Nesse subcapítulo descrevemos a estrutura do campo científico, dado a proximidade com o objeto de estudo. O campo científico descrito por Bourdieu é definido da mesma maneira que qualquer outro campo social, ou seja, como sendo um espaço caracterizado pelas relações de poder, pelas lutas e pelas estratégias dos agentes integrantes do campo (BOURDIEU, 1983a; BOURDIEU, 2004b; SANTOS, 2017).
De fato, o mundo da ciência, como o mundo econômico, conhece relações de força, fenômenos de concentração do capital e do poder ou mesmo de monopólio, relações sociais de dominação que implicam uma apropriação dos meios de produção e de reprodução, conhece também lutas que, em parte, têm por móvel o controle dos meios de produção e reprodução específicos, próprios do subuniverso considerado. (BOURDIEU, 2004b, p. 34).
No campo científico as posições são de dominandos e novatos, conforme Bourdieu (1983b) explica, sendo que os dominantes estabelece uma forma de censura para o que realmente tem valor ou não. Para Bourdieu (2004b), é a posição que os agentes ocupam dentro do campo científico que determina o que eles podem ou não fazer. “A estrutura de um campo é delimitada, em parte, pelos agentes que definem suas possibilidades e impossibilidades, o conjunto dominante de seus objetivos e questões que importam ou não para suas pesquisas” (CAPELARI, AFONSO e GONÇALVES, 2014, p. 100).
Reconhecido como uma espécie de jogo diferenciado, já que se busca a autoridade científica, para Bourdieu (1983a), o campo científico é autônomo, sendo que um produtor dentro desse campo só pode esperar reconhecimento por parte de outro produtor que também é um concorrente, ou seja, os agentes que compõem o campo científico são clientes e concorrentes ao mesmo tempo. “De fato, somente os cientistas engajados no mesmo jogo detêm os meios de se apropriar simbolicamente da obra científica e de avaliar seus méritos” (BOURDIEU, 1983a, p. 127).
O funcionamento do campo científico pressupõe também uma forma diferenciada de interesse, conforme afirmam os autores Teixeira et al. (2012). Para eles, as práticas científicas no campo científico são praticas interessadas. O campo científico tem uma dimensão política, já que “[...] acumular capital é fazer um “nome” conhecido e reconhecido” (TEIXEIRA et al., 2012, p. 186).
Outra singularidade do campo científico se refere ao fato de que os concorrentes não podem se contentar em apenas se distinguir de seus “predecessores já reconhecidos” (BOURDIEU, 1983a). “Eles são obrigados, sob pena de se tornarem ultrapassados e "desqualificados", a integrar suas aquisições na construção distinta e distintiva que os supera” (BOURDIEU, 1983a, p. 127), ou seja, não é suficiente se igualar ao seu concorrente, é necessária, inclusive, uma constante busca por uma superação de si mesmo.
Os autores Capelari, Afonso e Gonçalves (2014) explicam que o campo científico está em movimento contínuo, pois os agentes estão sempre em modo de disputa por sua representação. A disputa no campo científico ocorre pelo monopólio de autoridade científica ou da competência científica (BOURDIEU, 1983a).
Segundo Bourdieu (1983a), a autoridade científica se refere à capacidade técnica e a competência científica é referente à capacidade de falar e agir de forma legítima e socialmente aceita. A posição do agente dentro no campo científico se dá pela distribuição do capital científico (BOURDIEU, 1983a; BOURDIEU, 2004b).
Para Bourdieu (2004b, p. 26), “o capital científico é uma espécie particular de capital simbólico (o qual, sabe-se, e sempre fundado sobre atos de conhecimento e reconhecimento) que consiste no reconhecimento (ou no crédito) atribuído pelo conjunto de pares- concorrentes no interior do campo”. Teixeira e outros (2012) afirmam que o capital pode assumir diferentes formas no campo científico, como a de possibilitar que o agente esteja em um índice de citações, ganhe prêmios, entre outros; essas formas de capital conferem poder aos agentes.
Bourdieu (1983b) explica que além da formação ou prêmios recebidos pelo pesquisador e que promovem sua consagração no campo científico, existem ainda as revistas que consagram as produções científicas definindo o que de fato é a ciência, rejeitando as produções sem relevância ou mesmo interferindo na publicação por não atingir o foco e escopo indicado.
No campo científico existem duas formas de capital científico, que são: a) o poder político (capital científico da instituição), que se refere a “ocupação de posições” privilegiadas nas instituições científicas e; b) o poder específico (capital científico puro), que faz referência ao prestígio pessoal recebido pelos pares, ou pela comunidade acadêmica (BOURDIEU, 2004b).
As duas espécies de capital científico, que são descritas por Bourdieu (2004b), são acumuladas de formas diferenciadas, sendo que o capital científico “puro” se adquire através de publicações em revistas de maior prestígio, ou seja, pelas contribuições efetivas com a ciência; já o capital científico da instituição é adquirido através da participação em comissões, bancas, congressos, entre outros.
Bourdieu (2004b) explica que raramente um mesmo agente seria capaz de acumular as duas formas de capital científico de forma expressiva. Segundo o autor, um agente que esteja envolvido na coordenação ou direção em uma instituição, por exemplo, dificilmente teria tempo de contribuir efetivamente com a ciência, para ele o inverso também não é tão possível, ou seja, um agente que contribua com a ciência não se tornaria um bom diretor ou coordenador.
Ainda segundo o autor, as transmissões das formas de capital científico também se diferenciam uma da outra, o capital científico “puro” possui aspecto pessoal, tem algo relacionado aos “dons” do pesquisador sendo difícil de ser repassado para outra pessoa, ainda que seja um orientando do pesquisador; já no caso do capital científico da instituição, este é uma espécie de capital burocrático estando, com isso, relacionado a um ato de nomeação (BOURDIEU, 2004b). Para Barbosa (2013) quando Bourdieu define esses dois tipos de capitais ele está caracterizando os pesquisadores por meio do peso de seu capital.
Hochman (1994) explica que Bourdieu compara o campo científico com um mercado monetário, onde se tem o conflito por crédito científico, ou seja, pelo capital científico. Esse crédito científico é, segundo o autor explica, uma espécie de capital simbólico que pode ser acumulado, transmitido é até reconvertido em outro tipo de capital.
Se, para Bourdieu, a autoridade/competência científica é um capital que pode ser acumulado, transmitido e convertido em outras formas de capital, inclusive monetário, o processo de acumulação do capital científico seria idêntico ao de qualquer outro tipo: inicia-se com a acumulação primitiva no processo educacional e nas primeiras etapas da vida profissional (origem do diploma, cartas de recomendação); tem continuidade após a obtenção de um capital suplementar com o reconhecimento dos seus primeiros trabalhos, títulos e publicações; e se consolida a partir da determinação de seu lugar no campo, que será definido pela possibilidade de acumulação permanente de capital científico e de impor-se como autoridade na respectiva área. Uma dada estrutura de distribuição de poder - uma distribuição de capital científico entre os cientistas e instituições em competição - orienta as estratégias e seus investimentos no presente; inclusive as aspirações científicas de cada um dependem do capital já acumulado (HOCHMAN, 2002, p. 210).
Assim, compreende-se que a acumulação de capital científico já se inicia na formação profissional e educacional do agente. Com essa bagagem intelectual e profissional o agente conquista seu lugar no campo, podendo com isso, se impor como o dominante, o que determina seu lugar no campo científico. Porém, o agente dominado (como já discutido) está sempre em luta por essa posição, por meio de estratégias inconscientes ou não.
As lutas que ocorrem dentro do campo científicos são segundo Bourdieu (2004b) denominadas de lutas científicas. Essas lutas científicas são armadas, já que como explica o autor, são entre agentes adversários que possuem capital científico tão ou mais elevado do que o capital científico que foi acumulado no e pelo campo (BOURDIEU, 2004b, p.32). É na luta que os agentes devem participar com o objetivo de impor o valor de seu produto ou sua autoridade (BOURDIEU, 1983a), demonstrando que tem maior capital científico acumulado e, consequentemente, maior poder.
No campo científico assim como nos demais campos sociais as estratégias podem ser tanto de conservação, que assegura o prosseguimento da ordem científica dentro do campo, como também pode ser de subversão, relacionado à “redefinição da legitimação de dominação”, ou seja, seria a ação de legitimar uma troca de poder, conforme explica Bourdieu (1983a). A conservação são estratégias decorrentes dos dominantes e as estratégias de subversão partem dos dominados (BOURDIEU, 1983a). Para Teixeira et al (2012), as estratégias de conservação da ordem científica são mais seguras, já as estratégias de subversão vão contra a lógica do campo.
Assim, compreendemos que o campo científico é composto de pesquisadores que são avaliados pelos próprios pesquisadores, ou seja, pelos pares concorrentes, fato esse, que torna o campo científico singular. Os próprios pesquisadores avaliam o produto dos demais, concedem o capital científico e travam lutas científicas para se sobressair sobre seus concorrentes.