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A ideia da arte como imitação da natureza é muito antiga, podendo ser vista desde a antiguidade clássica até no próprio Renascimento, ou seja, a natureza é o modelo e a partir dela o homem extrai suas leis, valores e cultura. Com isso, os produtos da arte

humana seriam como que cópias, sem jamais conseguir a perfeição do modelo, seja porque seriam considerados simulacros de modelos perfeitos, como afirmava Platão, seja porque a semelhança da figura da arte com a sua forma natural fosse mediada pela nossa imaginação, conforme a tradição aristotélica. Nesse sentido, enquanto a natureza possuía em si o princípio de um movimento indefinido, as artes eram movidas por princípios externos, que buscavam apenas imitar a espontaneidade da natureza. O que seria criado era apenas outra disposição do mesmo material, com gradações na adulteração ou na perfeição da arte.

Essa imitação (mimesis) da natureza (verdadeira) pelas artes também era compreendida como um preenchimento das finalidades cósmicas da natureza, sendo assim, o que se imitava era o movimento em direção a um fim, algo que revelava a harmonia e a proporcionalidade presentes na ideia de cosmo. A natureza era a razão providencial governando o universo e também o próprio princípio racional. Com isso, ela deveria ser imitada pelas atividades humanas que seguiam seus próprios princípios racionais.

As diferentes artes imitam a natureza em diversos sentidos e, para identificar essas diferenças, tornou-se necessário ressaltar seus objetivos. De um lado, temos as artes que objetivavam representar a natureza, a exemplo da pintura, escultura, música, dança, drama; e por outro, temos as que visavam apenas reproduzir seus objetos, fenômenos e efeitos. A imitação como contemplação, presente na filosofia clássica e medieval buscava, em geral, o prazer estético ou uma comunhão religiosa. Quando, porém, se pretendia imitar, por exemplo, os raios, o que se tinha em mente era a reprodução dos efeitos, com o objetivo de melhor desfrutá-los ou mesmo controlá-los. Os efeitos naturais reproduzidos podiam ser usufruídos de infinitas maneiras, mas em geral fundavam-se na ideia de que a vontade humana, os desejos, as palavras e as ações, interferem na natureza das coisas.

Essas diferentes concepções de intervenção evidenciam a ideia de que a arte humana é dependente da natureza, porque além de imitar as funções, processos e aparências do mundo natural, ela deveria tomar suas leis e princípios, além de usar do seu próprio material. Além de dependente, a arte humana é auxiliar da natureza, na medida em que ajuda a manter o seu desenvolvimento normal, preenchendo suas deficiências tanto no sentido físico, a exemplo da construção de casas, quanto no sentido mental, na medida em

que constrói cultura e valores22. A concepção de que a arte não muda a substância, conforme afirmava Aristóteles23, não era aplicada à medicina e à própria agricultura.

A modernidade traça um novo olhar sobre a questão da arte, não só porque cria o problema da subjetividade estética (assinalado no problema do gosto, que vai do classicismo francês até Kant, passando pelos empiristas ingleses), mas também em relação ao artista ou gênio, não mais apenas como um descobridor da verdade harmônica posta no mundo (como era na Antiguidade e em toda a era medieval), mas, sobretudo como um

criador ou ainda um transformador. Em outras palavras, a arte não é mais apenas objeto de

descoberta, mas, sobretudo de intervenção. Essa ideia se explicita também no projeto baconiano.

Ao propor uma nova relação entre arte e natureza, Bacon distancia-se da metodologia dos alquimistas, da tradição aristotélica, dos pan-vitalistas ou organicistas, pois para o pensador, “natural” não é somente o que foi criado pela natureza, mas também o que o próprio homem é capaz de fazer, ou seja, natural é também o que produz resultados

equivalentes ao natural. Na Nova Atlântica alguns produtos artificiais são réplicas de

produtos naturais, ou seja, as coisas artificiais não diferem das naturais pela forma ou pela essência, mas apenas pela causa eficiente, pois quando as coisas estão dispostas à obtenção de um determinado efeito, pouco importa que este seja alcançado pelo homem ou sem o homem. Os efeitos produzidos pela natureza em seu próprio trabalho, ou pelo homem em conjunção com a natureza ou arte, são todos naturais, isto é, obras das criaturas de Deus. A imitação do canto dos pássaros, do estrondo dos trovões, do cheiro das plantas conseguidos pela tecnologia da sociedade bensalemita24, são provas da aproximação do natural com o

22 Algumas passagens do corpus hipocraticum mostram a natureza como o primeiro fator de restauração da

saúde ou de diagnóstico.

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Aristóteles defendia a ideia de que o homem podia usar os produtos da própria natureza para seus próprios fins, mas não partilhava da concepção de que o homem fosse capaz de participar na realização de um determinado fim natural. O material da produção tem a sua substância já completa, seja antes ou depois da interferência do artista ou mesmo no seu novo formato, não havendo nesse sentido a transformação da substância. Desse modo, ao esculpir a madeira para fazer uma estátua, o escultor não estaria fazendo mais do que retirar partes, sem acrescentar com isso nenhuma nova forma substancial às partes que restaram. Para o pensador, a arte não adiciona nem remove os poderes da natureza, não altera sua substância, e não efetiva produtos, mas apenas “tempera” a natureza.

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Sociedade utópica descrita por Bacon na obra Nova Atlântida. Para evitar o conflito dentro da sociedade idealizada, o autor propõe a sujeição incontestável de certos grupos sociais fortemente influentes nas questões públicas, como o clero, a família e a intelectualidade, aos interesses da Casa de Salomão, não de forma a extinguir-lhes os atributos e funções específicas, mas, sim, de usar tais especificidades como veículo de difusão e manutenção dos elementos que compõem a ordem pretendida.

artificial. Outros ainda envolvem mais o princípio de similaridade do que de identidade, ou ainda, imitações de outros artefatos criados por eles e por outros estrangeiros.

Para que a arte consiga impor-se sobre a natureza, o homem deve buscar conhecer a natureza, observá-la, persegui-la em suas práticas, como também forçá-la a revelar aquilo que não faria espontaneamente, afirma Bacon. Com isso, a ideia de imitação vai sendo substituída não só pela ideia de transformação, mas, sobretudo de dominação. Sendo assim, a arte não mais apenas reproduz e copia nem sequer apenas corrige e complementa a natureza, mas se for preciso, ela é capaz de revirá-la, bem como mudar e estabelecer novas fundações. O recurso à observação, tão importante na filosofia de Bacon, não está somente no sentido de imitar, mas principalmente no sentido de forçar e de oprimir, porque desse modo a arte descobriria e inventaria coisas que a natureza jamais revelaria espontaneamente. Essas forças não são contrárias à natureza, pois mesmo sendo criadas e inventadas, elas continuam derivando de princípios naturais descobertos no processo de criação.

Com isso, as novas analogias que se formam na modernidade, principalmente utilizando-se do modelo da máquina para a compreensão do corpo humano, do relógio para entender o cosmo, do fluir das águas para entender o espírito e à ausência de atrito, entre outras, ajudam a desconstruir visões mais espiritualistas e a clássica visão aristotélica de que a arte apenas imita a natureza. Nesse sentido, há uma revisão e ampliação mesmo do conceito de arte, que não é mais apenas aquilo que se chama, tradicionalmente de belas

artes, mas, sobretudo a própria ideia de criação, agora muito estreitamente ligada à própria

concepção de ciência. A arte moderna ganha, portanto, contornos científicos no sentido de designar a missão de explorar, transformar, inventar e criar um mundo. Nela se acumula uma arte de produção que contém, por isso mesmo, um corpo de conhecimentos próprios a essa atividade.

Por isso a integração das artes mecânicas tradicionalmente desprezadas pela filosofia, ao trabalho científico, tornaram-se profundamente significativas. Rossi afirma que

o progresso da ciência, as melhorias das condições do homem demandam, para Bacon, que o saber dos técnicos seja incluído no campo, a ele fechado por uma tradição secular, da ciência e da filosofia natural. Os métodos, os procedimentos, operações e linguagem das artes mecânicas haviam se afirmado e aperfeiçoado fora do mundo da ciência oficial, num mundo de engenheiros, arquitetos, artesãos qualificados, construtores de máquinas e de instrumentos. Esses métodos, procedimentos e linguagem agora devem se tornar o objeto de consideração, reflexão e estudo. E não se trata apenas do abandono de preconceitos inveterados

contra as “coisas mecânicas” por parte de um único intelectual. Os fins que Bacon indica são muito mais amplos e menos pessoais: as academias, colégios, sociedades científicas, os soberanos e os Estados devem pôr-se à frente desse movimento de renovação. Somente por essa via, com a ajuda dessas grandes organizações, a experientia erratica dos mecânicos, o conjunto disperso de pesquisas e observações dos artesãos, os labores cotidianos daqueles que transformam a natureza através da obra das mãos poderão ser subtraídos ao acaso e às ambíguas tentações da magia, dando lugar a um grandioso corpus, orgânico e sistemático, de conhecimentos. E somente por essa via será possível realizar o mundo e o tipo de sociedade descrito nas páginas da Nova Atlântida (1989, p. 103).

Ao romper com o tradicional conceito de que a arte apenas imita a natureza, Bacon abre um novo caminho para a ação do homem, de modo que a sua interferência na natureza deva ser compreendida como uma colaboração e continuidade das obras do Criador. Rossi afirma que, para Bacon, a arte é o homem acrescido à natureza e o fato de que as condições necessárias à existência de um fenômeno estejam naturalmente conexas ou venham a ser relacionadas entre si pela mão do homem, não cria uma heterogeneidade entre as coisas criadas por Deus ou pelos homens (PR, p. 127-128).

A arte torna-se então uma espécie de poder. Se para Sócrates o conhecimento se igualava à virtude, Bacon o equiparava ao poder. Sua utilização prática era a medida exata de seu valor. A proposta de uma ciência que desse conta das necessidades humanas, que proporcionasse obras úteis ao homem, colocava-se como uma solução da tradicional oposição entre verdade e utilidade. Desde os gregos, esta oposição tem objetivos separados, pois, enquanto a verdade era digna somente dos homens considerados superiores, a utilidade por sua ligação com as necessidades imediatas do homem, era encarada como trabalho para escravos ou classes subalternas.

O ambiente cultural do século XVI, voltado para a valorização das artes mecânicas e consequentemente do trabalho manual, coloca o homem em contato direto com a natureza, rompendo a antiga concepção de que os homens livres não se prestariam a tal atividade. Alguns dos procedimentos utilizados pelos homens para produzir objetos de uso ou construir máquinas, para modificar e alterar a natureza através do trabalho das mãos, “(...) favorecem o efetivo conhecimento da realidade muito mais do que aquelas construções intelectuais ou aqueles sistemas filosóficos que acabam por impedir ou limitar a exploração ativa das coisas naturais por parte do homem” (ROSSI, 1989, p. 28).

Com Bacon a ciência assumia um papel utilitário25 de cunho utópico, o equivalente material e humano ao plano espiritual da salvação por intermédio de Deus. Se pelo pecado o homem perdeu a inocência e o domínio sobre as criaturas, ambas as perdas, segundo Bacon, podem ser reparadas: a primeira com a religião e com a fé, a segunda com as artes e com as ciências. Pois a maldição divina não tornou a criatura irreparavelmente rebelde e a prova está no livro do Gênesis quando se afirma que “comerás o pão com o suor do seu rosto”, ou seja, é com o trabalho - e não com falaciosas disputas verbais e magias - que o homem pode reencontrar o caminho perdido (BACON, 1999, p. 218).

A filosofia baconiana, portanto, se coloca como uma via de recuperação simbólica de um estado de “conforto” já desfrutado no Éden, onde era dada à raça humana a capacidade de perceber a verdade sobre o conhecimento do bem e do mal, a ponto do homem estabelecer com a natureza o seu domínio, o que lhe assegurava uma vida cômoda e dedicada à contemplação da obra divina. Por ser o homem uma criatura de Deus, teria o dever de interpretar e dominar a natureza, de modo a contribuir com o criador, o que faria da pesquisa das ciências naturais sua obrigação religiosa. A queda original do homem fez com que essa pesquisa fosse mais difícil, mas, na medida em que ele disciplinar sua mente e purificar sua visão da natureza, desvencilhando-se dos velhíssimos preconceitos, obteria desse modo seu direito divino.

Ao inscrever o seu programa técnico-científico dentro do horizonte teológico cristão, Bacon inaugura uma nova etapa no mundo do conhecimento, pois ao mesmo tempo em que executa um programa divino, faz cumprir uma missão moral, ou seja, ao mesmo tempo em que vê nas leis da natureza a marca de Deus, vê também na descoberta delas, as condições de sua redenção. A ideia de progresso em Bacon está revestida da moldura religiosa, que a ciência passará a assumir como diretriz e sentido da sua busca, revestindo-a definitivamente com a perspectiva utópica.

A tese de que Deus ordenou ao homem a “ganhar o pão com o suor de seu rosto” e para tanto o homem deveria dominar a natureza, foi considerada por muitos como uma proposta imoral e até mesmo contrária à ética cristã. No entanto, Bacon declara que somente o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas a natureza não, e que desse modo não há nada nos mandamentos divinos que proíba o homem de conquistar um poder sobre ela, desde que os meios sejam legítimos e que os fins sejam proveitosos à vida

25 Ao afirmar que todo conhecimento tem que ser útil ao homem, Bacon não estaria sendo considerado um

utilitarista, conforme concepção tradicional do termo, pois o que o autor pretende afirmar é que a ciência é verdadeira porque é útil, e até então, a teoria não produziu resultados praticamente utilizáveis.

humana. Com isso, ao buscar conhecer a natureza, o homem não se afasta de Deus, mas ao contrário, manifesta toda a sua admiração em relação à obra magnífica do criador26 (1999, p. 4).

Com o primeiro aforismo da obra Novum organum, na afirmação de que “o homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos fatos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza, não sabe, nem pode mais” (1999, p. 33), Bacon inicia a construção de uma nova mentalidade para o desenvolvimento científico. Ao declarar o homem “ministro” e “intérprete” da natureza, Bacon não pretendia mostrar a autossuficiência humana em relação ao divino, mas mostrar que a ação humana não deveria encontrar limites de atuação e de transformação da natureza. O programa baconiano expressa claramente a destinação do saber e sua funcionalidade em relação ao poder, ou seja, a possibilidade de fazer e de modificar a natureza tendo em vista os objetivos humanos.

Embora a utopia da Nova Atlântida se inscreva na imanência futura, a ideia de futuro foi aberta pela escatologia cristã. Nas utopias seguintes, sejam de base científica ou revolucionária, sempre foi possível encontrar a ideia cristã de “homem novo”, já que não estão projetadas para a transcendência, mas para um futuro imanente. Esse futuro será construído com o auxílio da ciência e da técnica, promovendo a substituição da ideia de absoluto pela ideia de progresso. Desse modo, assim como a ciência está a serviço da glória de Deus para o engrandecimento da vida humana, a técnica deverá ser capaz de irmanar os homens e de servir a todo gênero humano.

26 Num contexto histórico em que a linguagem bíblica era amplamente conhecida (importante lembrar a

introdução, na Inglaterra, por Henrique VIII, da Reforma Protestante) pode-se afirmar como natural encontrar “brechas” e até mesmo certas ambiguidades para fundamentar postulados com base religiosa. Os intérpretes de Bacon divergem quanto à fundamentação dos preceitos com base religiosa. Robert Hooykaas, em A religião e o desenvolvimento da ciência moderna, afirma que a dessacralização da natureza teve influência da concepção judaico-cristã que, diferentemente da visão de mundo pagã, concebia o divino como absoluto transcendente e, assim, desdivinizando a natureza. Outros como Cameron Wybrow, The Bible, Baconianism, and Mastery over Nature, contesta essas interpretações evidenciando que a dessacralização bíblica não significa desdivinização nem incentivo ao domínio sobre a natureza, mas teria ocorrido uma interpretação descontextualizada. Bacon se utiliza da autoridade das Escrituras para legitimar o seu programa de reforma de conhecimento e enriquecer seu projeto com passagens Bíblicas. Entre as mais citadas estão as passagens de Salomão e do Apóstolo São Paulo. As referências ao legítimo poder dos homens sobre a natureza são dos Salmos (8: 4-9) e dos Gêneses (1: 27-29) como o trecho que segue: e Deus os abençoou, e disse: ‘Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra’. E Deus disse: ‘Eis que vos dei todas as ervas que dão sementes sobre a terra, e todas as árvores que encerram em si mesmas a semente do seu gênero, para que vos sirvam de alimento, e a todos os animais da terra, e a todos as aves do céu, e a tudo o que se move sobre a terra, e em que há alma vivente, para que tenham que comer’. E assim se fez.

Para que o domínio do homem pudesse se efetivar, a natureza deixou de ser compreendida em seu caráter orgânico-vitalista e passou a ser entendida pelo aspecto mecanicista. A substituição da ordem qualitativa para a ordem quantitativa, a busca das causas empiricamente observáveis e a mensuração do tempo e do espaço, são as condições prévias para a implantação do regnum hominis, pois um mundo com características mecânicas e mensuráveis poderia ser plenamente dominado e controlado pelo homem. Afirma Bacon que

quanto mais a investigação se dirige às naturezas simples tanto mais se aplainam e se tornam perspicazes às coisas, passando o objeto do multíplice ao simples, do incomensurável ao comensurável, do insensível ao calculável, do infinito e vago ao definido e certo, como ocorre com as letras do alfabeto e com as notas da música. Todavia a investigação natural se orienta da melhor forma quando a física é rematada com o auxílio da matemática (1999, p. 108).

O desejo do homem moderno de submeter e de reduzir tudo ao crivo da razão promoveu a substituição de uma ontologia das substâncias e das essências das coisas, tal como pensara Aristóteles, para uma “ontologia” de átomos, leis e forças onde cabem somente máquinas.

Para Bacon, cabe ao homem alcançar coisas que até então nunca tinham sido alcançadas, e que não foram trazidas naturalmente e nem por acaso (1999, p. 101-102). Desse modo, a natureza forjada pelo homem é uma duplicação que se estende à originalidade e honra o trabalho divino do Criador. Como a natureza e a arte (é a ciência enquanto atividade criativa) têm a mesma essência, não há motivos para que o homem não possa com o tempo recriar toda a criação27.

Ao reelaborar o conceito de natureza e de arte, Bacon dá um passo decisivo na concepção da ciência como tecnologia, e na formação de um novo paradigma à ciência moderna. Para o autor, a natureza é um corpo destinado a transformar suas estruturas para melhorar a existência humana, ou seja, a natureza como um lugar de passagem, no qual o homem pode de alguma forma, efetuar transformações que o levarão a um lugar melhor, menos árduo, o que faria com que a terra se assemelhasse ao paraíso bíblico. Se com a religião e a fé, o homem pode recuperar o estado de justiça em que Deus o havia criado, mediante as artes e suas obras, o homem poderá readquirir o seu domínio efetivo sobre a

27 Aqui reside, segundo Jonas, um dos aspectos cruciais e ameaçadores do projeto baconiano, na medida em

que a recriação tornou-se uma meta da própria tecnologia, não com o intuito de engrandecimento humano, mas pensando em si-mesma, em sua constante superação.

criação. Desse modo, a filosofia baconiana do homem busca o controle da natureza a partir do “cultivo” das habilidades, das ciências e com a urgência da invenção na direção de uma realidade utópica. Afirma o autor:

sem dúvida, nós pagamos a culpa de nossos progenitores, que quiseram ser semelhantes a Deus. Nós, progênie deles, queremos ainda mais. De fato, criamos mundos, fixamos leis para a natureza e nos apossamos dela, e não como agrada à divina Sabedoria, ou como realmente são na natureza (...) impomos a marca de

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