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A ideia de progresso presente no projeto baconiano, e consequentemente o seu bem estar, vem sendo questionada há tempos pela filosofia e por outras ciências. Embora haja uma divulgação de um progresso “sustentável”, sabe-se que alguns avanços, representam um “progresso cego”, trazendo mais ameaças do que bênçãos. Diante do poder de transformação da tecnologia tornou-se uma exigência pensar sobre que tipo de técnica queremos e o que estamos dispostos a abrir mão.

Para Jonas as modernas tecnologias põem em perigo não somente os recursos naturais e os seres humanos concretos, mas a humanidade como um todo e a própria ideia de homem. Questiona-se a partir disso não somente o mundo que o homem construiu, mas o próprio lugar do homem nesse mundo.

Se os perigos do novo poder da técnica moderna eram vistos principalmente em relação à natureza e ao meio ambiente (quais seriam os limites que a mesma suportaria e a que ponto estaríamos na atualidade desses limites?), pode-se dizer de modo amplo que o homem seria apenas atingido modo indireto, pois os critérios de avaliação eram da ordem quantitativa, ou seja, o quanto a natureza ainda poderá nos satisfazer.

Mas os avanços técnicos dos últimos tempos da modernidade voltaram-se para o próprio homem, isto é, o homem é que se tornou objeto primeiro da técnica, e com isso houve uma mudança da ordem quantitativa para a ordem qualitativa, isto é, no homem o

33 Destacam-se entre os escritos sobre a técnica no século XX: O admirável mundo novo (1953) de Aldous

Huxley; A perfeição da técnica (1953) de Georg Friedrich Jünger; O homem ultrapassado (1956) de Günter Anders; A alma na era da técnica (1956) de Arnold Gehlen; A dialética do esclarecimento (1947) de Horkleimer e Adorno; O homem unidimensional (1964) de Herbert Marcuse, entre outros.

que importa não é a quantidade existente, mas o melhoramento dos que existem, e com isso, pretende-se interferir desde “o começo até o final de nossa vida, nosso nascimento, duração de vida e morte, e inclusive nossa constituição hereditária” (PSD, p. 151). Disso resulta que, essas mudanças tocam nas questões últimas de nosso ser e dos seres humanos em geral, tais como: o conceito de bonum humanum, o sentido da vida e da morte, a dignidade da pessoa, a integridade da imagem do ser humano. Para enfrentar esses questionamentos precisamos de uma metafísica, isto é, uma “concepção válida de ser humano, e não de uma concepção vigente momentaneamente” (PSD, p. 151). Essa metafísica não é somente no sentido formal, isto é, aquela que nos diz porque o ser humano deve ser e da nossa responsabilidade para a sua existência, mas de uma metafísica material, de conteúdo, que preserve o ser de possíveis desfigurações concretas.

Se com a ideia de progresso da modernidade o homem ocupou um lugar privilegiado, Jonas busca colocar o homem, não mais na condição de “centralidade” ou de “superioridade”, mas como responsável, como guardião do reino da vida, como parte e fruto da natureza. O repensar a posição do homem no mundo e seus valores proposto por Jonas, vem de certo modo reacender e intensificar, no seio do pensamento moderno, o antigo debate entre natureza e cultura, ser e ação, essência e existência e mesmo a finalidade intrínseca como princípio metafísico dos entes naturais.

A tentativa de Jonas de fundamentar um imperativo a favor da vida, tanto da natureza humana como da natureza em geral, pode ser evidenciada em três passos: [1] o autor reconhece uma finalidade natural intrínseca à continuidade da vida e esta independe das interpretações acerca da natureza; [2] esta finalidade objetiva da natureza constitui um bem em si; [3] e este telos, na medida em que representa um bem intrínseco, torna-se uma obrigação categórica de sua incondicional preservação.

O esforço de compreender o homem, não somente como “animal racional”, mas a partir de sua reinserção na natureza, como parte e fruto da mesma, proposto por Jonas, está presente nas teses de seu mestre Heidegger, a exemplo na Carta sobre o humanismo. Para o autor a filosofia ocidental nas suas tentativas metafísicas e humanistas, salvo alguns poucos momentos, a exemplo dos pré-socráticos, buscou compreender a essência do homem somente pela via da metafísica clássica, ou seja, “(...) a partir da animalitas, (...) não em direção da sua humanitas” (2005, p. 23). Com isso, o mundo tornou-se como um objeto sobre o qual o pensar que calcula dirige seus ataques, e a estes nada mais deve

resistir, pois passou a ser compreendido como “um único reservatório gigante, uma fonte de energia para a técnica e a indústria modernas” (1980, p. 141).

Ao apresentar as bases de um novo humanismo Heidegger em sua obra Carta sobre

o humanismo, mostra que a civilização reduziu todos os seres, e por último o próprio ser

humano, à condição de objetos para a afirmação do sujeito humano, que na busca do poder e controle, se impôs como superior, não conseguindo identificar que este processo o anularia. É justamente dessa compreensão do ser como objetividade que permitirá a racionalidade tecnológica oprimir a natureza e o homem, segundo o autor. No enquadramento do mundo pela técnica, o próprio homem se afastou e se relegou ao esquecimento daquilo que lhe é mais próprio e próximo, isto é, o sentido da “verdade do ser”, de modo que sua história dentro do pensamento ocidental passou a ser a história do “esquecimento do ser”, o abandono da essência do pensar34

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Buscando reinserir o homem na natureza e recuperar-lhe o seu Ser, Jonas quer mostrar que das decisões humanas dependem a continuidade da vida humana e extra- humana de modo autêntico.35 A harmonia e o equilíbrio da natureza, a preservação dos sistemas e uma vida humana digna, estariam sob seu poder. A vida como tal, está orientada para fins, e com consciência esses fins passam a se revestir de significação e de valores.

A revisão da categoria progresso tornou-se urgente na atualidade devido aos riscos que a ela estão associados diante do poder que a técnica conferiu ao homem. Além do mais, o incessante impulso nela presente de um dinamismo frente ao futuro, questiona-nos a respeito do fim. Afirma o autor que após alguns séculos de euforia do projeto baconiano e prometeico, “segurar as rédeas” do progresso galopante, recorrendo-se à ética, deve ser visto como uma preocupação inteligente e uma ação de decência em relação aos descendentes, pois caso não o façamos a natureza o fará de modo terrível (PR, p. 237).

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Petter Sloterdjik, em 1999, apresenta a conferência intitulada Regras para o parque humano: uma resposta a carta de Heidegger sobre o humanismo. Afirma o pensador na tentativa de recontextualizar o humanismo heideggeriano que o “esquecimento do ser” fora substituído na contemporaneidade pelo “embrutecimento do ser” decorrente do estabelecimento midiático da cultura de massas com a utilização das mídias inibidoras e desinibidoras. Para ele, esse embrutecimento ocorre “(...) quando há grande desenvolvimento do poder, seja como rudeza imediatamente bélica e imperial, seja como bestialização cotidiana das pessoas pelos entretenimentos desinibidores da mídia” (2000, p. 17).

35 Michel Serres, em sua obra O contrato natural, afirma que os Contratos Sociais e a própria Declaração

Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão ignoraram a natureza como algo vivo, o que impediu “a guerra de todos contra todos”, mas não impediu “a guerra de todos contra tudo”. Desse modo, para o autor, torna-se urgente afirmar um novo pacto, que ele intitula de Contrato Natural, a fim de que a natureza possa ser vista como algo vivo e como um sujeito que interage, para reestabelecer o equilíbrio entre a humanidade e o planeta (1990, p. 56).

No entanto, na medida em que teoria e prática, no conceito de progresso da modernidade uniram-se, todo esse processo foi dificultado, pois se trata de colocar uma “valoração moral” à técnica sem impedir a liberdade do processo científico. Afirma Comín na introdução da obra Más cerca del perverso fin y otros diálogos y ensayos que “a ciência não é inocente justamente porque a fronteira que separa a teoria da investigação prática e de sua aplicação diluiu-se na modernidade” (CPF, p. 25). Visa-se desse modo, harmonizar o desenvolvimento científico com os avanços tecnológicos em vista de um progresso verdadeiramente humano, progresso este que permita articular o sentido humano com o respeito à história.

Herdamos da Ilustração a ideia de que o progresso técnico e científico proporcionará o desenvolvimento econômico, material e consequentemente o bem estar da humanidade. No entanto, denuncia Jonas, essa prática desenvolvimentista tem ameaçado a continuidade da vida humana e extra-humana no futuro de modo autêntico, o que torna urgente uma revisão dessas categorias. Uma mudança de política, por sua vez, está diretamente ligada às decisões das políticas científicas e tecnológicas, por isso da opção de Jonas por uma ética de caráter público mais do que privado para assegurar o amanhã. Embora o otimismo pelo progresso desenfreado da atualidade tenha nos proporcionado a realização dos desejos mais ambiciosos, sua política não garante um futuro autêntico, o que torna a responsabilidade jonasiana uma necessidade urgente. O imperativo categórico da técnica em que “deve-se fazer tudo o que se pode fazer”, esconde um cego determinismo que empurra para frente sem pensar nos riscos e perigos que se evidenciam.

Atualmente, pode-se dizer que todos os ramos das ciências naturais recorrem à utilização técnica. Desse modo, as ciências perderam seu caráter puro e teórico. Assinala Jonas que

hoje em primeiro lugar a ciência vive em grande medida um feedback intelectual que lhe dá precisamente sua aplicação técnica; (...) dessa relação formam-se os mandatos que indicam a direção que se deve buscar as saídas para resolver os problemas; (...) e para alcançar a solução e seu próprio desenvolvimento utiliza-se de uma técnica avançada (...); nesse sentido, até a ciência mais pura tem uma participação nos benefícios da técnica, igual à que a técnica tem com a ciência; (...) os custos dos equipamentos físicos e de sua operação são trazidos de fora com investimentos públicos e privados (...) produzindo naturalmente a expectativa de algum benefício posterior no terreno prático (TME, p. 68-69).

Desse modo, a liberdade exigida pela ciência natural fica cada dia mais comprometida, pois os interesses externos acabam por determinar a aplicabilidade do

conhecimento. Frente a essa dependência, Jonas, na obra Técnica, medicina y ética, alerta que

a técnica passou para as mãos dos interesses comerciais e industriais, e estes são mais inescrupulosos do que os cientistas; por sua vez cientistas menos sensibilizados tornaram-se empresários para a distribuição lucrativa dos produtos de sua investigação, o que faz da investigação tornar-se oficialmente um assunto de mercado (TME, p. 74).

Essa relação entre ciência, técnica e mercado exige segundo Jonas, uma nova reflexão, de modo que a instrumentalização da investigação em vista ao êxito econômico, não exclua a dimensão ética, pois dela depende a continuidade da sobrevivência autêntica da vida. Afirma Jonas que “a maioria dos grandes problemas éticos da moderna civilização tecnológica estão envolvidos com a política pública” (TME, p. 178), tema esse que será tratado na terceira parte da pesquisa. Buscando superar o individualismo e o antropocentrismo das éticas tradicionais, Jonas recorre ao princípio da política como o espaço de transformação, isto é, diante da magnitude do novo poder, busca-se uma saída além do indivíduo, ou seja, nas políticas públicas e nas legislações gerais, afim de que estas possam garantir a prática do novo imperativo (PR, p. 49).

Em grande parte esses problemas tratam da sobrevivência, mas envolvem também decisões muito sutis, como a questão dos experimentos genéticos. Com isso, para controlar, regular ou proibir certas decisões e certas práticas, a decisão compete muito mais à esfera da política do que da sociedade privada. Em outras palavras, na maioria das vezes a pergunta moral que temos que nos fazer, não é tanto, como devo guiar minha vida de forma sensata e decente, mas o que podemos fazer para que no futuro continuem existindo possibilidades de existência autêntica.

Os efeitos da ação tecnológica têm alcançado dimensões planetárias e suas consequências se estendem para o futuro. O poder tecnológico aumentou a capacidade de intervenção sobre o meio ambiente, sobre os poderes de criação e destruição, alterando desde as estruturas genéticas dos seres vivos até os grandes ciclos do planeta. Para Jonas, a ampliação do poder humano em consequência do poder da técnica, exige uma responsabilidade ética na mesma proporção, ou seja, quanto maior o poder, maior terá que ser a responsabilidade.

A consciência do perigo presente no poder tecnocientífico exige uma nova forma de pensar a realidade atual. Na obra Técnica, medicina y ética, Jonas analisou alguns dos riscos presentes na engenharia genética e na biotecnologia, e na obra O princípio

responsabilidade tratou de preservar a liberdade e a dignidade do homem, defendendo a

integridade de seu mundo e de sua espécie frente aos abusos do seu próprio poder. Em seu prefácio afirma que

o Prometeu definitivamente desacorrentado, ao qual a ciência confere forças antes inimagináveis e a economia o impulso infatigável, clama por uma ética que, por meio de freios voluntários, impeça o poder dos homens de se transformar em uma desgraça para eles mesmos (PR, p. 21).

O aumento do poder da ação humana, potencializada pelo poder tecnológico, e estimulada pela ideia de progresso, mudou a força e a intenção de nossas ações, o que exige a necessidade de um novo paradigma ético, fundado na responsabilidade, para fazer frente a esse excessivo poder humano. O desenvolvimento do poder tecnológico ampliou a ação humana, mudando a essência das nossas ações. É justamente por causa dessa mudança que se exige um novo paradigma ético baseada na responsabilidade36.

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