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1. O Infinito é eterno em tempo, espaço e forma – Não pode

compreender-se o infinito não se admitindo a sua eternidade, em tempo e em espaço. Ou tudo, ou nada… Quanto à sua forma ou configuração geral, por maiores que nos pareçam as transformações que se passam nos espaços e à superfície dos planetas, também não pode deixar de ad- mitir-se que há de manter-se eternamente no seu status quo. As maiores nebulosas e os maiores astros, em número quase infinito, que de Marte podem ser vistos, todos eles reunidos, não passam dum ponto ou átomo do Infinito, não tendo as suas transformações a menor influência, nem a podendo ter sobre a forma do mesmo infinito.

Por isso, a formação dos mundos que acompanham Frementácio12 há de

fatalmente ser seguida da sua transformação em nebulosa, de que, outra vez, se formarão mundos, que tornarão a ser nebulosa; e assim in aeter- num. O que sucede ao nosso sistema planetário, há de fatalmente suceder também a todos os outros sistemas visíveis de Marte e não visíveis. Se assim não fosse, o Cosmos infinito não era, nem podia ser infinito.

2. Formação e movimento de translação dos astros do Sistema Plane- tário ou solar – Devido a quaisquer transformações cósmicas anteriores,

em um dado momento encontrou-se em suspensão no espaço uma nebulo- sa incandescente, que era animada, como tudo o que existe, de movimento de translação e rotação. Em virtude do movimento de rotação, a nebulosa adquiriu a forma de um elipsoide muito achatado segundo o eixo da mesma rotação. Este achatamento por um lado e, por outro lado, o arrefecimento das camadas exteriores da nebulosa deram lugar a que, sucessivamente, se fossem soltando anéis gasosos que, em razão da inércia da matéria, conti- nuaram em rotação em volta da massa central da mesma nebulosa.

12 [Frementácio] O Sol. Para evitar confusões aos leitores possíveis na Terra, daqui por diante adotarei, para tudo, a nomenclatura terrestre. Quando adotar a de Marte, terei o cuidado de o dizer; a seguir ou em nota. [N.A.]

História Autêntica do Planeta Marte Série Alimentopia

Dos choques ou embates contínuos das massas condensadas, caindo umas em atraso e outras em avanço, se conclui que o núcleo central e sua nebulosa deviam adquirir movimento de rotação no sentido do de translação, e tanto mais rápido quanto maior for o planeta. É o que se dá com efeito. Enquanto Júpiter executa a sua rotação em 12 natos16, 29

binatos e 25 trinatos, Saturno em 13 natos, 10 binatos e 26 trinatos, a Terra em 31 natos, 8 binatos e 11 trinatos, gasta Marte na sua rotação 32 natos.

Pelo que diz respeito à translação e rotação dos satélites dos planetas, os raciocínios empregados para estes têm, mutatis mutandis, aplicação àqueles, visto as nebulosas dos planetas serem animadas de movimento de rotação e, portanto, poderem dar lugar à formação de anéis. Em volta de Marte gravitam dois pequenos satélites, o mais próximo e maior à distância, em média, do centro do planeta, de 9 300 quilómetros apenas, e o mais afastado e menor de 23 300, sendo o diâmetro do primeiro igual a 13 quilómetros e o do segundo apenas 8. O primeiro executa a sua translação em 9 natos, 31 binatos e 1 trinato e a rotação em 6 dias de Marte e 8 natos, o segundo executa a sua translação em 1 dia de Marte, 7 natos, 14 binatos e 28 trinatos e a rotação em 17 dias de Marte, e 14 natos. Representando a densidade média de Marte por 1, a densidade do primeiro satélite regula por 0,9 e a do segundo por 0,7. A ação dos dois satélites nos mares de Marte é muito pequena, devido ao seu insignifi- cante tamanho, apesar da distância do primeiro à superfície do planeta regular apenas, em média, por um pouco menos de dois raios do mesmo planeta, e a do segundo por um pouco menos de seis raios.

16 O nato é a unidade de medida adotada em Marte para a contagem do tempo, sendo os mostradores dos relógios graduados de 1 a 32. Cada dia sideral de Marte vale 32 natos; cada nato vale 32 binatos, e cada binato vale 32 trinatos, e assim por diante. Um nato regula por 46 minutos do tempo sideral contado na Terra. Para evitar confusões, deste número 3 do presente capítulo por diante, indicarei os tempos em horas e anos da Terra; e, quando forem referidos a Marte, o direi no texto ou em nota. [N.A.]

Tirando uma reta a passar pelos dois pontos S e M, vê-se que esta reta corta a superfície exterior da nebulosa de Marte em dois pontos, m e m’. Visto o ponto m distar do ponto S menos do que o ponto M, e este menos do que o ponto m’, conclui-se que a velocidade do primeiro é menor do que a do segundo e a deste menor do que a do terceiro. Ora como, devido à irradiação do calor, as massas exteriores da nebulosa do planeta iam passando ao estado líquido ou sólido, precipitando-se sobre o núcleo central, segue-se que as do lado de m deviam ter descrito curvas em atraso quase parabólicas15 que deviam bater em a, e as do lado de m’

curvas em avanço que deviam bater em a’.

Com exceção única das massas que caem de n e n’, e que seguem em dire- ção ao núcleo central, todas as outras que caem desde m a n ou a n’ chocam em atraso naquele, e as que caem de m’ a n ou a n’ vão chocar em avanço.

15 As curvas seriam rigorosamente parabólicas, se as massas, que se precipitavam sobre o núcleo central, se movessem no vácuo. [N.A.]

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5. Transformações por que passaram as órbitas e eixos de rotação dos planetas – A princípio, todas as órbitas dos planetas se confundiam

quase num único plano normal ao eixo primitivo de rotação da nebulosa mãe; mas, há uns 40 000 anos de Marte ou 75 233 anos da Terra, um gran- de astro, muito maior do que Júpiter, atravessou por entre o sistema pla- netário, bateu de encontro ao quinto planeta, que desfez em frangalhos, levando consigo grande parte dele, alterou a situação e excentricidade das órbitas dos restantes planetas, formando algumas mais excêntricas, espe- cialmente a de Marte, e mudou a posição de todos os eixos de rotação dos planetas, passando a ser oblíquos em relação às órbitas respetivas.

As convulsões, ruínas, inundações, morticínios e prejuízos gerais cau- sados nos planetas, especialmente Marte, Júpiter e Terra, não falando no quinto planeta destruído, foram incalculáveis. Em Marte, os mares galga- ram por sobre as ilhas e parte do continente, arrasando inúmeras cidades e assolando completamente riquíssimas regiões; em Júpiter, segundo foi observado pelos telescópios que puderam escapar à tremenda convulsão,

os mares também assolaram grandes ilhas e parte dos continentes; e, na própria Terra, a grande ilha ou célebre continente denominado Atlânti-

4. Movimento retrógrado da translação dos satélites de Urano e Neptuno – O movimento retrógrado da translação dos satélites de Ura-

no e de Neptuno pode ser explicado, admitindo a hipótese de que junto ao anel de cada um destes planetas e do lado de dentro se formaram, logo a seguir, alguns anéis muito delgados, ou um que se dividiu em vários fragmentos, ou ainda que do próprio anel gerador do planeta se desprenderam alguns fragmentos que distavam do centro do futuro Sol um pouco menos do que aquele.

Em qualquer dessas hipóteses, a velocidade angular da translação des- ses pequenos corpos devia ser um pouco maior do que a do planeta, em virtude da lei que diz que os quadrados dos tempos das revoluções pla- netárias são proporcionais aos cubos dos eixos maiores das órbitas17. Por

isso, esses pequenos corpos foram-se aproximando, a pouco e pouco, do planeta, até que a atração deste sobre eles predominou sobre a da nebu- losa central, obrigando-os a gravitar em seu torno e, por conseguinte, com movimento de translação retrógrado.

A Fig. 2 dá uma ideia do modo como as cousas se passaram. A letra S representa o centro da nebulosa geral e futuro Sol, a letra N o planeta Neptuno, s e s’ duas posições sucessivas dum dos futuros satélites, a seta

F indica o sentido da rotação da nebulosa central, F’ a direção e sentido do movimento de translação do planeta, F” a direção e sentido do mo- vimento de translação do futuro satélite, f o movimento de rotação do planeta e f’ o de translação do futuro satélite, depois de gravitar em volta

do planeta, com movimento retrógrado portanto.

17 Esta lei é conhecida, há muito, na Terra. Em 1609, o célebre astrónomo Kepler de- terminou as leis das órbitas e das áreas, e, tempos depois, aquela. Como é sabido, estas leis são: 1.ª) As órbitas planetárias são elipses de que o Sol ocupa um dos focos; 2.ª) As áreas descritas pelos raios vetores são proporcionais aos tempos; 3.ª) Os quadrados dos tempos das revoluções planetárias são proporcionais aos cubos dos eixos maiores das órbitas. [N.T.]

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II

Formação geológica de Marte

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