I PROCESSOR INTERRUPT FIELDING
UNIBUS SIGNAL DETAILS
Muitas pessoas buscam informação através da televisão. Outras usam o aparato como forma de se desligar do cotidiano, como se baseia W. Russell Neuman (1991), ao dizer que o telespectador tem preguiça de pensar sobre o que a televisão mostra. Assim, a “síndrome do menor esforço” faz com que o telespectador reflita apenas de forma básica, ouvindo a informação transmitida. Para Neuman (1991, p.103),
A principal descoberta das pesquisas sobre os efeitos educacionais e publicitários, que devem ser tratadas imparcialmente se quisermos entender a natureza da aprendizagem insignificante em relação à política e à cultura, é simplesmente que as pessoas são atraídas para o caminho de menor resistência.
No entanto, esse pensamento já era rebatido por McLuhan (1964), uma vez que para o pesquisador, existe um preenchimento da informação recebida com o próprio imaginário do telespectador. Dessa forma, ele se envolve e participa, mesmo que indiretamente, daquilo que está ouvindo e/ou vendo. No Brasil esse fenômeno é ainda mais intenso. Segundo Borelli e Priolli (2000, p.158), a televisão se tornou o “epicentro cultural da nossa sociedade”. Até os dias atuais a cultura popular e a informação são difundidas massivamente no país através da televisão.
A TV aberta estabeleceu o hábito de reunir toda a família para assistir a programas, principalmente no horário nobre, quando seus membros já estavam em casa. Com isso, as gerações foram se formando, no caso brasileiro, assistindo às novelas e aos telejornais noturnos, em especial os que eram apresentados entre as duas novelas, como o Jornal Nacional (BORELLI e PRIOLLI, 2000, p.157).
Contudo, é perceptível que, graças ao poder aquisitivo das classes mais elevadas, pode ser mais trabalhoso unir os familiares frente a televisão, uma vez que, pode haver mais que um aparelho televisor na residência. Esse fato normalmente gera mais autonomia para que o indivíduo tenha poder de escolha sobre o que quer assistir. Sobre esse ponto, Borelli e Piolli (2000, p.114) dizem que:
Uma pesquisa realizada pela Datafolha mostrava que, em 1994, 27% das crianças paulistanas não gostavam de assistir telejornais com seus
pais, sendo o mais rejeitado o Jornal Nacional, um dos pilares do horário nobre da Rede globo. A pesquisa confirma ainda uma tendência, já observada pelo mesmo instituto, em 1991, de que a maioria das crianças paulistanas, 68%, escolhia o que assistir na TV, índice que cresce sempre com a classe socioeconômica, em que a educação é mais liberal mas, principalmente, em que se pode dispor de mais de um aparelho de TV.
Como visto na figura 2, a televisão é um veículo de comunicação muito utilizado no Brasil. E dentro da programação, o que se destaca é o telejornal, pois é através dele que, utilizando o televisor, as pessoas ficam sabendo de informações que podem ser relevantes ao seu cotidiano. Dessa maneira, a televisão leva vantagem sobre os veículos de rádio e os impresso, também, pelo fato de unir imagem e som em um único canal (CASTELLS, 1998).
Analisando a informação que parte da televisão, notamos que as imagens causam impactos e demostram veracidade dessas informações, enquanto que o som traz conteúdo que complementa essas imagens. Assim, a união desses dois recursos gera força à notícia e, consequentemente, credibilidade, tendo em vista que, o telespectador além de ouvir a informação, vê as imagens que comprovam o fato (BACCEGA, 2003). Todavia, o telejornal é composto de diversos recursos como blocos, notas, ao vivo, dentre outros que ajudam a quebrar a sequência do programa noticioso. Para Mazziotti (2002, p.204):
O discurso televisivo caracteriza-se pela fragmentação e continuidade. Exemplos de fragmentação seria a divisão em blocos dos programas. São interrompidos para a inserção de publicidade, um “flash” informativo, anúncios de outros programas. Os próprios programas estão divididos em capítulos, episódios, apresentações.
Esses recursos, que propiciam a fragmentação e a continuidade no telejornal, devem primeiramente levar em conta o público a que o programa se destina, pois esse, muitas vezes, pode ser segmentado. Por conta disso, Martín-Barbero acredita que a utilização desses recursos no telejornal,
[...] refere-se a uma programação que represente a pluralidade de opiniões, ou que permita que grupos diferentes tenham visibilidade e se manifestem na televisão. Os variados domínios culturais expressam-se na diversidade de estéticas, diversidade de percepções, de preferências por cores, por tonalidades, por ritmos e movimentos de câmera, que devem estar presentes (BARBERO, 2002, p.214).
Assim, os editores dos telejornais escolhem qual enfoque deve ser dado à matéria. Essa escolha tem por base o público alvo do telejornal. Dessa forma, é possível analisar também, a influência sofrida pelo público por conta do horário de transmissão do telejornal. Contudo, há exceções, como é o caso do ‘horário nobre’ na televisão, que compreende o horário entre as 19 e às 22 horas. Nesse intervalo de tempo há um grande número de telespectadores e, por conta disso, não é possível categorizar com precisão o público do telejornal. Porém, fora do horário nobre, essa caracterização fica mais evidente, como dizem Bistane e Bacellar:
As pesquisas e o bom senso indicam que aposentados e donas de casa ficam a maior parte do tempo em casa. E também a maioria dos adolescentes, mesmo os que trabalham, costumam almoçar com a família. Sendo assim, mães, filhos e avós são uma parte significativa da audiência dos telejornais que vão ao ar do meio-dia às duas da tarde, o que justifica reportagens sobre o comportamento dos jovens, quadros fixos sobre bandas musicais, novas tribos, matérias sobre economia doméstica, saúde, aposentadoria (BISTANE e BACELLAR, 2005, p.44).
Essa caracterização do telespectador é que dá base ao editor para tomar decisões sobre os assuntos da pauta do telejornal, bem como o enfoque que deverá ser dado a cada matéria. Para tanto, o gatekeeper9, como é conhecido o profissional da
comunicação responsável por ‘abrir ou fechar o portão’ para informações, é o responsável por escolher as informações que deverão ser transmitidas ao público. Este profissional aceita ou rejeita notícias de acordo com seu julgamento, que tem por base a política editorial do veículo.
Essa maneira de filtrar a informação tem início já na produção da pauta, contudo, esse modelo dificulta um maior entendimento sobre o telespectador, pois esse pode assistir o noticiário por que tem interesse na informação e no bom enfoque dados às notícias transmitidas ou apenas as contempla sem nenhum compromisso ou interesse. Assiste apenas por que está sendo transmitido.
Outro ponto relevante a ser analisado são as notícias de cunho nacional e as locais. Para Bistane e Bacellar (2005, p.43), “se o problema é local não trará transtornos nem despertará o interesse de moradores de outras cidades”. Desse modo, um telejornal
9 O termo gatekeeper surgiu na década de 1950, nos Estados Unidos e representa aquele que abre ou
que possui rede nacional não visa noticiar fatos regionais, a menos que o fato traga enorme repercussão.
No entanto, não podemos negar que a televisão brasileira teve sucesso graças ao seu sistema de rede, que trouxe diversos benefícios, especialmente técnicos, aos programas. Utilizando como exemplo a Rede Globo de Televisão, essa qualidade técnica supracitada gerou um vasto domínio do mercado nacional à emissora. Para Guilherme Jorge de Rezende (2000, p.118):
[...] Por questões financeiras e mercadológicas, os concessionários de canais de TV se viram forçados a abandonar suas produções locais e transformaram suas emissoras, praticamente sem exceção, em meras estações retransmissoras da programação realizada invariavelmente no Rio de Janeiro e São Paulo.
E por conta disso foi instalada no Brasil uma visão noticiosa da região sudeste,
especialmente as cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Retomando a questão da notícia, outro fenômeno a ser pensado é que, mesmo antes de a notícia chegar à televisão, ela sofre várias transformações decorrentes do enfoque, da edição, da ordem que será apresentada no telejornal, do fato inesperado que pode virar uma nota, dentre outros. Dessa maneira, antes e durante a apresentação do telejornal, diversas decisões são tomadas para garantir que o telespectador seja bem informado, mas, seguindo a linha editorial do programa. Nas palavras de Pereira e Miranda,
parece ser importante dar ao telespectador que volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho, um panorama breve do que aconteceu de mais significativo naquele dia [...] Este resultado é obtido transmitindo-se somente mini flashes das notícias selecionadas que para serem transmitidas devem obedecer a rigorosos critérios de clareza, rapidez e possibilidade de fácil absorção, de modo que se dê ao telespectador a ilusão de que foi “bem informado” (PEREIRA e MIRANDA, 1983, p.125).
Por conta disso, não é espantoso pensar que o telespectador possui uma leve noção de estar sendo informado dos acontecimentos do dia, e não apenas de uma pequena parcela desses acontecimentos. Todavia, o telespectador recebe apenas informações básicas sobre os acontecimentos que sucederam em determinada data.