1. Início da formação de Marte – Quando se reuniram, no ponto cen-
tral do futuro planeta, as primeiras massas que se condensaram na su- perfície gasosa da sua nebulosa, formando o primitivo núcleo central, este devia estar incandescente e encontrar-se no estado líquido, sendo impercetível o seu movimento de rotação. O seu volume, porém, foi au- mentando constantemente, até chegar a ter as atuais dimensões, sempre no estado líquido incandescente, aumentando conjuntamente, como foi demonstrado anteriormente, a velocidade de rotação no mesmo sentido da de translação. Se não houvesse movimento de rotação, a forma da massa líquida incandescente seria esférica; mas, visto ser animada de velocidade de rotação quase igual à da Terra, a sua forma não podia dei- xar de ser, como realmente foi, a de um elipsoide de revolução, achatado no sentido dos polos. Este achatamento é atualmente de 1/305, sendo dado pela fórmula ρ=(a-b)/a em que a é o raio no equador e o b o raio nos polos, sem a neve, se entenda.
Como a nebulosa, que deu origem ao planeta, a pouco e pouco foi ad- quirindo o movimento de rotação juntamente com o núcleo central, por isso é que, antes de todos os gases incandescentes se terem precipitado sobre o mesmo núcleo central, alguns dos menos pesados formaram os dois anéis que deram origem aos satélites de Marte, a que já me referi no capítulo anterior. A maior parte dos gases incandescentes da nebulosa primitiva passaram, pois, ao estado líquido, formando o planeta pro- priamente dito e, em seguida, os seus dois pequenos satélites; mas alguns gases, como o oxigénio, azoto, vapor de água, gases carbónicos, sulfu- rosos, etc., resistiram no estado gasoso ao abaixamento da temperatura exterior, constituindo em volta do planeta uma grande atmosfera gasosa que, na ocasião, se elevava a alguns milhares de quilómetros20 e que, 20 Conforme já se disse, daqui por diante, dou os nomes e medidas adotados na Terra. Quando der alguns de Marte, menciono a proveniência. [N.A.]
da, foi quase todo submergido18 e o Istmo de Gibraltar foi então que foi
destruído, entrando as águas do Atlântico pelo Mediterrâneo19 dentro, e
submergindo imensas cidades e regiões ricas e populosas.
O astro assolador, inclinando o eixo de rotação dos planetas, alterou por completo o regímen das neves polares. Antes da sua passagem, as neves polares eram invariáveis ou quase, apenas tendo uma pequena diminuição nos dois polos, quando os planetas passavam no periélio, e um pequeno aumento, quando passavam no afélio. Como o astro intru- so fez inclinar os eixos de rotação relativamente ao plano das órbitas, daqui resultou que as calotes de neve dos planetas passaram a variar muito durante a revolução daqueles, sendo mínimas no solstício do seu hemisfério e máximas no do outro. Ainda é ponto assente pelos sábios marcianos que as calotes polares de neve foram a princípio maiores do que atualmente são, como se prova pela existência de rochas glaciárias em latitudes onde não chegam presentemente as neves polares. Isto foi devido, segundo eles dizem, ao facto de que, a princípio, o Sol não tinha atingido o grau máximo da sua temperatura, e estava envolvido pela parte da nebulosa de que foi formado o planeta Vénus, e bem assim Mer- cúrio e Vulcano, a qual servia de obstáculo à livre irradiação solar.
18 Na Terra tem sido, com efeito, conservada a tradição através dos séculos da existên- cia deste continente, que devia abranger todo o espaço que vai dos Açores às Canárias pela Madeira. O célebre filósofo Platão, tanto no seu livro Critias, como no prefácio do livro Timaeus, faz larga referência à república ideal da Atlântida. [N.T.]
19 Nesse tempo, com efeito também, o Mediterrâneo devia ser um simples lago, ocu- pando apenas a parte mais baixa do atual mar, em razão de grande parte da Europa estar então sempre coberta de neve, tendo aquele, portanto, um nível muitíssimo inferior ao do oceano Atlântico, de que era separado pelo istmo de Gibraltar. A tradição atribuía a catástrofe do istmo ao semideus Marte. Muito nos apraz o ver que os sábios marcianos confirmam a opinião que sempre tivemos a este respeito e que expusemos no opúsculo em verso, intitulado O Passado. O chamado dilúvio universal, também conservado pela tradição através dos séculos, não foi, por certo, outra coisa mais do que a inundação da bacia do Mediterrâneo pelas águas do Atlântico, nessa remotíssima época. [N.T.]
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porção. Contudo, no hemisfério norte, há uns cinco pequenos montes ou outeiros de bom granito e, no hemisfério sul, dois donde têm vindo as cantarias para os principais monumentos, observatórios astronómicos e palácios de Marte. Em grandes filões e cavidades destas rochas plutóni- cas, e bem assim em outras rochas formadas dos fragmentos e detritos destas, encontram-se pedras rijas e muito brilhantes, como diamantes e outras, bem como muitos dos metais que há na Terra, como a platina, ouro, prata, cobre, zinco, ferro e especialmente alumínio, que é o metal que mais abunda em Marte.
As erupções vulcânicas primitivas deram lugar à formação de muitas ilhas, cujo solo, mais ou menos acidentado, é constituído por terrenos muito porosos e leves, e que são duma grande fertilidade. Por entre estes terrenos leves, encontram-se quase sempre muralhas de rijo basalto que tem obstado em parte à erosão causada pelas chuvas, neves e ventos. No continente também abundam os terrenos vulcânicos, mas em menor quantidade relativa do que nas ilhas.
3. Alteração da crusta sólida – Enquanto a crusta de Marte manteve
temperaturas superiores a 73⁰ centígrados, que, como se verá, é a tem- peratura da ebulição da água destilada ao nível dos mares do planeta, a água encontrava-se toda no estado de vapor, formando com outros gases, como disse, uma imensa atmosfera ou nebulosa em volta daquele. Assim que, porém, a temperatura passou a descer abaixo de 73⁰, logo abundantes chuvas, torrenciais por vezes, começaram a cair por toda a parte, formando ruidosas torrentes, ribeiras e rios que arrastavam gran- des porções de burgaus e terrenos nos seus cursos caudalosos, transpor- tando-os para os pontos mais baixos, onde se acumulavam, formando estratos horizontais que, com o tempo e com a pressão das águas que os cobriam, de dia para dia iam enrijando. Estas rochas são parecidas com as que na Terra têm a designação de “sedimentares”. A princípio, enquanto no planeta não havia vegetais nem animais, as torrentes cau- dalosas das ribeiras e rios apenas transportavam, com a água, burgaus e terrenos. Mais tarde, quando em terra e no mar começou a desenvol- atualmente, segundo afirmam os sábios meteorologistas e astrónomos
marcianos, ainda vai a 500 quilómetros, em vista da altura a que se apa- gam as estrelas cadentes.
2. Constituição da crusta sólida do planeta – Depois de formado o
planeta Marte no estado líquido incandescente, apesar de rodeado de altíssima atmosfera, foi, entretanto, irradiando calor para o espaço e ar- refecendo a pouco e pouco, começando a formar-se à superfície, aqui e acolá, fragmentos sólidos que, a seguir, mergulhavam na massa líquida geral, arrefecendo-a um pouco e tornando a passar ao estado líquido. Mas novas camadas sólidas se formavam que, a seguir, desciam e se fun- diam aumentando cada vez mais o número de massas líquidas que à su- perfície se solidificavam. Nesta luta constante e tremenda dos líquidos e gases com os sólidos que se iam formando, decorreram muitos milhares de anos, até que, por fim toda a grande massa líquida foi completamen- te envolvida por uma crusta sólida pouco densa. A luta, porém, conti- nuava com violência, e os gases, que se desenvolviam por debaixo da crusta sólida, erguiam esta em vários pontos, formando montanhas ou extensas cordilheiras que, quase sempre, tornavam a abater. Entretanto, algumas foram ficando, por vezes sendo rotas por grandes brechas e bo- queirões imensos, por onde saíam turbilhões de gases inflamados e la- vas incandescentes que, em torrentes, se espalhavam por sobre a crusta sólida. Destes boqueirões ou crateras apenas atualmente se encontram dois exemplares bem percetíveis no hemisfério norte, os quais há mais de cem mil anos têm sido conservados ao abrigo da destruição causada pelas chuvas e neves, devido à solicitude dos marcianos.
As rochas, que diretamente se formaram da condensação da mas- sa líquida, têm muita semelhança com as que na Terra são designadas pelo nome de “plutónicas”, predominando porém a que é conhecida pelo nome de “sienito”, tendo alguma mica, pequena porção de cristais de quartzo, sendo, na sua quase totalidade, constituída por feldspato com a coloração quase sempre avermelhada. Também se formou algum grani- to, muito rico em brilhantes cristais de quartzo, mas em muito pequena
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rochas sedimentares e mesmo das plutónicas que, tendo mergulhado, depois de formadas, na massa incandescente, aí experimentaram notá- veis transformações na sua geral estrutura, brilho e aspeto, devido à ele- vada temperatura e reações químicas, sendo levantadas para a superfície da crusta sólida depois de terem experimentado essas transformações. Os magníficos mármores, de que há muitos e brilhantes exemplares em Marte, pertencem na sua grande maioria a esta espécie de rochas.
É grande a variedade de terrenos sedimentares por toda a superfície do planeta, parecendo-se bastante com os da Terra: os primários encontram- -se em regular abundância, especialmente os silúricos, e bem assim alguns
câmbricos, pré-câmbricos e carboníferos. Há algumas rochas secundárias, mas poucas; das terciárias há uma regular abundância, sendo todas mui- to férteis, especialmente as miocénicas e as pliocénicas. Mas, de todas as
rochas e terrenos, os que mais abundam, depois que se abriram os canais de Marte, são os pós-terciários ou de aluvião, que são duma assombrosa fertilidade, embora as frutas e mais produtos agrícolas não igualem em mimo, doçura e aroma os que são produzidos nos terrenos silúricos.