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OPERATOR CARE

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ESC & fH-925

OPERATOR CARE

Para iniciar a reflexão a respeito do papel da Igreja nesse tempo-histórico em movimento, faz-se necessária a compreensão de que, por mais que pareça absoluta e hegemônica uma dada forma de pensar, ela traz embutida sua própria superação e dissolução. É como a vida que habita o ser humano, ela começa a findar-se no momento da sua concepção. Assim como a própria existência, a Idade Média, também como qualquer tempo-histórico, não tinha como impedir o nascimento em sua barriga de acontecimentos que trariam o seu fim. É preciso esclarecer que, como não se está realizando uma leitura histórica e, consequentemente, da ciência

de forma linear, acredita-se que os “tempos-históricos” estão em todos os tempos passados, presentes e futuros e reversivelmente.

Sem dúvida, a compreensão do papel desempenhado pela Igreja, durante o sistema feudal, é de extrema importância para destrinchar como conhecimento e poder estiveram lado a lado nesse período. Conforme Rubão e Moroz (2004), a influência e a força da Igreja cresceram muito durante o Império Romano. Esse crescimento é ocasionado devido à própria crise do Império, que oportunizou o surgimento do cristianismo como questionamento às ideias e aos valores da sociedade escravista.

O advento do cristianismo vai desencadear uma outra forma de encarar a relação entre os homens; o que se assiste é a propagação da crença na igualdade entre os homens, sendo esses vistos como filhos do mesmo Pai. Mesmo sendo muito perseguidos, os cristãos representavam os anseios de grande parte da população, agregando cada vem mais seguidores nos diversos segmentos da sociedade da época. Ocorre que, “numa sociedade onde reinava a insegurança e que estava sujeita a ameaças – o decadente Império Romano –, a Igreja oferecia segurança e proteção de que a população necessitava; a salvação era buscada cada vez mais por adeptos que doavam terras e pagavam tributos para alcançá-la”. (RUBANO; MOROZ, 2004, p. 141) Assim, a passos largos, crescia o poder da Igreja, passando a ser vista como a salvação das possíveis atrocidades que permeavam o Império em decadência. Era o surgimento de uma grande narrativa, a narrativa da fé, que seria vista posteriormente, de forma mais intensa, como o grande abrigo do conhecimento de todas as coisas.

Esse processo será reforçado, pois a Igreja,

Quase sempre acusada como principal culpada pelo retrocesso da cultura, é também responsável pela conservação de quase tudo o que se preservou no pensamento clássico greco-romano. Num mundo em que o cenário predominante é o campo, e a agricultura praticada no nível da subsistência, os monastérios – esses refúgios rurais onde os religiosos, longe da vida mundana, buscavam a purificação da alma – representam a sobrevivência da cultura. Ali, os monges, animados pelo ideal de ora et labora (“reza e trabalha”), de São bento (c. 480- 547), não só se dedicam à religião e à organização do trabalho rural como também à cópia, à compilação, à tradução par o latim e ao comentário de textos da Antiguidade. (ABRÃO, 1999, p. 104)

Como pode ser observado na fala de Abrão (1999), o saber passa a ficar aprisionado na mão da Igreja, que o usa para manter e aumentar seu poder. Esse processo se fortalece, passando a Igreja a ser grande proprietária de terras, conseguidas através de doações, esmolas, tributos, isenção de impostos e do celibato. Eram ainda cobrados impostos para garantir a proteção espiritual, pois a salvação e o conhecimento pertenciam à Igreja, era ela quem detinha o poder de permitir o acesso ou não dos mesmos. Assim, o poder da Igreja se dava de três formas: domínio do poder de garantir salvação, do econômico e do conhecimento. Obviamente, esse poder ramifica-se para várias outras instâncias da sociedade medieval, transpassando todos os feudos. O que se assistia nesse tempo-histórico em devir era um ensaio do que se flagrava nos tempos atuais de globalização neoliberal, ou seja, a Igreja exercia o papel de domínio dos feudos, como o fazem as empresas transnacionais, nos países que se inseriram na lógica neoliberal.

Como evidenciam Rubão e Moroz (2004), além do grande poder econômico que detinha, a Igreja possuía uma estrutura que viria a lhe possibilitar, ainda mais, hegemonia. Ocorre que o desenho da estrutura organizacional da Igreja foi materializado de forma centralizada e hierárquica, o que garantiu, portanto, sua unidade e domínio. Há a criação de um centro de poder, um poder religioso que se consolidou no imaginário coletivo daquele tempo-espaço, como

representante do divino “Deus”. Essa configuração de poder diferenciava-se do poder dos senhores feudais, pois era uma espécie de meta-poder. “Acresce-se, a isso, a detenção do monopólio do saber em função do domínio das habilidades de leitura e escrita, restrito praticamente ao clero, e do controle do sistema educacional formal, que era da alçada exclusiva da Igreja”. (RUBANO; MOROZ, 2004, p. 142)

O conhecimento é então aprisionado pela Igreja, que passa a ser utilizado como instrumento de controle e manutenção das relações sociais vigentes. Qualquer movimento que colocasse esse poder em questionamento deveria ser imediatamente paralisado. Tal meta-poder não usava formas sutis para impedir o seu questionamento, lançava golpes extremamente perversos, podendo aqueles que fossem contrários à sua lógica pagar com a própria vida. O que vai acontecer é que, “por um lado, o monopólio permitiu o controle da veiculação do conhecimento, por outro, permitiu o controle da produção de conhecimento. Ao produzir conhecimentos, uniu-se o saber greco-romano aos dogmas cristãos, buscando-se dar, assim, uma fundamentação sólida às doutrinas do cristianismo”. (RUBANO; MOROZ, 2004, p. 142) Assim, os tentáculos da Igreja sobre o conhecimento foi passo a passo se firmando na medida que ficava a seu cargo o ensino de forma geral.

Segundo Burke (2003), na Idade Média,

a maioria dos professores e alunos das universidades era constituída por membros do clero, muitas vezes membros de ordens religiosas, principalmente dominicanos, que contavam com o mais famoso dos professores medievais, Tomás de Aquino. Pesquisadores acadêmicos do porte de Alberto Magno e Roger Bacon eram frades. (BURKE, 2003, p. 28)

Como pode ser visualizado na fala de Burke (2003), o monopólio do conhecimento dá à Igreja uma série de poderes sociais. O que se verifica com o monopólio do conhecimento e,

consequentemente, da educação é a confecção de corações e mentes prontos para obedecer os ditames do poder clerical, que vai aos poucos cunhando valores da obediência e da servidão através da visão do conhecimento como algo estanque, repassado através de uma educação castradora. Fica evidente que a base do pensamento do clero estava montado em uma perspectiva reprodutora e anticriativa. Estabelecida a relação opressora e paralisante da Igreja com o conhecimento e com o processo educacional de forma geral, o que se vê deitar ao chão e caminhar a passo largos é a influência do clero nos âmbitos jurídicos, políticos, éticos e morais. Assim, a hegemonia da configuração clerical se fortalece promovendo o crescimento desenfreado da lógica da opressão e do controle, nada escapa à visão, audição, olfato, paladar e mesmo do sexto sentido dos homens ditos representantes de “Deus”.

Como apontam Rubão e Moroz (2004), a leitura desse contexto possibilita a compreensão do porquê do conhecimento científico, que vai se intensificar a partir do século XI, ter nesse período um caráter mais prático do que explicativo. Os autores explicitam ainda, que isso pode ser exemplificado por áreas como a medicina e a química. Na primeira, a medicina, o que se observa é que a descrição de doenças e a identificação de remédios, que obtiveram resultados considerados como práticos e satisfatórios, no que diz respeito à terapêutica. Na segunda, com a exaustiva tentativa de efetivar a transformação de metais em ouro, foram aperfeiçoados métodos de reações químicas, efetivando-se a elaboração de procedimentos e instrumentos de destilação. A intenção de que o conhecimento desenvolvido nesse tempo-espaço fosse mais prático do que explicativo, está atrelada à lógica de que toda e qualquer explicação deveria ser dada pela Igreja, que explicava tudo a partir da sua interpretação da fé, agarrando, portanto, o poder sobre o saber e as diversas formas de viver dos diversos feudos.

É sob a égide da fé que os fenômenos são explicados, determinando o que deveria ser ou não aceito como verdade. Assim, “às explicações dadas aos fenômenos, estão impregnadas de

valores defendidos pela Igreja: da noção de um mundo criado por Deus, de forma hierárquica e organizada, às noções místicas e especulativas, sente-se a limitação do espírito religioso da época”. (RUBANO; MOROZ, 2004, p. 142) Na verdade, ampliando o grau da lente histórica utilizada nesse percurso, o que se enxerga com muita nitidez é a utilização extremamente territorializante e desterritorializante da fé como grande narrativa hegemônica, que impede durante um longo período o brilho intenso da diversidade de pensar e agir de formas diferentes.

Essa despontencialização do pensamento plural criativo e, quiçá, transquântico, nesse tempo-histórico em devir, fica evidenciado no diagnóstico de doenças como a peste negra1 e as explicações na área da astronomia. Como esclarecem Rubão e Moroz (2004), são atribuídas como causas da peste negra influências astrológicas ou anormalidades climáticas. No campo da astronomia, as explicações para os fenômenos estão atreladas a seres angelicais ligados aos corpos celestes. Toda e qualquer explicação dos fenômenos da natureza e da dinâmica da vida social é processada a partir de uma visão transcendental, ou seja, está matematizada pela lógica das explicações sobrenaturais.

É importante também ressaltar uma outra característica metodológica da produção do conhecimento. Acontece que, “diferentemente do que ocorrerá posteriormente, os fatos, a observação e a experimentação não são critérios de aceitação ou rejeição das explicações. O maior peso é dado à autoridade que tem, como representação máxima, o pensamento de Aristóteles, já cristianizado”. (RUBANO; MOROZ, 2004, p. 142) O fato da não aceitação dos mecanismos metodológicos da experimentação e observação está atrelado à demarcação de que qualquer conhecimento produzido, que pudesse vir a ameaçar o poder dogmaticamente instituído,

1

A peste negra assolou toda a Europa e chegou a ceifar mais de um terço da população. Esta epidemia é hoje conhecida como peste negra, na época conhecida somente como a peste, ou a morte negra, provocou a maior onda de mortandade que varreu o mundo.

deveria ser barrado. Assim, é evidente que práticas desse tipo seriam rechaçadas pela Igreja, sofrendo, portanto, todo tipo de sanção. Um claro exemplo disso, como apontam Rubão e Moroz (2004), é o próprio frade Roger Bacon que, ao utilizar nos seus estudos de ótica a observação da ocorrência do fenômeno em diferentes situações, passa a sofrer pressão e fiscalização da ordem a qual pertencia.

Como pode ser visto, o que se assiste na tela da Idade Média é o predomínio da fé sobre a razão. A própria fé se constitui como racionalidade, estruturando e ornamentando as formas de viver e ser dos grupos humanos, formatando o conhecimento no molde das explicações transcendentais. É a escalada da grade verdade vertical e hierárquica que desterra e destrói em nome da hegemonia do clero, que se constitui como poder absoluto sobre todas as coisas.

Ocorre que

a fonte das doutrinas, comum aos pensadores da época, era a bíblia. No trabalho de justificar tais doutrinas, utilizavam-se os conhecimentos (explicações, concepções e procedimentos metodológicos) advindos da cultura grega. O pensamento de Platão, dos neoplatônicos, assim como de Aristóteles (boa parte via tradução dos árabes), foi retomado e adaptado de forma a se poder conciliá- lo ao cristianismo. No pensamento medieval, a influência da filosofia platônica se fez sentir com maior intensidade durante o período denominado Alta Idade Média (século V ao X); Santo Agostinho é um dos exemplos dessa influência. (RUBANO; MOROZ, 2004, p. 144)

O que se constata com a escuta sensível da fala acima é o ato de canibalismo por parte dos seguidores da Igreja. As reflexões e, consequentemente, o conhecimento até então elaborado por filósofos como Platão e Aristóteles é comido e digerido despotencializando o vigor de tais reflexões, utilizando-as para justificar o dogma da Igreja. É com esse processo de canibalização e sofisma que se formula e consolida a concepção do universo como estática e hierárquica. Tal forma de pensar e agir é, de fato, a base da configuração social da época, que não poderia deixar de ter outra fonte filosófica, política e ética de conceber a vida naquele tempo-espaço medieval.

Para compreender efetivamente como foi estabelecida a relação entre conhecimento e fé e o consequente poder na Idade Média, é imprescindível conhecer o pensamento de personagens como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. Portanto, estar-se-á mergulhando na obra destes que construíram a base da concepção filosófica, religiosa, epistemológica e política da Igreja, na Idade Média.

A ILUMINAÇÃO DIVINA: O CONHECIMENTO A PARTIR DA FÉ SOB O OLHAR DE

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