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Using Multiple Configurations

O conceito de imagem refere-se predominantemente a três tipos de formas visuais, sendo: (1) as representações visuais, isto é, as pinturas, desenhos, fotografias, vídeos, entre outras, oriundas do campo das artes e das mídias; (2) as representações mentais, ou seja, as formas visuais relativas à mente, são visões, abstrações, fantasias e modelos provenientes da imaginação, e; (3) o campo visual, quer dizer, as imagens diretamente apreendidas pela percepção visual. Portanto, o conceito de imagem, sob qualquer aspecto, apresenta-se intimamente atrelado à noção de representação. Nos dois primeiros casos, isso torna-se evidente pela sua própria designação, uma vez que são nomeados representações visuais e mentais. No entanto, no terceiro talvez seja necessário esclarecer que, segundo a semiótica peirceana, os objetos da percepção ao alcançarem o plano da cognição estabelecem relações de representação sígnicas que permitem a compreensão do mundo, impreterivelmente, estruturado como linguagem. Assim, a apreensão do campo visual, no que tange à nossa compreensão do mundo e de seus objetos, é uma forma de representação.

Diante de nossa temática, as representações visuais ocupam uma posição de enorme relevância. Contudo, visto sua intrínseca relação com o campo visual e as representações mentais, todos estes três âmbitos da imagem tornam-se pertinentes. No que se refere à relação entre as representações visuais e as representações mentais Santaella e Nöth (2012, p. 15), afirmam que:

Ambos os domínios da imagem não existem separados, pois estão inextricavelmente ligados já em sua gênese. Não há imagens como representações visuais que não tenham surgido de imagens na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos visuais.

Por sua vez, as relações entre as representações visuais e o campo visual foram por muito tempo negligenciadas. Apenas no início do século XX alguns estudos no campo da Psicologia começaram a se debruçar de forma mais consistente sobre essa temática. Nesse sentido, os estudos de Psicologia Visual de J. J. Gibson tornaram-se um marco sobre sua importância e formas de abordagem. Em sua obra The perception of the visual world, publicada pela primeira vez em 1950, por meio da distinção entre o mundo visual e o campo

visual, o autor constrói uma teoria sobre o funcionamento do sistema visual e dos tipos de informação que encontram-se disponíveis ao sistema e, consequentemente, manifesto à nossa compreensão.

O ambiente é representado pelo campo visual que, por sua vez, é tudo aquilo percebido pelo sistema visual. O ambiente é também a origem dos estímulos visuais necessários à percepção. No entanto, ver o mundo, ou perceber o campo visual, não é o mesmo que compreender o mundo ou o ambiente ao redor. Como afirma o próprio autor, “também é plausível dizer que embora o campo visual seja visto o mundo visual é

compreendido”15 (GIBSON, 1950, p. 42). Entender como podemos compreender o mundo visual a partir do campo visual, e dos estímulos perceptivos oriundos do ambiente, é a questão que Gibson procura elucidar. Para o autor a chave dessa problemática está na relação entre o sistema perceptivo e a informação visual fornecida pelo próprio campo. Santaella (2012, p. 47) resume a perspectiva gibsoniana, nos seguintes termos:

O sistema perceptivo está em sintonia com as variações e invariantes do ambiente, uma informação que é ativamente buscada pela interação. Para Gibson, o ambiente contém informação objetiva na forma de invariantes que permitem o reconhecimento de propriedades das superfícies, objetos e assim por diante (SANTAELLA, 2012, p. 47).

Gibson, ao destacar o papel que a informação proporcionada pelo campo visual exerce sobre a compreensão visual, constrói uma teoria que institui a percepção como um elemento primordial para a cognição visual e aquisição de linguagem. Portanto, temos uma aproximação bastante relevante entre a perspectiva semiótica e a gibsoniana. No entanto, o que mais nos interessa nesse momento é compreender a ampliação conceitual que a noção de campo visual, como proposta por Gibson, oferece para o estudo das representações visuais. Nesse sentido, em relação ao campo visual as representações são, simultaneamente, objeto e produto. Por um lado, assumem o caráter de objeto, uma vez que, do ponto de vista da recepção, as representações visuais encontram-se incorporadas ao ambiente e são percebidas como um componente ou qualidade de um determinado campo visual. Por outro lado, as representações visuais assumem a condição de produto, na medida em que sua existência só é possível mediante a capacidade de experiência perceptiva visual e consequente demanda social e estética de representação. Obviamente, o campo visual também influencia a geração de imagens mentais, uma vez que, como já foi dito, as representações visuais são originárias

das representações mentais. Dessa maneira, as experiências perceptivas oriundas do campo visual, e que incluem as representações visuais na qualidade de produto de um campo determinado, operam como common ground, no sentido peirceano (CP 3:621), ou seja, como uma base comum ou repertório de qualidades que permite a comparação entre a representação e o objeto representado.

Compreendemos esses três domínios da imagem, isto é, o campo visual, as imagens mentais e as representações visuais, como três instâncias de interação do sujeito com a iconosfera. O conceito de iconosfera foi cunhado, em 1959, pelo acadêmico e cineasta francês Gilbert Cohen-Seat e se refere ao conjunto das informações visuais inseridas na sociedade pelos meios de comunicação de massa. Portanto, essas interações entre indivíduo e objetos imagéticos da iconosfera podem ser de três formas ou níveis de relacionamento denominados, respectivamente, plano de recepção, plano simbólico e plano de produção. O sentido dos termos recepção e produção são bastante evidentes no campo da comunicação. No entanto, vale esclarecer que a noção de plano simbólico refere-se ao conceito de “imaginação simbólica”, apresentado por Gilbert Durand (1993), em sua obra de mesmo nome. Nesse sentido, a dimensão simbólica é entendida como uma instância da compreensão humana em que o imaginário, por meio de representações mentais, modela nossos comportamentos sociais, desejos e formas de pensamento. Em outras palavras, as representações visuais, postas em circulação pelos meios de comunicação de massa, são inseridas na sociedade por meio das dinâmicas comunicacionais e, assim, integradas ao ambiente social na forma de objetos culturais. As representações visuais tornam-se parte constituinte do campo visual influenciando nossas representações mentais e, consequentemente, atuando sobre nossa compreensão simbólica do mundo.

As práticas sociais que circunscrevem as diferentes formas de interação do homem com as dinâmicas de representação dos objetos imagéticos da iconosfera constituem a chamada cultura visual. Nicholas Mirzoeff, em sua célebre obra Uma introdução à cultura

visual16, a define como uma condição pós-moderna determinada pela eminência da imagem e predominância do visual em detrimento dos aspectos verbais da cultura moderna e do romance impresso que foi a forma de expressão preponderante durante o século XIX (MIRZOEFF, 2003, p. 20).

As relações entre os conceitos de representação, iconosfera e cultura visual são latentes. Uma vez que a iconosfera pode ser entendida como a esfera da semiose visual, isto é,

o campo da significação das imagens em que objetos e dispositivos visuais produzem novos sentidos, signos e linguagens, considera-se a cultura visual como o plano social em que tais significados tornam-se disponíveis à interação humana. Campo visual, representações mentais e representações visuais são modos de interação do homem com tais objetos de linguagem. A cultura visual é o âmbito do embate entre os sistemas de linguagem no qual estas relações de visualidade ocupam um lugar de destaque na semiose social.

Entre os estudos de cultura visual, é amplamente aceita a ideia de que uma das qualidades intrínsecas da realidade sociocultural pós-moderna é a ampla circulação de imagens nas mais diversas atividades e práticas cotidianas, decorrentes da predominância da visualidade na experiência sensível humana. Nessa perspectiva, Mirzoeff (2003, p. 28) afirma que “a maioria dos teóricos da pós-modernidade17

concordam que um de seus traços distintivos é o domínio da imagem”. A partir da premissa de que a cultura circunscreve as relações sociais e os comportamentos dos indivíduos, mediando suas ações, percepções, sensações e pensamentos, somos conduzidos a refletir sobre as implicações da predominância da visualidade sobre os indivíduos e seus modos de organização social. Por sua vez, W.T.J. Mitchell (2015, p. 6), assumindo outra perspectiva e ampliando o conceito, propõe que a cultura visual pode ser compreendida como um campo de estudos relativo às representações e percepções visuais delimitado pela convergência entre a “construção social do campo visual e a construção visual do campo social (igualmente importantes)”. Ainda segundo o autor, a cultura visual enquanto campo de estudos é uma vertente da história da arte, juntamente com a iconologia e os estudos de mídia (2015, p. 6), portanto, a tradição da produção visual artística encontra-se associada aos estudos de cultura visual. Nesse sentido, os vínculos e influências do campo visual e das imagens mentais em relação às representações visuais correspondem a interesses dos estudos de cultura visual. É importante ressaltar ainda que estas associações também serão à base de uma cultura do corpo, que em sua expressão visual, oferece à figura humana algum tipo de eminência, como iremos demonstrar.

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