Entre a segunda metade do século XX e os dias de hoje foram ocorrendo diversas transformações, a nível tecnológico, social e cultural. Ao longo do tempo, as opiniões de alguns estudiosos foram-se dividindo sobre se o caráter destas transformações, seria positivo ou negativo para sociedade. “Alguns lastimam o fim dos tradicionais valores culturais e sociais, outros apontam um futuro cor-de-rosa com base em novas tecnologias.” (Florida. R, 2011, p.4)
As transformações tecnologias foram as mais arrebatadoras desde a evolução dos meios de transporte até aos meios de comunicação, como a internet. Mas nem tudo se tratou de inovação tecnológica. Os valores e princípios da sociedade também se foram alterando desde o modo de viver à forma de trabalhar das pessoas no seu cotidiano. As pessoas já não se acomodam ao mesmo emprego a vida toda e já não vivem apenas para o trabalho e para sustentar a família. Tendo uma vida social mais ativa e começando a dedicar mais tempo à TV e ao cinema, colocando-as um pouco a frente do teatro e dos espetáculos ao vivo. O sistema hierárquico numa empresa continua a existir, mas menos inflexível. Existe uma forma de vestir mais descontraída, existem horários de trabalho mais flexíveis e consequentemente novas regras a cumprir. As pessoas de outras etnias, muitas vezes vítimas de racismo, ocupam cargos de chefia. Hoje o estilo pessoal e os princípios individuais são mais valorizados que o conformismo aos valores da organização. A diversidade cultural impera, a homossexualidade é uma realidade cada vez mais aceite pela sociedade e as pessoas cada vez mais se preocupam com a sua imagem e o seu bem- estar, exercitando a cultura do corpo.
continua transformação, onde a criatividade impera.
“A força motriz é a ascensão da criatividade humana como ante central na economia e na vida em sociedade. Seja no trabalho ou em outras esferas da vida, nunca valorizamos tanto a criatividade e nunca a cultivamos com tamanho empenho.” (Florida. R, 2011, p.4)
Hoje vivemos na era do conhecimento e da inovação, onde a economia é movida pela criatividade humana. Sendo multidimensional a criatividade aparece em diversos formatos, e apesar de muitos o acharem não se limita apenas à criação de novos produtos e de novas empresas. Segundo o dicionário de Webster, ela é a “capacidade de inovar de forma significativa” (Florida. R, 2011, p.4 e 5), ou seja, a criatividade é um processo de contínua transformação, pois está sempre a arranjar formas de melhorar cada produto e cada ideia. E algo que não podemos esquecer, é que a criatividade dita tecnológica e económica advém da criatividade cultural e da relação que ambas estabelecem.
Richard Florida (2011) afirma: “Minha intenção é salientar que as pessoas, na medida em que são a principal fonte de criatividade, representam o principal recurso da nova era.” (Florida. R, 2011, p.6). Para este autor, nos dias de hoje, uma empresa dispor de colaboradores talentosos e criativos é extremamente importante,
Este é também um fator a ter em conta pelas empresas, na hora de escolher o local onde se pretendem fixar e crescer, estimulando também desta forma uma nova dinâmica de competitividade entre cidades.
Num discurso dirigido aos governadores dos EUA, Carley Fiorina, CEO da Hewlett- Packard, afirma: “Fiquem com seus incentivos fiscais e autoestradas; nós vamos a onde estão as pessoas mais capacitadas”. (Florida. R, 2011, p.6)
As pessoas denominadas de criativos não se concentram onde estão os empregos, mas sim em centros de criatividade e nos locais onde gostam de viver. Exemplo disso foi Atenas e Roma, durante o período clássico.
“Como observou Jane Jacobs, grande urbanista, lugares bem-sucedidos são multidimensionais e diversificados – eles não apelam a um único setor ou grupo demográfico; eles são repletos de estímulo e troca criativa.” (Florida.R, 2011, p.7) Os modelos sociais alteraram-se devido a um éthos criativo. A sociedade passa de
vínculos estáveis que a suportavam, para laços efémeros em várias esferas da vida. Na época em que vivemos é usual mudar com frequência de morada, mudar de cidade, o que permite conhecer pessoas diferentes e viver de forma semianónima, em detrimento de viver sob o compromisso da família, dos amigos e de determinadas organizações. Tal como antigamente as pessoas tinham o mesmo emprego a vida toda, também moravam sempre no mesmo sítio e conviviam sempre com as mesmas pessoas. Hoje em dia, muda-se de emprego com bastante facilidade e pouca precaução. Se antes a preocupação das pessoas era se integrar e se fazer identificar com determinado grupo, agora cada vez mais tentam encontrar a sua própria identidade. Sendo mesmo esta reinvenção do eu, a alavanca para a própria criatividade.
“Hoje não somos mais definidos pela organização em que trabalhamos, pela igreja que frequentamos, pelo lugar onde vivemos ou mesmo por laços familiares. Quem nos define somos nós, ao forjarmos uma identidade com base nas várias facetas de nossa criatividade. Outros aspectos da vida – o que consumimos, como nos divertimos, os esforços que fazemos para formar comunidades – se organizam a partir desse processo de criação de identidade.” (Florida. R, 2011, p.7,8)
Na atualidade é necessário repensar a conceito de classes, para se poder falar de uma identidade coletiva. Desde muito cedo, fomos habituados a estereotipar os outros pelo seu modo de vida, pelos seus hábitos, pela forma de vestir, pelo carro que conduzem e pela casa onde moram. “No entanto, o que determina essas semelhanças é, antes de mais nada, a atividade econômica, o que fazem para ganhar a vida.” (Florida. R, 2011, p.8)
Este é o critério de partida para diferenciar as classes sociais. A nossa era está marcada pela grande quantidade de procura de empregos, cuja a fonte de trabalho seja a criatividade.
A ascensão desta nova classe, a que Richard Florida denominou de “classe criativa”, torna evidente como a criatividade se tornou tão importante para o setor económico.
ciências, das engenharias, da arquitetura e do design, da educação, das artes plásticas, da música e do entretenimento, cuja função econômica é criar novas ideias, novas tecnologias e/ou novos conteúdos criativos. Além desse centro, a classe criativa também abrange um grupo mais amplo de profissionais criativos que trabalham com negócios e finanças, leis, saúde e outras áreas afins.” (Florida. R, 2011, p.8)
Todas estas profissões envolvem a resolução de problemas de natureza complexa, e para os resolver é necessário uma boa capacidade critica, tanto ao nível do conhecimento como da própria experiência. Para serem criativos estes elementos da classe criativa, não tem de ser exclusivamente ligados às artes, mas sim pessoas que partilham do mesmo ethos criativo, que valorizam a criatividade, a diferença, a individualidade e reconhecem o mérito. Para eles todas as manifestações criativas de natureza tecnológica, cultural ou económica estão ligadas e são completamente inseparáveis.
A grande diferença que existe entre a classe criativa e as outras classes prende-se com o tipo de trabalho que aquela é paga para fazer. Enquanto as outras classes, como a trabalhadora e a dos serviços, são pagas para trabalhar segundo um plano já pré- concebido, a classe criativa recebe para criar, tendo muito mais flexibilidade e autonomia que as restantes.
“Para uma série de autores dos séculos XIX e XX, a grande questão foi a ascensão e, em seguida, o declínio da classe trabalhadora. Já para Daniel Bell e outros autores da segunda metade do século XX, o tema central passou a ser o surgimento da chamada sociedade pós-industrial, caracterizada pelo crescimento da indústria de serviços em oposição ao setor manufatureiro. Hoje, a grande questão – que já vem se revelando há algum tempo – gira em torno da ascensão da classe criativa, a classe que mais cresce nesta era.” (Florida. R, 2011, p.9)
“Hoje, a classe criativa nos Estados Unidos é maior do que a tradicional classe trabalhadora, formada por aqueles que trabalham nos setores de produção, construção e transporte, por exemplo.” (Florida. R, 2011, p.9)
da abertura da mente para a diferença ao contrário das outras classes que privilegiaram a homogeneidade e o conformismo na era organizacional.
Em média, um membro da classe criativa ganha o dobro de um membro de uma das outras classes, o que a torna também bastante influente a nível financeiro. E os sacrifícios que esta classe está disposta a fazer por dinheiro são muito diferentes dos das outras classes.
“Nós levamos em consideração tanto questões financeiras quanto a possibilidade de sermos nós mesmos, de determinarmos nosso horário, de realizarmos trabalhos instigantes e de vivermos em comunidades que refletem nossos valores e prioridades. De acordo com uma grande pesquisa realizada com profissionais de tecnologia da informação – um subgrupo relativamente conservador da classe criativa –, desafio e responsabilidade, horário flexível e um ambiente de trabalho seguro e estável estão acima do dinheiro no que diz respeito ao que valorizam no emprego.” (Florida. R, 2011, p.10)
Para se viver da criatividade é necessário cultivá-la e ter ambientes que a apõem e propiciem
“A criatividade no mundo do trabalho não está limitada a membros da classe criativa. Trabalhadores de fábricas e até prestadores de serviço menos qualificados sempre foram criativos de alguma maneira útil. Sem falar que o conteúdo criativo de muitas funções associadas à classe trabalhadora e à classe de serviços vem crescendo – exemplo disso são os programas de melhoria contínua de várias fábricas, que convidam operários a contribuir também com ideias.” (Florida. R, 2011, p.10)
Para Richard Florida, a melhoria da qualidade de vida das pessoas deve passar pelo estímulo da sua criatividade, para depois esta ser paga com devido crédito e desta forma possibilitar a integração destes indivíduos na economia criativa.