta de araucária, mata de araucária, mata de pinheiros, mata de pinhais, etc. Existiam, dependendo da região, entre 12 a 65 araucárias industrializáveis, leia-se grandes, por hectare, sendo em média 26.132
Além disso, o volume de madeira útil por hectare para a indústria madeireira encontrado na região da araucária superava outros ecossistemas nativos no Brasil, como a Amazônia. Arthur de Miranda Bastos, chefe do Setor de Inventários Florestais do Ministério da Agricultura dizia em 1961 que:
Comparada, agora, com as demais florestas do Brasil, sua (da floresta de araucária) superioridade avulta de forma contundente. Na Amazônia, a maior reserva de madeiras tropicais do mundo, os inventários florestais que ali vem realizando a Missão Florestal da FAO apuraram, em 1.106 parcelas estudadas, de 1 km de comprimento por 10 m de largura, rendimentos, em árvores de 40 cm de diâmetro para cima, de 78 a 215 m³ de madeira de todas as espécies, por hectare, dos quais, porém,
130 SOARES-SILVA, L. H.; PROENÇA, C. E. B, op. cit.
131 A outra é o pinheiro-bravo (Podocarpus lambertii), também nativo da floresta com araucária.
132 AUBREVILLE, A. A floresta de pinho do Brasil. Anuário Brasileiro de Economia Florestal. Ano 2, n.2. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Pinho, 1949. p. 24.
apenas 15,5 a 23,3% em madeiras de valor comercial atual.133
Bastos também tinha realizado medições nas florestas do Espírito Santo, portanto na sub-região Bahia da Mata Atlântica, e ali também acreditava que a quantidade de madeira utilizável pelas serrarias era inferior a das florestas com araucária, embora não apresentasse números. Além do volume madeirável maior da floresta com araucária, Bastos enfatizava a boa aceitação da madeira pelos mercados compradores e a facilidade de se trabalhar com o pinheiro:
Enquanto isso acontece na Amazônia e no Espírito Santo, em Santa Catarina, na faixa onde acabamos de executar um inventário-piloto, foram registrados 126,9 m³ de pinho em pé, sem casca, de 40 cm de diâmetro para cima, nas partes melhores (classificadas como “Tipo 2”), ou 56,1 m³, nas partes classificadas logo abaixo (“Tipo 1”). E isto, dum material brando, relativamente leve, fácil de serrar e plainar, amplamente conhecido, que mais de vinte países compram com regularidade cada ano, só não o comprando em maior volume por causa das dificuldades de transportes, riscos na qualidade, preços, etc.134
Essas informações provavelmente já eram conhecidas, ainda que não tão precisamente calculadas, muito antes desses inventários.135 Talvez se não fosse por essa peculiaridade ecológica da floresta com araucária seria difícil explicar por que a indústria madeireira sulina extraiu tanta madeira e dinheiro desse ecossistema em comparação com outros tipos florestais da Mata Atlântica.
Na década de 1950, o engenheiro agrônomo-silvicultor Eudoro H. Lins de Barros, que havia sido chefe da Divisão de Florestamento e Reflorestamento do Instituto Nacional do Pinho, corroborou a opinião sobre as vantagens naturais da região da araucária:
A região da Araucária, como passaremos a chamá- la, representa atualmente, no setor florestal, uma riqueza real, superior às matas da Amazônia, pela relativa facilidade de exploração das madeiras nela
133 BASTOS, A. de Miranda. O drama da floresta de pinheiro brasileiro. Anuário Brasileiro de Economia Florestal. Ano 13, n.13. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Pinho, 1961. p.69. 134 Ibid. p.70.
135 Romário Martins, por exemplo, já observava isso em 1944. MARTINS, Romário. Livro das Árvores do Paraná. 2 ª ed. Curitiba: Imprensa Oficial, 2004. p.157.
existentes, espécies diversas valiosas cujas aplicações não oferecem qualquer dúvida aos industriais madeireiros, como também por ali se encontrar na verdade, a mais importante reserva da América do Sul. Reconhecemos que a extensão das florestas da Amazônia é incomensurável e que nos dias atuais representam um potencial de madeiras valiosas, contudo, as espécies ali existentes, encontram-se dispersas na vastidão das matas tropicais, muito ricas botanicamente, mas que apresentam sérios obstáculos à exploração específica de determinadas essências, preferidas atualmente pelas múltiplas indústrias que utilizam a madeira como matéria prima, pelo simples motivo de que essas essências só se encontram de longe em longe.136
Aliado a esse fato da abundância natural da araucária, a madeira dessa árvore, embora não muito resistente naturalmente às intempéries em comparação com outras essências florestais, é considerada adequada para uma longa série de utilidades, sem contar o aproveitamento de outras partes da árvore além do tronco:
Seus usos mais comuns são taboado, vigamentos, pranchões, caixas, móveis, cabos de vassoura e de ferramentas, palitos de dentes e de fósforo, fabricação de compensados, pasta mecânica e celulose, papel, matéria plástica, lã e seda artificiais, instrumentos de música, instrumentos de adorno, artigos de esporte, separadores para acumuladores, caixas de ressonância de piano, tacos de nós, mourões, telhas de taboinhas, etc. Os galhos e refugo, e especialmente o “nó de pinho” servem para lenha e combustível de caldeiras. O mesmo “nó de pinho” convenientemente preparado serve para belíssimas obras artísticas de tornearia de que temos, no Estado, importantes fábricas. A resina serve de base para a fabricação de vernizes, terebentina, acetona, ácido pirolenhoso e outros produtos químicos.137
136 BARROS, Eudoro H. Lins de. Recursos Florestais da Bacia Paraná-Uruguai. São Paulo: Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, 1956. p.14.
137 REITZ, Raulino; KLEIN, Roberto M. Araucariáceas. Flora Ilustrada Catarinense. Itajaí, 1966. p.21. Segundo Romário Martins em 1944, o pinheiro "substitui com vantagens todas as utilidades dos pinhos americano, canadense, sueco e do famigerado pinho-de-riga, que por
No entanto, se por um lado existiram fatores naturais que explicam o sucesso econômico na exploração desse tipo florestal, também foram apontados aspectos naturais que dificultaram a exploração do ecossistema, ou de outra forma, preservaram as florestas até épocas mais recentes. Um dos aspectos freqüentemente mencionados é o relevo da região da araucária, bastante acidentado e que dificultava a comunicação e o transporte de cargas para o litoral e os portos, devido à barreira da Serra do Mar e da Serra Geral. Além disso, há a questão do sentido geral Leste-Oeste de quase todos os principais rios da região, impossibilitando em muitos casos o uso desse meio de transporte. A. Aubreville, Inspetor geral de Águas e Florestas das Colônias da França, observador estrangeiro acostumado às condições de exploração florestal nas colônias francesas na África, abordou essa questão das dificuldades da exploração do pinho em sua visita a região da araucária, em 1948:
Esta tem contra si a topografia da região e a natureza do solo. O planalto meridional brasileiro apoia-se e alteia-se a leste sobre os maciços graníticos da Serra do Mar; desce suavemente em direção ao interior formando uma parte da bacia do rio Paraná. A inclinação geral é, portanto, no rumo de oeste, de modo que os grandes rios afluentes do Paraná, que têm as nascentes na Serra do Mar, a algumas dezenas de quilômetros do oceano, correm de leste para oeste, afastando-se da costa. Esses rios são, além do mais, cortados de cachoeiras, de sorte que o sistema hidrográfico não se presta para um escoamento da madeira por via fluvial em direção ao mar, nem para o interior. O transporte para os portos marítimos tem assim, de ser efetuado por estrada de ferro ou rodovia. Para atingir esses portos, partindo do interior do planalto, é mister atravessar o obstáculo da Serra do Mar, que termina, na costa, em elevações abruptas. Rodovias e ferrovias, ao chegarem à Serra do Mar, têm de descer, em algumas dezenas apenas de quilômetros, 700-800 metros, o que as obrigam a terem um traçado muito sinuoso e inclinado. Não são, por conseguinte, vias de evacuação que permitam um grande tráfego comercial.138
longos anos importamos como sendo o melhor da espécie." MARTINS, op. cit. p.151. 138 AUBREVILLE, op. cit. p.32, 33. Embora muitos rios do interior da região da araucária fossem bastante encachoeirados, impossibilitando na maior parte dos seus cursos o transporte
Como se pode ver, o escoamento da madeira da araucária ainda era visto como um sério problema em meados do século XX. É possível imaginar como era a situação no final do século XIX, antes da construção das ferrovias e quando não existiam caminhões.
Tendo em vista tudo isso, as “vantagens” e “desvantagens” da região da araucária, é compreensível que a exploração madeireira nesse ecossistema tenha se iniciado em escala representativa somente no século XX. Antes da década de 1910, época que coincide com a instalação da companhia Lumber no planalto sul - brasileiro, a exploração madeireira da floresta com araucária, com exceção de umas poucas serrarias, era apenas destinada a atender necessidades locais de madeira serrada nas colônias ou nas pequenas vilas que existiam no planalto. Muitas vezes as tábuas, vigas e outros tipos de peças de madeira eram extraídos das toras sem o uso de máquinas, com o uso exclusivo da força humana, pelo processo de falquejar a madeira a mão ou cortando as toras com traçadeiras, como podemos ver na figura a seguir (Figura 2).