Em 1959, Charles Lindblom, analisando a forma como os administradores públicos americanos formulavam suas decisões acerca das políticas de governo, cunhou um conceito que ficou conhecido como Incrementalismo. Lindblom argumentou, no que foi chamado posteriormente de Incrementalismo Desarticulado (LINDBLOM, apud MINTZBERG et al.,2000) que os tomadores de decisão, na verdade, não têm claros os valores e objetivos da organização, mas escolhem de forma aparentemente fragmentada e confusa entre opções conjugadas de valores, objetivos e diferentes caminhos, incorporando aspectos de poder e experimentação na decisão. O Incrementalismo assume que a seleção de valores e a análise empírica não se realizam distintamente no tempo e sem influência mútua. Ao contrário, valores e políticas são escolhidos simultaneamente, num processo marcado pela interdependência. Além disso, outra característica do modelo incremental seria a elevada capacidade de aprimoramento e adaptação. Operando através de um processo de ajustamento mútuo, as políticas seriam mais sensíveis aos diversos grupos de interesse envolvidos e mais adequadas do que processos de negociação, eminentemente políticos.
Posteriormente, James Brian Quinn, baseando-se nas ideias de Lindblom, defendeu que os tomadores de decisão não atuam de forma desarticulada, porém concebem as estratégias organizacionais incrementalmente dentro de uma lógica que “une as partes”, a que chamou de Incrementalismo Lógico (QUINN, 1978). Suas ideias partiam do pressuposto de que os eventos externos que afetam as decisões organizacionais não podem ser previstos ou antecipados pela empresa, de forma que uma análise apurada de todas as variáveis que influem na concepção das alternativas possíveis carece de tempo, recursos ou informações adequadas para fazê-lo. Assim, uma das formas que os executivos se valem para agir ante tais situações é a incremental. Isto demanda que os procedimentos organizacionais devam ser flexíveis e resultados de experiências, vindo dos conceitos amplos para os específicos. O Incrementalismo Lógico, desta forma, parte do princípio de que é impossível um executivo orquestrar todas as decisões internas, eventos do ambiente externo, relações de poder, necessidades técnicas e as necessidades de formação. Assim, na avaliação de Quinn (1978), o Incrementalismo Lógico seria uma combinação entre o planejamento racional e a aceitação da existência das estratégias emergentes. Na sua visão, as estratégias mais eficazes tenderiam a emergir de uma série de “subsistemas estratégicos”, cada qual atacando uma classe específica de questões estratégicas (por exemplo, aquisições, diversificações ou grandes reorganizações)
de uma forma disciplinada, mas que seriam combinadas incremental e oportunamente dentro de um padrão coeso que acabaria se tornando a estratégia da empresa.
Na concepção do Incrementalismo Lógico, um executivo hábil poderia dispor de certo poder que lhe possibilitaria controlar o processo de decisão estratégica e, com isso, influir significativamente, de maneira indireta e informal, sobre uma estratégia global da organização. Por essa razão, muitos executivos postergariam decisões, deixando-as temporariamente indefinidas, a fim de buscar a participação de membros da organização que atuariam em outras esferas hierárquicas ou para obter informações mais qualificadas de especialistas. Gradualmente, os executivos envolvidos na decisão buscariam comprometer os envolvidos com as escolhas realizadas, minimizando questões ligadas às relações de poder que poderiam estar envolvidas.
Por conta disso, segundo Quinn (1978), as decisões estratégicas concebidas dentro da visão do Incrementalismo Lógico se desenvolveriam dentro do seguinte funcionamento:
− A construção conceitual da estratégia se efetuaria através de vários subsistemas organizacionais que reunissem as pessoas em torno de um problema de importância estratégica, mas que não representaria toda a estratégia, gerando aprendizado organizacional; tais ideias estão presentes na formação da chamada escola de aprendizado de estratégia (MINTZBERG et al., 2000, p. 134);
− Cada subsistema teria um processo específico de desenvolvimento de sua estratégia, tanto através de análises racionalmente sistemáticas, quanto através de coalizões de poder, mas cada um com sua própria lógica de construção, de modo que os subsistemas agissem de forma concomitante, porém não cruzada;
− A estratégia organizacional, através das interações dos subsistemas, se desenharia de maneira tanto lógica (dentro de cada subsistema) quanto incremental (na interação entre os subsistemas);
− Neste ínterim, a equipe dirigente da organização, liderada pelo executivo principal, procuraria desenvolver e manter uma lógica consistente entre as decisões tomadas em cada subsistema, de modo que fossem devidamente gerenciadas de forma orientada, eficaz e pró-ativa, para melhorar e integrar os aspectos analíticos e comportamentais envolvidos na formulação da estratégia (Quinn, 1978).
Na visão de Eisenhardt e Zbaracki (1992), os conceitos envolvidos no Incrementalismo Lógico estariam dentro de uma abordagem política do processo decisório
estratégico, considerando a forma como os executivos constroem suas bases de poder para acelerar ou retardar a implementação de estratégias de maneira gradual e oportunista. No entanto, Quinn (1978) salienta que o Incrementalismo Lógico buscaria combinar a abordagem racional e a abordagem político-comportamental, em uma concepção complexa do processo decisório. Quinn (1978) argumentou que o Incrementalismo Lógico não é “confuso”, como inicialmente atribuiu Lindblom (1959), mas dotado de consciência, propósito, pró-atividade e gestão. Sob este viés, o papel do executivo seria o de atuar como integrador e administrador da ambiguidade, reconhecendo seu poder e conduzindo-o a novas direções.
As principais características da Abordagem do Incrementalismo Lógico ao processo decisório estratégico estão elencadas no Quadro 13.
Características da Abordagem Incremental de Decisão Estratégica
− O processo de escolha de alternativas é instintivo, construído com base na aprendizagem e experimentação;
− O problema a ser analisado não é plenamente claro;
− A geração de alternativas ocorre à medida que os objetivos vão sendo esclarecidos para todos;
− Busca-se a criação de um ambiente estável visando a troca de conhecimento;
− As decisões são tomadas no âmbito dos subsistemas organizacionais, de forma a serem implantadas incrementalmente no nível global; − A implantação das soluções é feita através da barganha, através da
construção do entendimento e do comprometimento;
− A direção do poder é compartilhada, sendo seu sentido de cima para baixo e vice-versa. Fontes: QUINN, 1978; SIMON, 1987; LYLES e THOMAS, 1988; DAS e TENG, 1999
Quadro 13 - Características da Abordagem Incremental de Decisão Estratégica Fonte: Elaborado pelo Autor