A dimensão pragmática da linguagem diz respeito à “relação dos signos com seus intérpretes”. É uma instância coletiva da comunicação que “trata dos aspectos bióticos da semiose, isto é, de todos os fenômenos psicológicos, biológicos e sociológicos que ocorrem no funcionamento dos signos” (MORRIS, 1976, p. 50). Herman Parret (1997), em sua obra dedicada à estética da comunicação, discute o conceito de “pragmática” produzindo uma perspectiva bastante objetiva, como segue:
Em primeiro lugar, o sentido do objeto pragmático é determinado por seu posicionamento num contexto e, em particular, por sua força de contextualização. O sentido não é portanto imanente, como afirma o slogan estruturalista. Mas devemos levar em consideração o fato de que o objeto e seu contexto não são entidades autônomas e estáveis: eles só existem por meio de uma interdependência dinâmica. Alguns pragmaticistas anglo- saxônicos demonstram precisamente sua ingenuidade ao atribuírem um status ontológico radical aos contextos, transformados dessa forma em situações, ao invés de explorar a ideia de que o contexto é sempre o efeito provisório de uma contextualização [...]. Aqui encontramos a primeira propriedade da “via” pragmática: a exigência de transcendência do sentido (PARRET, 1997, p. 12-13).
Portanto, o sentido pragmático é definido pela circunstância que acompanha o fato ou a situação. É um sentido transcendente, uma vez que, nesse plano, a significação não emana do objeto, mas advém do contexto, transcendendo o objeto. Além disso, devido à sua condição cultural, temporal e histórica, o sentido se torna “o efeito provisório de uma contextualização”.
No entanto, como dissemos anteriormente, a dimensão pragmática da linguagem refere-se também à natureza retórica e simbólica da linguagem. Segundo Romanini (2016), a retórica “vê a comunicação em sua máxima amplitude, e estuda os efeitos comunicativos em geral na produção e troca de sentidos culturalmente”. Por sua vez, a palavra símbolo vem do grego symbalon que possui seu sentido etimológico relativo a “manter junto” ou “juntar”. Tem relação com a palavra comunicar, de origem latina, que significa “em comum” ou “tornar comum”. No campo psicológico, o simbólico se refere à capacidade de produzir representações mentais a partir das experiências sensíveis da percepção e fenomenológicas do entendimento. Portanto, o simbolismo se refere à instância coletiva do conhecimento, possui a função sociocultural de comunicação e a capacidade de representação das vivências humanas.
Além de ser o âmbito responsável pela dimensão coletiva da comunicação, o nível pragmático é também plano mais elevado da semiose da linguagem, o que corresponde dizer que este é o plano no qual ocorre a ampliação dos sentidos. Isto é, a atribuição de novos significados a signos já existentes, a emergência de novos signos e sistemas de linguagem e até mesmo a construção de sentidos conotativos a partir da construção de categorias abstratas, como resultado dos processos ordinários da cognição simbólica. A cognição simbólica atribui sentido convencional aos estímulos sensoriais por meio de categorias abstratas e socialmente compartilhadas. Por exemplo, por atribuir a um som de trovão o sentido de perigo por meio do qual a conotação produzida pode ser associada à de medo. No entanto, segundo Lévy (2014, p. 107), “a cognição simbólica pode evocar outra coisa além dos fenômenos sensíveis: crenças, ideias, significações complexas, narrativas, problemas”. Essas possibilidades cognitivas de construções simbólicas coletivas e abstratas ocorrem por meio da ação de “operadores de categorização” que podem realizar diversas operações complexas, como segue:
Graças aos mecanismos sintáticos fornecidos pelos sistemas simbólicos, os operadores cognitivos representados pelos significantes podem eles mesmos ser objeto de operações complexas, tais como: composição, decomposição, arranjos, rearranjos, triagens, substituições, conexões, desconexões e assim por diante... Assim, o simbolismo abre à cognição uma dimensão praticamente ilimitada de complexidade recursivamente construtiva (LÉVY, 2014, p 107).
Portanto, a dimensão pragmática e simbólica da linguagem e do pensamento também é a dimensão da articulação de operações cognitivas complexas de diversas categorias, como demonstrado por Lévy. Esse aspecto é especialmente relevante, uma vez que a proposta da presente pesquisa parte da hipótese de que o corpo influencia os processos de comunicação visual nas imagens fotográficas e pictóricas. Esta influência necessariamente ocorre como resultado das operações cognitivas simbólicas no plano pragmático da linguagem visual.
Nosso ponto de vista defende a existência de “operadores cognitivos” capazes de realizar operações de “convergência” nas quais as informações visuais são associadas à figura humana sendo incorporadas ao sujeito da imagem. Como vimos anteriormente, segundo a semiótica peirceana, existem ao menos três planos de significação que aplicamos à comunicação visual: (1) o plano sintático, isto é, as significações formais oriundas do plano de expressão; (2) o plano semântico, ou seja, as significações visuais denotativas decorrentes do plano de conteúdo, e; (3) as significações simbólicas, quer dizer, o âmbito dos hábitos de
interpretação e das convenções sociais. Nossa perspectiva argumenta que, no âmbito da cognição simbólica visual, as significações sintáticas e semânticas convergem ao corpo, na forma de convenções culturais e hábitos de interpretação, sendo associados a ele por meio da ação de “operadores cognitivos” que realizam operações de convergência e associação das informações visuais à figura humana.
Nesse sentido, a dimensão pragmática da comunicação visual possui importância fundamental, uma vez que o âmbito pragmático corresponde também ao plano da retórica da linguagem e da cognição simbólica, sendo a convergência desses planos que constitui o ambiente adequado para a ação dos operadores cognitivos que realizam as operações de convergências das informações visuais à figura humana. Dito de uma maneira mais simples, tomamos como exemplo uma imagem em que a organização dos elementos formais proporciona um enquadramento a partir de um ângulo baixo que deixa o sujeito em um plano superior e, desta maneira, a sensação superioridade/imponência é associada ao sujeito. Portanto, uma significação oriunda do plano de expressão é incorporada à figura humana. A associação da informação significante ao sujeito, segundo nossa perspectiva, deve-se à própria estrutura e ao funcionamento do nível simbólico da cognição e pragmático da linguagem visual.
Neste primeiro capítulo, apresentamos os aspectos iniciais mais relevantes pertinentes à organização e estruturação da linguagem no âmbito da comunicação visual, suas dimensões, planos e níveis de estruturação e suas respectivas caraterísticas e modos de funcionamento. Agora seguimos para o próximo capítulo, no qual abordaremos as relações socioculturais entre as imagens pictóricas e fotográficas que atribuíram à figura humana seu status hegemônico, que, por sua vez, justifica a associação dos distintos níveis de informação visual ao corpo.
CAPÍTULO 02 – CULTURA VISUAL E PREDOMINÂNCIA DO CORPO/FIGURA