Era maio e algumas lideranças ciganas se movimentavam entre Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, semana que engloba o dia 24, no ano de 2012, mais especificamente entre uma terça-feira e uma quinta-feira. Estava eu, a convite de alguns ciganos, enquanto pesquisador, acompanhando os ciganos de Pernambuco e do Paraná vinculados a ACIPE e a APRECI-PR em uma reunião de audiência pública na capital brasileira e, logo em seguida no Rio de
Janeiro em outra audiência. Essas audiências foram propostas para problematizar e esclarecer as situações de discriminação relatadas pelos ciganos e apontar sugestões de políticas como propostas para um regime de respeito aos ciganos com uma aplicabilidade nacional.
As audiências se deram entre representantes dos poderes estabelecidos e os ciganos em suas representações por meio das lideranças que apresentavam e discutiam as demandas para formular direitos específicos ou pedir de forma mais intensa a garantia dos já existentes para o grupo.
Em 2012, o “Dia Nacional do Cigano”, no Rio de janeiro, foi celebrado com a realização de uma Plenária: “Políticas Públicas e Povos de Cultura Cigana”, ocorrida no dia 25 de maio. Para essa atividade, coordenada pela SEPPIR, estavam presentes 34 lideranças ciganas das Regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, pertencentes aos grupos e subgrupos étnicos Calon, Matchuaia, Rorarranê, Calderaxa e Sibiaia.
Como representantes do Governo Federal participaram: o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o Ministério da Educação (MEC), o Ministério da Cultura (MinC), o Ministério da Saúde (MS), a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Participaram, também, pesquisadores, em particular antropólogos, categoria na qual estava incluso, e representantes de movimentos sociais organizados, convidados a colaborar no diálogo e a narrar também suas experiências no campo da construção de políticas públicas.
A Plenária: “Políticas Públicas e Povos de Cultura Cigana” possibilitou a formação de um quadro a partir das necessidades e demandas por temas como saúde, educação, assistência social, benefício social e valorização cultural. Teve como ponto alto dessa plenária uma construção de uma visão mais fractal dos ciganos por meio de suas particularidades grupais e pelas vivências nas diferentes regiões do país.
A partir da plenária foi possível dizer que as atividades referentes à celebração do Dia Nacional do Cigano puderam ocorrer com um caráter de reflexão e diálogo sobre as necessidades de efetivação das políticas públicas em áreas diversas para o fortalecimento dos direitos dos grupos ciganos no Brasil.
Durante as reuniões, as assembleias, as apresentações culturais e as deliberações foi possível observar, anotar e refletir sobre tudo o que ocorria. Neste momento, fui instigado a refletir sobre a minha pesquisa e as pessoas tratadas nela. Fez ressonância a afirmação do antropólogo Laplantine, quando ao discorrer sobre alteridade proporcionada por meio da distância em relação a nossa sociedade para produção de conhecimento sobre nós e o outro,
diz: “aquilo que tomávamos por natural em nós mesmo é, de fato, cultural; aquilo que era
evidente é infinitamente problemático” (2005, p. 21).
A estratégia utilizada para os primeiros contatos com a associação pesquisada e os ciganos é o que nós qualificamos de “observação flutuante”. Essa estratégia de pesquisa etnográfica foi pensada por Colette Pétonnet (2008), uma antropóloga francesa que converteu o cotidiano em um vasto território de análise para observações sócio antropológicas.
Para esse cotidiano utilizo os apontamentos de DaMatta (1986), no ato de transformar o exótico em familiar e o familiar em “exótico”, para categorizar como objeto a ser estudado e de Gilberto Velho (1986, p. 39) quando diz “o que sempre vemos e
encontramos pode ser familiar, mas não é necessariamente conhecido e o que não vemos e encontramos pode ser exótico, mas até certo ponto conhecido.”.
A observação flutuante consiste em permanecer vago e disponível em toda a circunstância, em não mobilizar a atenção sobre um objeto preciso, mas em deixá-la “flutuar” de modo que as informações o penetrem sem filtro, sem a priori, até o momento em que pontos de referência, de convergências, apareçam e nós chegamos, então, a descobrir as regras subjacentes.
Esse procedimento foi essencial nas observações realizadas no primeiro momento para o contato com as associações ciganas por meio do uso das novas tecnologias da informação e da comunicação. Para inserção nos grupos até chegar a Associação de Preservação da Cultura Cigana em Curitiba no Estado do Paraná. Um outro momento que a utilizei foi na “Semana Nacional dos Ciganos no Brasil Cigano” em 2013.
Também realizei observações flutuantes durante o processo de coleta de dados por meio da netnografia ao entrar em sites, grupos de discussão e redes sociais onde estavam presentes as lideranças ciganas com quem estava em contato para ler o que estava sendo postado e, se alguma das informações encontradas seria usada em minha escrita como dado. Com os ciganos, principalmente nas reuniões em que participava junto com eles em diálogos com o Estado, via-os falar sobre o universo cigano e como a comunidade não cigana os ignorava enquanto cidadãos de direitos e portadores de uma identidade singular e, portanto, política.
Como aponta Pétonnet (2008, p. 100) “o poder revelador das outras sociedades
tende a lançar sobre a nossa um olhar diferente daquele da racionalidade.” E foi nessa
perspectiva que pude observar algumas questões interessantes no “entra e sai” do plenário enquanto ocorriam discussões, no conversar simultâneo da plateia durante os discursos
oficiais, o atender ao celular e o falar alto uns com os outros e com quem estava do outro lado da ligação.
A situação descrita para alguns poderia caracterizar o comportamento desses ciganos como típico dos povos peripatéticos, como o próprio Barth (2000) já o fez, contudo, o que ocorria eram os acionamentos das redes e as relações de pertencimento e importância dentro dessas redes nos assuntos de interesse de todos os ciganos.
Dessa forma, pude também compreender e concordar com o que Gilberto Velho (1986, p.40) alerta ao se referir a alteridade como negociação que, nem sempre “conhecemos
o ponto de vista e a visão de mundo dos diferentes atores em uma situação social nem as regras que estão por detrás dessas situações.” E, por desconhecimento, às vezes,
simplesmente, adotamos uma visão mais generalista e simplória.
Conversas e movimentação para os ciganos na reunião da SEPPIR não significavam descaso ou balburdia, mas era o momento de, a partir das redes de pertencimento, problematizar e dialogar com quem seria beneficiado e incluso nas matérias de discussão e, consequentemente, na efetivação das políticas formuladas ao se concluir o evento.
Eunice Durhan em sua obra intitulada “A Reconstrução da Realidade (Um estudo da obra etnográfica Bronislaw Malinowski)”, nos alertava sobre a necessidade das várias óticas de contemplação e análise de uma observação para transformar em dado.
[...] jamais se contentar com uma única afirmação obtida de um informante privilegiado: coteja diferentes informações, verifica-se através da observação direta do comportamento das pessoas em situações sociais específicas, examina a coerência daquilo que observou diretamente com informações e observações paralela, analisa o conteúdo emocional do comportamento manifesto. (DURHAM,1978, p. 56)
Outro autor que ajudou a pensar a pesquisa e os dados coletados no primeiro momento da pesquisa flutuante foi Márcio Goldman (1995, p.146), e sua definição de que “a
observação direta e contínua se transforma em ‘observação flutuante’, semelhante à ‘escuta flutuante’ do psicanalista: o observador está sempre em situação de pesquisa, sua atenção podendo ser exigida a qualquer instante”.
Ao longo de alguns contatos e observações pude realizar algumas coletas de informações e análises nos “espaços de comunicação particular”, onde “os sujeitos são
passantes [...], sua verdade não é local [...] mas seu sentido imediato [...] é mais individual do que coletivo” (AUGÉ, 1997, p. 149).
A importância desse sentido “imediato” e “individual” se dá pelo fato de o lugar ser definido segundo Marc Augé (1997, p. 169) como “identitário, relacional e histórico”. E,
dessa forma, ser um simbolismo da “relação de cada um dos seus ocupantes consigo mesmo,
com os outros e com a história comum” (idem).
Assim, a compreensão sobre as exposições do sentimento e da certeza de pertencimento ao grupo cigano pode apresentar questões a respeito do que se supõe ser alguns “eus” dessa identidade.
A subjetividade envolve nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais. Entretanto, nós vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual adotamos uma identidade. Quaisquer que sejam os conjuntos de significados construídos pelos discursos, eles só podem ser eficazes se nos recrutam como sujeitos. Os sujeitos são, assim, sujeitados ao discurso e devem, eles próprios, assumi-lo como indivíduos que, dessa forma, se posicionam a si próprios. As posições que assumimos e com as quais nos identificamos constituem nossas identidades. (WOODWARD; SILVA, 2000, p. 55).
Daí a pesquisa flutuante ter sido tão importante para a compreensão do que é pressuposto como um trabalho voltado a ciganos, a identidade étnica e os aspectos da discussão jurídico-política em um primeiro momento para entrar no campo e no estar em campo.
A pesquisa flutuante serviu de “termômetro” para a análise com os próprios sujeitos da ciganidade enquanto instrumento político de reivindicação e reconhecimento de uma identidade que se apresenta plural como a apresentada pelos grupos ciganos.
Contudo, é necessário realizar algumas reflexões e ressalvas para esse método, principalmente quando estamos imersos em rede dentro de alguns contextos que necessitavam um conhecimento mais amplo, para ser problematizado a partir dos posicionamentos das pessoas e da forma como a liderança está conduzindo algumas situações e, propondo determinados atos em prol ou contra algumas falas expostas em diálogos.
Um olhar mais atento para o contexto é interessante para percepção dos movimentos das redes e nas redes pelas pessoas que as compõem, em especial as lideranças e representantes dos ciganos. Com esse olhar mais atento ao que ocorre ao contexto será mais fácil para entender os diálogos e os posicionamentos dos integrantes. É a possibilidade de relativizar e re-relativizar os significados das situações e diálogos expostos.
A percepção do contexto na pesquisa antropológica evita generalizações sobre os grupos e pessoas que se permitem estudar. Com o contexto em uma observação é possibilitada uma coesão maior dos dados e mais ampla com diálogos entre o que ocorre no âmbito local em conjunto com o âmbito global.
Nas palavras de Roberto DaMatta: “classes de homens diversos observaram fatos e
os registraram de modo diverso, segundo os seus interesses e motivações; de acordo com aquilo que julgavam importante”. (DAMATTA, 2000, p. 22). O contexto, talvez, nos permite
ter uma compreensão mais problematizada e, com possibilidades também, de uma maior alteridade, tanto de quem está sendo pesquisado, quanto de quem realiza a pesquisa em julgamento comum do que pode e deve ser descrito.