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Depois de exploratoriamente investigar a elaboração de uma história Kalankó e a prática de um complexo ritual, no qual a música é o pivô que liga a mito-cosmologia aos discursos no/do corpo; após descrever preliminarmente a teoria musical nativa que está na base do referido complexo e da citada história; intento agora brevemente entender quais são as relações e os significados articulados no complexo ritual que expressam a idéia de indianidade. Nesta direção, vale reter que os ritos Kalankó caracterizam-se como rituais musicais, similares aos de muitos outros grupos das TBAS (MENEZES BASTOS, 1989, 2001). Recordo que Basso (1985) identifica os ritos Kalapálo como musicais (: 246), na medida em que “a natureza especificamente musical da performance é o meio simbólico a partir do qual a comunicação é fabricada” (: 253).

6.1. O Complexo da Jurema.

A cultura indígena é a cultura viva, nativa do mato, porque os antepassado, quando os branco chegaram, encontraram os índio foi na mata, não foi em casa, foi no mato ... as oca ... era de palha de capim ... não era casa de alvenaria ... nem estrada tinha pra anda, era vareta ... pra caça, pesca ... os antepassado buscava nas mata, caçava fruta, buscava mel pra come com caça ... hoje, a gente se sente e conhece que a parte da gente busca o suco do umbu é uma parte nativa, dos antepassado, o mel a mesma coisa ... o ritual é parte dos antepassado ... continua no ritual vivo nativo da terra87

No começo da minha terceira viagem, devido ao forte calor noturno, fui dormir alguns dias na oca central de Lageiro do Couro. Numa destas ocasiões, o cacique Paulo também estava lá. Como fazia tempo que não nos falávamos, passamos boa parte da madrugada conversando sobre a vida no sul do país e na caatinga alagoana. O depoimento

apresentado acima foi feito por Paulo no meio de nossa conversa, e me fez pensar sobre o que é ser índio no alto-sertão alagoano. E o que é ser ou estar vivo para ele?

De acordo com o filosofar de Paulo, os Kalankó acreditam que ser índio é ser do

mato, o qual é considerado vivo. Ser índio é, portanto, estar vivo. O que aponta para uma

relação mato / vivo, em oposição a tudo que não é do mato e, portanto, é não vivo. Percebi, então, que estas idéias são ordenadas e praticadas no complexo ritual musical, o que ocorre a partir da articulação de determinados elementos, que são classificados como

vivos, através da qual se elabora um ciclo que vai da Jurema88(madeira viva) aos encantos, entidades que vivem no mato, e por isso, são vivas. Isto indica uma relação Jurema / Encantado e aponta para o Complexo Ritual da Jurema89, bastante trabalhado na literatura sobre o alto sertão nordestino (REESINK, 2000; MOTA & ALBUQUERQUE, 2002), complexo este no/do qual os Kalankó, que aparentemente não estavam inseridos, se mostram praticantes, de uma maneira própria, conforme adiante trabalharei.

O Complexo da Jurema, segundo Mota e Barros (1990), é uma evidência da mistura afro-indígena que existe no território brasileiro, e compreende não só o uso do elemento chamado Jurema, mas todo o universo de representações e concepções que existem em volta dela, a partir do que se elabora uma identidade indígena (MOTA, 2005). Ser índio, assim, no nordeste brasileiro, está ligado à posse de uma história em comum, e especificamente à prática de um amplo universo de rituais musicais, inserido num complexo ritual maior, denominado Complexo da Jurema, através do qual os Kalankó têm contato com alguns símbolos e significados articulados e relevantes para o grupo, e que

88 O termo jurema designa na fitoterapia tradicional brasileira diferentes espécies dos gêneros Mimosa, Acácia

e Pithecelobium, entre outras; e ganha, na sinonímia popular, diferentes sobrenomes de adjetivações, como :

Jurema Mirim ; Jurema Preta ; Jurema de Caboclo ; Jurema Branca e Jurema Roxa.

devem ser, ainda, situados e interpretados para se tornarem conhecimento Kalankó.

6.2. Sistema vivo – o ciclo do Jurema entre os Kalankó.

A prática do Complexo da Jurema entre os Kalankó torna-se clara ao se reunir o universo dos elementos rituais por eles classificados como vivos. Estes elementos pertencem, para os Kalankó, à tradição do índio e, por isso, representam sua identidade. Para ser classificado como vivo, muitos destes elementos devem receber o sinal da cruz, ou seja, devem ser encruzados. Os elementos classificados como não-vivos não são reconhecidos como tradicionais e, portanto, não têm tanto efeito nos rituais e no dia-a-dia. Os elementos vivo muitas vezes são relacionados com a natureza, como o mel, as ervas medicinais, as frutas, as raspas de árvores e os encantados. O primeiro elemento deste sistema ritual é uma árvore: a jurema. Ela é comum na área, é considerada viva e com sua madeira faz-se o campiô, além de se preparar banhos medicinais. Os Kalankó, porém, não a usam em bebidas, como acontece com outros povos da região. Ajucá, que aponta para o ritual de cura Kalankó, é outra denominação para a jurema.

Os Kalankó detêm ainda, um grande conhecimento sobre as propriedades medicinais de outros elementos naturais, entre os quais, a imburana de cheiro, usada como aditivo ao tabaco, podendo também servir tanto como remédio para dor de barriga e tosse, quanto para banho de limpeza. Usam também a raiz do alecrim de vaqueiro e a semente da melancia, como remédios contra a febre, e a vassourinha de botão, contra dor de barriga. Outros elementos são, ainda, utilizados para banho medicinal e remédio do mato: flor da catingueira, andu branco, a raiz do poi, cabeça de frade, maracujá de estrada e ameixeira.

Outros elementos que integram este universo provêm da cultura material. Entre os mais importantes está o cachimbo ou campiô (também chamado de poi ou coaqui). O

campiô pode ser feito da madeira da jurema, quando é considerado vivo, ou a partir do barro queimado (não-vivo). Ele é usado para a defumação dos outros elementos e deve ser fumado cotidianamente (para isso, desenha-se uma cruz na testa de quem for usá-lo). O fumo é misturado, principalmente, com a imburana de cheiro e com o alecrim90.

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