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Les tumeurs nerveuses : (1-15-18-73)

RAPPEL ANATOMIQUE RAPPEL ANATOMIQUE

E) DIAGNOSTIC DIFFÉRENTIEL :

1) Les tumeurs nerveuses : (1-15-18-73)

O grupo Brasil Tropical foi criado por Camisa Roxa, conhecido aluno de Mestre Bimba, que durante anos dinamizou as atividades internacionais, tendo levado uma quantidade significativa de capoeiristas para fora do Brasil nos seus shows. A capoeira, é claro, era apenas parte do menu exótico de danças e performances a realizar pelos grupos, em que se incluíam o samba, o maculelê e o candomblé. Um dos mais importantes grupos folclóricos da Bahia, se não mesmo o mais importante no processo de transnacionalização da capoeira, foi o grupo Viva Bahia, criado em 1962 pela professora e etnomusicóloga Emília Biancardi. O processo de espetacularização e mercadorização das danças e rituais da cultura negra baiana, no âmbito no grupo Viva Bahia, passava por uma larga pesquisa e pelo contacto em cursos e formações com figuras de renome da cultura popular. Entre elas estavam Mestre Pastinha e João Grande na capoeira, Neuza Saad na dança, Dona Coleta de Omolu nas danças do Candomblé, Senhor Negão de Doni para os toques e ritmos do candomblé e Mestre Canapum na Puxada de Rede. Mestre Popó do Maculelê, com a dança jogo de paus do maculelê, foi determinante na presença do grupo e foi das primeiras vezes em que essa manifestação foi mostrada para um público mais alargado. Segundo informações colhidas junto ao sítio da web oficial da professora Emília 18, muitos capoeiristas passaram pelo grupo, tais como Bom Cabrito, Cabeludo, António Diabo, Manuel Pé de Bode, Amém, Lorenil, Jelon, Boca Rica e Camisa Roxa. As viagens do grupo ocorreram

99 por toda a América do Sul, EUA, Médio Oriente e África. As apresentações foram patrocinadas por instituições do Estado como o Ministério das Relações Exteriores e a BAHIATURSA, para além de convites para festivais e performances patrocinadas por empresários.

Os grupos folclóricos constituíram o primeiro contacto que muitos tiveram com a capoeira. Além disso, muitos dos capoeiristas que integraram os espetáculos como Jelon Vieira e Lorenil, pioneiros nos Estados Unidos, entre outros, acabaram por residir nos países onde o grupo realizou as suas performances. Alguns dos quadros que constituíam o espetáculo do grupo, como as danças e as percussões, figurariam como elementos do pacote de aprendizagens a serem vendidas no âmbito dos grupos de capoeira fora do Brasil. É interessante que se perceba o grau de importância desses grupos na constituição da capoeira como produto para exportação. Apesar de apresentar quadros performáticos similares, os processos de aprendizagem e aperfeiçoamento eram bem diferentes, bem como a maneira como se quereria mostrar o produto final, em forma de espetáculo. Acresce ainda que o processo de comercialização bem como os objetivos comerciais obedeciam a lógicas diferenciadas, embora a finalidade última fosse vender a cultura afro-baiana.

É com os grupos folclóricos que se inicia um processo de turistificação e mercadorização da capoeira, enquanto produto cultural comercial, o que poderá ter implicações, inclusive, na forma como se construiu o jogo, na sua plasticidade, estética e ritualidade, bem como na forma de o comercializar fora e dentro do Brasil. É relevante acrescentar que a capoeira, no contexto dos grupos folclóricos, não está sozinha. Ela aparece em conjunto com outras danças, sempre na tentativa de complementar e performatizar a etnicidade da cultura negra afro-baiana, atribuindo- lhe um exotismo, peculiar do negro afro-descendente no Brasil. Destaco o papel do corpo negro na performance da capoeira e das outras danças no âmbito dos grupos folclóricos. O corpo físico do negro, bem como os seus atributos simbólicos, eram, em última análise, o foco da atenção do espetáculo mais do que toda a construção cénica à volta dele.

100 Martinho Fiúza, dançarino e capoeirista, nasceu em 1952, na Bahia, e é também um dos pioneiros do ensino da capoeira na Europa. Martinho conheceu o Mestre Camisa Roxa, aluno de Mestre Bimba e empresário dos grupos folclóricos, em 1968 e dois anos mais tarde foi convidado pelo mesmo para integrar o grupo de dança por ele criado. Foi através dele que obtive algumas das informações mais importantes sobre os grupos folclóricos, um dos quais ele fez parte, bem como dos primórdios do ensino da capoeira fora do Brasil. Devo destacar a importância da entrevista que tivemos como um dos mais valiosos contributos para a compreensão da capoeira fora do Brasil, seja pelo facto de poder dar relevo à figura do mestre, cujo carisma e simplicidade são cativantes, seja pelo valor documental das informações que ele, gentilmente, me cedeu. Tomo a liberdade, nesta parte do trabalho, de destacar algumas extensas falas do mestre, julgo que elas são bastante pertinentes e constituem um deleite indiscutível:

Nasci em 1952 em Santanópolis, é depois de Feira de Santana e fui para Salvador novinho. Eu era da Escola de Samba Juventude do Garcia. Tive um grande nome nessa Escola de Samba, eu era destaque dessa escola. Tinha um rapaz no Bairro do Garcia que não era mestre de Capoeira que passava movimentos pra gente, o nome dele era Antônio. Lá no Garcia tinha um colégio onde ele passava alguns movimentos de capoeira pra gente, a gente sabia um pouco mas não era suficiente, mas não era como pessoal do Mestre Bimba. Mas a gente tinha um grupo de São João, de samba. No fundo, no fundo a gente tava envolvido nos grupos de dança, mas sem grandes oportunidades de fazer as danças profissionais.

Comecei a trabalhar com os grupos folclóricos em 1970. Na época em Salvador o nome Brasil Tropical não existia o nome era o Olodumaré. Tinha outros grupos: Olodumaré, Viva Bahia, Oxún e Afonjá, que eu lembro era esses quatro grupos. O programa do Olodumaré era muito bonito, até hoje ninguém conseguiu fazer. No Olodumaré era um grupo que só participava universitários. Em Salvador não tinha, para pessoas negras, nessa época, formação de danças. (…). Dentro da universidade só tinha balé clássico e moderno, as danças afro não tinha. Quem levou a grande influência afro pra lá foi o coreógrafo Domingos Campos. Para os shows eles (os grupos folclóricos) pegavam pessoas nativas que dançavam nas casas de candomblé, pegavam capoeiristas do mercado modelo, pra fazer a parte de capoeira, maculelê, puxada de rede, pegava também os ogãs para fazer a parte de ritmos. Esses grupos, naquela época, tinham cerca de vinte cinco a trinta pessoas. O grupo Olodumaré no Brasil foi o único grupo que eu participei e eu acho que não participaria nem um outro grupo. Isso aí era pra gente como um torcedor de futebol. Vendo assim o programa do Olodumaré e estilo de capoeira que eles jogavam eu gostei muito, pra mim naquela época era o melhor que havia.

O grupo Olodumaré, as pessoas que fretavam o grupo eram universitários. Mais Camisa Roxa, ele queria profissionalizar o grupo Olodumaré. Por que era mais hobby, então ele queria profissionalizar. Na época o grupo estava ensaiando o

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espetáculo Furacões da Bahia e ele conversou com todo mundo e maioria não concordou. “- Olha seu Camisa estou estudando e vou deixar o grupo”. Ninguém ia deixar de estudar pra ficar em um grupo. Mas outros como eu, Jacinto o Gato, filho antigo Mestre Gato, Flecha, Roberto Montenegro, Jorge Magalhães e outros que eu não lembro e um grande número de meninas, alguns delas estavam estudando e disse vou aventurar. O Camisa contratou um coreógrafo que se chama Domingos Campos. O mestre conheceu esse coreógrafo e ganharam um festival em Buenos Aires. Esse coreógrafo foi pra Salvador e Camisa Roxa alugou uma sala no Teatro Castro Alves e esse coreógrafo ele foi pra lá Salvador só pra dar aulas à gente. O ensaio era o ano todo, ensaio e aula, não era só ensaio. O nome do grupo era Olodumaré apresentando o espetáculo Furacões da Bahia. Fomos a primeira geração de dançarinos negros com formação em dança. Em 1972 o grupo tava profissionalizado e aí Camisa Roxa conseguiu uma apresentação pró Presidente Garrastazu Medici.

Aí um empresário Europeu, ele vivia em Viena, mas pelo que sei ele era húngaro, mas antes da Segunda Guerra, os pais dele fugirem pra América e ele fugiu pró Brasil e se chamava Miecio Askanasy. Depois quando acabou a Segunda Guerra Mundial ele descobriu um novo mercado de trazer grupos pra Europa. O primeiro grupo que ele trouxe pra Europa se chamava Brasiliana, foi o primeiro grupo brasileiro na Europa. Era um grupo montado só com cariocas. Então ele acabou com o grupo Brasiliana, por que o grupo brasiliana era baseado no samba, o candomblé não era candomblé era macumba. Então ele viu o programa dos Furacões da Bahia que era totalmente diferente e contratou a gente. (Depoimento do Mestre Martinho Fiúza, junho, 2013)

Na fala do Mestre Martinho pode visualizar-se um homem negro, simples, vindo das camadas populares dos bairros de Salvador. Alguém que estava muito envolvido com a cultura popular afro-brasileira e que a vivia com muita intensidade. A dança, assim como a capoeira, apareceram-lhe como um trampolim social, uma saída para as dificuldades económicas, bem como contra a descriminação que se vivia e ainda persiste nos nossos tempos. Outro aspeto relevante do seu discurso é a constatação da existência de um mercado mundial de consumo de produtos culturais no qual o Brasil tentava inserir-se. Sabe-se que os anos 60 e 70 foram anos difíceis para o Brasil, pois estava em plena ditadura militar. Contudo, a cultura popular brasileira gozava de plena vitalidade e era ovacionada e exaltada pela intelectualidade cultural de esquerda que exorcizava com temor tudo o que não fosse nacional, puro e autêntico. Pois era precisamente essa autenticidade que se buscava lá fora, uma sede tremenda por culturas exóticas, que facilmente se pôde encontrar na pele negra e no despojar das danças dos afro-brasileiros, algumas com um certo grau de erotismo até. É interessante constatar como as pessoas ligadas à cultura popular, ainda que vindas de classes sociais com melhores oportunidades, caso do Mestre Camisa Roxa, tenha tido essa visão mais ampla da realidade cultural do Brasil, pensando-a como um

102 produto, exportável, rentável e apetecível a novos públicos. A certa altura da narração, o mestre reporta-se à profissionalização do grupo folclórico, tendo em conta não ainda a sua exportação para o exterior, mais sim a sua rentabilidade económica no Brasil. A esse respeito, ele refere que alguns jovens pertencentes ao grupo não ficaram no mesmo, tendo uma certa parcela dos participantes decidido “aventurar-se”.

De facto, pode pensar-se que esses jovens negros agarravam-se a uma aventura incerta, na medida em que não sabiam onde ela os levaria. Contudo, a incerteza jogava com o desejo de extrapolar as cercanias do espaço baiano, chegar aos palcos e brilhar, bem como encontrar um meio de subsistência e ascensão social. Como se verá, o ritmo de ensaios e a dinâmica interna do grupo não era nada fácil. Outro aspeto importante desse excerto da sua fala é a relação de pertença ao grupo, reafirmada inúmeras vezes durante a nossa conversa. Uma pertença que fazia do grupo um espaço coletivo de vivências intensas.

No Rio de Janeiro a gente ensaiava dentro da sede do Flamengo. Era o seguinte: a vida era muito dura. A gente tinha o espetáculo às oito horas da noite, fosse onde fosse, só depois dos espetáculos a gente podia fazer o que quisesse. Mas às oito horas da manhã a gente tinha que estar na sede do Flamengo e começava aulas e ensaios, das oito da manhã às cinco da

tarde. Era muito

puxado, meio-dia

parava, almoçava,

depois começava de novo, muita disciplina.

O empresário

contratou o grupo em finais de 1972 e mudou para Brasil Tropical (nome do grupo e do

espetáculo) para a

Europa. Quando nós voltamos do Rio para Salvador, já voltamos com o programa Brasil Tropical que ia ser apresentado na Europa.

Nós voltamos pra

Salvador pra mostrar à acrioulada baiana que eles também podiam ter uma formação de dança como a gente. Em março de 1973, nos despedimos de Salvador e saímos para a Europa. A gente foi morar na Alemanha. A gente morava no Hotel Stadt Berlin na DDR (República Democrática Alemã ou Deutsche Demokratische Republik). Fizemos uma grande turnê

Figura 2. Apresentação do grupo Brasil Tropical nos anos 70. Arquivo fotográfico de Martinho Fiúza.

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na DDR. Nós trabalhamos naquela época nos países do leste, primeiro na Alemanha Oriental, Polónia, Hungria, Jugoslávia e Checoslováquia em 1973. Todos países comunistas. Enquanto nós viemos para a Europa com um programa cultural comercial, o Viva Bahia (grupo Folclórico organizado pela Professora Emília Biancarti) só saía do Brasil pra Festivais de Dança na Europa, são duas coisas diferentes. Eles faziam o festival de dança e voltavam pró Brasil. A gente não, ficamos sempre na Europa.

A gente apresentava uma parte do espetáculo que se chamava navio negreiro. A saída dos escravos da África para o Brasil, depois vinha o lundo, depois vinha o maculelê, depois vinha a puxada de rede, mas sempre tinha intervalos, de um cantor, um ritimista, um percussionista, que era para as pessoas mudarem a roupa, aí fechava a primeira parte com um samba de roda. Antes do samba de roda acontecia a capoeira. Então vinha um número alegre que era a capoeira com o samba de roda. Os europeus que nunca tinham visto eles ficavam assim (…) nem sei ti explicar como eles ficavam. Depois eles tentavam perguntar pra gente o que era aquilo, de onde vinha. A capoeira foi sempre muito bem aceite na Europa. Se não fosse assim ela não crescia na Europa. O show no total durava duas horas e dez minutos. A gente tinha no nosso grupo muitas coisas, maracatu, samba e outras coisas. Mas quando o pessoal pedia pra gente mostrar algo a gente mostrava a capoeira. A gente queria sempre fazer publicidade de todo o Brasil, mas a capoeira era em primeiro lugar. (Depoimento do Mestre Martinho Fiúza, junho, 2013)

Apesar de curiosamente o grupo ter como base a Alemanha Oriental, o Brasil Tropical realizou excursões por toda a Europa e o Médio Oriente. Não consegui apurar o porquê da base do grupo situar-se no território da Alemanha Oriental nem o porquê da facilidade com que o grupo percorria os países comunistas do leste. Mestre Marcos China, um dos pioneiros do ensino da capoeira na Europa, também fez ocasionalmente excursões com o Brasil Tropical e levanta algumas questões interessantes:

Neste espetáculo do Brasil Tropical sempre teve capoeira e tinha lugar importante nesse show. Eles rodavam o mundo, na Coreia, no Havai, dois ou três meses, era sediado na Europa, mas passavam pra fazer um show e não uma temporada grande. O fato das pessoas verem a capoeira impressiona bastante. A Europa do Leste, onde eles estavam no início, era um mercado virgem, o pessoal não tinha acesso a nada do lado de lá da cortina. Como era um grupo de brasileiros sediado na Europa, ficava barato contratar esse show. Era um mercado carente, até por questões políticas muita gente não se apresentava nos países comunistas, americano não ia lá se apresentar de jeito nenhum.

Figura 3. Apresentação do grupo Brasil Tropical nos anos 70. Arquivo fotográfico de Martinho Fiúza.

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O Brasil sempre foi um país muito neutro, acolhedor, jovem, politicamente não se metia em guerra, não tinha conflito com vizinho. Era um país do mundo capitalista, mas que não era uma potência, daí se tornava interessante. Eu fiz um trabalho com eles no Brasil Tropical, no Casino Palm Beach, no Sul da França, mas foi muito rápido. Em 1985 o Brasil Tropical tinha três grupos no mundo. Quando chegava no verão tinha muita demanda e o Camisa Rocha formava um novo elenco pra atender uma outra demanda. Um dos grupos era fixo, os outros era de gente que morava na Europa e trabalhava no verão. Muita gente que trabalhava no Brasil Tropical, na Europa, saiu do grupo e ficou morando na Europa como artista independente. (Depoimento do Mestre Marcos China, outubro, 2013)

Contudo, sabe-se que, no imaginário das sociedades comunistas do leste europeu, o mundo latino-americano era um território que produzia uma cultura alternativa ao imperialismo americano e como tal de cunho libertário. O negro brasileiro representava o exotismo, a liberdade dos trópicos exibida através da sensualidade dos corpos de pele escura. Como o Mestre fez questão de afirmar, a capoeira era o carro chefe da festa e, em ocasiões em que ocorriam performances bem menores, era ela o centro das atenções. Curiosamente o espetáculo trazia um conjunto de danças que até hoje são apresentadas nos eventos de capoeira em que os alunos performatizam principalmente o maculelê, a puxada de rede e o samba de roda. É possível que todo esse repertório de danças tenha sido incluído no pacote de demonstrações dos eventos de capoeira por ocasião da formação dos grupos folclóricos, embora, no universo da cultura negra, alguns capoeiristas estivessem familiarizados com estas práticas populares. De facto, não se pode negar a importância desses grupos na divulgação da capoeira fora do Brasil. A esse respeito Martinho Fiúza arremata:

O grupo Brasil Tropical abriu as portas pra capoeira dentro do Brasil e na Europa. Tem alguns mestres de capoeira por aí que fala que a capoeira entrou mau na Europa por causa dos dançarinos. Agora eu pergunto: Se não fosse os dançarinos como apresentaria a capoeira na Europa? Nós os dançarinos tivemos a oportunidade de apresentar a capoeira todas as noites, todos os dias para milhares de pessoas, qual mestre teria a oportunidade como essa? (Depoimento do Mestre Martinho Fiúza, junho, 2013).

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