Moving the Cursor
4.6 Moving Directly to Any Point in Your Text File
Um outra concepção encontrada nas análises feitas a partir das entrevistas, veio da compreensão de David Abdias, 38 anos, coveiro no cemitério público da cidade de São Fernando/RN, casado, pai de dois filhos e estudante até o Ensino Médio. David expressa que a reprovação é um processo que provoca efeitos negativos e nocivos, podendo prejudicar a vida futura dos estudantes.
Para ele a repetência é um tempo que foi perdido, não sendo possível recuperar, por isso o estudante deveria se preocupar em estudar mais. Segundo as suas próprias palavras, a repetência “é um tempo perdido, a repetência é um tempo que você deveria está aproveitando mais, estudando mais, mais atualizado em relação ao que você perdeu de tempo, repetindo de ano”. David entende que a repetência é sinônimo de um tempo que precisa ser recuperado. Embora não pareça fácil para ele, já que o tempo foi perdido.
43 De fato, esta concepção circula socialmente. É Lacerda (2007, p. 4) quem mostra essa compreensão, ao criticar tal pensamento. Ele afirma que “a repetência não leva o aluno a uma aprendizagem melhor no ano seguinte(...), [a repetência] não é sinônimo de melhoria na aprendizagem e bom desempenho nos anos seguintes”. Assim sendo, a compreensão de David, de tempo perdido, tem procedência. Se o estudante não recupera a aprendizagem, ele pode repetir novamente, até desistir. Diz David:
No meu entendimento, a repetência é voltar atrás. É uma coisa, um tempo perdido você estuda, estuda, estuda e chega na metade do ano desisti, ou então você passa o ano todinho sem estudar, sem nada, aí você vai e repete a mesma série então é um tempo perdido pra mim.
Pelo que vemos, esta concepção está consolidado. Foi construído historicamente e é muito representativo do que Barros e Mendonça (1998, p. 11) dizem, ao se referir ao processo de repetência dos sujeitos escolares. Para esses autores “a repetência tem efeitos negativos sobre a autoestima e a motivação dos alunos”, podendo provocar o desinteresse pela continuidade dos estudos. De fato, David, não progrediu nos estudos, desistiu, como também os outros entrevistados, de tentar um curso superior.
Tanto é, que nesta fala de David, o estudante repetente só terá duas saídas: perder um ano (ou mais) ou então desistir de estudar. Uma dessas observações é mencionada por Ribeiro (1991), quando ele constata que a repetência é um dos fatores que provoca a evasão ou abandono dos estudantes em relação as escolas. Segundo ele, o aluno fica em uma faixa de idade elevada em relação à série em que ainda está cursando.
Por outro lado, fica demonstrado, e bem presente na fala de David, que a faixa de idade elevada do estudante repetente, também é um fator determinante para a não progressão nos estudos. Visto que, um dos efeitos, devido este tempo perdido, é o atraso do estudante para concluir os estudos. Para ele o estudante perde tempo porque
vai fazer um ENEM ou um concurso de um nível mais alto, com mais tempo [mais idade], já que perde um ano, você ta perdendo um ano ali de futuro.
44 Assim, a repetência traz consequências nocivas, o estudante fica prejudicado para fazer concursos ou adentrar em uma universidade, porque a idade pode estar bastante avançada, sendo um motivo para “desistência”. É o próprio David, em seguida, que diz: “a questão da minha idade, se eu não tivesse repetido tanto, ter (sic) terminado mais cedo, eu poderia ter feito mais concursos, ter um emprego melhor”.
De fato, esse pensamento procede e é mencionado por Oliveira (2016, p. 19-20) quando afirma que ao repetir,
pode gerar um desconforto na vida do mesmo [o estudante], possibilitando uma série de prejuízos(...),a repetência é geradora da distorção de idade-ano. Assim, o risco de um aluno abandonar os estudos se torna muito grande, pois se encontra em idade superior a idade adequada para o ano que cursa.
Esta compreensão é a mesma exposta por David. Além do mais, os sentimentos de fracasso/derrota, ao pensar no tempo que perdeu e as consequências futuras, estão bastantes presentes. Como podemos constatar em outra fala que atribui ao seu histórico de reprovação, um processo nocivo e negativo. Ele diz que a repetência “serviu pra isso, pra eu pensar no tempo que eu perdi, a um tempo atrás que eu perdi, não ter estudado pra terminar logo, né? Os estudos serviu (sic) só pra isso, pra eu pensar no que perdi”.
Assim, podemos afirmar, esse pensamento de David, que circula socialmente, foi construído e retirou da escola, do sistema de ensino, das políticas pensadas e, até mesmo, do professor, a ideia de que a repetência não é algo do indivíduo, mas de muitos. Pensar individualmente a questão da repetência fez muita gente acreditar nas suas incapacidades de progredir na escola e levou a muitas desistências. É essa a ideia posta por Lacerda (2007, p. 7) quando afirma que tal fenômeno gera sentimentos negativos ao estudante porque atinge
violentamente um dos pontos mais delicados do homem que é a sua auto-estima. Sendo o indivíduo taxado de incapacitado e deficiente para prosseguir os estudos, essa condição o leva a infelicidade, ao sentimento de inferioridade e ao desânimo.
45 Portanto, é fácil perceber porque David e Eulisvan carregam a concepção social de que a reprovação tem um único responsável por esse fenômeno da repetência: o próprio indivíduo. David não consegue reconhecer outras condicionantes que favoreceram a sua reprovação no sistema de ensino que está posto historicamente, consequentemente a sua repetência passou a ser um problema unicamente seu.
Assim também compreendeu Eulisvan e Alexsandro dos Santos, de 36 anos, Mototaxista e escolarizado até o Ensino Médio, quando pontuam que a repetência causa os sentimentos individuais da culpa, derrota, fracasso, desinteresse, conformismo e despreparo. Alessandro dos Santos atribui, no entanto, que a repetência, mesmo com esses sentimentos, pode ser algo positivo na vida estudantil, objeto a ser discutido no próximo subitem.
Portanto, temos mais uma concepção que surgiu das entrevistas e corresponde acerca da repetência. Vejamos.