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6.7 Using KED Command Files as Work-session Initialization Files

Como dissemos, há uma outra compreensão sobre a repetência que circula socialmente, esta apareceu muito claramente na entrevista de Alexsandro dos Santos, já identificado no item anterior. Alessandro expressou que a repetência é um processo benéfico ao estudante. Para ele “o aluno repetir de ano, é uma boa pra ele”. Pois o aluno terá uma nova oportunidade de aprender o que não foi possível absorver no ano anterior. É uma oportunidade para ele “reforçar mais o aprendizado que foi aprendido no ano passado”.

No entanto, para os autores que pesquisamos esse pensamento não encontra respaldo. Segundo Jimerson (et al., 1997 apud LUZ, 2008), a repetência “não garante um maior aprendizado ao aluno, é prejudicial em termos comportamentais e emocionais”. Ou seja, a repetência, por si só, não é garantia de benefício para que o aluno, que não conseguiu “aprender” no ano anterior, possa adquirir tal aprendizado.

Na compreensão de Alexandro, a repetência é uma chance dada pelo sistema de ensino para o aluno reforçar aquilo que ele já viu e não conseguiu assimilar. Ou seja, na fala de Alexsandro, a repetência “é uma nova chance

46 que o ensino tá dando para aquele aluno né?Pra ele se esforçar, ter mais força de vontade pra superar aquele ano letivo”. Alexandro enxerga a repetência como uma nova oportunidade, mas não consegue ver que envolve outros determinantes escolares e sociais, deixando para o estudante a compreensão de uma nova oportunidade que ele pode aproveitar ou não, depende dele.

Essa compreensão pode ser entendida a partir de Oliveira (2016, p. 36) quando afirma que a repetência é

“um ato que está enraizado no ensino escolar desde a sua origem, que já é considerado um meio cultural de muitas escolas. Muitas vezes a repetência ocorre em forma de punição pelo o aluno não ter conseguido absorver o conteúdo empregado pela escola”.

Então, esse pensamento de que a repetência faz parte da cultura da escola, desde a sua origem, pode resultar no entendimento de que a escola faz o melhor, se preocupa, mas os estudantes não se esforçam.

Alexandro, demonstra essa compreensão, ao dizer que a repetência é para aqueles alunos que não se esforçaram o bastante para ser promovido. Nas palavras dele a repetência acontece porque “às vezes o esforço [do estudante] não foi suficiente”.

Para ele, se o aluno não tiver a persistência no estudo, não terá êxito na sua vida estudantil e atribui que a repetência é um fenômeno que o aluno deve enfrentar sozinho, pois é de sua responsabilidade, e somente com a sua força de vontade é que poderá vencer, desde que não desista e tenha “determinação e esforço, força de vontade. Então, não pode baixar a cabeça para os desafios né? [Ele deve] tentar superar aquilo”.

Segundo Jacomini (2010, p.902-911) esta compreensão está muito presente no sistema de ensino pelo fato

da escola ensinar que o êxito é basicamente o resultado do esforço e da capacidade individual(...),é muitas vezes reforçada por discursos e pelas práticas de uma escola que não rompeu com o ensino seriado e com as práticas de reprovação.

47 Aqui, é preciso enfatizar que este pensamento é bastante latente, tanto na cultura escolar, quanto na visão dos sujeitos sociais. No entanto, essa visão traz consequências, como a que já constatamos a partir das falas de Eulisvan e David, isto é, um sentimento de culpa, fracasso, desinteresse e derrota.

Deste modo, por mais que Alexsandro acredite que a repetência é um fenômeno benéfico para o aluno, é perceptível em partes da sua fala, um sentimento de conformismo e de derrota também, por não ter conseguido sempre a aprovação para a série seguinte. Ao dizer que “repetir o mesmo ano reforça mais o aprendizado(...), e o ano que a gente não conseguiu vencer, no próximo a gente está mais preparado e vence”, não demonstra uma garantia que isso vai acontecer. Observemos nessa fala não apenas o sentimento de benefício, mas também de derrota por “não conseguir vencer”, além de expressar a necessidade de se preparar melhor para avançar no ano seguinte.

Tais sentimentos que aparecem na fala condizem com as explicações de Barros e Mendonça (1998, p. 11), de que a “repetência tem efeitos negativos sobre a auto-estima e a motivação dos alunos, além de estigmatizá- los”. Pois muitas vezes estes alunos são taxados de incapacitados, ainda que se esforcem nos anos seguintes, em relação aos estudos.

Para Alexsandro o sentimento de aceitação como cultura da escola, traz benefício ao estudante, mas essa compreensão vem, juntamente, com a necessidade individual de muito esforço. É Alexandro que afirma que o estudante deve batalhar, se esforçar e conseguir superar a repetência.

ele batalhou, pelo esforço para tentar passar na série e não conseguiu, “né”? Porque nós somos humanos, a gente pode errar, às vezes o esforço não foi suficiente e a determinação dele ta demonstrando que ele quer passar naquele ano “né”? Para repetir o ano e passar daquela barreira “né”?A determinação dele é fundamental ele não pode jamais desistir porque isso acontece com a maioria dos alunos, se ele não persistir ele não vai conseguir.

Então, essa construção social sobre o papel da repetência é muito contraditória. A cultura é da escola porque se pensa no aluno, se oportuniza para ele uma nova chance, então é fundamental o esforço individual da persistência, pois a escola deu a chance, e o estudante não pode perder, sob

48 pena de ser estigmatizado. Mais uma vez a decisão do sucesso escolar passa para o estudante que pode ser considerado um incapaz por não está preparado e tampouco ter vencido o sistema que está adequado a todos os sujeitos sociais.

Fazendo uma síntese dessas concepções encontradas a partir das falas de sujeitos sociais, podemos dizer que as narrativas sobre repetência, ora divergem, ora convergem. Divergem quanto os três interlocutores deixam claro que o processo de repetência é algo natural e normal; é um processo nocivo e negativo ao estudante e é processo benéfico, que favorece a progressão do estudante. No que se refere às convergências vemos que todos os entrevistados acreditam que a repetência é um processo individual, que cabe unicamente e exclusivamente ao estudante, a superação. Isto é, cada um é o responsável pelo seu possível sucesso ou pelo seu suposto fracasso.

Esta concepção de atribuir unicamente a si o resultado final de um ano letivo, segundo Jacomini (2010, p. 911) é porque “a escola brasileira foi construída com base no mérito pessoal, que exige do aluno a capacidade de superar qualquer dificuldade, tanto objetiva, quanto subjetiva”. Certamente, esta é uma das razões que mais tem contribuído para que o histórico da repetência justifique os valores de mérito pessoal, como se as condições sociais dadas as escolas fossem as mesmas para todas as pessoas. Fica o desafio posto às escolas e universidades no sentido de desconstruir tais pensamentos!

49 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O longo caminho percorrido nos permite fazer algumas considerações a respeito do que foi pesquisado e abordado neste trabalho de monografia. Inicialmente, apresentamos a minha trajetória de vida como gênese na construção do objeto da pesquisa – a repetência. Posteriormente, fazemos um percurso histórico, a partir da década de 1930, sobre como se fundiu a repetência escolar neste país, pontuando que o acesso a escola pública se democratizou, mas a preocupação se centrou apenas em atender a uma nova demanda social, antes desassistida.

Nessa mesma escola, agora com mais acesso da população, os mecanismos de seletividade permaneceram inalteráveis, sendo estes fatores preponderantes para estigmatizar e desvalorizar os alunos, gerando consequências nefastas que são bastante presentes, ainda, na sociedade atual, a exemplo da repetência. A partir desse cenário constitutivo da educação brasileira, objeto que nos inquietou, construímos nosso objeto de pesquisa identificado a partir da seguinte questão: como estudantes repetentes, da Escola Padre Francisco Rafael Fernandes, na década de 1990, compreendem o fenômeno da repetência escolar?

Após esta indagação, buscamos entender historicamente como o fenômeno da repetência aconteceu no Brasil, a partir da década de 1930, além de construir uma compreensão conceitual sobre repetência e fracasso escolar, estabelecendo suas relações. Foi possível perceber que o fenômeno da repetência escolar no Brasil tem sido objeto de muitas preocupações, discussões e tentativas de solução, mas, até a atualidade, as políticas não têm conseguido erradicar a repetência e suas consequências, principalmente na escola pública

Nossa pesquisa constatou, a partir de entrevista com três sujeitos repetentes na década de 1990, que circulam diferentes concepções sociais sobre a repetência escolar. Mas esses mesmos sujeitos também deixam entender que são os estudantes repetentes os únicos culpados pela reprovação ou reprovações sofridas. Esse entendimento, inclusive, se dá a partir deles próprios, como repetentes que foram.

50 No nosso entender, o que favorece a concepção única, quando todos convergem no sentido da causa individual da repetência, é o desconhecimento de outros fatores que contribuem para este processo, a exemplo das políticas de governo, da política de educação, das concepções de educação forjadas socialmente, das escolhas metodológicas no campo do ensino, das condições das escolas, a falta de materiais que auxiliem a aprendizagem, dentre outras questões que influenciam diretamente no ensino-aprendizagem dos estudantes. Ademais, é crível pensar que formação de professores pode contribuir para construção desse pensamento e a história tem exemplos de construções teóricas que atribuem a repetência a um processo individual.

Em relação a compreensão da repetência, a partir de visões diferentes, os sujeitos apresentaram três concepções: que a repetência é processo natural e individual, que é um processo nocivo e negativo ao estudante e que a repetência é processo benéfico ao estudante. Observemos que estas concepções que circulam socialmente sobre a repetência são também encontrados em Junior (2018, p. 100) ao perceber que “a pedagogia da repetência se mostrou nociva (...) e perversa para o aluno”, da mesma forma, por Ribeiro (1991, p. 18) ao dizer que a repetência escolar “é aceita por todos os agentes do processo de forma natural”.

Na atualidade, é possível vislumbrar mecanismos para combater esse fenômeno a partir de medidas que visam o melhoramento educacional no país, tais como políticas públicas, implementação de legislação, planejamento escolar e outras concepções de educação, construídas no campo da formação que respeita a diversidade de sujeitos e as diferentes culturas. Além do mais, políticas e programas implementados pelo governo federal nas últimas décadas, segundo Dourado (2005, p. 20-21), foram importantes, como:

organização e gestão da educação básica; adequação das condições de infra-estrutura das unidades escolares; mecanismos de participação da comunidade local e escolar; valorização e profissionalização docente por meio da articulação entre formação inicial e formação continuada (...) a qualidade almejada para a educação básica (...) é a qualidade social que tem no humanismo sua base fundamental para construção coletiva de representações, valores e atitudes no processo de socialização e formação integral do educando. Uma educação com qualidade social é caracterizada por um

51 conjunto de fatores intra e extra-escolares que se referem às condições de vida dos alunos e de suas famílias, ao seu contexto social, cultural e econômico e à própria escola.

Por fim, acreditamos que é possível desconstruir concepções sociais arraigado nos sujeitos, se pensarmos uma escola para o desenvolvimento mais humano e menos produtivo dos sujeitos. Também pensar a formação, no sentido de profissionalizar os professores para o desenvolvimento das pessoas e sua convivência plural. Mesmo sabendo que não poderá ser desconstruído tão facilmente. Porém, sabemos que é preciso romper com esta lógica do pensamento que está bastante presente na sociedade e que coloca o aluno como o único sujeito responsável pelos seus resultados na vida estudantil, desconsiderando outras condicionantes que favorecem para tal.

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58 ANEXOS

59 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE - UFRN

CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ - CERES DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - DEDUC

CURSO DE PEDAGOGIA

ALUNO: EUDRIANO DA SILVA SANTOS

OBJETIVO:, Analisar a compreensão de repetência escolar, na perspectiva do aluno repetente.

1 - O QUE VOCÊ ACHA DO ALUNO REPETIR DE ANO?

2 - PARA QUE SERVIU A REPETÊNCIA NA SUA VIDA ESTUDANTIL?

3 - COMO VOCÊ DEFINE A REPETÊNCIA?

60 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE - UFRN

CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ - CERES DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - DEDUC

CURSO DE PEDAGOGIA

ALUNO: EUDRIANO DA SILVA SANTOS

TRANSCRIÇÃO DAS FALAS DOS 3 (TRÊS) ENTREVISTADOS

ENTREVISTA DO PERGUNTAS NOME/IDADE/ PROFISSÃO/ 1. QUE VOCÊ ACHA DO ALUNO REPETIR DE ANO? 2. PARA QUE SERVIU A REPETÊNCIA NA SUA VIDA ESTUDANTIL? 3. COMO VOCÊ DEFINE A REPETÊNCI A? 4. O QUE VOCÊ COMPREENDE/ENTE NDE POR REPETÊNCIA? David Abdias, 38 anos, Coveiro. Na minha concepção é uma perca para o aluno. Porque ele vai fazer um ENEM ou um concurso de um nível mais alto, com mais tempo, já que perde um ano, você ta perdendo um ano ali de futuro. A questão de tempo de um concurso, o tempo para cursar uma faculdade. A repetência na minha vida serviu de, assim, como é que se diz, serviu pra me dá mais valor ao estudo, serviu pra eu pensar bastante que não era pra eu ter repetido de ano, era pra

eu ter batalhado para ter terminado cedo e hoje eu poderia estar num emprego bem melhor porque se eu tivesse terminado meus estudos cedo, eu tinha feito mais O que defino a repetência, é como eu disse na resposta anterior, é um tempo perdido a repetência é um tempo que você deveria ta aproveitand o mais estudando mais, mais atualizado em relação ao que você perdeu de tempo, repetindo de ano, todo ano

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