3.1. O pentecostalismo
Sendo necessário fazer um recorte no campo religioso para pesquisar a migração inter-religiosa, optamos pelo sub-campo pentecostal, o qual tem sido alvo de muitos estudos e discussões, em razão de seu crescimento rápido e de sua visibilidade social. A razão primeira para a escolha do pentecostalismo foi a observação e experiência pessoais. Conhecemos grupos religiosos vários e temos participado ativamente da vida eclesiástica e eclesial, no contexto do protestantismo histórico. Nessa vivência pessoal dentro de instituições e comunidades religiosas, percebemos, de modo informal e assistemático, a mobilidade dos fiéis e sua intensificação nos últimos anos. Pessoas deixavam sua igreja por terem descoberto e optado por outra. Na maior parte dos casos, uma igreja pentecostal ou neopentecostal estava envolvida nesse processo.
Além desse motivo primário, a escolha do pentecostalismo foi motivada também, posteriormente, pela suspeita de que as igrejas pentecostais teriam uma estrutura organizacional que facilitaria a pesquisa, mais do que nas igrejas neopentecostais. Encontramos muitas vezes fiéis pentecostais pertencentes à Igreja Assembléia de Deus que mostravam, com certo orgulho, sua “carteirinha de membro”, onde se viam a foto e informações pessoais do portador, além da assinatura do pastor e do carimbo da igreja, o que indica um registro e controle de adesões e de participação dos membros por parte das igrejas pentecostais em questão. (Soubemos que, em alguns casos, tal carteirinha deveria ser renovada todo ano). Assim sendo, imaginamos que seria mais fácil pesquisar a migração inter-religiosa em igrejas pentecostais, onde haveria um controle de filiação.
O pentecostalismo também representa uma forma de religiosidade intermediária entre o protestantismo histórico e o neopentecostalismo, pelo que, como foi discutido no capítulo II, o estudo da migração inter-religiosa no pentecostalismo pode localizar-se numa posição estratégica entre as formas religiosas mais representativas da primeira modernidade e aquelas que representam a ultra- modernidade.
Tivemos contato com a pesquisa de Elias Brito Júnior (1996), cujo objetivo foi investigar o trânsito religioso que vai das igrejas históricas (as citadas pelo autor
são: Batistas, Metodistas, Presbiterianas, Assembléias de Deus, entre outras) para as igrejas novas, ou “mais recentes”, como ele chama (p. 12), referindo-se às Igrejas Batistas Renovadas, Igreja Sara Nossa Terra, Comunidade Evangélica, Igreja Cristã Maranatha e Comunidade Núcleo da Fé, entre outras. Então, a seguinte suspeita ficou no ar: se a pessoa que troca uma igreja histórica por uma igreja pentecostal o faz porque o modelo religioso oferecido na igreja histórica não o satisfaz mais, enquanto que o modelo religioso pentecostal preenche suas expectativas e atende às suas necessidades espirituais, então poderia se supor que ele, o sujeito religioso, iria permanecer na segunda igreja. Não haveria mais trocas ou migrações. Se, porém, ele continua trocando, migrando, transitando, então as razões devem ser outras, diferentes daquelas que se apóiam na simples diferenciação entre o modelo protestante histórico e o modelo pentecostal. A escolha do sub-campo pentecostal, portanto, visava investigar a existência de uma inter- migração nos limites do pentecostalismo e as razões ou motivos para sua ocorrência.
Esta pesquisa tornou-se ainda mais interessante quando verificamos a escassez de trabalhos sobre o assunto e, mais ainda, a emissão de sugestões paradoxais por parte de estudiosos da sociologia da religião, como nos textos que transcrevemos abaixo:
“O que ocorre, provavelmente (a título ainda de hipótese), é que a ‘fixação’ dá-se muito mais nos grupos religiosos pentecostais (menos na umbanda e na cura divina, que tem características de religião de clientela). O pentecostalismo (...) não tolera qualquer tipo de ‘compromisso’ e assim é totalmente ‘impermeável’ a qualquer sincretismo (no sentido de clientelismo religioso simultâneo” (Benedetti, 1994, p. 23)
“Além da freqüência simultânea a atividades em igrejas de diferentes denominações, observou-se entre os pentecostais enorme trânsito com afiliações ou com participações sucessivas em igrejas pentecostais diferentes” (Mariz e Machado, 1994, p. 29).
A hipótese de Benedetti é a de que no pentecostalismo há muito menor migração inter-religiosa e mais “fixação”, enquanto que Mariz e Machado constataram em pesquisa de campo um “enorme trânsito”, entre os pentecostais, o que as levou a indagar se a migração inter-religiosa seria uma “prática específica do pentecostalismo, ou se seria típica das denominações surgidas no Brasil (...) ou ainda se estaria relacionada com alguma outra especificidade do pentecostalismo propriamente dito” (1994, p. 30).
Tais confrontos, debates e indagações aguçaram nossa motivação para realizar esta pesquisa no campo pentecostal, com a humilde intenção de oferecer alguns subsídios que contribuam para a compreensão do fenômeno da migração entre igrejas pentecostais.
3.2. O município de São Bernardo do Campo
A escolha do município de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, foi motivada pela razão de nele estar localizada a Universidade Metodista onde estamos desenvolvendo nossos estudos e onde já existe um grupo de estudos sobre o trânsito religioso, o qual tem desenvolvido algumas pesquisas de campo no entorno social da Universidade. Dessa forma, nossa pesquisa poderia aproveitar elementos de pesquisa e estudos já feitos e também contribuir para o avanço das pesquisas neste campo geográfico.
São Bernardo do Campo é um município cujo crescimento populacional teve um crescimento extraordinário nas décadas de 50 a 80 do século passado. De 1950 a 1960, a população passou de 29.295 habitantes para 82.411, o que significa um crescimento percentual de 181,31% em apenas 10 anos. Na década seguinte, de 1960 a 1970, o crescimento continuou, chegando a 201.662 habitantes, representando assim um crescimento de 144,7%. De 1970 a 1980, a população passou para 425.602 habitantes, ou seja, um crescimento de 111,04%. Observa-se, por esses números, que o percentual de crescimento populacional diminui, o que continuou acontecendo nos anos seguintes. Em 1991, a população era de 566.893; em 1996, de 660.396; em 2000, era de 703.177; em 2001, de 717.792 e em 2002, a população chegou a 731.854. Observe na tabela 06 esses números:
TABELA 06: CRESCIMENTO POPULACIONAL DE SBC
Ano População 1950 29.295 1960 82.411 1970 201.662 1980 425.602 1991 566.893
1996 660.396 2000 703.177 2001 717.792 2002 731.894
Seguindo a tendência de todos os municípios da Grande São Paulo, São Bernardo do Campo teve redução da taxa anual de crescimento populacional. Veja na tabela 07:
TABELA 07: ÍNDICES DE CRESCIMENTO POPULACIONAL DE SBC
Década % anual 70 a 80 7,76 80 a 91 2,63 91 a 2000 2,42
Embora São Bernardo do Campo tenha experimentado uma forte redução na taxa de crescimento populacional, como se viu nas tabelas 06 e 07, sempre teve os índices mais altos, se comparados com os índices gerais, conforme tabela 08:
TABELA 08: CRESCIMENTO POPULACIONAL DE SBC COMPARADO
70 - 80 80 - 91 91 – 2000 Brasil 2,48 1,93 1,64 Estado de São Paulo 3,49 2,12 1,78 Grande S. Paulo 4,46 1,86 1,64 Grande ABC49 5,27 1,96 1,96
São Bernardo do Campo 7,76 2,64 2,42
Nossa hipótese é que esse crescimento populacional de S. Bernardo do Campo possa ser explicado pela instalação de um número crescente de indústrias de médio e grande porte na região e, mais recentemente, de universidades, que atraíram pessoas de várias partes do País e do Estado, em busca de emprego e/ou de formação
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A Grande ABC é a designação comumente dada à região composta pelos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul e que fazem parte da Grande S. Paulo.
superior. Em nossa pesquisa, constatamos um alto índice de migrantes nas igrejas pesquisadas, conforme demonstramos no cap. II.
Na tabela 09, mostramos a procedência, por Estado, por nós pesquisados:
TABELA 09: PROCEDÊNCIA DOS PESQUISADOS POR ESTADOS
Goiás 1
Rio Grande do Norte 1
Rondônia 1 Sergipe 1 Maranhão 2 Espírito Santo 2 Rio de Janeiro 2 Paraíba 3
Mato Grosso do Sul 4
Piauí 6 Ceará 7 Alagoas 8 Paraná 10 Bahia 19 Pernambuco 20
São Paulo (exceto SBC) 20 Minas Gerais 37
Total 144
Esses números revelam que 44,17% dos pesquisados não são naturais de S. Bernardo do Campo. Vieram de outros lugares, deixaram suas terras, suas cidades, seus ambientes de vida, para estabelecerem-se nesta região. Os dados estatísticos fornecidos pela Seção de Pesquisa e Banco de Dados da Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo, com base em censos demográficos da FIBGE confirmam a grande participação do movimento migratório no seu crescimento populacional, no
período de 1950 a 1980, invertendo-se essa participação de modo rápido, a partir da década de 80, conforme tabela 10:
TABELA 10: CRESCIMENTO VEGETATIVO E MIGRATÓRIO DE SBC
Ano Taxa cresc. anual % Vegetativo Migratório 1950-1960 10,74 30,73 69,27 1960-1970 9,52 29,28 70,72 1970-1980 7,76 38,69 61,31 1980-1991 2,64 83,20 16,80 1991-2000 2,42 62,71 37,29
Verificamos pelos dados acima que o fenômeno verificado parcialmente no pentecostalismo reflete um fluxo migratório existente em geral para essa região. De qualquer maneira, esses dados levantados revelam uma relação entre migração social e pentecostalismo que é bastante sugestiva para a compreensão de seu papel social.