Ao pressupor que os sistemas simbólicos são estruturantes por serem estruturados e que os instrumentos simbólicos são meios de dominação que
representam o interesse de um grupo dominante, conforme explica Jatahi (2004), Bourdieu “[…] substitui a noção de sociedade e de classe pelo relacionamento entre estruturas objetivas (campos sociais e espaço social) e estruturas subjetivas (esquemas de percepção, pensamento e ações constitutivas do “habitus”) […]” (JATAHI, 2004, p. 6).
Assim, cada campo de produção simbólica seria um espaço de luta “[…] pelos critérios de classificação e hierarquização dos bens simbólicos produzidos e, indiretamente, das pessoas e instituições que os produzem” (NOGUEIRA, NOGUEIRA, 2016, p. 32-33). É nessas lutas, que o agente ou instituição impõe o peso de seu capital. O capital para Bourdieu pode ser traduzido como poder, pois é por ele que ocorrem as disputas no interior do campo. A luta ocorre entre agentes que possuem diferentes tipos de capital (BOURDIEU, 1996).
Para Bourdieu (1996), os diferentes tipos de capital são tipos específicos de poder. Dentro dos diversos campos ou espaços de jogos, conforme explica o autor, existem esses tipos específicos de capital que são instrumentos de disputa pelos agentes e instituições que o estruturam, pois quem o detém tem poder no campo. Assim, quando se cita um capital específico estamos nos referindo que ele vale dentro dos limites de um determinado campo (BOURDIEU, 1983c).
Dentro do campo científico, por exemplo, os tipos específicos de capital são o institucionalizado e o puro. No campo da literatura, “[…] o conhecimento sobre autores, estilos e obras e, sobretudo a capacidade de produzir obras reconhecidas como de alta qualidade constituem uma forma de capital (capital literário) […]” (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2016, p. 36).
Alguns capitais, no entanto, estão presentes em todos os campos. Os capitais que fazem parte do campo social descrito por Bourdieu são quatro: capital econômico, capital cultural, capital social e o capital simbólico. O capital econômico pode ser definido como recursos de poder ou materiais (BOURDIEU, 1983c), um desses recursos de poder são os recursos financeiros.
O capital cultural, que também pode ser o capital intelectual, teve seu conceito formulado por Bourdieu, de acordo, com Nogueira e Catani (2007), para explicar o desempenho escolar de crianças que vinham de diferentes classes sociais, ele serviu para explicar o porquê do sucesso escolar. Dentro do capital cultural existem
outros capitais, tais como: capital literário, capital científico e capital jurídico- econômico.
Bourdieu (2007d) ainda relata que o capital cultural pode se apresentar de três diferentes formas. A primeira diz respeito ao estado incorporado, de forma a se tornar um integrante do agente, um habitus (BOURDIEU, 2007d). É o estado em que o capital é internalizado no indivíduo, é investido tempo e deve ser realizado pessoalmente, além disso, envolve assimilação para o recebimento do capital cultural (BOURDIEU, 2007d; NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2016). São as habilidades linguísticas, postura corporal, crenças, preferências, entre outros (BOURDIEU, 2007d; NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2016).
A segunda forma é o estado objetivado, que é o recebido pelo agente por meio de bens culturais, como quadros, livros, entre outros (BOURDIEU, 2007d; NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2016). Se a detenção for material se torna um capital econômico, se a detenção for simbólica é o capital cultural (BOURDIEU, 2007d). Além disso, ele é transmitido de forma instantânea e da mesma maneira que o estado incorporado, conforme explica Bourdieu (2007d).
O estado institucionalizado é a terceira forma em que se apresenta o capital cultural e este, se consolida por meio dos títulos e certificados escolares que atestam a formação cultural do sujeito (BOURDIEU, 2007d; NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2016). É institucionalizado, pois ele passa a adquirir determinado valor, o agente tem um reconhecimento institucional, nesse caso ele pode ser convertido de capital cultural para econômico já que pode se obter valores financeiros com o diploma, por exemplo, como atesta Bourdieu (2007d).
O capital social para Bourdieu é definido como “[…] o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento […] (BOURDIEU, 2007c, p. 67), ou seja, é a ligação a um grupo que possui agentes com interesses em comum.
Bourdieu (2007c) explica que o capital social de um agente depende das relações que são mobilizadas pelo mesmo, e também do volume de capital (econômico, cultural ou simbólico) que cada agente vinculado por essa relação possui. Para Bourdieu (2007c, p. 68) a rede de relações “[…] é o produto de estratégias de investimento social consciente ou inconscientemente orientadas para
a instituição ou a reprodução de relações sociais diretamente utilizáveis, a curto ou longo prazo […]”. Os indivíduos podem se beneficiar dessas relações e com isso adquirir “[…] benefícios materiais (um empréstimo, uma bolsa de estudos ou uma indicação para um emprego, por exemplo) ou simbólicos (prestígio decorrente da participação em círculos sociais dominantes).” (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2016, p. 44).
O capital simbólico para Bourdieu é toda forma de prestígio, autoridade, aceitação, honra, entre outros (BOURDIEU, 2013), o agente que possui o capital simbólico possui como lucro a distinção, conforme explica o autor. Bourdieu (1983c) cita o exemplo do mercado escolar onde o preço é a nota. Logo, o aluno poderá ser reconhecido pelo professor caso tenha uma boa nota na prova, obtendo com isso capital simbólico.
No campo, o capital simbólico adquirido se transforma em poder simbólico, que é um poder “[…] que aquele que lhe está sujeito dá àquele que o exerce, um crédito com que ele o credita, um fide, uma auctoritas, que lhe confia pondo nele a sua confiança. É um poder que existe porque aquele que lhe está sujeito crê que ele existe” (BOURDIEU, 2000, p. 9).
O poder simbólico é o poder “[…] de fazer ver de fazer crer, de confirmar ou transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto o mundo […]”, somente com o uso dos símbolos (BOURDIEU, 2000, p. 14). Os símbolos permitem que se obtenha o consenso sobre o sentido do mundo social. Bourdieu (2000, p. 7-8) afirma que “o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”.
Assim, para ter prestígio o indivíduo deve ser percebido pelos outros com distinção e isso está atrelado aos outros tipos de capital. O agente que possui capital econômico, capital cultural e/ou capital social, por exemplo, pode possuir capital simbólico. Mas, Nogueira e Nogueira (2016) afirmam que nem sempre possuir capital simbólico se traduz em ter recursos de poder, cultura ou relações sociais, o indivíduo pode ter um capital simbólico devido ao sobrenome ser visto com certa distinção, no entanto, a distinção pode não corresponder ao capital cultural, econômico ou social do indivíduo.
De acordo com Bourdieu (1983c), um capital pode se converter em outro, como o capital social, por exemplo, pode ser convertido em econômico ou o econômico em social. O interesse do agente ou das instituições que compõem o campo é possuir o capital específico do campo de modo a ser suficiente para a ocupação de posições dominantes nos seus campos respectivos (BOURDIEU, 1996).
Além disso, o interesse do agente ou das instituições são atrelados pela “[....] conservação ou a transformação da ‘taxa de câmbio’ entre os diferentes tipos de capital e, do mesmo modo, o poder sobre as instâncias burocráticas que podem alterá-la por meio de medidas administrativas” (BOURDIEU, 1996, p. 52), isto é, alterando o poder das instituições burocráticas no campo existe, também, a possibilidade de alterar o valor do capital.
Dessa forma, os dominados no campo podem usar de estratégias de subversão para desvalorizar o capital adquirido pelos dominantes, assim como os dominantes podem usar de estratégias de conservação para manter o valor de seu capital adquirido. O dominante que obtém reconhecimento e aceitação possui o poder simbólico no campo.
Para Bourdieu (2013, p. 113), todo tipo de capital exerce uma forma de violência simbólica “[…] assim que é reconhecido, ou seja, desconhecido em sua verdade de capital, e impõe-se como autoridade exigindo reconhecimento”. Á partir do momento em que um agente adquire um capital específico, esse passa a requerer a posição de dominante dentro do campo fazendo que outros agentes se tornem os dominados, tem-se ai a manifestação do poder simbólico como aquele que tende “[…] a estabelecer uma ordem […], pois [o poder simbólico] é um poder mágico que permite que o agente ou instituição obtenha o mesmo que pode ser obtido pela “[…] força, graças ao efeito específico de mobilização” (BOURDIEU, 2000, p. 14, acréscimo nosso), é um poder que não precisa da força física para ter efeito, ele funciona no plano do conhecimento.
Entende-se que os bens simbólicos produzidos pelo agente ou pelo campo fazem que com que ele seja reconhecido e tenha poder sobre os demais. No entanto, esse poder é motivo de disputa no campo, e com isso a estrutura do mesmo pode ser sempre modificada.