Para iniciar a listagem de pontos dos estudos de Descartes que interessam ao desenvolvimento deste trabalho, foi escolhida a série de diferenciações que o filósofo traz entre o ser humano e as demais espécies animais. É válido ressaltar que, apesar de admitir que há mais de uma diferença entre os dois grupos, Descartes aponta uma delas como fundamental.
Para o elencamento de diferenças, ele parte das capacidades físicas encontradas nos dois grupos (DESCARTES, 1996).
Na análise do filósofo, estas capacidades existem em ambos grupos, diferindo no grau encontrado; assim, ao compará-las, o autor ressalta a situação de vantagem em que o grupo das outras espécies animais se encontra em relação ao ser humano. Realizando esta comparação, Descartes (1996) atenta a que, por exemplo, existem animais com força em níveis muito superiores à força humana e espécies com velocidade, resistência, agilidade, equilíbrio e flexibilidade que superam largamente as mesmas variáveis no ser humano. Com isto, o autor evidencia que as demais espécies animais superam o ser humano quando são comparadas apenas estas características, as capacidades físicas.
Em seguida, Descartes traz outra diferença, que supera a primeira aqui explicada. Esta segunda diferença revela-se, ainda segundo o filósofo (1978), como mais profunda e importante que a primeira, já que em grau de valores se sobrepõe. É importante destacar que os valores mencionados são relativos no que concerne às diferentes visões que deste tema se podem ter, mas absolutos dentro das idéias de Descartes.
O autor confere um status superior ao ser humano obtido da análise que ele faz: o ser humano apresenta uma característica inexistente nas outras espécies e isto o torna superior em relação a estas, mesmo mostrando inferioridade em outros aspectos, como nas capacidades físicas. A característica presente unicamente no ser humano, segundo Descartes, é a alma racional (1978).
Passando para um terceiro momento, após ressaltar as condições que permitem a superioridade ora de um grupo, ora de outro, ele volta novamente a comparar. Neste outro momento de comparação, os elementos comparados também são outros, apenas os que permitiram na comparação inicial sustentar a
superioridade dos grupos: as capacidades físicas (no caso das espécies animais, excluindo o ser humano) e a alma (no caso exclusivo do ser humano) (1978).
Graficamente poderíamos representar, a partir do pensamento cartesiano, uma escala de valores na qual estariam assinalados os pontos que representam apenas as diferenças que tornam um grupo superior ao outro. Nesta escala poderia, então, ver-se a disposição em que estes pontos ficariam segundo o valor atribuído a partir das concepções de Descartes. Para realizar este gráfico, partindo de análises feitas das concepções do filósofo, a pesquisa fundamenta-se numa seqüência de afirmações que ele faz em sua obra mais difundida, “O Discurso do Método”:
É também coisa muito notável o fato de que, embora existam
diversos animais que mostrem maior habilidade do que nós em
alguma de suas ações, é evidente que não demonstrem nenhuma
em inúmeras outras; de modo que não nos prova, absolutamente,
que sejam providos de espírito, porque, se assim sucedesse tê-lo-
iam muito mais do que nós e nos suplantariam em muitas outras
coisas; mas isto é antes prova de que eles não possuem espírito e
que a natureza é que age neles conforme a disposição dos seus órgãos, do mesmo modo que um relógio, sendo formado
exclusivamente de rodas e de molas, pode contar as horas e medir o tempo com mais exatidão do que nós com toda a nossa prudência
(DESCARTES, 1978, p. 106).
Esta primeira afirmação escolhida exemplifica uma parte das análises aqui realizadas, a que garante a inexistência da alma/espírito/mente nos demais animais que não sejam da espécie humana.
A linguagem e, novamente, a presença da alma (esta sempre estreitamente ligada como termo de significado análogo pelas idéias do autor à consciência/mente/intelecto/razão) são ressaltadas em outro trecho de sua obra, a saber:
Isto não prova somente que os animais possuem menos razão do
que os homens, mas ainda que não possuem absolutamente
nenhuma. Por que é preciso muito pouco para saber falar; e quando
se observa a desigualdade que existe entre os animais de uma mesma espécie, assim como entre os homens, e que uns são mais
fáceis de serem ensinados do que outros, não é crível que um
macaco ou um papagaio, dentre os mais perfeitos de sua espécie,
não igualasse nisso uma criança das mais estúpidas, ou, ao menos,
uma criança cujo cérebro estivesse perturbado, se a alma deles não
fosse completamente diferente da nossa (DESCARTES, 1978, p. 105).
O autor esclarece que esta impossibilidade de comunicação dos animais através da fala, e especialmente a nulidade destes na exteriorização do pensamento – caso existisse – não é devido à falta de órgãos, ou seja, um impedimento físico, mas que se trata de uma limitação originada pela ausência de um determinante maior: a alma racional. Explica que seres humanos, mesmo desprovidos de capacidades físicas ou com lesões nos órgãos responsáveis pela audição e fala (como, por exemplo, no caso dos deficientes auditivos) conseguem elaborar uma linguagem alternativa, fazendo-se entender por outros indivíduos, e com isso ele afirma que têm a possibilidade de fazê-lo por estarem providos da alma racional (DESCARTES, 1978).
Detendo nosso olhar não apenas nas palavras utilizadas neste segundo trecho escolhido, mas principalmente nas idéias que fazem surgir os termos pelo autor proferidos, percebemos que há um avanço ou aprofundamento na explanação do tema. Descartes desenvolve, dentro de sua linha de raciocínio, não apenas a caracterização das diferenças, mas prossegue, agora, defendendo a existência de uma hierarquização entre o ser humano e demais espécies, baseando-se nas peculiaridades de cada grupo.
Voltando para o gráfico sugerido, vemos que o posicionamento das capacidades físicas garantiria às espécies animais uma vantagem inicial perante os seres humanos, mas esta superioridade seria prontamente ultrapassada pela existência da alma racional, fator que deixaria, sob a ótica de Descartes, definitivamente o ser humano numa posição de vantagem.
Sempre tomando a linha de pensamento de Descartes como objeto de estudo, podemos afirmar, sem que esta afirmação deixe lugar a questionamentos, que o filósofo atribui à alma racional humana maior valor e importância que às características físicas encontradas nos animais. Este ponto é importante para entendermos as seguintes concepções no desdobramento do pensamento cartesiano.