A população do alto sertão alagoano que se identifica e é identificada como sertaneja descende de famílias que para ali foram, a partir de fluxos migratórios e processos históricos diversos. Estas famílias elaboraram no decorrer do tempo algumas redes de sociabilidade com o objetivo de conviverem na mesma região. Seguindo a tendência mais comum da população brasileira, elas negaram na maioria das vezes, a presença indígena na área. Até mesmo para a manutenção do status quo, no qual participam em boa parte do tempo como sujeitos territorializados e melhor posicionados nas relações de poder econômico-sociais estabelecidas na região.
Do mesmo modo, parte da população que se identificava no tempo dos antepassados apenas como sertaneja, a fim de se preservar perante os municípios do entorno e manter alguns de seus sistemas culturais em constante uso, se re-classificou como indígena, no período denominado como tempo da luta. Tal processo ocorreu a partir da construção de uma linha de descendência – genealogicamente constituída - ligada ao aldeamento de Brejo dos Padres/Pe - orientada, pois, para os ancestrais -, e da prática e inserção num complexo ritual no qual a música exerce papel pivotal.
Num exercício de reflexão, quando estava deitado na rede numa tarde ensolarada do alto-sertão alagoano, me propus identificar as diferenças reais entres as duas populações acima citadas, a fim de entender melhor o contexto social da região, assim como suas redes sociais estabelecidas e as identidades elaboradas. No dia seguinte comecei a inserir tais questionamentos indiretamente nas conversas com os moradores da cidade de Água Branca, a fim de não dirigir as respostas.
O professor Clovis92 me disse que tem parentes Geripankó, o que lhe garante certo acesso à área - mas afirmou que não gosta da música indígena. O jovem professor de História, Gilberto, que se mudou para Maceió há alguns anos, me disse que tem parentes Kalankó. Ele não sabe bem de que parte da família e assim como Clóvis não tem muito apreço pelo toré.
Outras ocasiões serviram para aprofundar a pesquisa. Num almoço93, na casa da diretora escolar municipal, Vera, Rita e sua irmã, nascidas na região e identificadas como não-índias, me lembraram que descendem de indígenas de Águas Belas/Pe - mas não sabem muito sobre a cultura de seus ancestrais. Em outra situação, no bar da Marciana, localizado na praça central do município de Água Branca e interessante ponto de encontro para a população local, Lili, jovem aguabranquense que trabalha no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, me disse que passaria o próximo final de semana na casa de seu Elias, pajé Geripankó. Ela tinha como objetivo descansar um pouco, já que sua mãe descendia destas famílias.
Lá, no mesmo bar da Marciana (passei um bom tempo lá), Celina, irmã de Lili e presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais, me confirmou que sua mãe, Maria do Carmo dos Santos Santana, era índia, mas afastou-se da comunidade por um tempo. Ela retornou, posteriormente, por determinado período, para resolver problemas espirituais, o que fez com que alguns de seus filhos ainda mantivessem contato com tais índios. Celina e sua irmã, porém, não sabem dançar e cantar qualquer música nativa.
Vários outros exemplos de relação familiar entre as duas populações começaram a surgir. Na festa de emancipação do município de Água Branca, Maria Salete, dona de
92 Clóvis é professor de inglês no município de Água Branca e me recebia em sua casa quando eu necessitava
passar uns dias na cidade.
casa e agricultora do município, me contou que tem parentes em todas as aldeias da região, já que sua família, por parte de mãe, descende dos índios sertanejos.
No intuito de aprofundar-me na questão e aproveitando o excelente acesso que tive nos diversos espaços de interlocução social na cidade, especialmente aos ligados às escolas da área, pedi a lista dos estudantes. Com isso, tentava estabelecer mais relações entre famílias indígenas e famílias aguabranquenses. Qual não foi minha surpresa quando percebi que estas relações eram muitas.
Conforme já colocado, as famílias Kalankó dividem-se entre os Santos, Silva, Gomes, Conceição, Reis, Higino e algumas variações, como Santos Silva, Conceição Silva, Conceição Santos e Gomes Silva (ver item 3.2.). Na Escola Estadual Domingos Moeda, de um universo de 384 alunos divididos entre a 6ª, 7ª e 8ª séries do ensino fundamental, identifiquei 108 alunos da família Santos, 97 da Silva, 5 da Gomes, 8 da Conceição, 4 da Reis, 16 da Santos Silva, 2 da Conceição Santos, 5 da Gomes Santos, 2 da Conceição Santos, 1 da Conceição Silva e 1 da Gomes Silva. Isto perfaz um total de 249 alunos de famílias que provavelmente descendem das mesmas famílias Kalankó, ou 64,84% dos alunos pesquisados.
No Colégio Monsenhor Sebastião, o panorama é o mesmo. Dos 211 alunos pesquisados, do 2ª e 3ª anos do ensino médio, identifiquei 52 Santos, 53 Silva, 1 Gomes Silva, 7 Gomes, 8 Conceição, 2 Conceição Silva, 10 Silva Santos, 1 Conceição Santos, 2 Gomes Santos e 3 Conceição Gomes. O que dá um total de 139 alunos com provável grau de parentesco com as famílias Kalankó, ou 65,87% do universo pesquisado.
Apesar de serem nomes comuns em praticamente todo o território brasileiro, acredito, baseado na grande expressão numérica e na análise focada numa região bem específica, que tais números confirmam a tendência dos indivíduos - classificados como índios e não-
índios - descenderem das mesmas famílias. Assim, algumas semanas depois, relaxando novamente na rede, comecei a refletir sobre o resultado desta atividade. Tornara-se claro que boa parte das famílias aguabranquenses que tinham migrado para a região faziam parte das mesmas famílias indígenas aldeadas e abandonadas no século XIX. A única diferença era a assunção de um sistema músico-ritual específico, uma idioma nativa, responsável por diferenciar o índio do não-índio, construindo novas identidades no alto- sertão alagoano e estabelecendo outras redes de relacionamento social.
Imaginei, então, que esta descendência comum e a baixa contrastividade cultural da região (OLIVEIRA, 1998: 47-77) poderia ser tomada como um dado positivo para investigar a relação entre as duas populações. Se ambas empiricamente descendem das mesmas famílias e o índio é aceito como tal por praticar uma cultura músico-ritual específica, é possível que, se o toré se tornar uma música difundida por toda a região, poderá colaborar para a re-classificação de todos – ou grande parte dos - sertanejos como indígenas. Tudo faz parecer, portanto, que no nordeste brasileiro a oposição entre índio e não-índio tem valia fundamental tipicamente no plano jurídico-político, limitando o direito a terra à maioria das comunidades da região. Desta maneira, ao invés de classificar os nordestinos em índios e não-índios, poderíamos, antes, desnaturalizar esta classificação e pensar que eles têm tanto do indígena quanto do sertanejo, ou que todos eles – ou a grande maioria deles – devirão índios (MENEZES BASTOS, 2002).
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