Só depois de decorridos trinta dias, em seguida à grandiosa festa da mi- nha apresentação ao povo de Sarima, é que os sábios que me trataram entenderam que podia ser dado início à minha visita e apresentação nas outras cidades de maior importância em Marte. Acompanhado dum dos sábios que me trataram, do enfermeiro e respetivas esposas, e bem assim dum grande número de habitantes dos dois sexos de Sarima, entrámos no comboio elétrico expressamente posto à nossa disposição para a via- gem circulatória de Marte, começando a minha visita por Manfreda, cidade agrícola importante e porto de mar frequentado.
O comboio partiu com grande velocidade, e que calculei ser supe- rior a cem quilómetros por hora. Apesar da grande velocidade, não me passava desapercebida a beleza dos campos muito bem cultivados, o en- canto e primor dos magníficos pomares vergados ao peso das frutas, entremeados de vistosos jardins e ostentosos parques, especialmente nas proximidades das grandes cidades. As casas, todas airosas e alegres, muito bem pintadas com variadas cores ou caiadas, faziam agradável contraste à cor avermelhada da vegetação.
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saber do que constava a comissão da enfermeira, foi a correr consultar a diretora do internato que respondeu afirmativamente, acrescentando que era para ela uma glória o servir de laço entre a raça humana da Terra e a de Marte. Segundo mais tarde me contou a adorável Inídia, as três conversaram ainda durante muito tempo a respeito da minha paixão e estado de turgescente frenesi amoroso. Em Marte é desconhecido este estado patológico que é tão usual na Terra. São duas as razões princi- pais. A primeira, que por si só bastava entre gente equilibrada, consiste em rapazes e raparigas casarem todos, logo que atingem a puberdade; a segunda, em que há cem mil anos de Marte que a sua raça humana é com zelo e rigor selecionada, todos os entes desta raça sendo, por isso, equilibrados e nunca sujeitos a exaltadas paixões amorosas, que não pas- sam, afinal, da ação subjetiva do nervosismo sensual doentio e exaltado. Seja como for, o que é certo é que eu me sentia subjugado duma paixão que nada podia dominar. Felizmente, no fim de três dias, que me pare- ceram grandes como séculos, eis que vejo entrar no meu quarto a minha formosa enfermeira com ar alegre, para me dar a felicíssima nova de que a bela Inídia aceitava o meu amor e a mão de esposo. Doido de prazer, precipitei-me aos pés da bondosa e encantadora mensageira, beijando- -lhe a fímbria do vestido e cobrindo de beijos as suas mãos, o que ela deixou fazer sem enfado e até com prazer. Sem mais demora, segui com ela e com o marido que esperava à porta do meu quarto, e corremos ao internato, a fim de pessoalmente falar à minha noiva e à diretora daquele.
Chegados ao internato, assim que vi a minha noiva, deslumbrante de encantos ideais e divinos, atirei-me de joelhos aos seus pés, sem poder proferir uma única palavra. Ela, sempre meiga e sorridente, ergueu-me, dando-me na testa um beijo casto e doce, como podia ser dado a uma criança, não tendo eu o desembaraço de corresponder ao seu delicioso beijo com um, ao menos, na mão que me levantava. Foi benéfico o meu embaraço, pois, no estado de delírio e tensão nervosa em que me encon-
trava, se lhe dou o primeiro beijo, por certo que uma torrente de beijos se seguiria, destes a cobrindo, com grande escândalo das pessoas pre- sentes. A enfermeira, rindo muito do meu embaraço, em contraste com A demora em Romância foi de doze dias, que foram aproveitados em
festas, passeios pelos arredores em aeronave e em automóvel, e em ver os monumentos antigos e modernos, templos, observatórios, museus, grandes fábricas, etc., etc., apenas se perdendo as horas em que dormi.
De Romância seguimos para Australásia, de Australásia para Baidro- ma, de Baidroma para Tresenta; e de Tresenta, finalmente, regressámos a Sarima, no fim de noventa dias de viagens, passeios e festas memorá- veis, ficando-me a impressão de que o bem-estar, felicidade e civilização em Marte tinham atingido o mais ínclito apogeu a que a alma humana pode aspirar.
Apesar, porém, de tantas festas e carinhos, eu não me sentia com- pletamente feliz. Em minha alma havia um vácuo que, ao estar só, me tornava nervoso, taciturno e triste. Era o caso que, desde a festa da mi- nha apresentação em Sarima, uma paixão irresistível pela preciosa e formosíssima Inídia, que dirigia o elefante em que eu ia montado, me dominava por um modo tirânico e constante. A felicidade e bem-estar dos povos de Marte mais frisante tornava a minha infelicidade. Assim que regressei a Sarima, o meu primeiro impulso foi o de sair logo para a rua, à procura da beldade dos meus pensamentos; tive, felizmente, o bom senso de me conter, com receio de que, saindo à rua com o olhar eston- teado e gesto atarantado, devido à invencível força da paixão, os marcia- nos me pudessem julgar desequilibrado e doido, e ficassem fazendo uma triste ideia dos habitantes da Terra. Mas, não me sendo possível viver em um tal estado de fremente excitação apaixonada, abri o meu coração à gentil esposa do meu enfermeiro, e que minha enfermeira era também. Ao ver o meu aspeto, que lhe dava a impressão de eu ter perdido o juízo, segundo mais tarde me disse, ficou muito assustada e sinceramente con- doída e admirada, indo a correr pedir ao marido para ir falar no assunto ao presidente do Senado Municipal. Este não pôs dificuldade, mas julgou conveniente consultar o Congresso, que respondeu afirmativamente.
Só restava saber se a bela Inídia aceitaria o meu amor. A enfermeira foi logo ter com ela ao internato infantil, onde fora educada e permane- cia em serviço, tendo apenas, uns dias antes, atingido a puberdade. Ao
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e da enfermeira que me cobriam de beijos, como se fosse uma criança. Concluído o ato do nosso casamento, o oficial registador chamou-me à parte e deu-me sensatos conselhos paternais, entregando-me um peque- no livro com as principais regras de higiene conjugal e filial. A esposa do oficial registador chamou também à parte a minha noiva, a fim de lhe dar conselhos maternais úteis e um outro livro com proficientes regras de higiene conjugal e filial, abraçando-a com ternura e desejando-lhe muitas felicidades. Despedimo-nos e, com os nossos companheiros e tes- temunhas do ato matrimonial, nos dirigimos para a casa que nos tinha sido destinada, dando eu o braço à minha amada Inídia. Apesar de, na Terra, eu ser tido por um homem alto, e a minha noiva ser uma das mais baixas donzelas de Sarima, contudo a sua graciosa cabeça passava acima da minha uns dois ou três dedos. Como eu andasse nas pontas dos pés, a fim de ver se conseguia chegar à altura do meu lindo amor, o en- fermeiro, sorrindo e pondo-me a mão no ombro, disse-me que andasse naturalmente, pois que os homens não se mediam aos palmos. Eu fiz-me vermelho, mas achei muita graça ao dito, por o ter ouvido muita vez na Terra. O que é certo é que, daí por diante, nunca mais andei nas pontas dos pés quando passeava com a minha graciosa esposa. Chegados à nossa nova morada, os nossos companheiros tiveram a gentileza de não querer entrar, subindo eu só com a minha adorável Inídia.
Contar a transcendente felicidade que encontrei nos ternos braços da minha estatuária e gentil esposa, descrever os encantos e atrati- vos do seu saudável, flexível e nervoso corpo, e relatar os primores, meiguices e ternuras da sua inocente alma angelical, seria profanar este ideal feminino que não tem nem pode ter igual em toda a Terra, nem talvez em Marte. Enquanto permaneci na Terra, nunca tive ten- dência para o casamento; em parte, por causa dos meus desesperos, motivados pelos crus morticínios da grande revolução francesa e fim que teve, mas também, em grande parte, por julgar ciosa do mando e intriguista a mulher terrestre e possuidora de insuportáveis caprichos e teimosias, sempre em constante nervosismo atrabiliário e torturan- te, e como que sentindo prazer em martirizar e contradizer o marido. a tempestade interior que se lia nos meus olhos, pegou-me numa mão,
e, dando a outra à bela Inídia, amável e solícita, conduziu-nos para fora do internato, sendo acompanhados da diretora e do meu enfermeiro; e, velozes, os cinco, logo nos dirigimos para o Município, onde costumam ter lugar os casamentos em um sumptuoso e grandioso salão.