Conhecer a trajetória da Filosofia da Educação na licenciatura em Pedagogia da UEPG, mesmo que sinteticamente, permite compreender melhor a tese de Sacristán (2008), de que currículo demanda processo. “O importante deste caráter processual é analisar e esclarecer o curso da objetivação e concretização dos significados do currículo dentro de um processo complexo no qual sofre múltiplas transformações” (SACRISTÁN, 1998, P. 103).
A presença da Filosofia no curso de Pedagogia da UEPG data de 1962, primeiro ano do curso. Conforme dados do Relatório das Atividades Desenvolvidas, naquele momento, a matéria Filosofia da Educação abrangia a disciplina História da Filosofia. Nesta disciplina foram contemplados estudos sobre o conceito de Filosofia, os problemas filosóficos e a
história da Filosofia. Em relação à história, abrangia estudos sobre Filosofia Antiga, Filosofia cristã, Filosofia Moderna e Filosofia Contemporânea (FEFCL, 1962).
Em 1963, a disciplina História da Filosofia foi mantida para a 1ª (primeira) série do curso de Pedagogia com o mesmo programa. Na 2ª (segunda) série teve início a disciplina Filosofia da Educação, na qual os acadêmicos estudavam sobre as relações entre Filosofia e Pedagogia, também faziam a apreciação geral das filosofias educacionais em Platão, Michel de Montaigne e John Locke. Por fim, sabe-se que os estudos de Filosofia da Educação tinham como fundamento a leitura e estudo de textos sobre Jean-Jacques Rousseau e o naturalismo pedagógico, John Dewey e o pragmatismo, Porter e a pedagogia do caráter, Benjaminn Kidd e a Filosofia da Educação.
No ano 1964 foram mantidas as disciplinas História da Filosofia e Filosofia da Educação. “Elaborou-se o nôvo Currículo do curso de Pedagogia, em virtude do antigo apresentar cadeiras em excesso e denominações impróprias” (FEFCL, 1964), mas ele entrou em vigor somente no ano seguinte porque já havia 4 (quatro) séries no Mapa demonstrativo das aulas (FEFCL, 1964), para 1965.
Desde modo, em 1965, a disciplina era denominada Filosofia da Educação para as 2 (duas) séries, mas com programas diferentes. Na 1ª (primeira) série o foco estava nas noções gerais de Filosofia. Segundo dados obtidos no Relatório da FEFCL (1965), a disciplina era trabalhada em perspectiva histórica, com breve estudo sobre o pensamento filosófico e o surgimento da Filosofia, alguns filósofos, as áreas da Filosofia (Lógica, Filosofia Especulativa e Filosofia Prática) e a questão da Filosofia no Brasil. Na 2ª (segunda) série manteve-se o programa trabalhado na disciplina nos anos de 1963 e 1964.
Em 1972 aconteceram mudanças no curso em função da Lei n° 5.540/1968 e do Parecer CFE n° 252/196941. Dentre as disciplinas fundamentais do currículo mínimo estava a matéria Filosofia, para a qual constava a disciplina Filosofia I (código 333013, Anexo E), com carga horária de 45 (quarenta e cinco) horas/aula. Ocorreu oferta semestral de Filosofia II (código 333023, Anexo F), Filosofia III (código 333034, Anexo G) e Filosofia IV (código 333044, Anexo H), com carga horária de 75 (setenta e cinco) horas/aula cada. Foram formulados novos programas para as mesmas.
O programa de Filosofia I compreendia o estudo do conceito de Filosofia e os objetivos do estudo; as formas de conhecimento; divisão da Filosofia (noções de Lógica, Metafísica, Epistemologia, Ética, Estética, Filosofia da Natureza); origem e objetivos de
41 Para esclarecimentos sobre a Lei n° 5.540/1968 e sobre o Parecer CFE n° 252/1969, indica-se retomar a seção
Filosofia; a presença da Filosofia na universidade; o pensamento filosófico em perspectiva histórica (Antiguidade Oriental e Clássica, Medievo, Modernidade e Idade Contemporânea); conceito do Ser.
Os estudos em Filosofia II eram sobre origens, características, principais representantes e aplicação na Educação em relação ao Naturalismo (a obra escolhida foi Emílio, de Jean-Jacques Rousseau) e do Pragmatismo, ao Socialismo (nacionalismos, origens, formas conhecidas, suas características e filosofias que os sustentam) e ao Cristianismo (também sua filosofia de vida, a história e o mito, o conceito do homem).
Em Filosofia III, os estudos estavam voltados às problemáticas do mundo daquele momento histórico e à carência da Filosofia; em relação às mudanças educacionais, fundamentava-se na leitura e interpretação do texto Educação para uma civilização em mudança, de W. Kilpatrick; conceitos de homem, educação, valores e vocação.
Em Filosofia IV, o programa abrangia (como em Filosofia I) o conceito de Filosofia, mas, neste período, acompanhando o tempo cronológico. No entanto, é interessante notar que os autores citados para estudo são somente Heráclito e Karl Jaspers. Estudava-se ainda a ideia de Filosofia enquanto ensino ou iniciação; os vários tipos de conhecimento (novamente); problemática entre conceito e existência; as origens da Filosofia (objetivos da Filosofia, a Filosofia contemporânea, o nihilismo); linguagem; o ser humano: o masculino, o feminino. Também ficaram definidas leitura e interpretação de texto acerca do personalismo, em Emanuel Mounier.
Conforme dados do Relatório das Atividades Desenvolvidas (FEFCL, 1975), a partir do ano 1975 havia indicação de bibliografia para Filosofia I, II, III e IV (o que não constava em Relatórios anteriores). Segundo dados do mesmo Relatório, o programa da disciplina Filosofia IV foi modificado. No entanto, chama atenção o fato que, no Catálogo Geral dos cursos de 1975, não teve mudança do código da disciplina. A nova organização dos conteúdos ocorreu em torno da leitura e interpretação de textos. Outra mudança ocorrida foi a diminuição da carga horária de Filosofia II de 75h/aula para 45h/aula.
No ano seguinte, 1976, novamente a matéria Filosofia da Educação passou por modificações: a disciplina Filosofia (II, III e IV) cedeu lugar à Filosofia da Educação que, conforme o período em que ocorria, era denominada Filosofia da Educação I (código 333023), Filosofia da Educação II (código 333034) e Filosofia da Educação III (código 333044). O programa de Filosofia III foi mantido para Filosofia da Educação II, e o programa de Filosofia IV, para Filosofia da Educação III. A carga horária de 1975 foi mantida, mas os programas das disciplinas não.
Em Filosofia I ocorria uma introdução à Filosofia. Os acadêmicos estudavam acerca do conceito, origem e objetivos da Filosofia na universidade. Também a evolução do pensamento filosófico e noções de Lógica, Metafísica, Epistemologia, Ética, e Filosofia da Natureza. Os estudos de Filosofia da Educação I envolviam noções de Filosofia da Educação, a presença da Filosofia no século XIX, correntes filosóficas (naturalismo, individualismo, socialismo, pragmatismo, existencialismo) e seus reflexos na educação. Na sequência, cursava-se Filosofia da Educação II, na qual eram feitos apontamentos de Antropologia Filosófica e, também, estudos sobre métodos, valores, ideologias e fins da educação. Em Filosofia da Educação III tratava-se de educação permanente, do processo político da educação e das tendências educativas da educação brasileira.
Em 1980, o currículo manteve as mesmas matérias, disciplina e programas, mas a carga horária diminuiu. Ficou organizado do seguinte modo: Filosofia I com 45 (quarenta e cinco) horas/aula, Filosofia da Educação I, II e III com 60 (sessenta) horas/aula cada uma. Tal estrutura permaneceu até 1989, quando ocorreu a mudança do nome para Curso de Licenciatura em Pedagogia e Habilitações, a alteração de carga horária e outros. A disciplina Filosofia, referente à matéria Filosofia, manteve inalterada até 1989.
Com o fim do ano letivo 1989, as disciplinas Filosofia I e Filosofia da Educação I, II e III deixaram de existir. A partir de 1990, na parte comum do currículo, a matéria Filosofia da Educação compreendia as aulas de Filosofia da Educação (código 501024, Anexo I) e Filosofia da Educação brasileira (código 501028, Anexo J), com 136 (cento e trinta e seis) horas/aula e 102 (cento e duas) horas/aula, respectivamente. Com a reformulação do curso, os Programas de Filosofia da Educação, que tiveram início no ano letivo de 1990, foram mantidos até o final do ano letivo de 2006, conforme Ofício n° 06/1991(UEPG, 1991).
O programa da disciplina Filosofia da Educação estava organizado em 3 (três) grupos de conteúdos. O 1° (primeiro) abrangia discussões a respeito de Filosofia, Pedagogia, Educação, Filosofia da Educação e Ciências da Educação. Ainda neste grupo eram realizadas reflexões preliminares sobre o homem como sujeito histórico e sobre a Filosofia da Educação enquanto elucidação da prática pedagógica. No 2° (segundo) grupo de conteúdos, os acadêmicos estudavam acerca de ideologia e contra-ideologia, educação e valores, educação especial, formas de entendimento e atendimento e, por fim, filosofias de trabalho dentro da Educação Especial. Em relação ao 3° (terceiro) grupo de conteúdos, constavam estudos de antropologia.
Na 2ª (segunda) série do curso de Pedagogia, as discussões em Filosofia da Educação brasileira envolviam 2 (dois) grupos de conteúdos. O 1° (primeiro), como introdução à
Filosofia da Educação, tratava da Educação enquanto objeto da reflexão filosófica e da Filosofia da Educação como processo de reflexão. Na sequência, estavam as diferentes concepções de Filosofia da Educação, o que envolvia: justificativas de uma classificação, a concepção humanista tradicional de Filosofia da Educação (laica e religiosa), a concepção humanista moderna de Filosofia da Educação (bases e consequências pedagógicas), a concepção crítico-reprodutivista (influências do estruturalismo e marxismo), a concepção histórico-crítico de Filosofia da Educação (fontes e principais manifestações) e a Filosofia da Educação no contexto brasileiro.
Nos anos 1993, 1998, 1999 e 2000, várias alterações ocorreram no curso de Pedagogia da UEPG, mas sem mudanças para a disciplina Filosofia da Educação. Somente em 2006 a disciplina teve alteração: ocorreu a diminuição da carga horária de Filosofia da Educação, de 136 (cento e trinta e seis) para 102 (cento e duas) horas/aula, e de Filosofia da Educação brasileira de 102 (cento e duas) para 68 (sessenta e oito) horas/aula, mas foram mantidos os programas de 1990.
Em 2007, um novo currículo teve início para o curso de Pedagogia (currículo 1). Nele, a Filosofia da Educação mudou com novos programas. Neste currículo, os conteúdos de Filosofia da Educação (código 501182, Anexo K) e Filosofia da Educação brasileira (código 501183, Anexo L, com a ementa) foram novamente estruturados na perspectiva histórica da Filosofia – o que ocorreu no currículo válido entre os anos 1972 a 1979, com as disciplinas Filosofia I, Filosofia II, Filosofia III e Filosofia IV. Ainda, convém destacar que a bibliografia voltou a ser indicada no Programa da disciplina.
A estruturação dos conteúdos de Filosofia da Educação compreendeu uma introdução à Filosofia. Em relação à Filosofia da Educação na Antiguidade, estudava-se sobre os pré-socráticos, Sócrates, os Sofistas, Platão e Aristóteles. Na sequência, a Filosofia da Educação na Idade Média tratava de estudos sobre Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Em relação à Modernidade, constavam investigações sobre o pensamento moderno, a ideia de modernidade, fatos que marcaram o tal período histórico e as correntes filosóficas que influenciaram na Educação. Por fim, a Filosofia da Educação na contemporaneidade abarcava as investigações do século XX, enquanto herança e ruptura com modernidade.
Em Filosofia da Educação brasileira, os acadêmicos tinham seus estudos direcionados à educação enquanto objeto da reflexão filosófica. Posteriormente, estudavam diferentes trajetórias da filosofia da educação no Brasil e as referências filosóficas em debate na educação do Brasil contemporâneo; também fins e valores da Educação. Constavam também discussões sobre Filosofia, educação e cidadania e a contribuição da Filosofia para a
democratização do saber e, por fim, pedagogias incipientes e a busca dos fundamentos filosóficos.
No decorrer do ano 2012, nova proposta curricular foi elaborada e, para o ano letivo de 2013, a Filosofia da Educação ganhou novos programas. Mesmo com a revisão da proposta curricular em 2014, os programas de Filosofia da Educação foram mantidos e valem ainda hoje. A estruturação do conteúdo será tratada na próxima seção.
Com a investigação realizada, identificou-se que os estudos iniciaram com a disciplina História da Filosofia (de 1962 a 1964). Na reformulação curricular para 1965 (que foi mantida até 1971), a disciplina tornou-se Filosofia da Educação, mas o trabalho com as relações Filosofia e Educação ocorre a partir de noções gerais e históricas da Filosofia.
De 1972 a 1989, a organização curricular tornou-se semestral, e a disciplina compreendia 4 (quatro) períodos: primeiramente, de 1972 a 1979, com Filosofia I, II, III e IV; na sequência, de 1980 a 1989, com Filosofia I e Filosofia da Educação I, II e III. Os estudos sobre Filosofia da Educação estavam fundamentados e permeados pela história da Filosofia. Uma diferença em relação ao currículo anterior é que as correntes filosófico-educacionais foram bem definidas. De modo bem assinalado para estudo, constava a questão da leitura e interpretação de textos filosóficos, estava presente o estudo da Filosofia na Antiguidade Oriental Clássica (dentre todos os currículos, este foi o único momento em que constou) e estudo sobre valores (mantido neste e no próximo currículo).
O trabalho com a Filosofia da Educação em perspectiva histórica mudou após 1989. Para o programa que fundamentou o trabalho dos professores de 1990 até 2006, podem-se citar as seguintes mudanças: não havia mais a perspectiva histórica da Filosofia; as disciplinas não eram mais semestrais; os estudos de Filosofia da Educação foram organizados em Filosofia da Educação e Filosofia da Educação brasileira; na estruturação do conteúdo manteve-se um tópico específico sobre valores como uma proposta filosófico-pedagógica, juntamente com análise de formas comportamento das crianças e jovens, e educação especial; em relação à Filosofia da Educação brasileira, estudos acerca de concepções filosófico- educacionais estruturadas no Brasil.
Em 2007, o currículo 1 (um) manteve os nomes Filosofia da Educação e Filosofia da Educação brasileira, mas voltou a perspectiva histórica da Filosofia para fundamentar os estudos de Filosofia da Educação – na 1ª (primeira) série, por exemplo, a estruturação do conteúdo aconteceu em torno da Filosofia da Educação nas Idades Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea.
No currículo seguinte (trata-se do currículo 2, válido a partir do ano letivo 2013), tal perspectiva foi mantida, mesmo com a mudança de Filosofia da Educação brasileira para Filosofia da Educação II. A diferença é que, na 1ª (primeira) série, estão os períodos Antigo, Medieval e Moderno e, na 2ª (segunda) série, retoma-se a Modernidade para, então, estudar sobre Filosofia da Educação a partir das ideias de contemporaneidade e pós-modernidade.
Na sequência, estão expostas informações pontuais sobre a disciplina Filosofia da Educação partindo da reforma curricular válida a partir do ano letivo 2013, e já revisada posteriormente. Trata-se do documento chamado currículo 2 (dois), hoje o único a ser utilizado pelos professores do curso de Pedagogia da UEPG.
3.3.2 O currículo apresentado aos professores no contexto das reformas curriculares