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Como vimos nos enunciados anteriores, é tecida toda uma construção de sentidos em torno do desaparecimento do personagem Nildo do programa eleitoral do candidato do PMDB, de modo a repercutir no enunciatário33 certa reflexão sobre o paradeiro do boneco e os pretextos da sua ausência, a fim de, no fim, mobilizá-los para a ação do voto em Hermano Morais. Por conseguinte, somos, de tal maneira, obrigados a atentar para o enunciado seguinte, que apregoa seu retorno.
No programa eleitoral do dia 24 de setembro de 2012, nota-se, predominantemente, o enviezamento pela temática da infraestrutura e obras públicas. Apresentando ao eleitor as obras inacabadas de Carlos Eduardo ou interrompidas em sua primeira administração, como o mercado modelo do bairro das Rocas, o desqualificando e contestando sua capacidade de gestão e planejamento
32 É possível ouvir a vinheta através do link <https://www.youtube.com/watch?v=7DYomde2YEc>.
Acessado em 13 de novembro de 2014.
33 Na definição de Fiorin (2006, p. 81) como o destinatário da enunciação (ouvinte), que também pode
como chefe do executivo municipal. Apresenta, ainda, as demais ações de Hermano Morais quando vereador de Natal, nos âmbitos da saúde da mulher, do lazer, do meio ambiente e bem-estar social.
Dos 8 minutos e 24 segundos de programa eleitoral, 1 minuto e 16 segundos foram destinados ao retorno do Nildo. Assim, um dos maiores espaços já disponibilizados. O cenário com o qual acostumou-se o eleitor, retorna: os elementos que identificam o personagem, este e o locutor-interlocutor. Vejamos na figura 05, abaixo.
Figura 5 – Print: Retorno do boneco Nildo
Passemos agora, pois, para o enunciado verbal. Para o movimento do discurso e dos sentidos, num sincronismo latente. Assim, temos:
Fala Nildo:
- Ele voltou, o Nildinho voltou novamente. Éééé, voltei meu povo.
Fala Locutor Off:
- Êita Nildo, onde tu tava, rapaz? Deixou todo mundo ocupado.
Fala Nildo:
- Homi, tava por aí andando pela cidade. Dando uns rolé. Ói, o que eu caí em buraco e tropecei em lixo. Menino, a coisa tá feia, viu?
Fala Locutor Off:
Fala Nildo:
- Mas num é, menino. Num queriam que o Nildinho se calasse. Mas a justiça disse: tudo que o Nildo fala é a mais pura verdade. Cê ta vendo?
Fala Locutor Off:
- E foi, Nildo?
Fala Nildo:
- Apois... Agora me diga, como é que alguém tem coragem de querer calar a cultura popular? Inté eu acho que o grande Chico Daniel, o professor Deífilo Gurgel e até o mestre Câmara Cascudo devem tá triste lá de cima, vendo essa perseguição toda contra o Nildinho aqui.
Fala Locutor Off:
- Ligue não, Nildo. Também tem gente que gosta de tu, homi.
Fala Nildo:
- Apois não é! Homi, por onde eu passei só recebi elogios. Teve até quem quisesse votar em mim, mas eu disse: ói, faça isso não, eleição é coisa séria. Então: não vote no boneco, viu?
Inicia-se o diálogo entre personagem e locutor, aquele primeiro. O prórprio Nildo anuncia sua volta ao programa, colocando-se em terceira pessoa, como sujeito de quem se fala, como assunto: “Ele voltou, o Nildinho voltou novamente. Éééé, voltei meu povo”. É o ele, a não-pessoa do discurso, conforme a teoria enunciativa de Benveniste descrita por Barthes:
Toda linguagem, como já mostrou Benveniste, organiza a pessoa em duas oposições: uma correlação de personalidade que opõe a pessoa (eu ou tu) à não-pessoa (ele), signo daquele que está ausente, signo da ausência; e interior a essa primeira grande oposição, uma correlação de subjetividade opõe duas pessoas, o eu e a pessoa não-eu (isto é, o tu). (BARTHES, 1988, p. 34 apud TEIXEIRA, 2012, p. 75)
Notável, além do entusiasmo como auto anuncia-se, a utilização voluntária do sufixo –inho posterior ao nome do boneco. Se em alguns casos esse diminutivo, em forma sintética, exprime pejoratividade, neste seu valor semântico expressa afetividade. Em seguida, o locutor ressurge fomentando o diálogo (“Êita Nildo, onde tu tava, rapaz?”) e projetando no eleitor uma verdade de preocupação e envolvimento coletivos (“Deixou todo mundo preocupado”).
Se no tópico anterior revelamos o enunciado que se questiona sobre o paradeiro do boneco, neste o próprio o revela (“Homi, tava por aí andando pela cidade. Dando uns rolé”). A palavras “andando” e “rolé” compõem o mesmo campo dos sentidos, “andar por”, constituindo uma sinonímia imperfeita. Uma adequação permitida na linguagem cotidiana e empregada pelo personagem, numa
transmutação da “normalidade” (do termo) para uma especificidade, por assim dizer, da juvenilidade. Denota-se um desaparecimento voluntário mirando intenção salubre, interposto pelo dizer “Ói, o que eu caí em buraco e tropecei em lixo. Menino, a coisa tá feia, viu?”. Intenção esta de testemunhar e expor aos eleitores os flagelos da cidade, cuja responsabilidade é atribuída à gestão de Micarla de Souza e, dantes, de Carlos Eduardo, reforçados pela expressão “a coisa tá feia” que, pela interdiscursividade, apreendemos por, a exemplo, “as coisas não estão bem”, “é complicada a situação em que a cidade se encontra”.
Constata-se, assim, a tríade, segundo Charaudeau (2011), utilizada no discurso político a fim de obter a adesão do eleitor a um projeto ou ação, ou dissuadi-lo de acompanhar o programa adversário. São, a “desordem social da qual o cidadão é vítima, na origem do mal que se encarna em um adversário ou um inimigo, e na solução salvadora encarnada pelo político que sustenta o discurso” (CHARAUDEAU, 2011, P. 91). Tenta-se, pois, persuadir o eleitor de que há um mal latente e as vítimas: se o sistema de saúde do município não está formidável, há grandes chances de não atender às necessidades da população. A origem das mazelas transita precisamente entre dois nomes: Carlos Eduardo (consequentemente sua vice, Vilma de Faria) e Micarla de Souza, sua ex-vice e última prefeita eleita de Natal, até 2012. A solução para a desordem social encontra- se no proponente do discurso favorável, em Hermano Morais, que propõe reparar o mal que existe, colocando-se como salvador e libertador do povo mazelado.
É de se afirmar que esta inserção, desde seu início, calca-se em anunciar o retorno do personagem permeando certa afetividade e, consequentemente sua defesa. Usualmente quando se percebe a inclusão da polícia em algum acontecimento, atribui-se à ele, ainda mais, o status de seriedade, é o “algo sério” que precisa atenção e intervenção. Assim, o faz o locutor no dizer “Pois eu pensei que a polícia tinha te levado, né?”, alimentando o mesmo, possível, imaginário que o eleitor tinha sobre o a ausência do Nildo. Em seguida, novamente, ver-se a não- pessoa no enunciado desta vez representando o Carlos Eduardo e sua vice, Vilma de Faria, (“Num queriam que o Nildinho se calasse
”)
como ceifeiros da voz da cultura popular. Vejamos o próximo dizer:Fala Nildo:
- Apois... Agora me diga, como é que alguém tem coragem de querer calar a cultura popular? Inté eu acho que o grande Chico Daniel, o
professor Deífilo Gurgel e até o mestre Câmara Cascudo devem tá triste lá de cima, vendo essa perseguição toda contra o Nildinho aqui. Nota-se que no dizer que o personagem reporta-se à alguns dos grandes nomes da cultura popular norte-rio-grandense para se afirmar sua origem e “filiação cultural”. Dessarte, ousar querer “calar a cultura popular” é renegar a própria cultura popular, através do desprezo aos três grandes entusiastas: Chico Daniel, Deífilo Gurgel e Câmara Cascudo. Por meio da memória discursiva, acionada pelos enunciados verbais e visuais (ver “Figura 06 – Print: Mestre mamulengueiros”), o eleitor rememora os mestres mamulengueiros e suas incomensuráveis e impagáveis contribuições para o folclore e cultura potiguares. Tão logo, perseguir o Nildo, olvidando sua representação, é deslegitimar a testilha pelo reconhecimento, aceitação e propagação da arte de bonecos mamulengos.
Figura 6 – Print: Mestre mamulengueiros
Assim percebe-se, além, no enunciado anterior a dramatização do discurso político. É notável a representação social do papel dos entusiastas da cultura popular, por conseguinte, a representação das emoções oriundas, que transcendem o tempo. Um discurso que visa a sedução do auditório pelo afeto. Todavia, para que haja certa comoção por parte do interlocutor, é mister que este encontre um “eco em sua própria experiência”, pois “o recurso a um discurso de afeto não produz
obrigatoriamente emoção”, nele (CHARAUDEAU, 2011, p. 90). Assim, Charaudeau afirma três fatores que combinados produzem um efeito emocional no auditório:
(i) a natureza do universo de crença ao qual o discurso remete (viada/morte, [...] amor, paixão etc.); (ii) a encenação discursiva que pode, ela própria, parecer dramática, trágica, humorística ou neutra; (iii) o posicionamento do interlocutor (ou do público) em relação aos universos de crença convocados e o estado de espírito no qual se encontra.
Portanto, é de incumbência do sujeito enunciador, em função da imagem que constrói do sujeito interlocutor ou do efeito que espera produzir, saber eleger os universos de crença, tematizá-los de tal forma e recorrer à uma encenação específica.
Nas sociedades democráticas a justiça, enquanto instituição34, é a representação máxima da aplicação de juízos coerentes, que orienta as ações dos sujeitos entre fazer o certo (consonante com a justiça) e o errado (ser penalizado). Sob este pretexto, amparado pelo o certo, o Nildo lança mão da verdade incontestável da justiça, aqui eleitoral, no dizer “Mas a justiça disse: tudo que o Nildo fala é a mais pura verdade. Cê ta vendo?”. Se a justiça atesta veracidade, quem o fará contrário, afinal?
Em seguida, temos os últimos enunciados desta inserção:
Fala Locutor Off:
- Ligue não, Nildo. Também tem gente que gosta de tu, homi.
Fala Nildo:
- Apois não é! Homi, por onde eu passei só recebi elogios. Teve até quem quisesse votar em mim, mas eu disse: ói, faça isso não, eleição é coisa séria. Então: não vote no boneco, viu?
A identificação com o boneco Nildo, que pode levar a um discurso de defesa por parte dos eleitores, como já vimos, pode ocorrer pela associação com o que ele representa, a cultura popular que descente e preserva a memória de grandes nomes, ou pela concordância com suas críticas, seus discursos. É o “falar a verdade”, de forma simples e sem contornos, por isso as afirmações de há quem o admire e o reconheça com “a voz popular” (“Ligue não, Nildo. Também tem gente que gosta de tu, homi”; “Homi, por onde eu passei só recebi elogios. Teve até quem quisesse votar em mim [...]”).
34 Dever-se-á, aqui, entender a “justiça” como instância institucionalizada, como as justiças do
Seguidamente, enaltece a seriedade do processo eleitoral e, pelas vias do interdiscurso e do contexto imediato, adverte o eleitor da necessidade e do compromisso do seu voto (“eleição é coisa séria”). E, encerrando, ironiza o adversário ao dizer que, por a eleição ser um processo democrático sério, não se deveria votar no boneco (“Então: não vote no boneco, viu?”). A ironia é uma figura de palavra comumente utilizada no discurso político, visando, no mais das vezes, desqualificar o opositor. Neste caso, na oral, o enunciador diz o contrário que se quer fazer o destinatário entender, pois “na ironia, há um efeito de não assumir a enunciação por parte do locutor e de discordância em relação à fala esperada em tal tipo de situação” (CHARAUDEAU e MAINGUENEAU, 2012, p. 291). O estado de boneco vira condição pejorativa, que a passa a ser “visitada” por Carlos Eduardo.
4.4 A HORA SE APROXIMA: PROGRAMA ELEITORAL (03/10/12)