A constante reflexão de “ser educador” implica formação contínua, num pensar sobre nós mesmos e sobre as nossas ações que nos integra em termos de informação e qualificação profissional. São os referenciais teóricos que se unem à prática que nos formam como profissional docente e como pessoa. A relação teoria e prática para Freire (1996), é uma constante reflexão teórica, pressuposto e princípio de busca do homem com atitude diante da realidade. A teoria e a prática acontecem na relação homem e mundo com coerência entre pensamento e ação, que é práxis (o fazer). Nessa relação, cria oportunidade para o homem se “re-
descobrir” num processo de reflexão e conscientização. “A ação sem pensamento é ativismo, e o pensamento sem ação é verbalismo.” (FREIRE, 1996, p.15)
Pensar em experiência nos remete a um conjunto de vivências que foram sucessivamente desenvolvidas para se tornarem experiência. Dessa forma, Josso (2004) sugere a reflexão: “o que eu extraio como conhecimentos e saber-fazer do conjunto destas experiências?”. Sabemos que não nos formamos sozinhos, há a dialética entre “individual e coletivo” que acontece ao mesmo tempo, ou seja, há dois polos: em um, nos “autointerpretamos”; no outro, acontece a “cointerpretação”, que envolve o coletivo:
É nesse movimento dialético que nos formamos como humanos, quer dizer: no pólo da autointerpretação como seres capazes de originalidade, de criatividade, de responsabilidade, de autonomização; mas, ao mesmo tempo, no pólo da co-interpretação, partilhando um destino comum devido ao nosso pertencer a uma comunidade. (JOSSO, 2004, p. 54)
Pensar no que somos como pessoas, quais os objetivos que pretendemos atingir, é olhar para nós mesmos e construir conhecimento na trajetória de vida de forma consciente rumo ao que almejamos, sabendo “transformar a vida socioculturalmente programada numa obra inédita a construir (...)”. (JOSSO, 2004, p. 58)
De fato, como aponta Cunha (1989, p. 39), “o conhecimento do professor é construído no seu próprio cotidiano, mas ele não é só fruto da vida na escola. Ele provém também de outros âmbitos (...)”. Essa multiplicidade de saberes na vida do professor vai se constituindo em sua participação em movimentos sociais, sindicais, religiosos e comunitários – não só em sua formação acadêmica. São múltiplos os conhecimentos que o professor acumula como produto de uma “edificação” histórica em sua trajetória de vida.
O professor que realiza uma reflexão sobre a sua história de vida permite um contato com suas vivências elaboradas e, nessa reflexão, encontra possibilidades de construir novos significados para saber que aprender é infindável e descobre que “seus saberes estão enraizados em sua história de vida e em sua experiência do ofício de professor”. (TARDIF, 2007, p. 232). Ao realizar esse resgate, o professor amplia sua consciência a respeito de como foi se transformando no professor que é hoje. E essa tomada de consciência pode tornar possível um melhor desempenho
no processo ensino-aprendizagem, uma vez que o professor, dialogando com ele mesmo, constituindo-se como um participante ativo que constrói o seu conhecimento, constitui-se como sujeito de sua prática. Sobre os saberes que resultam da experiência, esclarece Josso (2004, p. 49):
[...] nossos conhecimentos são frutos de nossas próprias experiências, então, as dialéticas entre saber e conhecimento, entre interioridade e exterioridade, entre individual e coletivo estão sempre presentes na elaboração de uma vivência em experiência formadora, porque esta última implica a mediação de uma linguagem e o envolvimento de competências culturalmente herdadas.
A partir dessa afirmação, podemos salientar que o professor, na construção de sua profissionalidade, recorre aos recursos dos saberes adquiridos na experiência prática relacionados aos conhecimentos teóricos. Esses saberes característicos da profissão docente tornam o ensino um significativo espaço de formação. As reflexões que envolvem as competências culturalmente herdadas resultam na consciência, na compreensão e na emancipação do conhecimento.
Interagindo com a história de vida das seis professoras alfabetizadoras tive a oportunidade de perceber a preocupação com a formação continuada que elas tiveram ao longo de suas trajetórias profissionais, apesar das dificuldades relacionadas à vida cotidiana, como relata a professora:
Desde que ingressei na Rede participei dos cursos oferecidos e leitura de livros para me interar dos acontecimentos na alfabetização que vinha acontecendo com a implantação do Ciclo Básico. Eu desejava cursar pedagogia, mas ainda não tinha condições financeiras para isso. Percebendo a necessidade de melhorar a minha formação e prática de ensino, com as exigências da LDBEN, decidi fazer pedagogia e concluí no ano de 2000. Senti a necessidade de continuar a me atualizar participando de palestras com pensadores e cursos de formação fornecidos pela Rede Estadual, como o “Letra e Vida”, para formação de professores alfabetizadores. Passei a refletir sobre a educação de forma consciente e ter um olhar mais direcionado às necessidades individuais das crianças e aos desafios que a sala de aula nos coloca. É importante a troca de experiência nos HTPCs. O professor precisa ser ouvido pelo Coordenador porque na sala de aula acontece sucesso e também muitas frustrações. Foi uma construção do início de minha carreira
até agora. Não posso mais transmitir conhecimentos, mas intermediar.
(Professora Marta)
Numa sociedade em constante mudança, com avanço tecnológico e de conhecimento, o professor necessita não apenas ter preparação em sua disciplina como também recorrer a sua bagagem sociocultural, práticas bem-sucedidas, contar com orientações pedagógicas e trocas de experiências que o auxiliem em sua atuação. Há um espaço na escola pública para o movimento de constante diálogo, interação e participação entre os pares com trocas de experiências na própria escola, em horário de trabalho coletivo (HTPCs). São momentos de discussões que conduzem à melhoria do trabalho pedagógico e à superação de possíveis dificuldades no espaço sala de aula.
A partir do diálogo formador-formando, em que as vivências são retomadas, as histórias são ressignificadas, os planos de formação podem ser elaborados. Não são necessários grandes planos, mas planos que retratem uma situação da própria escola, que retratem a vida que há na escola e que só é realmente conhecida pelos que nela habitam. (ALMEIDA, 2002, P. 86)
Entendo que, entre outras características, o professor reflexivo é aquele que
busca inovar a prática pedagógica e constantemente procura o conhecimento também fora do contexto escolar, na busca de instrumentos intelectuais para enfrentar as situações complexas com que se depara no cotidiano, inclusive no espaço da sala de aula. Além disso, é capaz de trazer os conhecimentos teóricos e práticos para discussão com a equipe pedagógica, envolver os alunos no processo de construção do conhecimento de forma prazerosa para garantir os resultados positivos dos objetivos propostos no início do processo.
A professora colaboradora Mariana define o professor reflexivo capaz de bons resultados no processo:
O bom professor alfabetizador precisa ser inquieto, atualizado, observador e criativo no saber-fazer cotidiano. Além disso, incluir e envolver a todos no processo de alfabetização. Ele consegue pesquisar com os próprios alunos o que precisa planejar em sua aula para promover o avanço no processo de alfabetização. Participa de suas
dificuldades com a equipe pedagógica na busca de soluções.
(Professora Mariana)
A condução do trabalho profissional do professor passa a ser uma síntese do desenvolvimento pedagógico, intelectual, dos conhecimentos teóricos, incluindo a compreensão de si mesmo e relacionado à sua capacidade de produzir informação no espaço da sala de aula. Com isso, produz saberes e experiências: “É preciso que haja espaços para que os professores se encontrem, troquem suas vivências, reelaborem suas experiências e tenham retaguarda para implantar seus planos.” (Almeida, 2002, p. 85).