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Setting the Right Margin

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Writing with KED

3.4 Setting the Right Margin

Atribuir à repetência a compreensão de um processo natural e individual, veio da concepção, do pensamento de Eulisvan da Silva Santos, um entrevistado de 37 anos de idade, com formação até o Ensino Médio, tratorista,

40 casado, pai de uma filha. Para ele, a repetência faz parte do processo escolar, então “é normal, isso aí é natural acontecer”. Eulisvan deixa evidente, na sua forma de entender a repetência, que não há muito o que se questionar uma vez que a repetência é um processo da natureza e normalidade escolar.

Reforçando esse sentido, é ele próprio quem diz que “quando uma determinada pessoa faz algo que não concluiu perfeitamente, ele tem que voltar para fazer de novo”, atribuindo que o objetivo da repetência para o aluno é aprender aquilo que não foi possível aprender no ano anterior. Ou seja, a repetência é necessária para a aprendizagem. De forma aproximada, Gil (2015, p. 9) apresenta que um dos entendimentos de repetência, atribui que é para

os alunos que não comprovem o domínio suficiente dos conteúdos ensinados em uma determinada série e, em alguns casos, ficando impedidos de seguir para a série subsequente, tendo que refazer a série anterior.

Assim, esse pensamento atribuído por Eulisvan já circula socialmente, não é algo inédito na sua forma de ver a repetência. Além do mais, para Eulisvan, a repetência não atrapalha a vida pessoal e profissional do indivíduo, pelo contrário, a reprovação pode ocorrer com vistas a ser um elemento motivador de mais estudo e aquisição de conhecimento. Nessa perspectiva, a repetição ocasionada pela reprovação, no campo do ensino-aprendizagem, não deveria desestimular o estudante, mas ser objeto de fortalecimento e amadurecimento para a continuidade dos estudos. Para expressar esse entendimento, Eulisvan disse que a repetência “deu foi mais força de vontade para [ele] continuar”.

É Ribeiro (1993) quem analisa, em um dos seus textos investigativos, essa forma de pensar. Para este autor, essa concepção expõe que a repetência induz, grande parte da população e também educadores, para a ideia de que o aluno se dedica mais aos estudos após repetir de anos.Tal pensamento está impregnado na nossa sociedade e “é difícil de ser substituída por outros tipos de motivação, de natureza positiva” (Idem, 1993, p. 72), no sentido de estabelecer pautas de avaliação continuada que contribua, ao invés da repetição, para que os próprios estudantes estabeleçam metas de aprendizagem.

41 Uma outra questão que esse pensamento oportuniza é que a aprendizagem e qualquer fracasso no campo da reprovação, tem caráter individual. Isso reforça uma concepção natural e normal da reprovação, Eulisvan deixa isso claro ao dizer que “ele não se dedicou naquele ano”, ou ainda que “cabe a ele, no ano seguinte, que for estudar novamente, o mesmo ano, ele se interessar mais para que não aconteça a mesma coisa”. Essa compreensão pode contribuir para encaminhar os docentes no sentido de não trabalhar o seu planejamento de forma a olhar com atenção para os estudantes que estão em sua turma e em situação de repetentes.

Eulisvan, e certamente outros no âmbito da sociedade, carrega consigo o sentimento de que a repetência fez parte de sua vida porque assim devia ser. O sentimento é de culpa, e causa desinteresse por causa do seu histórico de repetência. Pois, na visão dele, era para ter se interessado mais pelos estudos e a falta de interesse em aprender, foi o fator principal para repetir de ano. Para Eulisvan, o aluno repete por “falta de interesse, falta de boa vontade de fazer da maneira correta o que tem que ser feito, é por isso que a gente repete”. Euslivan quando se refere a repetência coloca como algo natural, mas na esfera do sujeito, a repetência é decisão individual.

Tal sentimento desconsidera outros fatores que contribuem para o aluno ficar desinteressado e, consequentemente, repetir de ano. Outras questões que favorecem a isso, é exemplificado por Silva (2012, p. 20) quando ela afirma que:

Estudos feitos sobre o tema revelam que muitos fatores contribuem para o desinteresse dos alunos: como número excessivo de alunos nas salas de aula, falta de recursos pedagógicos ou tecnológicos que despertem o interesse dos alunos ou quando estes existem não são utilizados de forma correta pelo professor, fatores internos do aluno como problemas emocionais ou psicológicos, a desestrutura familiar, as políticas de governo, o desemprego, a desnutrição, a dificuldade de absorção do conteúdo passado em sala de aula, conflitos com colegas, desentendimento com professores. Portanto, percebamos que são vários os fatores que contribuem para o estudante ficar desestimulado no processo de aprendizagem e não apenas as questões que envolvam unicamente “a falta de interesse do aluno”, citado por Eulisvan como a razão para o aluno repetir de ano.

42 Sendo assim, ele compreende a repetência como um processo natural, normal, mas também um sentimento causado pela desmotivação e culpa pela falta de estudo por parte do estudante. Eulisvan pode ter sido afetado por uma dessas razões supracitadas, fazendo com que ele chame unicamente para si a responsabilidade do seu histórico de repetência, gerando este sentimento de culpa, desconsiderando outras condicionantes que contribuam para tal fenômeno. O que gera essa compreensão de algo natural a quem não se dedica, não tem interesse.

Em síntese, percebe-se que a compreensão de repetência assumida por Eulisvan, é uma construção histórica e social sobre o papel da repetência na vida do estudante. É um discurso reforçado pela própria dinâmica e compreensão do que circula na escola, visto como algo necessário, positivo e eficiente para o funcionamento da aprendizagem. Ademais, é também, uma visão socialmente construída, quase em forma de mito, a ideia de que nem todos têm a capacidade para estudar, sendo o estudo um privilégio dos “mais inteligentes” (JACOMINI, 2010).

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